Marcado
16 Capítulo 16 – Ameaça
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 16 – Ameaça
Sentia seis Betas diferentes espalhados pelo ginásio. Podia dizer mais ou menos onde cada um deles estava, apesar da distância. O instinto não era apurado para divisar com precisão os shifters no meio da multidão.
Do lado de fora captava mais três. Nove no total, de Packs diferentes. A nenhum considerou ameaça, já que não exalavam intenções agressivas. Nenhum Alpha foi percebido.
Apesar disso, todos os membros da Geração Milagrosa estavam por ali, curiosos para assistir o clássico da noite. Seirin contra Kaijo.
— Como está o vínculo?
Aomine olhou de lado para o rapaz que fizera a pergunta. Akashi também estava no fundo do ginásio, atrás de todo mundo. Observava o jogo recém iniciado, mantendo-se encostado na parede. Não havia clima ruim ou rancor entre eles, ainda que o Beta tivesse ameaçado o companheiro de Daiki, antes da vinculação. Assim funcionava a Geração Milagrosa, não fermentavam animosidade. Akashi tinha sua personalidade e agia conforme seu jeito de ser. A isso Daiki respeitava, já que ele também vivia à sua própria maneira. Akashi fôra capaz de recuar diante de uma solução melhor e reconhecer o caminho mais adequado de vinculação. E o mundo seguiu em frente.
— Perfeito — respondeu — A energia está fluindo como deveria, não há mais acúmulo.
— Sim, isso eu senti. Perceba a diferença que fez a Seirin: a melhoria estranha do time estacionou. Se aqueles caras se tornarem mais fortes será por conta própria, não vão mais roubar energia do Ômega.
— Hn. Por outro lado a melhora de Kise é visível, a cópia dos movimentos está quase perfeita. Tetsu também, com o esforço que Seirin está fazendo o Misdirection já deveria ter perdido eficiência.
— Exato. O fluxo de energia que vem do Ômega e você redireciona é revigorante. Está impulsionando todos a se tornarem cada vez melhores. As técnicas de Ryota e Tetsu estão se lapidando, ainda se tornarão melhores.
Aomine cruzou os braços e voltou a atenção para a competição. Algo que já desconfiava ficava cada vez mais claro. O jogo não chegara aos cinco minutos do primeiro quarto, e Seirin parecia pressionada e acuada, mesmo tendo um Ômega e um Beta entre os titulares.
— Me sinto mais forte, os sentidos mais apurados, tudo no geral ficou melhor depois do vinculo — foi dizendo, pensativo — Mas veja Taiga. Ele, assim como os humanos, já está sem fôlego. Está caindo na armadilha de Kise... a resistência dele não melhorou nada.
Akashi refletiu a afirmação por alguns segundos.
— Você acha que o vinculo prejudica o Ômega?
— Não — Daiki desdenhou com um gesto de mão — Eu saberia se fosse isso. Acho que um Ômega não é tão resistente ou forte quanto um Beta ou Alpha. Os movimentos dele estão mais ágeis e Kagami tem uns saltos monstro. Mas ele ainda se cansa como um humano.
— Isso não me surpreende — o capitão da Geração Milagrosa afirmou — Ômegas não são guerreiros. Cada shifter tem um papel dentro do Pack e não cabe a um Ômega lutar. Veja Tetsu, ele também está se cansando, mas porque usa a energia para manter a eficiência do Misdirection, enquanto Kise mal começou a suar. Eles são betas: resistência acima da média faz parte de suas qualidades.
Aomine não disse nada. Ambos ficaram em silêncio, prestando atenção enquanto o juiz sinalizou uma falta contra Seirin. Kaijo cobrou dois arremessos e converteu a ambos com precisão, ampliando o placar.
— Você não tem um jogo agora? — Akashi perguntou para o Alpha.
Daiki cruzou as mãos atrás da cabeça e deu de ombros.
— Daqui a pouco vou pra lá. Satsu deve ter tudo sob controle — respondeu, indiferente. Não seria a primeira vez que se atrasaria para um jogo. Às vezes nem aparecia, dependendo do inimigo. Se fosse um rival fraco não valia a pena o esforço.
