Marcado
39 Extra - Parte 01
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard
Capítulo Extra
Parte 01
— Esse lugar é incrível! — Kagami exclamou tão logo pôs o pé para fora da Sprinter. Era de longe o mais empolgado com tudo, pela primeira vez realmente feliz com uma das ideias de Akashi.
O Capitão do time ganhara uma casa no campo de seu pai, para que transformasse em um dos refúgios da Geração Milagrosa. Por isso comprara uma propriedade em Fukui, onde fôra construída uma residencia no mais puro estilo japonês, cercada por campo gramado e rodeada por uma floresta em formato de crescente que se perdia de vista. O vizinho mais próximo estava a cerca de um quilometro e meio. Privacidade e natureza a vontade para experimentar voltar à forma completa de shifters.
Tudo ali estava em um estado aceitável de conservação. Havia energia graças a um gerador a dísel e água encanada desviada direto de uma nascente. Os ex-proprietários tiveram o cuidado de manter tudo, mesmo contagiados com a febre mundial de abandonar o campo e correr para as modernas cidades em busca de tecnologia e conforto.
As férias de outono tinham chegado e Akashi decidira que deveriam ir para lá e aproveitar a folga. No começo, Taiga ficara relutante com a ideia de abandonar o treino de basquete, mas acabara cedendo. Depois de uma viagem longa e cansativa, chegaram. O rapaz que os trouxera ficara no vilarejo mais próximo e aguardaria até o regresso. Akashi dirigira por poucos quilometros, apesar disso violar a lei. Não parecia haver policiais por perto.
— Acho que só vamos precisar limpar o pó — Kise observou, ajudando Midorima a pegar algumas das malas.
— Ali tem espaço para uma quadra de... — o Ômega apontou a lateral da casa, mas nem completou a frase. Notou que todos olharam estranho e ele se calou.
— Viciado — Daiki provocou.
— Melhor acelerar todo o processo de limpeza pela manhã — Akashi já foi organizando as tarefas — Kagami, Daiki, Midorima e Satsuki cuidam disso. Atsushi, Ryota e Tetsuya virão comigo para verificarmos os limites da propriedade e as defesas.
E assim ficou decidido. Levaram as malas para dentro, e logo encontraram os quartos, dividindo-se em duplas para o pernoite. E ainda sobraram dois. Era uma residência grande. O time de limpeza focaria nos comodos principais, depois cada dupla cuidaria do próprio aposento, ou seja, Taiga e Daiki, Midorima e Momoi, Kise e Murasakibara, Akashi e Tetsuya.
Seijuro podia ter mandando os empregados da famila virem antes e limparem tudo. Porém a intenção era criar um laço com o lugar, transformá-lo em um verdadeiro refugio para o Pack. Se tomassem as tarefas para si, cuidando pessoalmente, desenvolveriam uma intimidade maior com a residência.
Assim Kagami amarrou um lenço na cabeça, Satsuki prendeu os longos fios de cabelo e Midorima enfiou o item da sorte no bolso. O trio pegou os produtos de limpeza na Sprinter e deu inicio ao processo de arrumação. Focando, principalmente, em limpar o chão e o pó dos móveis comprados com a propriedade.
Daiki pegou uma rede que trouxera consigo e um par de ganchos próprios para paredes e ajeitou-se na varanda, logo enfiando os fones no ouvido e relaxando no suave balanço.
Pouco tempo se passou até Kagami se dar conta de que seu companheiro não estava ajudando. Ficou surpreso ao encontrá-lo muito a vontade na rede.
— Daiki? — perguntou curioso — O que é isso aí?
— Uma rede — o rapaz respondeu sem abrir os olhos ou parar a música, a audição sobrenatural podia escutar o outro acima de tudo.
— Ee?
— Minha mãe faz serviço voluntário em comunidades gaijin. Ela ensina japonês para pessoas recém-chegadas. Teve um grupo brasileiro que deu isso de presente. Parece que no Brasil eles dormem nessas coisas.
— Ah! — Kagami pensou que fazia sentido. A rede era confortável só de olhar — Não é isso! Por que não está ajudando?! Vá fazer sua parte, Aho!
— Não. Minha parte é supervisionar vocês daqui. Eu sou o Alpha...
Kagami rosnou algo e segurou na beira da rede, puxando o tecido com força, de modo que Aomine acabou caindo no chão.
