Passado não sei quanto tempo, eu voltei a ficar consciente. Aos poucos, notei que tinha um capanga de cada lado, me segurando com força. Mas, nós não estávamos mais no hospital. Havia grama para todo lado. E ventava forte, o que indicava que tinha uma tempestade chegando. O som das ondas batendo forte e constantemente contra as rochas era alto. Espera, eu conheço esse lugar. Estamos no Morro das Conchas. De repente, Ágata se virou para mim e disse:

— Ela acordou. Segurem-na direito. Ou ela vai escapar.

— Sim, senhora. – Os gêmeos responderam.

Então, eles caminharam comigo para a beira do morro, onde o mar estava mais agitado do que de costume. Droga. A tempestade está muito próxima. Não havia como escapar. Além de serem fortes, eles estavam me segurando um de cada lado. Eu tenho que ganhar tempo. Ou esse será o meu fim. Sem saber o que fazer e tentando não me desesperar, disse a ela:

— Era você esse tempo todo?! – Perguntei, mesmo sabendo a resposta.

— Teria demorado menos se você tivesse tomado toda a bebida e continuado no hospital. – Ela reclamou em resposta.

— Por que está fazendo isso? – Continuei “dando corda” nela.

— Por vingança.

— Mas, eu nunca fiz nada contra você.

— Mas seu pai fez.

— Meu pai nunca fez nada contra ninguém.

— Você não tem ideia do que está falando, menina.

— Tenho sim. Meu pai arrisca a própria vida todos os dias para fazer resgates. Então, como pode dizer que ele faz algo contra as pessoas?!

— Porque ele já me prejudicou. Me diga, você nunca se perguntou sobre qual é a história do seu pai? – Ela me encarou, perversamente, fazendo meu plano funcionar. –Em resumo, ele arruinou a minha vida. – Ela fez uma curta pausa e continuou. – Mas, eu consegui me vingar. Paguei para alguns bandidos invadirem a casa dele e matarem-no. Infelizmente, eles só conseguiram matar sua mãe. Então, agora, vou terminar o serviço. – Ela disse, virando-se para os gêmeos. – Podem jogá-la.

— Ágata, pare! – Meu pai gritou, aparecendo do nada.

— Tiago! Como vai? – Ela disse com ironia.

— Solte-a! Deixe-a ir embora! – Meu pai exigiu, apontando a HK P11 para ela.

— Só se for lá para baixo! – Ágata disse, apontando as rochas e o mar agitado.

— Você pode ter matado a minha esposa. Mas, não vai matar a minha filha também! – Ele disse, atirando nela.

Porém ela conseguiu desviar a tempo. Os dois disputaram intensamente pela arma, mas ela foi parar longe, na beira do penhasco. Tentei me libertar de novo, na esperança de pegá-la, mas não consegui. Tudo o que restou foi continuar a observá-los. Então, ambos começaram a lutar, desferindo socos e chutes. O que fez com que a recarga da arma caísse longe. Apavorada com a proximidade deles da beirada, tentei me libertar novamente. Mas, não consegui. Em vez disso, os gêmeos me seguraram com ainda mais força. De repente, ela conseguiu pegá-lo com a guarda baixa. Então, com apenas um golpe baixo e um gancho de esquerda, ela conseguiu empurrá-lo da beirada. Apavorada, gritei:

— Não! Pai!

Desolada, eu o escutei gritar, o som de seu corpo indo de encontro às rochas e, depois, das ondas se chocando contra o penhasco. Minha vontade era de chorar e gritar. Mas, eu não conseguia. Estava em choque. Meu pai era minha única família. E, agora, eu o tinha perdido. Não... Pai... isso não podia ter acontecido. Não podia. Eu me negava a acreditar que aquilo acontecera. Mas, não dava. Eu sabia o que tinha visto e ouvido. Eu o perdi... Em seguida, fui dominada pelo ódio e pela vontade enlouquecida de surrá-la. Mas, como eu não conseguia me libertar, apenas disse furiosa, em alto e bom som:

— Você é um monstro!

A bruxa se virou para mim tão ameaçadora quanto era possível. Foi muito rápido. Ela agarrou meu pescoço, fazendo os gêmeos me soltarem. Ergueu-me do chão e me levou para a beirada. Peguei suas mãos com força e tentei fazê-la me soltar. Mas, era impossível. Ágata era muito mais forte do que eu e estava me estrangulando. Eu estava ficando tão sufocada que não tinha forças nem para mexer as pernas e tentar chutá-la. Sentindo-se triunfante, ela sorriu levemente e, ainda cheia de fúria, me disse:

— Agora, vou fazê-la pagar.

