Marcas da Melodia
1 Um Amor Transformador
No começo parecia brincadeira
Não sabíamos que era pra vida inteira
Os caminhos tomam rumos diferentes
Tinha que ser você, o amor achou a gente.
Mas um dia o rio encontra o mar
E eu tô aqui para gente continuar
Hoje o correr do tempo fez sentido
Pra um querer que parecia proibido
So que Deus já tinha escrito há muito tempo
Que seríamos a folha e o vento.
E o que foi virou prefácio do que somos
E é real o que pra nós seria um sonho
Chamam isso de destino eu não sei
Mas desde o início sempre te cuidei
Chamam isso de amor eu também acho
Mas seja como for me dê um abraço.
(Prefácio- Joao Carreiro e Capataz)
— Mãe, eu quero um cachorro!
No começo parecia brincadeira...
Sempre achei bonitinho, mas não pra mim. Não entendia o apego e a dedicação excessiva, mas as lições estão aí todos os dias para serem aprendidas.
— Mãe, eu quero muito um cachorro. Todo mundo tem!
— Se sua mãe deixar, por mim, tudo bem.
— Minha mãe não deixa.
Minha família estava completa. Já tinha os filhos que pretendia, trabalhava todos os dias e a vida seguia.
De tempos em tempos, surgia a cobrança de se ter um animal de estimação. Várias opções foram dadas:
— Que tal um peixinho?
— Pode ser um passarinho?
— Não!!!
Nada convencia. O que eles — principalmente o filho mais velho — queriam era o tão desejado cachorro.
As conversas sobre o animal sempre surgiam do nada. Um amigo que ganhava um cachorro. Alguém passeando com um cachorro. Filmes. Nomes. E de repente uma cobrança.
— Eu não terei o que contar da minha infância sem um cachorro. Só eu não tenho um cachorro.
Ok, essa fala me pegou. Uma infância sem animal de estimação e a culpa seria só minha. Era muito peso para uma única pessoa.
De repente, do nada, soltei a decisão que colocaram nas minhas mãos.
Pra um querer que parecia proibido.
— Eu concordo com o cachorro.
Ninguém ouviu direito. Ninguém acreditou, mas era real. Eu resolvi ceder.
Decidimos as regras, que, é lógico, não seriam cumpridas, e partimos para a adoção. Sim, adoção.
Queríamos escolher quem não teve escolha. Quem já estava excluído e poderia receber todo o amor que estavam dispostos a dar.
— Hoje vamos a uma feira de adoção.
— Oba!
Todos juntos para trazer o novo membro da família.
Chegamos a ele. Abandonado. Tinha siso atropelado. Operado e mancava de uma perna.
Pequeno. Caramelo. Macho. Castrado. Era assim nosso SPIKE.
E é real o que pra nós seria um sonho.
***
“Quanta gente junta!”
Apertado no carro. Caminha nova, potinhos para água e ração novos. Brilhando. Ração da boa. Onde estou? Será que é real? Muita gente ao meu redor. Recebi até visitas.
Parecia que estava em uma vitrine. Todos os olhos voltados para mim. Não sabia o que eu deveria fazer, ou o que todos esperavam de mim. Não estava me sentindo bem. Confuso. Sentia alegria pela atenção, mas não tinha forças para reagir e festejar ao que parecia seria meu novo lar, nova família, nova rotina.
A comida parecia boa, mas a febre não me deixava animar e comer. Acho que comecei a preocupar minha nova família. Fui levado ao médico depois de alguns dias sem comer, beber ou latir. Fui medicado, mas ainda não passava bem. Estive novamente diante do médico e agora seria internado ou abandonado de novo?
Os caminhos tomam rumos diferentes.
“O que fiz de errado para eles não me quererem e me largarem?”
Ah, não! Mas eu não tinha forças, eu não estava bem. Como ia dizer a eles que queria a casa nova e todos que eu vi por lá?
