Marcado
8 Capítulo 08 – Detalhes
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 08 – Detalhes
Entrou no Maji Burger sentindo-se como se caminhasse para a forca, condenado por um crime que não cometera. Mas era algo constante desde que descobrira aquela história incrível de ser um shifter, um Ômega cobiçado por outros da mesma raça.
Raça. Palavra que ganhara um novo significado: Taiga sequer podia se considerar humano!
Sua primeira reação fora arriscar escapar desse mundo e tentar seguir em frente como se nada tivesse acontecido, na medida do possível. Infelizmente não era tão fácil. Não podia dar as costas e agir como antes. Ainda que fugisse do sobrenatural, ele o encontraria.
E, no fim, Taiga não era de correr dos desafios. Passado o primeiro momento de choque, e tentando refletir sobre as possibilidades acabara entendendo o que era evidente: precisava de ajuda, necessitava conhecer mais sobre o mundo recém descoberto. Não conseguiria nada sozinho.
Por isso aceitara se encontrar com Aomine Daiki, o Alpha da famosa Geração Milagrosa que, por baixo dos panos, era um dos Packs mais poderosos de Tokyo. Teoricamente, o garoto poderia ajudá-lo a sintonizar com o seu animal interior, forma que eles se referiam a algo que Kagami ainda não compreendia bem. Quem sabe fizesse sentido quando conseguisse?
Só então se preocuparia com o golpe final: pelo visto, precisaria escolher um grupo e se unir a ele! Seu plano inicial fora seguir sua vida sozinho e não se abalar. Isso até ter tido contato com um tal Tsugawa, um garoto de outro colégio, um Beta; muito interessado em Kagami e em suas supostas habilidades.
Kuroko deixara claro que aquele não seria um caso isolado. Havia grande chance de outros virem falar com ele. Taiga era esperto o bastante para aceitar que Tetsuya tinha razão em um ponto: um mau caráter poderia querer obrigá-lo a algo contra sua vontade. Era forte, corajoso, destemido. Mas e se enfrentasse um grupo inteiro? Poderia se defender sozinho? Seu leque de escolhas fechava-se minuto após minuto. A não ser que se mudasse para uma ilha deserta, a conclusão mais lógica é que se unisse a um desses malditos Packs.
Só não tinha certeza de que deveria fazer isso com a Geração Milagrosa, mesmo que Aomine Daiki ficasse alardeando por aí, sem sombra de vergonha, que eram companheiros destinados! Ou melhor, principalmente por isso!
Pra piorar não estava conseguindo contato com seu irmão. Himuro não respondia suas mensagens e e-mails. Nem atendia as ligações. Estava preocupado.
Com todas aquelas dúvidas tirando sua paz de espírito, Kagami comprou uma montanha de hambúrgueres e foi sentar-se em uma mesa vaga. Imaginava que Kuroko ou Kise estivessem rondando por aí. Ainda não se acostumava com a sensação de ser vigiado. VIGIADO. Kagami odiava pensar que eles faziam isso por proteção. Não era uma garota e... okay. Sua condição não permitia ser tão condescendente. Deveria ficar grato por eles cuidarem do seu traseiro.
Respirou fundo, pegando um dos lanches para começar a comer. Ia ficar louco daquele jeito!
Antes que desse a mordida, uma calma o atingiu. Ela veio devagar, preenchendo seu ser e afastando os pensamentos preocupados, dissipando a tensão. Relaxou na cadeira, o apetite voltando aos poucos. O pessimismo foi sumindo e Taiga sentiu como se o futuro não fosse assim tão ruim, diante das perspectivas.
Sentiu-se tão bem que foi impossível não estranhar. Ergueu o rosto para ver se mais alguém parecia sentir tamanho bem estar, mas seus olhos foram imediatamente atraídos para a porta da lanchonete. Aomine acabara de chegar.
O garoto caminhou confiante, mas sem pressa, até a mesa de Kagami e sentou-se. Ergueu a sobrancelha ao ver que o ruivo corava.
— O que foi, Bakagami?
— Nada — respondeu de mau humor. Todas as boas percepções desaparecendo, porque Aomine era um irritante que mexia com suas estruturas! Nunca ia revelar a sensação de leve euforia que o deixara feliz com a chegada! Preferia jejuar um mês inteiro a dar essa satisfação ao outro. E, pior, não queria pensar no que isso significava para o seu futuro. Seria o tal lance de “companheiros destinados”?! Quase gemeu.