De repente, um arpão acertou de raspão o antebraço direito da bruxa e caiu no mar. Então, ela me soltou. Eu gritei e, por pouco, consegui me segurar na beirada do penhasco. Apoiei os cotovelos, tentando subir, a tempo de vê-la se virar furiosa para ver quem o havia atirado. Senti meu coração disparar ao ver Henri. Ainda mais enraivecida, ela rapidamente pegou a arma do chão e apontou para ele, dizendo:

— Idiota! – Ela disse olhando para ele, e virando-se para mim em seguida. — Diga adeus ao seu namorado.

— Henri, cuidado!

Então, ela começou a atirar enquanto Luca e Peter o cercavam. De repente, um deles conseguiu agarrá-lo. Mas, por pouco, ele conseguiu se libertar. Eu já estava mais que desesperada quando finalmente consegui subir. Não perdi tempo. Ágata tinha acabado de conseguir a mira perfeita, quando eu avancei em sua direção e puxei seu cabelo com toda a força para trás. Eu não vou permitir. Mais disparos se seguiram, até eu soltá-la. Então, Ágata gritou:

— Meninos! – Ela correu até eles.

A descrença me dominou. Com os olhos arregalados, eu vi os gêmeos caídos, com seu sangue se espalhando pelo chão. Ágata se ajoelhou perto deles, incrédula, ainda com a arma nas mãos. Mesmo estando chocada, corri até Henri e disse:

— Henri, você tem que sair daqui.

— Eu não vou sem você.

Só tivemos tempo de nos entreolhar surpresos, antes que ela recarregasse a arma, se levantasse e começasse a atirar em nossa direção, nos perseguindo. Corremos, de mãos dadas, descendo. Mas, acabamos encurralados e a única solução foi pularmos daquela parte mais baixa do penhasco.

A água estava fria. Mas, não senti o choque térmico. A adrenalina fervia em meu sangue. Emergi em poucos instantes, junto com Henri. Então, ele me puxou para perto de si e me abraçou. Abracei-o de volta. Como eu queria que nada disso estivesse acontecendo. Nesse instante, escutamos o som de algo caindo na água. Logo que olhamos, a bruxa emergiu e nos encarou, começando a nadar em nossa direção, ainda com a arma nas mãos. Então, ela gritou:

— Idiotas!

E, para piorar ainda mais as coisas, uma tempestade começou. O mar ficou ainda mais agitado, com ondas cada vez maiores. Tem horas em que eu odeio estar certa. Então, Henri e eu voltamos a nadar o mais rápido possível para longe de Ágata. Rápido como se estivéssemos disputando nas raias de uma piscina. A diferença é que estávamos no mar, em plena tempestade, com uma psicopata assassina armada no nosso encalço.

De repente, fomos surpreendidos por uma onda gigante, não tendo como escapar. Na mesma velocidade em que ela se ergueu imponente e ameaçadora sobre nós, ela nos engoliu e nos esmagou. Foi muito rápido. Mas, logo que ela passou, busquei a superfície com desespero, para respirar e para ver onde Henri estava. Não foi difícil encontrá-lo. Ele estava longe de mim, mas nem tanto. O problema foi a onda seguinte. Tão grande quanto a outra, ela nos acertou com toda força.

Então, fui violentamente arremessada contra uma rocha e acabei batendo a cabeça com toda força. A dor e a tontura vieram logo em seguida, embaçando e duplicando minha visão. Essa não. Eu não conseguirei mais nadar agora. E meu desespero aumentou ao ver duas Ágatas apontando as armas para mim. Ai meu Deus! Qual delas é a real?! Mas, não tive nem tempo de pensar. Ela atirou, enquanto me encarava diabolicamente. É o meu fim.

O tiro atingiu a rocha. Milímetros antes de mim. Ufa. Essa passou perto. Mal consegui acreditar. Mas, outro disparo se seguiu. Por sorte, desviei bem a tempo, embora ainda estivesse tonta. Não sei mais quanto tempo consigo aguentar.... De repente, vi Henri se aproximar rapidamente e cravar o arpão na barriga dela, atravessando-a por completo, e se afastando.

A última coisa que vi, enquanto subia na rocha, foi Ágata incrédula, tentando arrancar o arpão de si mesma, enquanto urrava de dor. A água foi ficando vermelha conforme seu sangue se espalhava rapidamente. E, quando finalmente conseguiu remover o arpão, a morte a levou. Assim como a correnteza. Então, meu corpo parou de obedecer qualquer comando e a escuridão tomou minha mente.

Notas finais
Por favor, comente. Adorarei saber sua opinião. Beijos, Luna Ashfield.