Marcado
38 Epílogo
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard
Epílogo
Impressionante como a vida podia dar um giro de 180 graus e mudar tanto em tão pouco tempo.
A cerca de um mês atrás, Kagami Taiga era um jovem do primeiro ano do Colegial, péssimo nos estudos e excelente nos esportes. No basquete. Ainda novato, já entrara para o time titular do clube e era uma das estrelas do time. Morava sozinho em um apartamento, pois seus pais ficaram nos Estados Unidos. Fim da história.
Ou assim deveria ser. Se ele não descobrisse que, na verdade, era um shifter. E um dos mais raros. Um Ômega. E, de repente, sua vida escapou ao seu controle. Quando deu por si, estava “harmonizando” com seu animal interior, fazendo um vínculo com um Alpha e entrando para o Pack mais promissor da atualidade no Japão.
Só para esclarecer: seu animal interior era um Tigre, e o tal Alpha era outro garoto, dono de uma personalidade muito pé no saco, obrigado. E o Pack era conhecido como “Geração Milagrosa” e seus Betas eram tipo os super fodões do basquete.
Apenas uma outra terça-feira na vida de Taiga.
Quem diria. Praticamente casado aos dezesseis anos, com BFFs do tipo que não guardam segredos entre si (não por livre opção, claro...) e um futuro promissor a sua frente.
Praticamente casado porque Aomine Daiki, o Alpha mencionado anteriormente, passava agora mais tempo no apartamento de Kagami do que na própria casa. E o rapaz ainda tem que conviver com a presença de um ou outro Beta vigiando os arredores de seu lar.
Não reclamava. Era a solução mais suportável, já que Akashi Seijuro, capitão da Geração Milagrosa, deixara escapar que deveriam todos se transferir para Seirin, para garantir a segurança do Ômega. Kagami os convenceu do contrário. Mas inclua nesse “convencer” um surto que surpreendeu até Daiki, e terminou com o ruivo se trancando no quarto. Ainda que a porta continuasse sem tranca...
Taiga podia ficar louco só com a idéia daqueles sete shifters colados em seu traseiro basicamente vinte e quatro horas por dia. Ele era um cara legal, no fim das contas. Não merecia isso.
E diante de seus argumentos pouco lógicos, mas muito exaltados, Akashi resolveu que deveria cada um se formar no colégio em que estava e manter o revezamento na segurança. Nenhum deles queria “ficar com o rabo marcado quando fosse chutado pra fora do apartamento”.
Em contra partida, o Capitão aceitou a oferta do pai e começou a aprender tudo o que podia sobre tecnologia e segurança, com a equipe mais especializada que a família podia contratar. O sobrenome Akashi só podia ter o melhor.
Ainda que fizesse parte de um Pack diferente, o pai de Akashi estava visivelmente satisfeito que seu filho conseguiu por as mãos em um Ômega. Criaturas cada vez mais raras na comunidade shifter. Era um orgulho que podia se gabar para outros Packs.
Com um Ômega, o Pack fechava o ciclo e tinha acesso a poderes que há muito tempo não se via. Coisas como trazer o animal interior da Zona e assumir a forma completa. Ampliar o vínculo que unia o Pack a ponto de tornar a ligação mental. Ampliação gradual de todos os sentidos... Esses eram alguns dos benefícios já alcançados.
Talvez houvesse mais. Por exemplo, o Tigre tinha certeza de que podia ajudar Kise, Kuroko e Momoi, jovens presos em um triangulo amoroso do qual não viam saída. Com influencia de seu animal interior, Kagami acreditava desfazer aquilo. Embora não soubesse como. Descobriria com o tempo, com a experiência de crescer e amadurecer. Desejava que os três tivessem uma chance de serem felizes.
Por sua habilidade de fortalecer o Pack como um todo, um Ômega era desejado. E alguns inescrupulosos não mediriam esforços para tê-lo em mãos. Taiga sofrera na pele, passara por maus bocados. Um inimigo inteligente e ardiloso se colocara no caminho da Geração Milagrosa e fôra um obstáculo e tanto.
Hanamiya Makoto, um Beta amparado pelo Alpha Seto Kentaro, conseguira raptar o Ômega, com a intenção de criar um vínculo negativo e roubar a energia que ele canalizava da natureza para fortalecer a Kirisaki Daichi. Um curto período na existência de Taiga, o qual o rapaz queria muito esquecer. Todavia, não negava o valor dessa experiência. Compreendia agora que seu laço com Daiki não era apenas o instinto animal de companheirismo. Gostava do cara, mesmo com a (já mencionada) personalidade “pé no saco”. Sentia-se bem ao lado dele. Gostava dos toques desajeitados, dos beijos brutos. Da possessividade. O perigo ajudara cinco dos Betas e o Alpha a fazer a transformação completa. Estreitara os laços da Geração Milagrosa. E esses laços eram a principal base de recuperação de Kagami, tanto física quanto mentalmente. Ah, e o Tigre ajudava muito também, é claro.
