Marcado
34 Capítulo 34 – Transformação
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 34 – Transformação
Kentaro parou o movimento do braço no último segundo, paralisando-o no ar. Desistiu de aplicar o novo golpe contra seu prisioneiro. Não ia adiantar mesmo.
— Esse cara já apagou? — Hanamiya perguntou com desdém.
— Aa — a resposta do Alpha soou meio insegura. Ele observou o Ômega brevemente, antes de chegar à uma conclusão diferente — Não parece simples inconsciência.
— Você acha que ele entrou na Zona? — a opção não parecia interessante. Se o ruivo entrara mesmo na zona, significava uma proteção mental. Seu animal interior o cuidaria e evitaria que a tortura física também fosse mental. Ainda que o Alpha continuasse com as chicotadas e flagelasse seu corpo, a eficiência do castigo caíra drasticamente! Teriam que dar um tempo e então obrigá-lo a sair da Zona. Como? Nunca lidara com algo assim antes. O mais provável seria usar Daiki para isso. Causar dor no Alpha parecia o bastante para trazer o Ômega de volta, transformando o vinculo de companheiros em uma ancora que o prenderia à realidade.
Seto não respondeu. Não duvidava nada de que o garoto fosse capaz de tal proeza. Antes que dissesse mais alguma coisa, teve uma sensação inesperada. Seu animal interior agitou-se, alerta. Trocou um olhar significativo com o Beta.
— A presença daquele Alpha...? — Makoto falou, incrédulo.
— Sumiu — a confirmação veio rápida. De repente, Kentaro deixara de captar a presença do Alpha inimigo, simplesmente desaparecera.
— Impossível! — Hanamiya exclamou irritado. Não havia sinal de que ele se afastara dali. Em um segundo podia sentir o rapaz do lado de fora da casa, preso no pequeno galpão. No outro, nada! Como se ele tivesse evaporado no ar.
Seto não respondeu. Tratou de ir libertar os pulsos do Ômega, que caiu pesado no chão. O que quer que tivesse acontecido, precisava ser investigado sem perder tempo. Pegou Kagami nos braços e o jogou sobre o ombro.
— Vou colocá-lo de volta na cela. Fique de olho enquanto vejo o que está acontecendo.
O Beta não rebateu. Obedeceu, seguindo o rapaz para fora dali. Podia sentir outros Betas se aproximando, perdidos com o inexplicável desaparecimento. E então aconteceu o pior. Kentaro tinha acabado de colocar Kagami sobre o velho colchão, quando a presença de um dos seus Betas enfraqueceu significativamente para, em seguida, desaparecer.
— O Itsuki... que porra! — Hanamiya praguejou, pálido.
— Não sai de perto do Ômega. Vou mandar Hara para te ajudar — foi dizendo e saindo veloz do quartinho. Não compreendia como o moleque da Geração Milagrosa podia ter escondido sua presença, mas o fizera. E atacara um de seus rapazes.
Correu para conferir. Gotas de suor frio juntaram-se em sua fronte a medida que uma assustadora possibilidade surgiu. O enfraquecimento de Itsuki só podia significar uma coisa: o garoto recebera um grave ferimento! E se sua presença acabara, então o pior acontecera.
Mas o “desaparecimento” do Alpha rival acontecera de modo adverso. Não houve enfraquecimento ou qualquer indicio de injuria. Simplesmente deixara de ser perceptível.
O que estava acontecendo ali?!
R&B
Seijuro não retrucou. Não podia. Simplesmente freou e desligou o motor. E o fez no momento mais apropriado possível.
— Pra fora! — ordenou imperativo, sem dar margem para reclamações.
Mal desceu e uma dor inimaginável o fez arquear as costas, como se sua espinha dorsal estivesse sendo arrancada de si. Era seu animal interior que respondia ao chamado do Alpha. Aomine parecia prestes a tirar o animal da Zona.
— Satsuki — o Beta segurou a garota pelo braço e a empurrou em direção ao veículo — Saía do perímetro do Pack. Preciso de alguém que mantenha a forma humana!
Ela gemeu baixo, segurando a frente da blusa com força. Só a grande custo de sua vontade foi capaz de obedecer, quase arrastando-se de volta para a Sprinter e manobrando. Sabia o mínimo de direção para engatar a marcha à ré e pisar fundo no acelerador.
Afastou-se poucos metros, o suficiente para ficar longe do vínculo que tinha com Daiki. Quando deixou de sentir o melhor amigo, as dores sumiram de si como magia. Seu animal interior aquietou-se um pouco, como se voltasse para a Zona e ali ficasse.
Aliviada, mas sem parar de se preocupar, ergueu os grandes olhos e observou os companheiros de Pack. Era nítido o sofrimento deles, captava cada agonia através do laço. Deduziu fácil o que acontecia. Aomine tirava seu animal da Zona, pela primeira vez. Ele conseguira isso no instante em que o grupo ficou perto o bastante para reatar o vínculo, o que lhe deu forças.
Como era a primeira vez que acontecia, todos os Betas reagiram ao chamado animal. Suas feras também deixavam a Zona.
A transformação começaria.
Akashi foi o primeiro a sentir a passagem na pele. O garoto caiu de joelhos no chão, o corpo estremecendo em aflição. As mãos foram até a blusa e, com poder sobrenatural, rasgaram o tecido de alto a baixo. Um grito rouco escapou por seus lábios sem que pudesse evitar.