Perdi! Que triste! Estaca zero! Sou um cão abandonado de novo. Agora preso nesta gaiola e com esta agulha na minha pata.
Passou a noite e comecei a me sentir melhor, acho que estes remédios que me deram funcionaram. Muitos cães chorando, muitos cães latindo.
Um novo dia e eu estava sozinho.
“Estou com fome. Nossa que estranho. Estou sentindo falta daquelas pessoas.”
Mas um dia o rio encontra o mar
E eu tô aqui pra gente continuar.
Ela chegou perto de mim com lágrimas nos olhos. Ela voltou, acho que ainda me quer. Nossa, que alegria em vê-la aqui, estiquei a pata para tocá-la. Parece que nos conhecemos há muito tempo.
Chamam isso de destino, eu não sei.
Depois desse encontro me senti revigorado. Tomei ainda injeções e remédios. Deram-me banho, há quanto tempo não tomava banho!
“Vou para aquela casa de novo. Que alegria!
Agora estou bem! Posso aproveitar tudo isso.”
Os dias passaram e eu ia me sentindo cada vez melhor e cada vez mais fazendo parte de tudo.
Às vezes me sentia sozinho. Um silêncio só. Não ouvia ninguém em casa.
“Vou procurar algo para fazer... Não sei o que é, mas é legal.”
Puxar, comer, roer, depois levei uma bronca e cara feia da minha humana. Ela disse que comi o fio da esteira dela. Outro dia falou que não podia comer umas madeirinhas que estavam lá, porque eram caixas de artesanato que ela fazia. Teve um dia que eu me enrosquei todo com um fio e ouvi que era uma tal de resistência de chuveiro.
Deixei-os bravos. Deixaram-me para fora. Não me deixavam mais entrar onde eu ficava.
Estavam fazendo uma obra no fundo do quintal. Descobri que era para mim. Onde estava era bem bacana, tinha muitas coisas para mexer, mas acho que eles não gostaram de eu ter pegado algumas.
De vez em quando todos sumiam. Ficava um silêncio horroroso. Um homem me colocava comida e água, deixava-me entrar na casa. Não sei quanto tempo durava isso, mas de repente todos chegavam e para mim era uma festa. Sentia saudades do movimento da casa, das crianças que às vezes me davam atenção, me levavam para uma volta pelo bairro. Ouvi falar que essa ausência deles se chamava “viagem”.
Meu novo espaço ficou pronto. Tinha agora uma casinha com caminhas. Estava mais distante de todos, mas estava bom. Protegido da chuva, sol e vento. Bem diferente das ruas onde vivi.
O tempo esfriou, vieram com umas roupas para mim, mas não gostei, não. Tirei tudo. Apertava, incomodava. Aquecia, mas preferi ficar sem.
***
Não sabíamos que era pra vida inteira.
Os primeiros dias com nosso novo integrante da família não foram fáceis. Ele chegou muito debilitado, com doença de carrapato e necessitou até ser internado, o que para nós foi um choque, pois esperávamos curti-lo desde a sua chegada. As crianças se assustaram com isso, mas passou. Ele melhorou e voltou para casa.
Tudo novo e diferente. Acomodamos Spike na lavanderia /ateliê / escritório. Como disseram que ele não era novo, pensei que não teria problemas dele mexer nas nossas coisas. Acho que achei que era um animal de pelúcia.
Cada manhã que acordávamos era uma surpresinha no quintal. Chinelos comidos, tapetes rasgados, fio de computador destruído, madeiras, resistência de chuveiro. Até parecia que ele não estava sendo alimentado.
O pior foi o dia que começou uma nova faxineira em casa. No final do dia, a mulher me procurou e disse que não achava o chinelo dela que tinha deixado na porta da cozinha. Eu gelei. Era óbvio que Spike tinha pegado.
Tive que sair e comprar um novo chinelo para a mulher ir embora, e é claro que nunca mais voltou.
Teve campanha de vacinação contra raiva e levamos Spike. No petshop onde o pegamos, nos disseram que já havia sido vermifugado.
