— Olá, Margaery — disse a rainha, de forma fria, enquanto sorria —, soube que andou aprontando enquanto esteve fora de minha vista.

A voz de Daenerys era uma simples moça, sem sequer ter trinta dias de seu nome ainda, mas capaz de encher Margaery de medo. Mais medo do que sentiu na tempestade a caminho do Vale, mais medo do que os Clãs das Montanhas eram capazes de infligir nela, mas medo do que qualquer coisa.

Engoliu seco e lambeu os lábios secos. Não conseguiu proferir uma palavra seuqe

— Pelo que soube — Daenerys continuou, vendo que Margaery não iria proferir uma palavra sequer —, você não teve muita partida em sua fuga — olhou de esguelha para Sansa, que olhava para Margaery, sem expressão alguma, depois, voltou a olhar para esta —, mas, quando esteve solta, pareceu ter se divertido.

Margaery estremeceu.

— Majestade — disse, tentando conter o nervosismo, mas falhando —, apenas estive fora de mim, por conta do medo que senti. — Continuou: — Certamente pode entender…

— Entender o medo? Oh, sim, eu entendo de medo, minha cara Margaery. Eu senti muito medo na minha vida. Mas, pelo que vejo, também sou capaz de infligir medo nos outros.

Ela estava certa quanto a aquilo.

— Majestade — Margaery conseguiu reunir forças para dizer —, lamento por qualquer problema que eu lhe tenha causado. Peço-lhe perdão, e prometo ser uma serva fiel.

Daenerys lhe dirigiu um olhar de dúvida com escarninho.

— Quanto a isso, Milady, bem, diria-lhe que isso é difícil de acreditar. — Virou-se para Jon. — Que tem meu rei a dizer?

Jon olhou para Margaery de forma calma. Com o olho de sangue escrutinando sua fisionomia. Após um tempo, ele disse:

— Pouco tenho a dizer quanto a esta jovem — declarou ele. — E imagino que Stannis tampouco. Entretanto, uma pessoa de minha confiança a conheceu, e ela não mediu esforços para salvar Margaery. — Virou-se para a cadeira ao seu lado. — Irmã.

Sansa assentiu e levantou-se, indo até o lado de Margaery, mas sem nunca a olhar nos olhos, mesmo que esta estivesse com o olhar cravado na princesa.

— Majestades — disse a princesa, percorrendo os olhos, fitando para cada um da tríade de monarcas —, peço-lhes que tenham piedade e poupem a vida Margaery.

Surpresa (e muito aliviada), Margaery voltou-se para as pessoas no trono, esperando p veredito.

— A princesa foi contra o seu próprio rei e irmão para ter a amiga — lembrou-lhes Daenerys. — Tal ato é louvável, mas, eu pergunto-me: tal ato de traição, mesmo que por uma boa causa, deve ser perdoada e esquecida? Devemos ser tão levianos contra aqueles que quebram as regras de seus reis e fazem planos sem eles? — Tais indagações começaram um falatório longo e sem fim no imenso salão, com todos começando a falar por cima um do outro.

Margaery pode ver Sansa fechar a mão em um punho. Era um sinal de desgosto por estar naquela situação. Margaery imaginou que, então, Daenerys havia combinado tudo aquilo, provavelmente com o intuito de diminuir a boa imagem da princesa.

Fosse o que fosse que estivesse acontecendo com aquelas duas, era palpável o ódio mútuo.

Daenerys não via que tal ruptura estava apenas detratando a sua própria imagem ao fazer aquilo com a princesa do Norte? A menos que Sansa estivesse em péssima perspectiva com os nortenhos, não havia ganho naquilo.

Estavam ambas tão cegas de ódio? Se sim, Margaery imaginou que o Rei do Norte talvez tivesse que escolher entre a esposa e a irmã, e logo.

— Minha rainha deve lembrar–se de que estávamos em guerra — pontificou Sansa. — De fato, majestade, bem sabe como a guerra pode nos levar a cometer atos questionáveis.

Margaery reparou como Daenerys não conseguiu — se é que tentou — esconder a fúria que sentiu. Sansa obviamente estava dizendo “Quem é você para julgar os meus atos, quando é você quem destruiu tudo?”.

