Maryhelen Hatet (spin-off The Sister)
10 Escolhas
Notas iniciais
Quando Hatet chegou na casa de Maryhelen, não contava que lá havia uma festa. Nem ela aparentemente.
— Mas o que diabos é isso?! — ela disse antes de sair do carro.
— Você me fala. Não disse que era só um jantar com seus pais?
— Era sim! — Maryhelen saiu furiosa, batendo os saltos na entrada da casa.
Haviam alguns carros estacionados no meio fio, uns seis ao total. Maryhelen não pôs o carro na garagem, e logo em seguida puxou Hatet com ela, que agradeceu por ter deixado Elle o arrumar. Haviam pelo menos quinze pessoas além dos pais de Maryhelen.
— Mahmen — chamou Elle puxando Hatet pela mão até a cozinha. Elipha e Thyron estavam tomando uma taça de vinho e conversando com Assail, que parecia avesso ao assunto que Thyron explicava com tanta animação. — Mahmen, uma... festa?
— Não tahlly, uma reunião. Eu liguei avisando que viriam alguns amigos mais próximos. Você não olhou seus recados no celular? — ah sim, o celular de Elle tocou durante a noite toda, mas eles estavam ocupados pensando em uma situação mais... interessante que um telefonema. — Bom, eu espero que você nos entenda. Olá Hatet! Como vai meu filho?
— B-bem, muito bem. E a senhora? — Hatet se sentiu desconfortável com o afeto repentino de Elipha, mas Elle havia explicado que ela estava muito animada para vê-lo.
— Ótima. Elle disse que você estava de mudança. Não gosta de Caldwell? — perguntou ela realmente, e sinceramente interessada em alguma coisa no rosto de Hatet.
— Gosto de Caldwell sim — disse depois de clarear a garganta. Agora ele olhou para Elle e viu que ela também esperava pela resposta — mas talvez eu não fique onde escolhi. Talvez.
— Bom, nós esperamos que não. — disse Elipha sorrindo.
— Elipha — Thyron a chamou, e ela substituiu o macho na conversa com Assail, que ainda sorria tenso e parecia nervoso girando o líquido na taça que segurava. Hatet achou estranho, pois Assail sempre era muito controlado, muito sistemático, beirava o insensível quando queria.
A mão estendida de Thyron a sua frente o fez sair do torpor de pensamentos. Hatet deu um aperto de mão firme e rápido e assentiu brevemente com a cabeça. Thyron sorriu, uma covinha na bochecha direita fez Hatet perceber que o macho nunca tinha sorrido para ele. Eram sempre olhares enfezados, cheios de reprovação. Hatet estava achando tudo muito estranho, e foi o aperto da mão de Elle na sua que o fez relaxar um pouco os ombros.
— Maryhelen podia ter te ligado e pedido para você vir, ao invés de ir buscá-lo longe. Nos teríamos tido mais tempo para conversar.
— É papai, eu poderia. — respondeu Elle ácida. — E se essa festa não estivesse acontecendo...
— Hey! Isso foi ideia da sua mãe — Thyron falou levantando as mãos.
— De qualquer forma, estou aqui. — disse Hatet segurando a mão de Elle. Ela o olhou e sorriu de forma tímida, era apenas um sorriso de canto de boca, mas fez Hatet sorrir também.
— Bom, acho também que não são muitas coisas. Primeiro — Thyron respirou fundo — Gostaria de agradecer pelo o que fez por minha filha. E bom, apesar de nós conhecermos você há muito tempo, nunca tivemos um bom... convívio.
— Nunca permitiu isso. — completou Maryhelen. Thyron pigarreou incomodado.
— Bom, o que quero dizer é que você é bem vindo a esta família. Conversei com Elipha, e concordamos que — ele engoliu em seco, e parou por uns segundos de falar. Maryhelen apertou mais forte a mão de Hatet — Perdemos nossa filha duas vezes. Eu vi o brilho de desolação nos olhos dela quando Bahrbo se foi. Nós poderíamos não concordar com o emparelhamento, mas foi uma época em que vi nossa filha mais feliz. E depois, foi há algumas noites atrás. Aquela cama de hospital me dá pesadelos. Você é quem a faz feliz, e isso para mim basta. Agradeço a você Hatet.