Seijuro analisou o outro sem parecer surpreso. Daiki não mudara muito desde o final do Fundamental. Até compreendia, devido às circunstâncias. Protegiam um Ômega recém vinculado ao Pack. Toda precaução era pouco.
— Tem que marcá-lo logo — falou baixo — Isso vai desestimular a maioria dos Alphas. Podemos lidar com os que sobrarem.
— Hn. Farei isso na próxima lua cheia. Quinta-feira.
— Não. Quinta-feira é o primeiro dia do ciclo lunar. A influência da crescente desestabiliza a energia. Por isso Digammas ficam mais violentos. Faça no sábado, no terceiro dia.
— Aa — concordou divertido. Impressionante como aquele Beta gostava de dar ordens. Não se importava, Akashi era inteligente e perceptivo. Todas suas decisões visavam o melhor para o Pack. Isso poupava trabalho a Daiki.
— Tenho sonhado com meu animal interior — o capitão da Geração Milagrosa revelou. O Alpha captou fragmentos de decepção e ansiedade vindos do garoto ao seu lado. Por mais que ele tentasse disfarçar e mantivesse sua face indiferente, por dentro se corroía. Ainda não entrara na Zona, coisa que Daiki fizera antes mesmo de encontrar um Ômega — Mas não sei que tipo de animal ele é.
— Taiga tem influenciado o Pack aos poucos. Já temos mais habilidades, mais força, sentidos mais apurados. Conseguimos o vínculo mental... Talvez nem todos possam entrar na Zona, mas tirar o animal da Zona é algo que os shifters conseguem fazer quando se marca um Ômega — coçou a nuca — Não dá pra forçar que as coisas aconteçam.
O primeiro quarto acabou. Os jogadores se recolheram ao banco, para reunirem-se com os técnicos e demais companheiros de equipe. Daiki sentia o cansaço de Taiga. Os dez minutos iniciais foram realmente pesados.
Queria dar umas dicas para seu companheiro. Se segurou e não iniciou um elo mental. Kagami nunca o perdoaria se interferisse na partida. Ele é o tipo de cara que supera os próprios erros e faz de tudo para melhorar sem depender de ajuda. Tinha fé que o Ômega conseguiria perceber o que acontecia. Ou aquela garota que brincava de técnica... Em último caso, se Seirin caísse na armadilha de Kise e perdesse, Aomine riria da cara de Taiga por bastante tempo.
— Encontrei muita literatura a respeito dos Ômegas. Mas são textos antigos, a maioria do final do século XIX. Como os Ômegas estão quase extintos, não há nada atual. Entrei em contato com Packs aliados da minha família, principalmente da América do Sul. Talvez possam nos ajudar.
— Duvido — Aomine balançou a cabeça — A realidade em países tropicais é totalmente diferente da nossa. O cenário natural por lá é favorável para um Ômega. Não podemos esperar que Taiga seja capaz de nos proporcionar tudo o que faria um nascido em contato com florestas virgens.
Se fossem colocar na balança os benefícios que Kagami já trouxera ao Pack, então perceberiam que ele era um Ômega muito poderoso. O acumulo monstruoso de poder elemental quase não fôra contido durante a harmonização com sua parte animal. E, mesmo que vivessem no meio de um centro urbano como Tokyo, ele era capaz de filtrar o poder da natureza e transferir para o Alpha, tornando-o mais forte, e, por conseqüência, fortalecendo um Pack acima da média.
Akashi não respondeu, porém sua determinação continuou intacta. Tinha sede de poder, enquanto não extraísse todos os benefícios trazidos pelo Ômega não sossegaria. Nem isso incomodou Aomine. Contanto que não prejudicasse ou machucasse seu companheiro não iria interferir e acabar com a diversão do capitão.
O segundo quarto começou. Assim que pôs o pé na quadra, Daiki notou a diferença. Kagami voltara mais calmo, menos desesperado. A técnica da Seirin devia ter descoberto o esquema de Kise e alertado os jogadores de seu time.
