Marcado
9 Capítulo 09 – Pack
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 09 – Pack
Quando Kagami abriu a porta e deu de cara com Aomine nem se surpreendeu, apesar dele não ter sido anunciado pela portaria. Não duvidou nada que tivesse usado o lance de shifter para passar despercebido. Ninjas espalhados pelo mundo, morram de inveja. Um insight temível o fez cair em si: se Daiki conseguia aquilo, havia grande chance de outros também conseguirem acesso ao seu apartamento. Momento inoportuno para deboche. Assustador.
O Alpha não vinha sozinho. Kuroko e Kise estavam com ele.
Cedeu passagem depois dos cumprimentos usuais, permitindo que entrassem em sua casa. Nem estranhou quando Aomine seguiu para o sofá e acomodou-se como um rei sentando no trono. Largou a bolsa no chão, de qualquer jeito.
— As coisas parecem bem calmas — Ryota falou ao sentar-se do lado de Kuroko, ambos deixando as mochilas sobre o colo — Nada aconteceu no meu turno de vigia. Algo a relatar, Kurokocchi?
— Não — o rapaz respondeu — Nada relevante ou anormal.
Kagami sentou-se ao lado de Daiki e lhe lançou um olhar agudo. Não se sentia bem em saber que aqueles dois estavam obrigados a se revezarem durante a noite para cuidar de sua segurança. Ainda que não aparentassem cansaço era desconfortável para si. Sentia-se culpado, embora soubesse que nada do que falasse mudaria aquilo.
— Momoi não virá — Kuroko informou — Akashi kun a dispensou da reunião.
Não entendiam bem o porquê. Talvez fosse explicado, ou talvez não. O capitão do Pack podia ser incompreensível às vezes.
— O rastro de Seiho desapareceu de Seirin — Daiki quase se deitou no sofá, mudando de assunto. Era tão agradável ficar ao lado de Taiga — Mas não são eles que me preocupam. Ee? Murasakibara acabou de chegar. E Midorima.
O ruivo não escondeu a surpresa. Algum dia compreenderia todas as nuances que envolviam shifters e Packs? Apesar de tudo, compreendeu a deixa e foi abrir a porta antes que batessem. Seu queixo caiu ao dar de cara com os recém chegados, principalmente o que vinha a frente. Pelo visto Daiki esquecera de mencionar que um dos seus Betas era a muralha da China. Como o cara era alto!
— Y-yo — gaguejou, cedendo passagem. Notou que havia outro rapaz atrás, que usava óculos, não tão alto quando o primeiro, mas ainda assim mais alto que Kagami.
Nenhum dos dois respondeu o cumprimento, entrando no apartamento sem pedir licença. Taiga se perguntou se aqueles caras eram mesmo integrantes da famosa Geração Milagrosa, pois não pareciam em nada cordiais. Questionou silenciosamente que tipo de vínculos eram aqueles! Fechou a porta emburrado.
— Akashi não chegou? — foi o rapaz de óculos que perguntou, seu tom era sério.
Antes que alguém respondesse, Kagami apontou para a mão dele, de dedos enfaixados.
— Por que você está com um coco verde? — o ruivo perguntou, estranhando. Intrigou-se mais ainda com o fato de que nenhum dos outros pareciam incomodados, como se fosse perfeitamente normal alguém andar por aí carregando alimentos típicos de países tropicais.
— É o item da sorte do dia. Midorimacchi nunca sai de casa sem um — Kise respondeu divertido, afastando-se para o lado, cedendo espaço para que o garoto de óculos sentasse entre ele e Kuroko.
Kagami deu de ombros e deixou pra lá. Foi até a cozinha e voltou com duas cadeiras. Colocou uma perto do outro rapaz, que só podia ser o tal Murasakibara. Porém ele ignorou a oferta e continuou de pé. Segurava uma caixinha de Pocky de morango na mão e tinha um olhar desinteressado no rosto, embora avaliasse Taiga de cima a baixo.
— Ee? Esse é o Ômega, Mine-chin? Parece tão fraquinho...
— Oe! — Kagami sentiu-se ofendido com aquilo. Podia ser muitas coisas, mas fraco não era.
— Não pense isso, Murasakibara kun — Kuroko defendeu, enquanto Ryota tentava disfarçar a risadinha.
— Ele não sintonizou com o animal interior — Midorima se meteu, levava o coco no colo e deixara a mochila aos seus pés — Anos sem aparecer um Ômega e o que vem é inútil.
— OE! — Taiga acabou de decidir que não ia com a cara de nenhum daqueles dois.
Aomine bateu de leve no estofado do sofá, chamando-o para sentar-se ao seu lado; exibia um sorriso torto de quem estava se divertindo um bocado com tudo o que assistia. Foi obedecido apesar da má vontade, fato que não passou despercebido pelos Betas.
— Pelo menos tá bem ensinado — Midorima provocou, ajeitando os óculos no rosto.
Aquilo fez o ruivo se arrepender amargamente das decisões tomadas nos últimos dias. Se preparou para expulsar os cinco do apartamento e publicar um anúncio no jornal se colocando a disposição de qualquer outro Pack, exceto a Geração Milagrosa. Porém, naquele exato segundo, o clima na sala mudou completamente. Foi algo tão abrupto que até Taiga notou a tensão.