Daiki sorriu torto. Captou a mentira na simples palavra. Além disso, sentira a mesma coisa que o outro assim que entrara no Maji Burger. Não conseguia descrever a emoção de estar no mesmo espaço que seu companheiro. Era surreal.
— Se você diz... — desdenhou, roubando um dos lanches para si, sem pedir permissão.
— OE! — Taiga reclamou de boca cheia — Isso é meu!
— Você me chamou aqui, baka. Pague o meu hambúrguer pelo menos — exigiu. Como o Ômega não reclamou, ele mordeu. Depois de mastigar e engolir, perguntou — Você está bem?
A questão surpreendeu Taiga, parecia preocupação sincera.
— Aa... — respondeu desviando os olhos — Por quê?
— Tetsu me contou sobre o moleque da Seiho. Eu devia ter imaginado que a melhora de Seirin não passaria despercebida — balançou a cabeça se repreendendo — Temos que consertar rápido. É sobre isso que quer falar?
Kagami mastigou a comida devagar, ganhando tempo para começar a conversa. Pensava em como abordar o assunto e o pedido a fazer.
— Kuroko disse que você pode me ajudar a... harmonizar com esse negocio aí de animal interior. Já fez isso antes? Sabe como é?
Daiki recostou-se na cadeira. Analisou rapidamente as pessoas ao redor. Eram apenas humanos, não havia nenhum outro shifter por perto. Era seguro conversar. Sem contar dois de seus Betas que vigiavam lá fora.
— Eu nunca fiz, mas já vi meu pai fazendo. Não é nada complicado, pelo menos com Betas. Com Ômegas não sei se é mais complicado ou se é a mesma coisa.
— Demora?
— Isso é relativo — Daiki mordeu um pedaço do lanche, mastigou devagar e engoliu — Não depende do Alpha, depende de você e da sua disposição em aceitar a união com seu animal interior. Depende do seu animal também. Você nunca o sentiu?
Taiga balançou a cabeça. Tinha um instinto apurado, às vezes uma forte intuição sobre as coisas, mas nada que julgasse sobrenatural, apenas aquele sexto sentido inerente à natureza humana, herdado pelos ancestrais. Algo primitivo e fundamental à sobrevivência. Nada que ligasse a algum animal que existisse em sua alma ou aquele lance de shifters.
— Acho que não.
— “Acha”? Essas coisas a gente não “acha”, baka. Se ta indeciso é porque nunca sentiu.
O ruivo lançou-lhe um olhar rancoroso. Até que demorara para ele estragar tudo. Por que tinha que ser tão irritante?!
— Vá a merda — resmungou chateado.
Aomine riu.
— Não fica bravinho. É divertido provocar você. Quase tão bom quanto estar aqui, perto — confessou sem pudor algum, pegando Kagami de surpresa. O Alpha estava colocando em palavras exatamente o que sentia: era bom estar próximo. Desde que Daiki chegara Taiga sentia-se bem, muito bem. Como se estar com Aomine fosse certo.
— Na verdade... eu notei que quando a gente tá perto... acontecem umas coisas estranhas — o pobre ruivo se viu confessando sem poder evitar. Não adiantava manter segredo do que estava se passando — Acho... acho não, tenho certeza que não sou eu. Isso é meu... esse... animal interior.
Daiki ouviu aquilo com seriedade. Significava algo profundo e que gostara de saber com certeza.
— Sim. É o seu animal e ele me reconheceu como companheiro. Sinto coisas parecidas com as que você sente. E quer dizer que você já teve algum contato com seu animal interior. Nem é tão estranho se pensar bem: um simples humano não seria tão bom quanto você no basquete.
O ruivo mastigou em silêncio por algum tempo. Era tanta informação, tantos meandros e detalhes! Precisava de tempo para assimilar tudo o que ouvia.
— Você pode me ajudar? — desconversou — Sem um vínculo?
— Posso, apesar de que se tivéssemos um seria bem mais fácil...
— O que é isso de vínculo afinal de contas? — foi vencido pela curiosidade.
— É como para os humanos: um vínculo é um laço, uma ligação — Daiki explicou, seu animal estava adorando a atenção recebida do outro garoto — Um Ômega atua como elo entre a Natureza e o Alpha. O único que pode ter um vínculo de transferência com o Omega é o Alpha. E o Alpha tem vínculos de transferência com Betas. Através dessa ligação divide a energia do Omega, fortalecendo todo o Pack. Um Alpha e um Ômega podem ter um vínculo de amizade, teoricamente falando. Mas no nosso caso não, porque nossos animais se reconheceram como companheiros.