Essas duas estão me usando como peça? Tal pensamento deixou Margaery indignada, pois era muito mais do que um joguete na mão de todos! Era um descaramento fazerem aquilo com aquela!

Jon Stark olhou para a rainha Targaryen, assim como Stannis. Ela conseguiu suprimir a fúria que sentia e aquiesceu as palavras da cunhada.

— Tem razão, princesa — respondeu Daenerys com a voz fria, acenando com a cabeça. — A guerra tem momentos sombrios. — Voltou a olhar para Margaery, que tremeu com o púrpura de seus olhos. Surpreendentemente, a rainha sorriu, de forma acalentadora, e disse: — Como forma de provar que não tenho rancor algum para com Margaery, eu, agora, a liberto de suas correntes, e permito-lhe liberdade. — Gesticulou para que os guardas se aproximassem.

Margaery ficou tão chocada com as palavras da rainha, que quando abriu a boca para falar algo, nada saiu. Antes que pudesse entender totalmente a situação, os dois soldados que lhe fizeram escolta a levantaram, de forma rude, segurando-a e puxando-a pelos braços. Então, os grilhões foram soltos, e Margaery podia sentir o sangue voltar a correr pelo seu corpo, fazendo comichões começarem. Como que por instinto, levou uma mão até um dos pulsos, cobrindo-o com a palma e alisando a área, ainda sentindo a comichão.

Voltou a encarar Daenerys. Quando conseguiu achar alguma força dentro de si, conseguiu falar:

— Obrigada, Majestade, por mostrar sua misericórdia comigo, mesmo após tudo que aconteceu. — Fez uma vénia profunda, e a rainha assentiu, ainda mantendo o sorriso, e fez sinal para que se levantasse.

— Não há o que agradecer — respondeu. — Na verdade, Lady Margaery, é meu dever como rainha dos sete reinos, e protetora de todos esses, proteger os meus súditos. E, é claro, isso inclui você, milady.

Margaery assentiu as palavras proferidas pela rainha de prata; sabia que algo ia sair delas, e não seria boa coisa.

— Por isso — continuava a rainha —, eu a aceito em meu séquito pessoal, como minha principal aia. Está sob minha proteção, Milady.

Margaery talvez devesse esperar por aquilo. Ainda foi chocante, porém, quase como um soco no estômago — estômago esse que estava revirando-se, e ela sentiu que estava prestes a vomitar ali mesmo.

Apesar disso, conseguiu manter a cabeça erguida e forçar os lábios a formarem um sorriso simples e assentir.

— É uma grande honra, majestade. — Queria mesmo vomitar de desgosto.

Daenerys levantou-se e foi até Margaery, que usou todas as forças que tinha para não se afastar dela, nem demonstrar o medo que sentia que estava a tentar tomar conta de seu corpo. Foi preciso uma surpreendente força de autocontrole que nem sabia que existia dentro dela.

Daenerys pegou as mãos de Margaery na sua, e esta fez o possível para não afastá-las das pálidas e acalentadoras mãos da rainha. Também que fazer mais força para manter o sorriso gentil e cansado. Sentia suas bochechas doendo, por tanto retesar o rosto.

Daenerys soltou uma das mãos e ficou do lado de Margaery, acenando para perto do trono de ébano onde ela outrora havia se sentado.

— Fique ao meu lado, minha cara — Pediu Daenerys. — É onde estará o restante dos dias.

Margaery, ainda torcendo o rosto num sorriso doloroso, assentiu e foi para o local onde a rainha apontava. Sansa voltou a sentar-se em seu banco.

Ao lado de Daenerys, perto do espaldar da cadeira dela, Margaery sentiu a visão de todos no enorme salão estando cravada nela. Por sorte, apenas fingiu não perceber os olhos dos lordes e ladies postos sobre ela, e voltou a olhar o próximo membro a ser julgado: Sor Albar Royce.

O feio rosto do cavaleiro olhava para Margaery com indignação. Quando percebeu que esta nada faria para lhe ajudar, voltou o olhar para a princesa Sansa.

— Se Lady Margaery foi perdoada, o mesmo deverá ocorrer comigo! — Vociferou Albar Royce.

Sansa franziu o cenho. Myranda, perto de onde ela estava, parecia estar distante de tudo aquilo; indiferente. Margaery indagou-se sobre o quanto aquilo era verdade, e o quanto ela estava apenas escondendo.