Uma das poucas coisas que não mudara era a relação com Himuro Tatsuya, seu irmão de afinidade. Tinham brigado nos Estados Unidos e continuavam afastados agora. Mesmo o rapaz tendo sido raptado e usado como refém para atrair o Ômega.
Himuro desconhecia a verdade. Acreditava que tudo não passara de uma péssima brincadeira da Kirisaki Daichii para vencer uma competição. Talvez isso os afastasse mais, quem sabe. Mas isso não faria Taiga desistir de seu irmão. Já ligara duas vezes e mandara alguns SMS, nenhum de seus contatos sendo retornado.
Só ficava tranqüilo porque Murasakibara e o leão em sua alma reconheceram Tatsuya como companheiro! Inusitado, admitia. Graças a isso, o Beta estava sempre por perto, vigiando, guiado pelo vinculo de companheirismo que nascera. Unilateral até o momento.
Alias, engraçada essa história de vínculos. Kagami talvez nunca entendesse por completo. Ou conseguisse explicar. Só sentir. Em suas diferenças e intensidades. Forte e irresistível como o que o unia a Daiki. Profundo como o que o unia ao Pack.
Pack. Outro ponto que Taiga era incapaz de explicar. O exemplo mais claro referia-se à seu resgate. Depois que passara por tudo aquilo nas mãos da Kirisaki Daichi, mesmo assim, era capaz de se reestruturar, de voltar ao normal, à rotina. Sentia que os Betas estavam ao seu lado, provendo sustentáculo. Como dissera Aomine. Ele mudara o Pack. E o Pack o estava mudando.
Daiki. Aquele que lhe dava umas chamadas de atenção ocasionais. E bem literais. Como naquele momento.
Kagami deu-se conta de que estava levando um puxão de orelha dos mais doloridos.
— Ittai! — reclamou, acertando um tapa na mão do companheiro, antes de esfregar a orelha dolorida e avermelhada — Por que fez isso, Aho?!
— Porque você pareceu um sonâmbulo o caminho todo, Baka. A gente se separa aqui — apontou a estação de metrô. Seirin ficava perto da casa de Kagami, mas Aomine precisava pegar a condução para ir até a Academia Touou.
Todos os dias, nos últimos tempos, Daiki dormia com Kagami. Eles acordavam juntos, tomavam banho e café juntos, se arrumavam e saiam para a escola, cumprindo o ritual de “marido/mulher”. Se encontravam com Kuroko no meio do caminho e seguiam assim até a estação do metrô. Então o Alpha deixava o Ômega aos cuidados de seu Beta e de Kise, cuja presença sempre era sentida por perto, e seguia para sua própria escola.
Geralmente o percurso era feito com muito barulho, com as implicâncias do casal. Só naquela manhã que Taiga parecia mais quieto e reflexivo.
— Ah... — foi tudo o que o ruivo disse, dando um breve olhar para Kuroko que esperava um pouco mais a frente, com paciência. Realmente se perdera em alguns pensamentos. Tanta coisa mudara em sua vida.
— Passo por Seirin depois do treino — Daiki falou sério — Hoje nós vamos até a minha casa. Você precisa conhecer minha mãe. E não vai me enrolar!
Kagami sorriu amarelo. Era a quarta ou quinta vez que seu companheiro exigia aquilo e em todas as vezes se esquivava como um ninja em missão. Pensaria em algo para evitar outra vez. Teria o dia inteiro para isso.
Mais cedo ou mais tarde conheceria a familia do Alpha. Pra que a pressa? Pouco a pouco tudo se ajeitava e entrava nos eixos. Paz, para crescer e deixar a vida seguir seu curso. A vida de shifters.
Maior prova disso eram os treinos de basquete, intensificados. O Intercolegial daquele ano já se tornara passado. Seirin perdera. Mas focava na Winter Cup, um evento igualmente importante. E daquela vez seriam vendedores. Não era assim o existir? Perde-se umas, ganha-se outras. E sempre se segue em frente.