— OE! KAGAMI!! — o rapaz levantou-se de um salto, furioso.
— Você é um Alpholgado isso sim Pode ajudar na limpeza! — e empurrou a vassoura de forma brusca contra o peito de Daiki, nem um pouco assustado com a raiva do companheiro.
— Baka! — pegou a vassoura com má vontade.
Aquilo satisfez Taiga, que acenou com a cabeça de modo aprovador e voltou para dentro da casa para continuar ajudando. Tão logo sumiu de vista e Aomine encostou o cabo contra a parede, acomodou-se na rede outra vez, voltando a musica no celular que colocara no bolso. Deixou-se levar pelo embalo gostoso da rede.
Por volta do meio dia, Kagami separou-se dos colegas de faxina, desistira de fazer Daiki ajudar, e concentrou-se no almoço. Era o único que cozinhava bem entre eles. O cheirinho de comida trouxe Aomine para a cozinha e ele se sentou a mesa com olhos pidões. Mas tudo o que ganhou de Kagami foi um sermão monstruoso sobre sua falta de responsabilidade e preguiça. O garoto parecia capaz de falar até o Apocalipse.
Mais da metade do que Taiga disse entrou por um ouvido e saiu pelo outro sem fazer efeito. O Alpha estava perdido em pensamentos, observando como o companheiro se movia de um lado para o outro, as caras e bocas que o Ômega fazia enquanto cozinhava, temperava e provava o sabor. E ainda tinha o lenço no cabelo. Tão fofo.
O almoço atrasou, apesar de Kagami terminar logo. Akashi avisou pelo elo mental que ainda faltava um trecho de verificação e que poderiam comer antes deles. Mas Kagami decretou que esperariam.
Quando os Betas da expedição voltaram, a casa estava limpa e a mesa posta. Os oito sentaram-se para comer. Mas como a mesa era para seis lugares, tiveram que improvisar com duas banquetas encontradas no quintal. Murasakibara e Midorima (os mais altos) acomodaram-se nelas.
— Um terço da propriedade tem cercas. Preciso apenas instalar um sistema elétrico — Akashi disse enquanto se servia de arroz branco — A floresta é interminavel. Pelo mapa não parecia tão grande. Vai levar mais tempo para explorar tudo.
— Tem até um rio! — Kise exultou ao dar a informação, antes de alcançar um pedaço de salmão e levar aos lábios.
— A água parece gelada — Murasakibara não se animou com a idéia de dar um mergulho. O outono ia avançado já.
— Podemos voltar lá depois, Kagami kun. É um lugar bonito — Kuroko terminou a refeição. Ele comia tão pouquinho que sempre era o primeiro a acabar.
— Seria ótimo — Taiga respondeu de boca cheia. Ganhou um olhar torto de Midorima, mas o ignorou.
— Já fizemos planos para depois do almoço... — Daiki afirmou. E tinham a ver com o principal motivo de estarem ali.
Por fim, sobrou para o Alpha e para Momoi lavarem as louças da refeição. E a garota acabou limpando sozinha, para variar. Aomine era um folgado que escapou para o conforto da rede assim que teve chance.
Passava das três horas quando o momento mais esperado da viagem chegou. A transformação! O Pack se reuniu no gramado dos fundos. Kagami e Momoi sentaram-se lado a lado para assistir. Quando os Betas começaram a tirar as roupas, o Ômega cobriu os olhos da garota, para que ela não visse a pouca vergonha. E Satsuki reclamou um bocado. Não seria a primeira vez, no fim das contas.
A transformação assustou Kagami. Ele não pensou que seria tão difícil e doloroso. E compreendeu como era inocente. Uma pessoa deixava de ser humana e tornava-se um animal selvagem. Nunca seria fácil ou indolor.
Logo um leão, o primeiro a completar a mudança, rugiu alto e correu para a floresta. Foi seguido por um lince e um leopardo. A águia, ao contrário, ganhou os céus. Bateu asas e alçou vôo, indo alto explorar tudo de cima com seus olhar aguçado. Tudo que restou deles foram as roupas largadas pela grama.
Apenas a raposa de pêlo prateado ficou por ali, deitada na grama verdinha e assistindo o que acontecia com interesse.
— Prestaram atenção? — Daiki perguntou.