— Deve? — perguntou Sansa, que parecia desgostosa com as palavras do nobre. — Deve mesmo, Sor? Você quase deixou que o castelo dos Redfort fosse tomado pelos clãs!

— Eu lutei contra eles! Salvei o Forte Vermelho!

— Para depois quase condená-lo? Acha mesmo que aquele castelo aguentaria tanto tempo sem suprimentos e sendo cercado? — Antes que ele respondesse, voltou-se para um homem ruivo, com um castelo rubro cozido na manta. — Lorde Creighton, creio que sabe que o tenho em grande estima.

— É o que espero, princesa — o homem respondeu, após assentir.

— Ótimo. Então, creio que posso pedir que confirme minhas certezas quando digo que seu castelo jamais aguentaria para sempre, dado o modo como ele se encontrava?

Lorde Creighton aquiesceu.

— De fato, princesa. Meu castelo é antigo e resistente, mas poucos castelos aguentariam para sempre no estado em que o Vale se encontrava.

Ela não indagou nada para Ysilla, percebeu Margaery. A moça realmente deveria ser informante da princesa nortenha. Mas isso, agora, parecia estar incerto.

Sansa acenou para o Lorde Redfort e voltou-se para Sor Albar.

— Temo que fui muito bondosa com você, sor — disse ela, fria. — É uma pena… poderia ter sido um bom cavaleiro ao meu lado.

Ao invés de ficar assustado ou pedir perdão, Sor Albar ficou lívido em fúria.

— Como ser bondoso e subserviente com a puta que queimou meu pai? — questionou ele, acenando para Daenerys com a cabeça.

Um dos cavaleiros que fez a escolta de Margaery pareceu entender e pegou o cabo da espada, mas a rainha o parou com um gesto da mão.

— Falava demais, Sor — o Rei do Norte disse, de forma baixa, mas era possível sentir a irritação em seu olhar. — Deveria ter mais senso.

— As pessoas neste salão sabem que estou certo! — insistiu Sor Albar. — Daenerys é uma puta! Tem condenado a todos nós a morte e guerra! — Olhou para Jon com escárnio. Com nojo. — E você, bastardo, ajuda-a pois é um devasso ambicioso, deixado levar pelas maquinações sexuais e mágicas da puta de prata! — Cuspiu no chão, em direção ao Rei. — Que os outros o levem! Você condenou a todos nós!

Enquanto a algazarra se alastrava pelo salão, com todos no local agitados pelas palavras proferidas pelo prisioneiro, Sansa e Daenerys se viraram, provavelmente pretendendo ordenar que os soldados levassem Sor Albar dali. Entretanto, as duas se calaram ao perceber que o rei do Norte havia levantado-se, e o seguiram com o olhar, em silêncio, enquanto ele caminhava calmamente até Sor Albar.

Apesar do andar calmo, o monarca estava em fúria. Antes que alguém pudesse fazer algo, Jon Stark desembainhou a espada e cortou o ar em um arco perfeito, desenhado pela lâmina escura de sua espada. Margaery não pode ver se Albar Royce havia demonstrado medo, ou se ele sequer havia entendido o que estava para acontecer quando percebeu o rei do Norte aproximar-se dele. Não importava. A cabeça do orgulhoso Royce agora rolava no chão, espalhando sangue por onde passava. O corpo caiu, sem vida, espichando mais sangue.

Margaery ficou sem fôlego. Na verdade, todos ficaram, pois o ato silenciou a todos que estavam no local, olhando para a cena rubra e cruel que estava no centro.

— Aquele que fala contra o seu rei e sua rainha — declarou o rei, enquanto o sangue antigo dos Royce escorria pelo chão, manchando seus sapatos pretos — deve pagar com a língua. — Limpou a lâmina escura nas roupas empoeiradas do falecido lorde e voltou a embainhar ela, e sentou-se novamente no cadeirão.

Margaery olhou para Myranda: ela estava olhando para o corpo decapitado do irmão. Vendo a imensa forma sanguínea que o seu corpo havia deixado no chão de ardósia. A mulher parecia totalmente abalada com aquilo e Sor Ronnel a agarrou pelos ombros, como que para impedir que ela desmaiasse ou fosse até o corpo.

