Marcado
13 Capítulo 13 – Companheiros
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 13 – Companheiros
Kagami abriu os olhos. A consciência vindo a si devagar, trazendo todo tipo de desconforto. Sentia-se dolorido, como se um desfile de rolos compressores tivesse passado sobre si. A luz era clara demais, seus ouvidos zuniam, captava tantos aromas diferentes que não conseguia identificar um em específico. Ficou confuso.
Até uma mão grande tocar em seus cabelos, acarinhando meio desajeitado.
— Relaxa. Logo você se acostuma — Aomine disse — Concentre-se na minha voz.
E foi o que Taiga vez. Conforme os segundos se passavam, a adaptação aumentava. Rapidamente e de modo sobrenatural. Notou que estavam no próprio quarto. Deitados na sua cama, debaixo de um lençol. Ele muito a vontade nos braços de Daiki, só pra constar. Corou.
— Deu certo... — sussurrou para impedir o silêncio de se instalar entre eles. Apesar de envergonhar-se, não fez nada para escapar daquele abraço. Diferente de antes, não achava mais tão ruim assim envolver-se com um garoto. Tudo em relação ao Alpha, naquele instante, o acalmava e relaxava naturalmente. Apesar disso, sentia-se tímido, mas da mesma forma que se sentiria se desfrutasse tanta intimidade com uma menina.
— Claro que deu. Te disse pra confiar em mim. Só eu poderia ter feito isso.
O ruivo girou os olhos e ergueu um pouco o rosto para encarar o outro. A face de Aomine demonstrava cansaço e ele tinha as olheiras um tanto acentuadas.
— Você tá bem?
— Me responde você — sorriu torto — Não consegue sentir?
A questão fez Kagami enrugar a testa, reflexivo. Sim, ele conseguia captar fragmentos de sensações que não eram suas. Que soube imediatamente pertencerem ao Alpha.
— Sim, você está bem.
— O que mais pode sentir?
— Os sons estão mais nítidos. As cores... sinto... Kuroko aqui em casa. Sinto os outros também, longe. Mas não consigo dizer direito quem é quem. E tem uma garota!
— Satsuki.
— Meu animal interior — sorriu — Posso senti-lo agora. É um Tigre. Incrível.
Daiki sorriu. Quase disse que o próprio Kagami parecia um tigre, com aqueles caninos pontiagudos.
— O meu é uma Pantera. Não foi a primeira vez que entrei na Zona, já conhecia aquele animal insuportável.
Isso fez Taiga rir baixinho.
— Falou o Miss Simpatia.
— OE! Respeito com o seu Alpha.
— Hum... bem lembrado, Alpha. Temos que delimitar umas coisinhas antes de seguir em frente.
Disse isso em um tom de voz sério, que deixou Daiki ressabiado. Captou certo estresse vindo de Taiga.
— O quê?
— Eu estou sentindo esse negócio estranho — moveu o dedo apontado de si para o outro várias vezes — Entre nós dois. É o tal do vinculo, não?
— Sim — Aomine apertou o abraço em volta do rapaz — Estamos ligados agora. O seu animal aceitou o meu. E você me aceitou. Somos companheiros destinados.
A informação só fez o rosto de Taiga esquentar mais. Piorava saber o que o outro sentia naquele momento.
— Pode não ficar tão... animadinho com isso? É constrangedor!
Tudo que Daiki fez foi abrir um sorriso enorme.
— Não posso controlar isso.
— Ué... você não é o Alpha mais forte do mundo?
— Claro, baka. Sou um Alpha super foda. Mas tem coisas que nem um Alpha pode controlar.
O ruivo girou os olhos. Compreendeu logo que aquele vínculo era feito por três integrantes: Daiki, ele próprio e o ego do Alpha. Apesar disso, resolveu provocar um pouco e tirar aquela pose convencida.
— Você pode ser um Alpha forte, mas eu sou um Ômega. Sou mais foda que você — afirmou, querendo irritar.