— Sim! — a confirmação partiu de Taiga.
— Não! — Satsuki respondeu com um bico.
— Então tentem vocês agora — o Alpha ordenou.
Como Kagami e Momoi ainda não tinham feito a primeira transformação, eles pensaram que aquele seria um bom lugar para ajudá-los.
— Tentar como? É só pensar e acontece? — Taiga não soou muito seguro. Lançou um olhar inquisidor para o companheiro.
— Hum... é. Você sente, dai vira. Entendeu? — com certeza Aomine era um péssimo professor.
— Tá bom — o ruivo ficou de pé. Não quis tirar a roupa perto da fêmea. Se ele sentisse que ia conseguir, daí dava um jeito de arrancar.
Fechou os olhos e os punhos e concentrou-se. Tentou trazer o Tigre a sua mente, tirá-lo da Zona. Concentrou-se tanto que sua testa se enrugou e as mãos tremeram.
— Chega, Taiga! — Daiki riu — Fazendo força assim só vai borrar a cueca!
— AHO! — o rapaz sentiu o rosto esquentar de vergonha — Não sei como se faz Você não explica direito!
— Ah, quanto mimimi. Não sei porque não consegue. Até o Tetsu se transformou! — e apontou a raposa deitada sobre a grama.
Ouvir aquilo causou uma reação na criatura. Ela ficou de pé e correu em direção da floresta, com o focinho erguido e parecendo elegantemente ofendida na medida certa. Pelo visto, o animal interior de Kuroko tinha uma personalidade exótica.
— Será que tem a ver com a lua cheia? Ou algo mais? — Satsuki perguntou, entristecida. Queria tanto conhecer o seu. Ainda não sabia que animal tinha na alma.
— Talvez a primeira vez seja mais complicada — o Alpha pegou leve. Captou a decepção de seu companheiro e da Beta. A tristeza incomodou seu animal interior — Nós conseguimos numa situação tensa. Acho que é preciso um gatilho pra impulsionar...
— Faz sentido — o Ômega ponderou.
— Ou talvez as fêmeas não consigam atingir a forma completa — provocou, sacana.
— MORRA! — Kagami tentou chutar a perna do companheiro, mas Aomine era ágil e desviou fácil, rindo muito.
— Não se preocupem, garotas! Os machos protegem vocês! — acenou em despedida, correndo em direção a floresta. Farejava o cheiro do rio.
— Filho da puta! — Taiga resmungou e correu atrás dele, um tanto arrependido por ofender a sogra (que nem conhecera ainda).
Satsuki riu. O clima que ameaçava ficar tenso dissipou-se e voltou a animação. O animal dentro de si enviou ondas de otimismo. Um dia ele também sairia da Zona. No momento certo.
Assim que entrou na floresta Taiga perdeu Daiki de vista. Notou apenas as peças de roupa jogadas no chão, como uma trilha. Continuou correndo até entrever um animal de pêlo preto serpenteando entre os troncos, quase a se esconder. Compreendeu quem era e emoção bateu forte.
Era a Pantera. Que diminuiu o passo gradativamente para que seu companheiro o alcançasse. E pudessem correr juntos. Um animal de beleza excepcional, que roubou o fôlego de Kagami e o deixou sem palavras.
Seguiram assim, lado a lado, até desembocar em uma espécie de clareira, cortada por um rio de águas claras e muito limpas. Ficou bem evidente a intenção do Alpha. Por isso Taiga arrancou a camisa e tão logo chegou a margem, saltou. Iriam nadar juntos!
Exceto pelo fato de que a Pantera não saltou, parando tranquilamente a margem do rio. E o Ômega quase virou um picolé. A água estava tão gelada que devia ter congelado até o Tigre em sua alma.
Saiu do rio tão rápido quanto entrou. Esparramando-se na grama ao lado da Pantera, que o olhava com os olhos brilhantes. Intuiu que caíra em uma pegadinha... Mas não ficou bravo. Não podia perder a paciência com tal criatura. Imponente, selvagem e perfeita; sentada na grama com graça. Inquestionavelmente feroz, embora não assustasse Kagami. Nem mesmo o deixasse nervoso. Eram companheiros no final das contas.
Largados daquele jeito, distantes do mundo em um resgate as próprias origens primitivas a vida não podia ficar melhor.
Mas ficou. E como!
continua...
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