Apesar do ódio que havia entre elas, Margaery se compadeceu com a rechonchuda Royce; sabia bem o que era perder parentes. Sabia o vazio que isso deixava; a tristeza descomunal que isso criava no coração.

— Limpem isso! — ordenou Sansa, altiva, parecendo furiosa. Mas estava pálida, não rubra pelo ódio, como seria de praste, provavelmente porque estava assustada com a cena. — Limpem, agora!

Um par de servos com as cores dos Stark vieram e pegaram o corpo decapitado do falecido lorde dos Portões da Lua, erguendo-o pelos ombros, e deixando mais sangue cair no chão, e empapando a libré branca que usavam. O servo com as armas dos Tully colocou a cabeça do defunto num saco qualquer, puxando-a pelos cabelos escuros. O saco logo também ficou cheio de sangue e não tardou para começar a pingar.

A visão foi vista com horror por todos no recinto, fazendo até com que alguns acabassem vomitando. As pessoas que abriram espaço para os servos arrastarem o corpo para longe, ficaram fitando a terrível visão, com os olhos vidrados de nojo e indignação.

Como um homem tão honroso como Ned Stark pode ter tido um filho tão selvagem? Margaery nunca chegou a conhecer o pai de Sansa, mas, pelo que todos diziam dele, ele era um homem calmo e dado a um fardo irritante de honra — e, para alguns, arrogância —; não parecia ser o tipo de lorde que veria com bons olhos aquilo que acabara de ocorrer.

Ao pensar nisso, percorreu os olhos escuros pelo salão e viu a princesa Arya, escondida num canto do salão, atrás de alguns lordes, com Gendry e Edric perto dela. Os dois homens olhavam com choque para a cena, e Ned cochichava algo para bastardo de Robert.

Arya, no entanto, parecia calma, e até um pouco divertida com aquilo, se Margaery estava a enxergar bem. Sim. Era um esgar de sorriso.

Tirando Margaery de seus pensamentos distraídos, o Rei Jon disse:

— Pode continuar, Marwyn — ordenou.

O arquimeistre pigarreou, tentando recompor-se. Abriu novamente o pergaminho. Suas mãos tremiam ao desenrolar do papel e a voz era um gaguejar sem fim.

— Apresentem-se, princesa Arya, Sor Gendry, Lorde Edric Dayne, Lorde Rickard Ryswell e seu irmão mais novo, Roose Ryswell.

Os cinco guerreiros se apresentaram, com os outros cortesãos dando espaço para eles. Arya usava um justilho de couro e calças pretas largas, enquanto seu bastardo de estimação uma simples jaqueta marrom. Os únicos bem apresentáveis eram os irmãos Ryswell e, especialmente, o deslumbrante Lorde Edric Dayne, com seu exuberante manto púrpura forrado com arminho e gibão roxo-pálido com renda de prata em forma de pequenas espadas e estrelas. Seu cabelo era de um prata fulgente, e caia até os ombros, e seus olhos eram de um roxo tão profundo que queimava. A assimetria inumana fazia-o parecer ter o sangue puro da antiga valíria correndo em suas veias.

Um lorde divino, da cabeça aos pés, de fato.

Ao se aproximarem dos monarcas, os cinco dobraram os joelhos e abaixaram as cabeças.

Os monarcas se levantaram.

— Vocês mataram a sombra sombria e azul que era Olho de Corvo — declarou o rei do Norte. — Provaram o seu valor, e, por isso, os sete reinos tem uma dívida com vocês. — Concluiu: — Peçam-me qualquer coisa, e eu as darei.

Os seis levantaram as cabeças e olharam para o rei no centro. O rei do inverno. O Rei Um-Olho.

Margaery quase torceu para Sor Gendry pedir a mão de Arya. Seria uma cena engraçada de se ver. Entretanto, ele fora bom para Margaery, que logo se sentiu um pouco culpada com aquilo.

Sor Gendry levantou-se primeiro que todos, quase que num salto, e disse:

— O que quero, sei que não posso ter — declarou, e muitos homens soltaram um grunhido com a ideia. — Mas ficaria feliz de ficar próximo ao que desejo.

— Que quer dizer, Sor? — indagou Daenerys.

— Quero terras perto de Winterfell, se assim for possível, majestades.