Marinheira de primeira viagem nesse sentido. Não tinha informações de muitas coisas sobre ser “mãe” de cachorro.
Quando tínhamos que nos ausentar para viajar, deixávamos um responsável para cuidar da casa e do amiguinho e o retorno era uma alegria com a festa que ele fazia.
E nossa rotina foi se fazendo. Ele não se acostumava a comer só ração. Eu tinha que fazer arroz com carne moída para misturar. Foi isso que deram a ele no hospital. Caprichava tanto que todos em casa comiam o arroz do Spike e assim é até hoje quando faço arroz com carne moída. Dizem:
— Hoje tem arroz do Spike!
Eu me acostumei até que bem com o cachorro, tivemos alguns estresses, mas tudo se ajeitou. Ele era meu companheiro quando estava no ateliê pintando caixas ou costurando. Já não destruía nada.
Minha resistência a um animal em casa já havia sumido há um tempo. Não era como outras pessoas que eu conhecia que abraçam, beijam e se derretem quando veem cachorros. Ainda colocava limites para ele, mas sua presença não me incomodava e cuidava do seu bem-estar, mas sem muito carinho.
Mas desde o início sempre te cuidei
E mais uma vez chegou julho, férias e nossas costumeiras viagens para ver os avós. O Spike ficaria com suas necessidades básicas nutridas por um cuidador.
Julho. Frio. Férias. Viagens. Retorno.
Chegamos e descobrimos que Spike não estava comendo e muito quieto, amuado. Achamos que eram saudades, que estivera sentindo nossa falta, mas os dias passaram e não gostamos das suas reações. Levamos ao veterinário, este o medicou e voltamos na esperança de tudo ficar bem.
Começou agosto, volta às aulas, ao trabalho e Spike não melhorou. Voltamos ao hospital, foram feitos exames de sangue, tomou soro e injeções e o horrível diagnóstico: CINOMOSE.
Não sabia o que era isso. Perguntaram se tinha sido vacinado e eu não sabia nada sobre isso também. Pela internet, veio a descoberta de que a doença era progressiva e fatal.
E agora? Como assim ele iria morrer? E como as crianças reagiriam? O que fizemos de errado? Sim, erramos. Não demos a vacina que previne essa infeliz e degradante doença.
Recomendação da médica era que tomasse injeção a cada doze horas e havia a possibilidade de interromper os sintomas da doença, embora ainda houvesse sequelas.
Duas vezes por dia, ir ao hospital para medicação. Muito complicado, trabalhando, quem levaria? Com quem o deixaria nessa ausência? E ainda havia a angústia de chegar em casa e encontrá-lo pior. Entrava e ia direto ao seu encontro. Comecei a pedir, implorar para que comesse.
O que estava acontecendo comigo? Meu envolvimento ia além de tudo que já sentira. Não conseguia fazer nada. Inventava comidas, tentava dar na boca dele, pois um dos sintomas da doença era a paralisia da boca, e pedia em lágrimas para que ele comesse, pois esse seria um sinal de reação à doença e aos medicamentos.
Nada. Ele havia parado de andar. Muitas febres. E a solução temporária seria aprender a dar injeção para não precisar ficar saindo com ele. Spike começou a ficar agressivo devido às dores e ao sofrimento.
Resolvemos interná-lo novamente. Eu ligava para o hospital só para saber se ele tinha comido. Não conseguia dormir pensando como ele estaria. Tinha medo de atender ao telefone.
Resolveram mandá-lo para casa, porque não havia mais o que fazer.
Eu sofria por um cão. Ou melhor sofria pelo meu Spike. Meus filhos sofrendo. Nunca pensei. Não queria sair de casa para nada. O medo do retorno era imenso. E se nesse espaço de tempo...
Comecei a entender minhas amigas “cachorreiras” que já tinham passado por isso várias vezes e tentavam me ajudar.