— Obrigado.
Eeeee, Hatet não soube mais o que dizer.
Thyron sempre foi um homem de poucas palavras, e zero com Hatet, mas nunca tinha mostrado tanta vulnerabilidade diante de ninguém. Zero diante de Hatet. Ele sempre fora o que olhava de cima; o que erguia a cabeça e apontava. Nunca o macho educado de humildes palavras com qualquer um. Bom, mas estes eram tempos diferentes não eram? Mulheres na Irmandade, cães salvando vidas... Hatet sentiu-se confuso, mas aceitou um novo aperto de mão de Thyron. Iriam recomeçar, dali, por Elle. Ela era o denominador comum dos lados. Eles dividiam um amor incondicional por ela. Hatet tinha descoberto isso também naquela sala da clínica de Havers.
Ele não podia negar que foi realmente um sonho ruim perder Maryhelen. Ele não queria; ele não iria sentir isso nunca mais, por que ele não permitiria ficar mais longe dela. A necessidade de tê-la perto o assaltou. Hatet fixou os olhos em Maryhelen que sorria, e falava algo a Thyron, quando uma voz dentro da cabeça dele gritou "minha".
Minha. Minha. Minha.
Ele sabia das intenções dos pais de Elle em emparelhá-la com um macho de valor. Um macho mais educado, mais rico, e mais digno do presente que era tê-la como shellan, mas ele não pode; ela não quis imaginar que fosse outro que não ele, a beijando, a cuidando, a acariciando e a saciando, que não ele.
Minha.
Maryhelen de repente o olhou com as sobrancelhas franzidas. Ele engoliu em seco, e disse para ele esperar um minuto, quando sumiu por entre a multidão. Hatet foi mecanicamente até a ilha da cozinha, onde uma garrafa de Chardonnay estava pela metade. Foi então que ele reparou que estava cheirando algo diferente do vinho. Um aroma apimentado, de um leve almíscar. E vinha dele.
— Não pode se controlar não é assim? — a voz da Assail estava baixa, porém alta suficiente para fazer uma fêmea olhar na direção de ambos. — Devia ter saído com um fêmea decente mais vezes. Ia saber como fazer isso.
— O que quer? — Hatet respondeu pensando que ele nunca poderia ser mais educado com Assail. O cara o tirava do sério com esse sarcasmo irritante.
— Nada na verdade. Apesar alguém tinha que avisar que você está exalando esse aroma de vinculação pela casa toda.
Hatet pigarreou ajeitou a corrente do pescoço, e isso de alguma forma incomodou Assail. O olhar dele foi até o copo que ele bebia. Assail estava com problemas, e essa era uma coisa completamente nova.
— Assail — incitou.
Assail balançou a cabeça ainda incomodado.
— Eu apenas tenho que ir. Vim até aqui a pedido de Elipha, mas tenho uns assuntos para resolver. Tenho que visitar uma amiga.
— Uma amiga. — disse Hatet devagar. Assail não tinha "amigos". Não constava na agenda dele tê-los — Problemas com os seus negócios?
— Ela não é negocio meu. Ela não problema meu.
Hatet franziu o cenho diante da resposta tão imediata de Assail. O que afinal estava perturbando o macho? Uma mulher? Uma simples mulher? Não, ela tinha de ser alguém mais na vidinha confusa dele. Ela, seja lá quem fosse, tinha ganhado um pedaço do cara. Um pedaço importante. Vê? Talvez tivessem algo em comum afinal.
— Tenho que ir. Se cuida garoto. — disse girando os calcanhares e saindo rápido da casa.
Hatet encheu um copo da pia com o Chardonnay. Okay, ele sabia que tinham duas taças limpas penduradas no armário, mas ele precisava de uma bebida o mais rápido o possível. Onde estava Maryhelen? Justo quando ele ia sair da cozinha para procurá-la pela casa. Hatet viu Elle descendo as escadas com um bolsa preta de viagem. Ela acenou para algumas pessoas, mas não parou, e foi direto ao encontro dele.