— Até mais — Kagami se despediu, cortando o assunto da visita. Não chegou a se afastar. A mão de Daiki o prendeu pela nunca e o puxou para perto, para tomar-lhe os lábios em um beijo nada púdico. Cena que fez alguns estudantes andarem devagar apenas para observar. Era incomum uma demonstração de afeto público desse nível no Japão. Mas entre aqueles dois, trocando um beijo de fazer inveja, tornara-se rotina todas as manhãs.
Quando se afastaram, Kagami sentiu o rosto em brasa, como sempre. Não gostava de ser o centro das atenções de desconhecidos. Porém gostava do beijo. Muito.
Aomine sorriu torto e fez um carinho em sua bochecha antes de começar a caminhar para a estação.
— Se cuida, Baka — falou arrogante. Preocupação fluiu pelo vinculo, divertindo Kagami. De nada adiantava a pose de durão, se a ligação que os unia denunciava o que o Alpha sentia de verdade.
— Você também, Aho! — devolveu, condescendente.
O ruivo assistiu enquanto o companheiro caminhava até ser engolido pelos transeuntes, sua estatura elevada o mantendo visível por muito tempo. Aquele prometia ser um bom dia, um dos últimos do verão. O sol surgia forte por entre os prédios, erguendo-se cedo naquela manhã. Não captava nenhum Beta por perto, além de Kuroko e Kise.
E somente um Alpha. O Alpha que era seu companheiro destinado.
“Suki”, Kagami se viu confessando através do elo mental. A única forma que conseguia dizer o que sentia.
“Eu sei”, a resposta não demorou a alcançá-lo.
“Aho!”, resmungou mentalmente, sem estar aborrecido de verdade. Mesmo que Daiki não dissesse, Kagami sabia a real resposta à sua declaração.
É. Ele sabia.

O sol se erguia muito cedo naquela manhã. Maior sinal de que o verão se despedia do hemisfério norte e ia espalhar seu calor na outra metade do mundo. Não que importasse. Odiava verão, odiava inverno e tudo o que fosse extremo.
Quicava a bola de basquete no chão da quadra vazia, sem coragem de arremessar.
— Oe, vai matar aula de novo?
Ergueu a cabeça e encarou Ishida, um dos companheiros do time de basquete. Não respondeu. O jeito grosseiro desanimou o outro, que apenas deu de ombros e continuou se afastando.
Haizaki voltou a quicar a bola. Era um lobo solitário. E poucas pessoas sabiam que era em sentido literal. Haizaki era um Nascido harmonizado, afastado de todos em sua comunidade, seus iguais. Porque não era forte o bastante para suportar a influência da lua. No primeiro dia de lua cheia de cada mês, desde que entrara na puberdade, perdia o controle sobre si.
Um dia acreditara que havia um Pack para si. Um grupo de prodígios que o aceitariam mesmo sendo aquilo que os shifters abominavam. E se enganara. Suas esperanças foram esmagadas sem piedade. Assim que teve certeza do que era, Akashi Seijuro e sua corja o expulsaram e o obrigaram a seguir a trilha solitária destinada a todos os Digammas.
Até se conformaria com isso. Se não fossem por boatos inacreditáveis que começaram a correr à meia boca. Diziam que um Ômega harmonizara em Tokyo. E um muito poderoso por sinal, cuja força se sentira através da capital japonesa.
Um Ômega.
Criaturas quase extintas. Ômega que, ironicamente, caira nas garras de quem mais odiava. A Geração Milagrosa...
Depois houve toda aquela confusão com a Kirisaki Daichi, que deixou a comunidade shifter em polvorosa. E Hanamiya, único sobrevivente do Pack de Seto Kentaro, recebera o pior castigo por seu gesto audacioso. Makoto desfilava por aí marcado. Um shifter harmonizado, mas privado de usar seus poderes sobrenaturais. Pobre infeliz.
Haizaki segurou a bola com as duas mãos. As coisas ainda andavam agitadas. Mas logo se acalmariam. Sabia que Ômegas podiam se tornar âncoras. Mirou a cesta com calma, arremessou. Uma âncora forte o bastante prenderia o animal interior de outro shifter e o ajudaria a ter controle durante a lua cheia. A bola desenhou um arco perfeito. Bateu na tabela e no aro, começando a girar, ora parecendo que ia cair para fora, ora dando a impressão de que converteria o ponto.
Então Shogo se viu desejando ter uma âncora. A possibilidade de alcançar o inimaginável. Se encontrasse um Ômega, poderia ser normal.
A velocidade do giro diminuiu.
Haizaki queria um Ômega.
Cesta.
E ele teria um.
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