Acho que eu não queria admitir o que estava sentindo. Eu sofrendo por um cachorro que eu nem queria. Não era meu, era das crianças. Como não era meu? Passei noites inteiras ao lado dele para não ouvir seu choro e não acordar as crianças que tinham provas no outro dia.
Chamam isto de Amor, eu também acho.
Mas seja como for me dê um abraço.
Sim! OK! Eu estava amando um cachorro que estava indo embora, mas me olhava e em seu olhar dizia:
— Vim para te mostrar um novo sentimento e você já aprendeu. Posso ir embora. Fica tranquila. Vou bem.
Mas eu estava péssima. O que não tinha feito? O que faltava?
Só que Deus já tinha escrito há muito tempo
Que seríamos a folha e o vento.
***
Passamos tempos bons. Eu estava tranquilo. Meus donos cuidavam de mim, eu tinha o que precisava. Sei que outros cães tinham mais atenção, mas aqui fui aos poucos conquistando a todos.
Minha humana andava preocupada, porque não estava passando bem, me dava remédio e estava sempre por perto, coisa que ela não fazia. Conversava comigo e chorava. Sua transformação era visível. Mudou minha casinha para mais próximo dela e pedia demais para eu comer.
Sentia que ela me queria muito mais do que quando cheguei, mas estava na hora de eu ir. O que vim fazer já tinha sido feito. Mostrar que Amar é muito mais do que se imagina. Que o Amor vem por formas e maneiras desconhecidas, mas como sempre ele é transformador. Eu ia embora, mas deixava uma lição para todos.
E o que foi virou prefácio do que somos
Tinha que ser você, o amor achou a gente.
***
Spike se foi. Sim, muito difícil. Passei por dias terríveis. Dores novas e desconhecidas. A dor da falta de um serzinho que talvez eu não tivesse valorizado como devia.
Os filhos sofrendo, até o marido incomodado pela situação e com a minha reação. Chorava facilmente. Tive que procurar ajuda para me entender e superar.
Meu filho, que tanto pediu o cachorro, sonhou com ele. Meu marido também. Eu não.
Por recomendação, não poderíamos ter cachorro por dois anos, pois o vírus era resistente e permanecia no local. Desinfetamos tudo, jogamos fora tudo que era dele, mas não arriscaria um novo animal.
O tempo passou lentamente e eu agora precisava de um novo cachorro. Eu precisava apagar todo sofrimento e viver os momentos bons que eles nos dão. Quando passou o prazo, eu comecei a provocar a família para a nova adoção. Novamente as recomendações:
Cão adulto. Macho. Castrado. Pelo curto. Porte pequeno.
E a surpresa se fez. Voltamos para casa com duas fêmeas, porte médio. Se mostraram um exemplo de comportamento, obediência e calmaria. MEL e MORENA. Não alteramos os nomes. Enganaram-nos quanto à idade, ainda eram bem novas e brincalhonas. Carentes. Ganhei de Dia das Mães. Novas caminhas, novas casinhas e elas comiam tudo. O quintal coberto de espumas, não podiam ver portão aberto, fugiam e davam muito trabalho para voltar.
Era uma alegria a presença delas o tempo todo com a gente. Na porta da cozinha, no escritório, no ateliê. São agitadas demais para o que buscávamos, mas era o que precisávamos. Achamos que uma faria companhia para outra e seriam mais calmas, mas a companhia era para mim.
Minha filha sonhou com Spike, que se mostrou bem feliz com as amiguinhas em casa. Sei que sofrerei quando elas se forem, talvez tanto quanto quando foi com o Spike, mas saberei aproveitar mais o tempo que elas estarão comigo. Assumi que posso sentir este amor pelas minhas companheiras e que amar se aprende amando. Ou sofrendo por descobrir tarde demais esse Amor.
Chamam isto de Amor, eu também acho.
Mas seja como for me dê um abraço.
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Escrito por Gláucia Guilhem, professora e organizadora do concurso.
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