— H, venha. — ela disse segurando Hatet, e sua diminuta mão mal fechou em torno de seu pulso.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— Oh sim. Tem uma coisa errada aqui.
— Elle — Hatet fincou os pés no chão — Me diga o que foi? — ele disse mais próximo do ouvido de Elle, ligeiramente curvado em sua direção.
— Nada importante. — ela deu de ombros.
— O . que . aconteceu? — ele disse destacando cada palavra.
— Okay. — Elle suspirou profundamente — Aconteceu que temos que terminar o que começamos na sua casa. A-go-ra.
Com isso, ela lhe lançou um sorriso maroto. Aquele que Hatet bem conhecia. O olhar de que ela faria dele o que quisesse esta noite. Ele era dela.
***
Quando Bahrbo foi diretamente convocado pela Virgem Escriba, ele não queria ir. Havia uma coisa com a qual ele iria se preocupar, e não envolvia o nome da Mãe da Raça. Por exemplo, Fate tendo seus sobrinhos era uma prioridade. Incapaz de se desmaterializar da forma em que ele havia se transformado, e nervoso como o inferno, Bahrbo não deu muito importância ao chamado. Sim, ele realmente não foi ao encontro dela. Ele não tinha rancores, mas ele realmente não estava com cabeça para conversas. Não até que ela própria o trouxe ao Outro Lado, e o transformou.
E wow! A coisa era séria, ela não tinha levantado o capuz, e brilhava como um maldito vagalume à noite. Bahrbo olhava as poucas Escolhidas a sua volta, além dos passarinhos coloridos no peitoral da janela. Ele fez uma reverência respeitosa, mas não pronunciou uma palavra até ser solicitado.
— Está realmente tentado a me ignorar Bahrbo, filho de Harag? — perguntou em uma voz que ecoava por toda a sala.
— Peço perdão Vossa Santidade.
— Responda a pergunta! — ela elevou a voz, e Bahrbo sentiu como as Escolhidas ao redor encolhiam-se.
— Não estava, Vossa Santidade.
— Por que tive que trazê-lo até aqui eu mesma? — ela perguntou agora olhando por cima da borda do capuz que tinha em seu manto negro.
Bahrbo trancou a mandíbula em resposta e não se atreveu a responder. É claro que ela sabia a resposta.
— Preciso estar com a minha irmã, sua preciosa Rainha, e mãe de dois frutos do futuro da Raça.
— Vocês filhos de Harag sempre tão mal agradecidos.
— Vossa Santidade, já obtive minha resposta sobre esse assunto em nossa última conversa. Eu não precisava voltar e...
— Cale-se — disse tenramente. Até demais. E isso fez Bahrbo franzir a testa — Acredita que e desampararia minha guerreira ou sua prole? — ela inclinou-se e falou calma e visivelmente ofendida — Não cabe a mim decidir no entanto qual será o destino deles. Está aqui para você fazer essa decisão Bahrbo, filho de Harag. A vida, ou morte de Fate, filha de Harag, está nas suas mãos.
Bahrbo congelou, suas mãos apertaram em um punho, sua garganta de repente seca. Equilíbrio, ela sempre disse. E chegou a hora dele equilibrar a balança.
Antes, quando não sabia o que seria de destino de sua família que ficava na Terra, Bahrbo rezou para que a Virgem fosse misericordiosa com eles. Sua mahmen, seu papai, sua pequena irmã, sua shellan; mereciam ter uma vida digna e seguir em frente. Sempre foram ligados, Fate e ele. Bahrbo sentia deixá-la sozinha, mas nada pode fazer para evitar. E era um grande engano pensar que ela ficaria bem, mas ele tinha que acreditar, ou passaria a eternidade sofrendo. Após um tempo vivendo no Fade, Bahrbo foi chamado pela Virgem Escriba, e teve de fazer uma escolha: viver novamente, para proteger Fate e sua shellan, agora viúva. E ele aceitou, sem saber o que esperava, apenas queria ficar ao lado delas de novo, não importasse de qual forma. Não tinha a forma de antes no final de tudo, e entrou na vida de Fate em uma noite chuvosa. Ele tinha a forma de uma cadela, uma filhote de pastor belga desnutrida e vulnerável. E assim viveu por anos junto a Fate. Até alguns meses atrás, quando pode se mostrar a ela. Um presente da Virgem, e ele agradeceu, pois deixava sua irmã com dois filhos e hellren que podia protegê-la. Longe de imaginar o que deveria fazer agora.