Os lordes nortenhos rogaram pragas, mas Jon os silenciou com um olhar rápido e vermelho. Ele estava instalando medo neles, Margaery podia perceber.

O Rei do Inverno voltou-se para o amante da irmã. Esquadrinhando-o por um tempo. Escrutinando suas palavras. Por fim, deu um sorriso simples.

— Qualquer homem que faça minha irmã feliz é de meu agrado — respondeu. — Que tenha alguns hectares de terra perto de Winterfell. De certo, as terras dos Cassell hão de servir-lhe bem, Sor. — Declarou: — Agora, não és apenas um Sor, mas também um lorde.

Sor Gendry (não, Lorde Gendry!) sorriu. Um sorriso triunfante, largo e lascivo.

Vendo-o de perto, a jovem percebeu que não o reconheceria se não fosse a nomeação de Marwyn; o ferreiro-cavaleiro estava parecendo muitos anos mais velho do que realmente era. Os cabelos estavam ficando grisalhos, os ombros estavam curvados, e havia sombras pesadas em seus olhos. Quem o visse sem conhecê-lo, facilmente pensaria que já estava no auge de seus 50 anos. Para piorar, havia uma estranha cicatriz cauterizada que estragava seu belo rosto.

O Rei do Norte se voltou para o Lorde Dayne:

— E você, Milorde, que tanto ajudou minha causa, não tem nada a pedir-me? — indagou o rei, parecendo levemente divertido.

— Tudo que desejo são duas coisas — respondeu Ned.

— Pois peça e terá.

— A primeira não é sua para decidir — Ned rebateu, de forma surpreendente. — É de vossa irmã, a princesa Arya.

Enquanto muitos ficaram chocados com a ousadia das palavras, o Rei do Norte jogou a cabeça para trás e riu.

— Os Deuses sabem bem que o que disse-me é verdade — afirmou Jon Stark. — Acha que ela não aceitaria?

Ned meneou a cabeça. Margaery percebeu que sua pele de porcelana estava com as bochechas coradas.

— Eu tenho belas terras em Dorne, Vossa Graça, à beira mar, feitas de pedra Branca brilhante e boa riqueza, com joias dignas de uma rainha. — Deu de ombros. — Mas elas estão no Sul, e minha princesa prefere as terras do Norte.

Jon assentiu, ainda sorrindo. Virou-se para Arya.

— Então irmã, que me diz?

É um absurdo ela ter a escolha de ignorar um casamento tão prestigioso como esse!

A princesa Stark sorriu. Um sorriso zombeteiro.

— Bem, eu sei que muitos sabem meu gosto pelo frio — brincou ela. Olhou para o lorde de Starfall. — Mas, no fim, eu acho que estou pronta para curtir um pouco do sol quente de Dorne. — Passou um braço pelo de Edric. — E eu sempre gostei do mar.

O que deu nela?, indagou-se Margaery, surpresa com a atitude da princesa, que descaradamente ignorou o gesto romântico de Sor Gendry. Ela não acreditava que ele lhe faria algo em represália?

Margaery olhou para Gendry. Os olhos dele estavam em uma fúria tempestuosa, com o azul deles ficando mais intenso. Sua face estava escarlate e os punhos, cerrados. O queixo tremia, com a mandíbula pressionando com força contra o maxilar.

Se Arya realmente estava a ver a reação do amante, ela não se importava. De fato, Margaery se surpreendeu que ela e Ned não tivessem desembainhado as lâminas e se colocado de forma defensiva contra Gendry. Este, porém, tampouco fez gestos agressivos, apenas virou-se e afastou-se da cena, dando passos largos e furiosos no piso de ardósia fria, e dando empurrões naqueles à sua frente, abrindo caminho.

Novamente, Arya agiu como se sequer tivesse visto o gesto, ao passo que Edric Dayne estava realmente chocado com toda a cena.

Daenerys, Stannis e Sansa pareceram ficar um pouco tensos com o ocorrido, e olharam para Jon, esperando para ver o que ele faria. Surpreendentemente, o filho de Ned Stark apenas pareceu ignorar o fato e voltou-se para os irmãos Ryswell.

— O irmão e o pai de vocês morreram em batalha, provando até o fim a lealdade que eles tinham. E vocês arriscaram vossas vidas tanto quanto eles. Existe algo que possa fazer?