Havia uma chance de Seirin vencer. Suspirando, o Alpha deu as costas e resolveu ir ver o que acontecia na partida de Touou. Talvez entrasse em quadra pra suar um pouco, quem sabe?
Akashi observou o garoto indo embora até que sumisse de vista. Então também foi embora. Perdera o interesse na partida, pois já calculara os cenários possíveis. Além disso, os outros Betas da Geração Milagrosa estavam por ali. Não havia nada a temer.
R&B
No fim das contas, Seirin venceu contra Kaijo, com uma jogada espetacular que Kagami e Kuroko fizeram no último segundo, de modo que Kise não pudera copiar. Os dois foram atingidos pela profunda tristeza do Beta, ao ser derrotado quando sua certeza da vitória era absoluta. Mas a vida era assim, nem todos podiam vencer.
Como outros times continuavam jogando, Seirin resolveu ir assistir às partidas. A idéia de ver Daiki em quadra empolgou Taiga. Por isso ele e Kuroko se separam do time e foram para onde Touou enfrentava Meisou, enquanto os demais ficavam por ali para ver Shutoku entrar em campo. Dali sairia o próximo adversário da Seirin.
— Seu Misdirection durou mais tempo — Kagami falou para Kuroko enquanto seguiam pelo corredor interno que ligava os ginásios adjuntos.
— Sim, estou aprendendo a controlar o fluxo de energia e diminuir ainda mais minha presença em quadra. Em breve poderei usar uma técnica nova que estou desenvolvendo.
— Uma nova técnica? Qual?! — o ruivo perguntou curioso.
Kuroko não respondeu. Ele sentiu duas presenças se aproximando rápido, dois Betas. Parou de andar e ficou mais atento, os dois shifters não emanavam hostilidade, mas seu animal interior repudiou o contato.
— Betas...? — Kagami também estancou no lugar. Cada vez estava mais acostumado à sua nova realidade. O Tigre lhe enviou um alerta e recomendou cautela. Trocou um olhar com Tetsuya, nenhum dos dois ficou preocupado, pois outro Beta da Geração Milagrosa vinha em direção à eles.
Então os dois garotos surgiram do fim do corredor. O que caminhava a frente exibia um sorriso largo, sem mostrar os dentes. O outro usava uma franja longa, escondendo os olhos.
— Hanamiya Makoto e Hara Kazuya — Kuroko falou naquele tom de voz indiferente — Da Kirisaki Daichi.
— Ora, ora... Finalmente encontramos o tal do Ômega — Hanamiya, o rapaz de cabelo escuro, foi dizendo. Continuou andando com clara intenção de se aproximar de Kagami para uma analise mais detalhada.
Antes que conseguisse cumprir o objetivo, a quinta presença os alcançou. Era Murasakibara e ele vinha da mesma direção de seus companheiros de Pack, com um grande pacote de amendoins caramelizados. Atraiu todos os olhares.
— Ee — falou arrastando as letras. Analisou um a um dos pretensos inimigos — Não chega perto. Ou eu esmago vocês.
Os alunos da Kirisaki sentiram a ameaça evidente do garoto e tornaram-se imediatamente cautelosos, ainda que o sorriso continuasse no rosto de Hanamiya. Com movimentos lentos e calculados, ele enfiou a mão no bolso do abrigo e tirou um aparelho celular.
— Não precisa esmagar ninguém — ele soou debochado — Mas acho que esse Ômega de vocês vai querer dar uma olhada nisso aqui.
Arremessou o telefone para Kagami, que o pegou no ar. Sentiu-se curioso.
— Te enviaremos uma mensagem. É melhor manter o telefone por perto — Hara afirmou, falando pela primeira vez na conversa.
Não esperaram resposta e deram meia volta, indo embora. Segundos após isso, consternação, preocupação e receio fluíram pelo vínculo que unia a Geração Milagrosa. Sentimentos pesados que emanavam de Kagami.
O ruivo observava o celular em suas mãos. Ainda que a tela estivesse trincada e cheia de arranhões, o reconheceria em qualquer lugar. Havia uma pequenina foto auto-adesiva colada atrás dele, inconfundível.
Era o telefone de Himuro Tatsuya.
O seu irmão.
continua...
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