Maryhelen, apesar de nem sempre presente, ele também sempre tratou de colocar a vida da fêmea nos eixos. Aproximou Elle, de Hatet. Se havia uma pessoa que poderia cuidar dela, era seu melhor amigo, seu irmão. Os dois mereciam ser felizes, e faz uns dias quase tudo isso vai por água abaixo. Maryhelen emocionada com a revelação de Hatet, sofreu um acidente de carro. Graças aos esforços de "Mona", ele pode salvá-la.
Antes que ele soubesse o que aconteceria dentro da casa de Hatet, ele havia seguido Fate, e ficado em sua forma etérea, agora normal, espiando os movimentos de sua irmã e ex-shellan. Antes que elas saíssem no carro de Maryhelen, ele deslizou para o banco detrás, e ficou invisível até que viu Phury voltar com Fate para o Complexo. Pensando que algo poderia estar acontecendo para Maryhelen ficar sozinha com Hatet, ele esperou dentro do carro durante toda a curta conversa que se desenrolou dentro da casa. Maryhelen saiu chorando no chuva, e ele viu a confusão no rosto da fêmea. Ela entrou tão aturdida que não percebeu que ele já estava em sua forma de Mona no banco detrás do Audi. Foi um percurso curto até a ponte, e lá, tudo o que ele temia aconteceu. O acidente, a água congelada, o rosto petrificado e Maryhelen enquanto afundava para nunca mais ser vista no Hudson. Ele teve de agir, e foi a forma de Mona, a forma de uma cadela, que pode salvar a vida da fêmea. É claro, se Hatet não tivesse chegado em seguida, os dois teriam padecido nas margens do rio, e ele era muito grato ao amigo por isso. Hatet finalmente tinha provado que amava Maryhelen, e por mais estranho que fosse, isso aliviou o coração de Bahrbo.
Agora, era vez dele provar. Era a vez de Bahrbo provar que estava ali para as duas pessoa que tinha mais amado em vida: sua irmã e sua shellan. Maryhelen estava em boas mãos agora, e Fate também. Fate precisava apenas passar pelo parto e viver para cuidar de seus filhos. Ela merecia viver ao lado de alguém que podia amá-la de verdade e cuidá-la. Ele teria feito isso durante toda a vida, se não fosse o terrível acontecimento com a Família Principal.
Bom, chegou a hora não chegou? Primeiro sua mahmen, depois sua irmã, agora ele. Bahrbo respirou fundo e assentiu duas vezes com a cabeça. Ele tinha dado dois passos e dobrado os joelhos perante a Mãe da raça. Bahrbo entendeu que ele era peça que faltava no quebra cabeças, ele era a ponta solta no fim da história. Sempre achou estranho viver aprisionado em um corpo e uma forma que não o pertenciam. Teria de ajudar Maryhelen e Fate? Tudo bem. Mas qual era o propósito, e tudo ficou claro para ele no instante em que levantou a cabeça, e deu com os olhos da Virgem Escriba o sondando.
— Eu faço — ele disse tranquilamente, ele era consciente da cada osso, cada músculo, cada batimento de seu coração. Estava tranquilo, iria em paz. — Minha vida pela vida da minha irmã.
— Você é especial, tanto quanto sua mahmen, e sua irmã são e foram. Você estava nos planos do Criador há muito tempo. — ela respirou fundo — Muito obrigada meu filho. Está pronto?
— Sim.
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