O mais velho, que Arya tinha quase certeza que era o chamado Rickard, olhou de soslaio para a princesa Arya, parecendo furioso. Apesar de parecer irritado, o jovem lorde fechou os olhos e respirou fundo. Abriu as pálpebras e olhou para o seu rei.

— Nada para mim, majestade.

Jon assentiu e olhou para o irmão mais novo, que parecia olhá-lo de forma nervosa.

— Falai — ordenou Jon, calmamente.

— E-eu… — Engoliu seco e lambeu os lábios. — Eu ficaria honrado se Vossa Graça permitisse-me ser o escudo juramentado de vosso irmão.

Margaery franziu o cenho. Por qual motivo aquele rapaz nortenho se importaria tanto com o príncipe Bran? Ele nem sequer estava no Grande Salão. Claro, Bran era um príncipe, mas poucos nobres iriam desejar ser um escudo juramentado de um mero aleijado.

Como se lesse a mente de Margaery, o rapaz respondeu:

— O príncipe do inverno ajudou os lordes contra Euron no salão, e ele foi quem ajudou a derrotar os soldados de Euron e a Donzela Louca. Ele voltou com a magia do Antigo Mundo consigo, e vai ajudar a derrotar a grande ameaça.

Um silêncio tomou o salão. Apenas o crepitar das lareiras existia.

O rei do Norte assentiu.

— Se você deseja proteger meu irmão, que assim seja feito, meu jovem. Vá e protege-o com a tua vida.

O rapaz com nome de Roose fez uma vénia, em agradecimento à aquiescência do Rei.

O Rei do Norte gesticulou com o braço, dispensando todos dali. Depois, tomou a mão da Rainha Daenerys. Ambos sorriram um para o outro e voltaram-se para os lordes, ladies, cavaleiros e estrangeiros no enorme salão. O rei do Norte tomou a palavra para si:

— É com grande agrado que anuncio que a partir de hoje, a Casa Stark e a Casa Targaryen não mais serão inimigas. Pois, ao cair da noite, eu e a Rainha Daenerys iremos selar nossos laços matrimoniais, no imenso bosque imenso sagrado de Harrenhal.

Não foram ouvidos urradores em alegria ou desgosto. Todos no salão apenas ficaram em silêncio, olhando para os dois monarcas. Margaery — que agora estava mais perto de Daenerys —, percebeu que a rainha estava com dificuldade de manter o sorriso, varrendo o salão com os olhos lilases, talvez procurando alguma alma feliz com a união, e se decepcionando com o resultado.

Quebrando o silêncio desconfortável, a princesa Sansa deu um passo à frente e disse com altivez:

— Milordes e Miladies, é importante mostrar que nenhum apoio é esquecido pela coroa; todos que aqui se encontram nesse salão abandonaram suas casas para mostrar sua devoção para com a coroa. — Continuou: — Por isso, como uma forma de mostrar prestígio, eu anuncio que todos aqui irão receber um título de honraria, ao entrarem na Ordem da Mão Verde.

Muitas das pessoas no salão pareceram confusas, dando um franzir de cenho ou trocando olhares com as pessoas ao lado.

Margaery sabia o que era a maldita Ordem da Mão Verde: uma antiga ordem da cavalaria da extinta Casa Gardner. A casa fora extinta pelos antepassados de Daenerys, o primeiro Rei Aegon e suas esposas-irmãs, Visenya e Rhaenys. Quando os Gardeners foram extintos, a Ordem da Cavalaria também. Apenas a casa Manderly, que era oriunda da Campina, até serem expulsos por um rei Gardener da época e serem acolhidos pelos Rei do Inverno no Norte: Os Stark.

Franziu o cenho, desgostosa com aquilo. Sansa estava revivendo a ordem? Era isso mesmo? Mas… Como? Apenas homens podem fazer parte da cavalaria, e não existiam mais homens da Casa Manderly até onde Margaery sabia. Apenas…

Vendo a confusão dos Lordes, a princesa Sansa voltou a falar:

— A Ordem dos antigos Mãos Verdes foi criada por uma das mais antigas e poderosas linhagens de reis — explicou ela. — A Casa Gardener pode ter sido morta no Campo de Fogo pelos dragões, mas a ordem que ela criou existe até hoje, no Norte. É um símbolo de prestígio que os Maderlys, que tanto ajudaram minha Casa e todo o Norte carregam, e, a partir de hoje, ela será um símbolo de honra e perseverança.