Não deu certo. Foi acometido por uma onda de carinho inesperada.
— Sim, Bakagami. Você é foda pra caralho.
— Oe... — ficou sem jeito com o elogio.
— E é meu. Sabe como os outros Alphas vão morrer de inveja? Aposto que alguns vão tentar tirar você de mim! Hum... está proibido de sair desse apartamento.
Pronto. Daiki tinha o incrível dom de estragar qualquer momento que estivessem tendo. Pensamento absurdo, diga-se de passagem. Kagami nunca pensou que um dia teria um momento com outro garoto, e que estaria muito a vontade, deitado com ele na cama, prestes a ter uma DR. Mas uma DR causada por temas bobos como Alphas, Ômegas, Vínculos, Animais Interiores. Ora, quem nunca?
— Era bem sobre isso que eu queria falar — Taiga bufou — Somos companheiros! Tudo bem, esse laço mudou minha forma de pensar. Tô confortável com isso, e nem eu acredito em como foi fácil. Mas... vamos com calma, entendeu? E que uma coisa fique clara: você é meu companheiro, não meu dono.
— Começou o mimimi — Daiki resmungou — Você é um Ômega e não pode criar regra nenhuma! Só me obedecer.
— Teu rabo se acha que vou ficar seguindo ordem tua. Minha vida não vai acabar por causa disso. Já aceitei tudo de sobrenatural que me aconteceu desde que te conheci. Ser Ômega é uma parte de mim, mas não vou abandonar as outras partes só por isso.
— Lá fora é perigoso, baka.
— Nunca tive medo de perigo. Sei me defender sozinho. E você não fica dizendo que shifters vivem em Pack e mais esse monte de merda aí de força nos números?
Aomine fechou os olhos e respirou fundo. Não podiam mais contar com qualquer tipo de vantagem. A explosão de energia liberada por Kagami ao sintonizar-se com o seu animal interior devia ter sido sentida através de toda Tokyo, se não além! A presença do Ômega não era mais segredo. Cada Nascido Alpha e Beta harmonizado com seu lado sobrenatural saberia de sua existência. Nem o cordão de prata faria diferença agora.
Só uma opção poderia amenizar o que estava por vir.
— Vou marcar você — decidiu simplista.
Taiga engoliu em seco. Sabia dessa possibilidade desde que aceitara unir-se ao Tigre. De certa maneira esperava por isso, já que eram companheiros.
— Aa... como... como é isso de marcar...? — perguntou baixinho, sentindo o estomago se contrair. Ficou nervoso.
— É uma cerimônia. Deve ser feita durante a lua cheia. Nós temos que fazer sexo ritualístico na frente do Pack e...
— OQUE?!! — Taiga livrou-se do abraço para encarar Daiki — Aqueles caras vão assistir a gente fodendo?!!
Ficou tão desesperado com a idéia que o sentimento quase sufocou o Alpha. Aomine fechou os olhos e mordeu os lábios. Forte divertimento chegou a Taiga e ele soube com toda a certeza do mundo que era mentira.
— AHO! — acertou um soquinho irritado no peito de Daiki — Não teve graça!
O outro o puxou de volta para seus braços, sentindo falta do contato.
— Claro que teve graça. Você é tão inocente! Acredita em tudo o que eu falo... — a provocação fez Kagami bufar — Mas a parte da lua cheia é verdade. E do sexo também.
Sim, a afirmação veio sem qualquer resquício de mentira e fez o Ômega estremecer de leve. Seu companheiro era um garoto. E eram companheiros no sentido completo da palavra. O pacote todo, com direito a bônus e demais benefícios. Antes que ficasse incomodado, seu animal interior deu sinal de vida, tranqüilizando-o. A proximidade do Alpha também trazia calma. Soube que seria capaz de fazer aquilo, envolver-se com o outro e entregar-se. Já fizera isso, no fim das contas. Só faltava consumar.
— Tudo bem — respirou fundo, permitindo que um suspiro escapasse por seus lábios. Cansaço veio a ele — Tô com fome. Você não está?