— Aka-chin — Murasakibara amassou a caixinha de Pocky e a colocou no bolso lateral da mochila, em seguida pegou uma embalagem de batatinhas estilo Chips.
O Ômega entendeu que o último integrante acabara de chegar. Antes que se levantasse do sofá para atendê-lo, a porta se abriu e um garoto entrou como se estivesse na própria casa. Não era nada parecido com a imagem mental que Kagami criara, exceto pela forte presença. Akashi intimidava. Mas de um jeito que não tinha a ver com a natureza shifter, Taiga intuiu assim que pôs os olhos sobre ele. Se aquele cara tivesse nascido como simples humano, causaria o mesmo efeito impactante.
— Excelente, estão todos aqui — falou, dispensando qualquer saudação ou apresentação, olhando de modo sugestivo para o Alpha, que sabia sempre se atrasar para os compromissos — Daiki, você explicou tudo para o Ômega?
— Aa — ele concordou, já que tivera duas conversas muito esclarecedoras com Kagami — O básico pelo menos.
— Shintaro teve outra premonição — o capitão foi falando sem demonstrar vontade de perder tempo ou sequer sentar-se — Uma que atrapalha os meus planos.
Todos olharam para Midorima, que revelou:
— Os sinais indicam que algo irá acontecer com vocês dois — ele apontou o Alpha e o Ômega — Em um futuro muito próximo.
A notícia caiu como uma bomba. Taiga pensou em debochar, mas as expressões dos outros shifters mostraram preocupação na medida certa, exceto por Murasakibara, que parecia mais interessado nas batatas.
— Alguma chance de estar errado, Midorimacchi?
— Nenhuma. Eu nunca erro — o rapaz respondeu, arrogante.
— Quando? — Aomine perguntou.
Ele deu de ombros.
— Da mesma forma que eu sabia que um Ômega apareceria no Japão, eu sei que algo vai acontecer com vocês. Mas o sonho não diz o como, nem o quando ou onde.
— Isso me obriga a acelerar os planos — Akashi estreitou um pouco os olhos, visivelmente analisando a situação, como um excelente jogador de shogi avaliando o próximo passo — Daiki, você precisa ajudar esse Ômega a encontrar seu animal interior. Ainda não criaram um vinculo?
A última parte veio em tom de repreensão.
— Não — Aomine respondeu. Pôde sentir a irritação de Kagami crescendo, assim como desconforto e as defesas se erguendo. Aquilo era péssimo.
— Aomine kun e Kagami kun tem um acordo, Akashi kun — Kuroko informou, tentando cortar o clima estranho que se formava.
O capitão da Geração Milagrosa ergueu uma sobrancelha.
— Um “acordo”? O único acordo que existe em nosso mundo é que Alphas dominam Ômegas — repreendeu Aomine com o olhar — Não deve ser tão difícil assim...
Não, não era nada difícil, Aomine bem o sabia. Mesmo que sua voz de comando ainda não funcionasse com Kagami, poderia ter dominado desde o começo, já que sua força sobrenatural sobrepujava o outro em tudo. Porém, mais do que um Ômega, aquele cara era seu companheiro destinado. Nem Daiki, nem seu animal interior usariam tal tipo de violência contra o parceiro. Aproveitar-se da força para fazê-lo sucumbir, aos olhos de Aomine, beirava o abominável.
— Tudo aconteceu muito rápido — Ryota tentou aliviar. Recebeu uma mirada seca de Akashi.
— Não adianta termos um Ômega se não pudermos usá-lo.
— Concordo — Midorima manifestou-se.
— Vamos recuperar o tempo perdido. O mais importante é harmonizar a parte humana com a parte animal — o capitão foi falando. Fizera bem em dispensar a fêmea do Pack, que poderia ser bem problemática em relação ao que pretendia — Tetsuya, vá a cozinha e me traga algumas facas. A dor é o método mais eficaz, pode facilitar o vínculo também.
A medida que aquelas palavras soaram, um silêncio tórrido, mas não absoluto, os alcançou. Ainda se ouvia o som de batatinhas Chips sendo mastigadas. Mais nada. Apesar do tom incisivo, Kuroko não se moveu.
Taiga entreabriu os lábios, sem nada dizer. Dava-se conta naquele instante do quão perigosa era a sua situação. E frágil. Estava em sua casa, sim, mas a confiança desapareceu rapidamente. Se aqueles seis resolvessem fazer algo contra si, não teria a menor chance de defesa.
Arrependimento e receio emanaram do ruivo, alcançando os shifters. Seu primeiro impulso foi rebelar-se. Não permitiria que aqueles planos de tortura se concretizassem. Ou, pelo menos, não cairia sem lutar.
Todavia, antes que fizesse qualquer coisa, o Alpha colocou uma mão em seu joelho, praticamente sem sair da posição displicente. Segurança e calma fluíram através do toque leve, de tal forma que Kagami relaxou. Compreendeu o que acontecia: era uma mensagem do animal interior de Aomine.
— Ne, Akashi — o Alpha falou arrastando as palavras, seu tom era descontraído — Pode brincar de Alpha o quanto quiser que eu não dou a mínima. Mas o meu companheiro você não vai machucar.
continua...
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