Margaery arregalou os olhos ao entender o que, de fato, a princesa estava querendo dizer: os Targaryen haviam destruído a casa Gardener, mas o símbolo deles continuou no Norte. Continuou com a casa Manderly, a mesma casa Manderly que tramou contra os Frey e Bolton e ajudou a Causa Stark a continuar viva no Norte.

A Mão Verde era o mesmo que o Lobo de Inverno: nenhum fogo de Dragão pode extingui-los para sempre.

Essas duas se odeiam muito, percebeu. De fato, o Rei Jon Stark devia estar em gelo fino para agradar a ambas: toda aquela reunião de corte era só uma encenação no que tangia essas duas. Ambas já sabiam o destino de Margaery, a ordem da cavalaria… E provavelmente, no meio disso tudo, estava o Rei do Norte, tendo de apaziguar as duas.

Mas, no fim de tudo, qual das duas ele escolheria?, indagou-se Margaery, achando que a resposta poderia ser a chave para a sua vitória no fim de tudo.

Um dos homens deu passo à frente. Era o tio de Sansa, Lorde Edmure.

— Mas, princesa — disse ele —, apenas homens…

— Esta é uma nova corte, meu tio — Sansa respondeu. Voltou a varrer o salão com os olhos. — Hoje, é o começo de uma nova era. Uma era que ficará para a história. Não importa a que deuses nós cultuamos, ou de onde viemos, nós devemos lutar juntos. — Virou-se para duas das aias e fez um gesto para que elas se aproximassem.

Margaery havia visto aquelas duas antes, quando chegou em Correrrio. Ambas usavam tranças grossas, com belas pérolas. A mais alta usava um vestido azul-marinho, com um manto feito de pele de morsa, preso por um pingente de prata, em formato de um tridente. A mais nova e loira usava envergava um manto com mangas, feito de pele de baleias, o mesmo que usara quando Margaery a viu no castelo dos Tully, estava bem encerado e brilhante, e, por baixo, envergava um vestido azul marinho.

Jon Stark desembainhou a espada, enquanto as duas passavam pela princesa, davam um volta, e ficavam de frente a ele. Ao se ajoelharem, abaixaram as cabeças, e o Rei ergueu a espada.

— As duas acompanharam a minha irmã até o fim, mesmo quando não mais era necessário. — A voz do Rei era altiva. — E, mesmo após tantas perdas, continuam apoiando o Norte. As duas deverão assumir as responsabilidades como herdeiras de Porto Branco e Castelo Novo, mas não pensem que a coroa se esqueceu de seu apoio, assim como do apoio de seu pai e avô. — Abaixou, com cuidado, a lâmina escura e tocou a ponta em cada um dos ombros da jovem mais velha, depois, repetiu o mesmo gesto com a jovem loira. — As duas continuaram a ordem de sua casa. As duas, a partir de hoje, serão tratadas como cavaleiras, e poderão escolher quem fará parte de tal ordem. — e disse: — Erguei-vos, Sor Wynafryd e Sor Wylla Manderly.

Apesar de parecerem um tanto dúbios, os homens e mulheres aplaudiram após as duas se levantarem e ficarem de frente à corte heterogênea de Harrenhal.

Margaery observava tudo aquilo, mas, no fim, não sabia o que acreditar. Aquela era um corte que estava indo contra tudo que algum dia ela, e todos os reinos, havia imaginado. Nem mesmo Dorne havia ido tão longe.

Então, perguntou-se: o que mais estava por vir nesse novo mundo que os Stark e Targaryen estavam a criar? Sansa e Daenerys não se davam bem, Stannis era um homem sem reino, e o Sul estava contra tudo o que eles estavam pregando. Mesmo assim, a facção Stark-Targaryen parecia ver-se como a vencedora.

E havia motivo para tal: Daenerys mataria todos aqueles que estivessem contra ela. Ela não hesitaria em tal coisa, Margaery bem sabia.

Na verdade, os inimigos de Daenerys não estavam apenas ao sul: estavam ali, naquele imenso salão. Ao lado dela, usando a imagem política para garantir aliados.

Sim, havia muitos inimigos para Daenerys combater.

E Margaery era um deles.