Momoi levou as mãos ao rosto e cobriu os lábios, em choque. Os olhos se arregalaram e ela assistiu algo maravilhoso.
R&B
Daiki soube imediatamente o que acontecia. A Pantera saia da Zona, em resposta ao sofrimento do Ômega. Ela abria caminho a força, trazendo consigo ferocidade e descontrole.
E a forma completa de um shifter.
Mas não acontecia facilmente, era a primeira transformação desse modo. Não tinha poder o bastante para terminá-la sozinho. Ainda que houvesse a influencia da lua cheia, precisava de seus Betas. Além disso, estava ferido e sob influencia de wolfsbane e mistetloe, venenos para a forma humana shifter.
Quando pensou que ficaria preso naquela agonia por muito tempo, captou a presença dos seus amigos entrando no campo criado pelo vinculo. Perto o bastante para ajudá-lo. Não podia ter sido mais providencial.
— Akashi... — só conseguiu dizer isso, num misto de alívio e ansiedade, porque aquele cara era implacável. Nunca deixaria nada ficar no caminho e atrapalhar seus objetivos. Se Seijuro fosse um Alpha... Não. Daiki não pensaria naquilo, o mundo não merecia. E tinha preocupações mais urgentes no momento, que lhe cortaram qualquer linha de raciocínio lógico.
As mãos foram rápidas até a blusa, rasgando o tecido facilmente. Um rosnado rouco escapou, enquanto os olhos brilhavam ainda mais em azul. Transformar-se não era simples, fosse qual fosse a situação. Porém, naquela primeira vez, todos os elementos eram negativos. A necessidade de salvar seu companheiro servira como gatilho, impulsionando a realização de um sonho a muito desejado. Convertendo-o em um pesadelo.
Cerrou os olhos fortemente, evocando um mínimo de paz da Zona para si, ou não teria concentração suficiente para continuar. Acalmou a respiração, sentindo a influencia do luar alcançar sua pele e ir alem, chegando à sua alma. Pouco a pouco, tudo foi se perdendo, se esvaecendo a ponto de Daiki conseguir evocar um grande vazio à sua mente, mas não um vazio absoluto. Pois, naquele momento, atingia o ápice da intimidade com a fera que coabitava seu corpo, diferente de entrar na Zona, dessa vez puxava a criatura. Sua presença cada vez mais poderosa e definitiva. Homem e fera, dois seres diferentes, ao mesmo tempo, uma única matéria prima, compartilhando de maneira sobrenatural um singular corpo. Um derradeiro destino.
A ferocidade que trazia em si ganhou forma. E veio à tona.
O rapaz foi acometido por uma dor tão forte que o fez gritar alto, rouco; roubando-lhe o fôlego e a capacidade de suportar tudo calado. Enquanto a pele de suas costas era rasgada por uma criatura muito maior do que seu corpo humano e tentava libertar-se da prisão em que existia. Sangue vívido e quente manchou o chão úmido da improvisada cela, acompanhado de gemidos, agora abafados. Por mais que sonhasse em se transformar, talvez nunca se acostumasse com aquilo. A experiência mostrou-se aterradora. E aquele foi seu último pensamento consciente.
Enquanto algo que parecia ter sido a tez de Daiki caía no chão, desaparecendo lentamente, uma magnífica pantera negra, de proporções sobrenaturais, agitava o belo pêlo ainda úmido, manchado de sangue. A fera ergueu o focinho e rosnou baixo e rouco, sentindo o ambiente, reconhecendo tudo a sua volta com os olhos em tom azul que se luminavam como safiras líquidas.
Pela primeira vez, a Pantera saia da Zona. Tudo era novo, o ar, os cheiros, as cores. As conhecia, graças ao elo com sua parte humana, mas provar tudo por si só mostrava-se algo além de qualquer palavra. Impossível descrever.
Tal forma era a parte mais predatória e animal de um shifter, nascida para dar vazão aos instintos mais primitivos. A Pantera, ou qualquer outra manifestação completa, não possuía presença, era a maquina de matar perfeita e indetectável.
A porta da cela abriu-se. Um Beta chegou a dar um passo para dentro por impulso, desesperado porque o Alpha, preso até então, dera a impressão de desaparecer no ar. A Pantera ergueu os olhos, brilhantes e sinistros na penumbra do ambiente. Rosnou baixo, um som gutural e primitivo.
O garoto paralisou-se de medo e surpresa, vítima da mirada feroz. Pontos de suor frio juntaram-se em sua testa e escorreram pelo rosto tencionado, sentiu que encarava a própria morte de frente. Pavor emanou de cada poro de seu corpo, e foi como um convite para o animal, pronto para saltar sobre uma presa indefesa.
O Beta chegou a entreabrir os lábios para gritar. Mas a Pantera moveu-se veloz, dando o bote sobre o inimigo. As grandes patas o acertaram em cheio no peito, pesadas o bastante para partir os ossos da caixa torácica ao jogá-lo contra o solo. As costelas quebradas atravessaram-lhe o pulmão, fazendo-o cuspir sangue.
Ainda havia um vestígio de vida em seu corpo, evidente ao engasgar-se, expirando ar e pleura. E esse tênue vestígio desapareceu quando o Alpha fechou as presas afiadas ao redor do frágil pescoço. Sangue jorrou forte da jugular, ao ritmo das últimas batidas daquele coração.
Sangue que gotejou do focinho da Pantera, mas não foi suficiente para aplacar sua sede de vingança. Um inimigo estava derrotado. E era apenas o começo..
continua...
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