Kagami gelou. O lanche desceu difícil pela garganta. Aquele era um tópico delicado.
— Companheiros tipo namorados?
— Sim, tipo namorados.
— E está tudo bem pra você? Ser companheiro de outro cara?! — o desconforto de Taiga chegou até Aomine, que respirou fundo.
— Nossa raça não é tão condicionada. Quando um shifter reconhece outro não é apenas pelo gênero. É o cheiro, a essência, a atitude, todo o conjunto. Fragmentos captados no primeiro encontro definem o futuro do vínculo: amizade, rivalidade, companheirismo...
— É sempre assim? Isso de reconhecimento imediato? — havia admiração em sua voz.
— Claro. É fundamental para estabelecer alianças, definir inimigos, criar estratégias. Os shifters tendem a se unir com shifters de mesma essência. Significa que alguém de uma índole diferente nunca faria parte do meu Pack — de propósito Daiki ocultou informações sobre o tempo, que não era exatamente ‘imediato’, mas Taiga só entenderia quando experimentasse na pele e conhecesse seu animal interior, assim como ocorrera com o Aomine, o único no Pack capaz de ver o seu até o momento.
— Alguém como...? — a pergunta tirou Aomine de seus pensamentos, fazendo-o erguer as sobrancelhas.
— Quer o nome de um Alpha ou Beta? Você conhece algum?
— Não, mas usa um exemplo de um famoso, Aho. Só pra eu entender melhor.
O outro garoto refletiu por um instante. Pegou o copo de Kagami e terminou de beber o resto do refrigerante sem pedir permissão.
— O Gackt não faria parte, shifters com grandes diferenças de idade não se vinculam fácil. As gurias do Girls Generation também não: elas não tem peitão. E o filho do Primeiro Ministro, ele saiu no jornal por manter caso com três pessoas.
—...
— O que foi?
— Isso é sério ou você tá me zoando?
Aomine enrugou a testa.
— Por que seria zoação? Os tipos de pessoa que eu não aprecio não entram no meu Pack, porque eu nunca faria um vínculo positivo com elas.
— Peitões? — Taiga perguntou com um bico, sem entender o brusco incomodo que o deixou de mau humor — Eu não tenho peitões, como seu animal aí me reconheceu por companheiro?
Daiki deu um sorriso cheio de si. Captou o ciúme como se fosse um letreiro piscando em néon numa estrada escura durante a noite. A provocação veio a ponta da língua e ali ficou. Seu animal remexeu-se incomodado, quase como se lhe desse uma bronca. Um aviso de que não podia estragar o avanço que conseguira com dificuldade.
Respirou fundo, conformando-se em jogar pelas regras.
— Não seja retardado. Eu só estava dando exemplos que você pudesse entender. Não dá pra reduzir uma pessoa a “peitões” ou uma única característica. Meu animal o reconheceu como alguém digno. Não questiono essa decisão, apenas aceito.
— Isso é bizarro — Kagami resmungou — Mas é a minha realidade agora. Então você vai me ajudar...?
— Se pedir com jeitinho... — insinuou maldoso, ignorando os alertas de seu animal interior.
— Deixa pra lá! — o ruivo arrependeu-se de ter dado crédito, mas Daiki riu de sua reação.
— Agora estou te zoando, baka. Akashi quer uma reunião amanhã para falarmos sobre isso. Parece que Midorima teve algum sonho estranho. O que acha de conhecer o resto do Pack e aproveitar para tentar se harmonizar com seu animal interior?
— Akashi?
— O capitão da Geração Milagrosa. Ele é um Beta, mas gosta de brincar de Alpha. Eu não me importo com isso, é divertido.
— E essa reunião pode ser no meu apartamento? — Kagami perguntou desconfiado. Se estivesse no seu território podia controlar tudo melhor.
— Vai se sentir mais seguro assim? — Daiki adivinhou a intenção apenas ao captar os sentimentos do outro — Tudo bem. Se é um desejo do meu Ômega.
— OE! Não sou “seu” Ômega! — reclamou, sentindo o rosto esquentar.
Aomine riu sem levar o rapaz a sério. Era difícil não provocá-lo! Taiga parecia ter nascido para isso. Era tão perfeito...
— Amanhã, às seis horas no seu apartamento — decretou — Então vamos fazer o que deve ser feito.
O ruivo engoliu em seco, ansioso e temeroso ao mesmo tempo, desejando apenas que tudo corresse bem.
continua...
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