— Faminto. Kise foi comprar algo pra gente comer. Ah, hoje é domingo, sabia? Manhã de domingo.
— O quê?! — Kagami assustou-se. Mas não sentiu que Aomine brincava ou mentia.
— Apagamos por mais de um dia. Eu dominei a sua energia e dividi com o resto do Pack. Foi forte demais pra gente agüentar. Eu acordei há poucas horas, vi que todos estavam bem. De agora em diante será mais fácil, você não tem tudo aquilo acumulado. Conforme for reunindo os elementais eles vão fluir por nosso vinculo e ir para o resto do Pack. Agora tá no automático — terminou, fazendo carinho nas costas do Ômega — Amanhã começa o Intercolegial...
— Não vou ficar em casa — resmungou — Quero jogar todas as partidas e vencer!
— Tsc — Daiki ficou contrariado — Ômegas são pura dor de cabeça!
— Tá reclamando do que? Não gostou, devolve pra fábrica! Se quer um mascote, adota um gato. Companheiros tem direitos iguais!
— Não fode, Kagami. Direitos iguais é o caralho.
— Claro, claro. Você é o Alpha, Pica das Galáxias e o Rei do Parquinho. Quer saber? Dou a mínima pra isso. Vou dizer uma única vez: se tentar me obrigar a fazer algo que eu não queira ou a agir diferente do que sou, nunca vou te perdoar.
O alerta foi dito em tom soturno, quase ameaçador. Daiki entendeu o recado. Respeito deveria ser a base daquela relação. Já tinham personalidades complexas, eram parecidos e ao mesmo tempo muito diferentes! Realmente Alpha e Ômega.
— Não diga como se fosse simples, Bakagami. Agi assim a minha vida toda. Não faz idéia de como é difícil ser um Alpha e ter a merda de um animal possessivo como shifter.
— Não use por desculpa — acomodou-se melhor sobre o peito do outro. O cansaço sobrepujando a fome — Tente pelo menos. Não sou um objeto que pode possuir.
Fragmentos daquela exaustão flutuaram até Daiki. Não podia condená-lo, pois suas forças haviam sido drenadas na sexta-feira. Harmonizar com a parte sobrenatural também cobrara um alto preço. Agora Kagami usufruía do fator de cura acelerado, mas para quem estivera a beira da morte a recuperação não viria tão rápida. Suas mãos continuaram acarinhando as costas do Ômega, ajudando-o a relaxar.
— Descanse, baka. Quando Kise chegar eu te acordo.
— Hn... — Taiga não relutou.
Aomine segurou um suspiro, avaliando o que podia do rosto do outro naquela posição. Quem diria, uma conversa na cama. Sem nenhum sentido romântico, diga-se de passagem. Pensou que seria ótimo se Kise não demorasse, também estava faminto. E cansado. Queria voltar para a cama e recuperar-se o máximo possível para o Intercolegial. Não apenas para jogar bem, mas para manter-se alerta e cuidar daquele cabeça dura que era seu companheiro. Comer e dormir eram as ordens do domingo. Pensou, também, na felicidade do Ômega quando ele percebesse que teria que mandar arrumar a porta e os vidros da janela, destruídos com o poder irradiado durante a harmonização. Reflexões que começaram a se misturar por conta do cansaço.
“Pode voltar a dormir, Aomine kun. Quando Kise kun chegar eu acordo vocês.”
— Valeu, Tetsu — agradeceu, verdadeiramente grato pela oferta. Franziu as sobrancelhas intrigado. A compreensão do que acontecera veio rápida a si. “Tetsu?”
“Sim, Aomine kun?”
O sangue de Daiki gelou em suas veias. A voz de seu Beta soara direto em sua mente, em resposta aos pensamentos que tivera. Telepatia! Chocado, abaixou os olhos para o rapaz que adormecera em seus braços.
Aquele era mais um milagre que um Ômega podia fazer?!
continua...
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