Marcado
7 Capítulo 07 – Amizade
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 07 – Amizade
Taiga teve uma noite péssima. Não conseguiu desligar a mente um segundo sequer, com todas aquelas novidades bailando por sua cabeça. No outro dia, juntou os cacos e foi se arrastando para a escola.
Evitou a companhia de Kuroko por toda a manhã. Ou melhor, ele tentou, já que o rapaz surgia do nada quando menos esperava. Mas Tetsuya respeitava o espaço requisitado, mantendo-se a distância, sem forçar contato.
Kagami sentia aqueles olhos inexpressivos sobre si o tempo todo. Começava a se enervar com a vigilância. Se eles achavam que iam dobrá-lo dessa forma estavam muito enganados!
Por outro lado, andava muito desconfiado de tudo e todos ao seu redor. Haveria mais algum shifter em Seirin? Ou seriam todos humanos? Deveria ter perguntado aquilo quando tivera a chance.
Também tentou se concentrar e sentir algo diferente em si, algum contato com o tal animal interior que tanto ouvira falar. Nada. Ou sua fera era muda ou tímida demais...
Almoçou sozinho, escondido no telhado. Embora a sensação de ser seguido não o abandonasse, foi incapaz de notar Kuroko por perto. Ele era realmente bom na arte de se camuflar! Ou talvez fosse algum outro stalker... não! Nada de paranóia.
A segunda parte do dia voou. Geralmente Kagami se sentia sonolento depois do almoço, junte a isso a noite em claro e o resultado foi óbvio: Taiga encostou-se na carteira e entrou em coma pelo resto do período. O professor até tentou acordá-lo, em vão.
O sinal do término das aulas serviu como um agradável despertador que tirou Kagami do seu sono pesado. Ele juntou as coisas rápido e foi apressado para o treino de basquete, onde os veteranos já se aqueciam.
Como o Intercolegial se aproximava, a técnica decidiu intensificar os exercícios. Ficou mais exigente. Tinham excelentes novatos e uma chance real de vencer! Kagami e Kuroko eram tão bons que pareceriam abençoados com algum poder sobrenatural! Seirin seria a estrela da competição.
Assim que foram dispensados, Taiga decidiu partir. Deixou para tomar um banho quando chegasse em casa. Não queria sentir-se tão vigiado. A sensação era ruim, ainda mais ao olhar em volta e não perceber nada.
Como treinaram além do horário, poucos alunos ainda estavam por ali. Ele atravessou o pátio deserto e saiu pelo portão, mas não chegou a dar dois passos.
— Ei você! — alguém chamou — Cabeça Vermelha!
Taiga olhou para trás, com uma expressão intrigada no rosto. Só então reparou no rapaz encostado no muro. O desconhecido vestia uniforme de Seiho, usava o cabelo em um corte muito curto, praticamente raspado e sorria parecendo feliz ao extremo.
— Tá falando comigo?
— Tem outro Cabeça Vermelha por aqui? — o garoto desencostou-se do muro e se aproximou, dando uma volta ao redor de Taiga enquanto o analisava — É com você mesmo.
— OE! Quem é você?
— Meu nome é Tsugawa Tomoki. Eu jogo basquete pelo meu colégio — ele falou parando em frente a Kagami.
— O que você quer comigo? Tô atrasado — fez menção de afastar-se, mas Tsugawa agitou as mãos, animado demais.
— Espera! Não! Deixa eu me explicar. Seirin é um colégio novo e o time de basquete não é lá essas coisas — falou sem deboche, todavia deixando Taiga um tanto ofendido — Mas nós começamos a ouvir sobre uma melhora incrível e dois novatos lendários. Um deles eu sei que é da Geração Milagrosa, um Beta. Mas o outro me deixou curioso...
Ouvir aquilo colocou o ruivo na defensiva. Se o garoto falava sobre shifters com tanta naturalidade devia ser um deles, não?
— Então eu vim ver com meus próprios olhos, mas... — Tsugawa levou uma mão ao queixo e estreitou os olhos na direção de Kagami — Você não é humano, com certeza! Eu quase não percebi, porque a sua energia ta muito fraquinha. Não é um Beta como eu. Não tem cheiro de Alpha... usa prata! O que você é?
Terminou a interrogação lançando um olhar curioso na direção do ruivo, que ficou tenso imediatamente. Não esperava ser abordado por um shifter assim tão rápido! E um que já lançava o assunto sem qualquer preocupação em ser discreto.
— Sou alguém que só quer paz — resmungou olhando de um lado para o outro, calculando a melhor rota de fuga.
— Eu queria que viesse comigo conhecer meu Alpha. Temos um Alpha em Seiho que vai te achar o máximo. Talvez ele saiba o que você é na verdade...
A sugestão deixou Taiga ainda mais na defensiva. O garoto não parecia uma ameaça, mas fora pego de surpresa pela aproximação repentina. Obviamente jamais iria conhecer Alpha nenhum de colégio nenhum. Só queria paz!
— Talvez um outro dia — resmungou pronto para sair dali.
— Então devo insistir — Tsugawa aumentou o sorriso — Não me leve a mal. Acredito que você seja o responsável por essa melhoria inexplicável que aconteceu a Seirin. Vim de Seiho para ver com meus próprios olhos. Não seria cortês recusar meu convite...
— O que não é cortês é a sua insistência, Tsugawa kun.
A chegada repentina de Kuroko atraiu os olhares dos outros dois. Nenhum deles soube dizer desde quando o silencioso rapaz se aproximara, da direção da escola. Mas sua presença fez o sorriso do aluno de Seiho sumir.
— Você é um Beta. Aquele da Geração Milagrosa. Ouvi que tinha vindo para cá.
Kuroko não respondeu, ele continuou avançando até parar entre Kagami e o visitante, fato que deixou Taiga incomodado. Era ele que deveria enfrentar a situação, não Tetsu!
— Oe! — chegou a exclamar, mas foi ignorado.
— Você é um Beta defensivo — Tsugawa disse com certo desprezo, fazendo uma careta.
— Betas defensivos também atacam. E ficam ferozes quando tem algo a proteger — Kuroko não se abalou com o menosprezo — Kagami kun disse que não vai hoje. Volte outro dia.
— Tsc — enfiou as mãos nos bolsos, dando-se por vencido. – Na próxima vez convenço Iwamura senpai a vir aqui. Você vai ver que a gente é legal, Cabeça Vermelha.
Disse isso em guisa de despedida e virou as costas, afastando-se dali sem olhar para trás.
— Recomendo que não vá direto para casa, Kagami kun. Não deixe que saibam onde mora. Pode ser perigoso.
Só então Kuroko virou-se para olhar o companheiro de time.
— Não preciso de babá — o ruivo resmungou — Posso me cuidar sozinho.
A reclamação não abalou Tetsuya. Na verdade, Taiga aprendia aos poucos que nada parecia tirar o rapaz de seus eixos. Nunca vira alguém tão centrado, analítico e racional.
— Não duvido de sua capacidade, Kagami kun. Mas sem harmonizar com seu animal interior você está em desvantagem em uma luta contra outro shifter. Nas quadras nos seguramos para não chamar atenção demais e causar desconfiança. Mas em caso de uma briga, nada limita.
Contra esse argumento não podia fazer nada. Nunca enfrentara nenhum deles em suas condições extremas.
— Por que está me ajudando? Isso não vai me fazer mudar de idéia!
— Não me entenda mal, Kagami kun. Sei que está chateado e decepcionado comigo. Você esquece que toda aproximação é movida por interesse. Se eu me tornasse seu amigo apenas pela afinidade ao basquete você se sentiria melhor?
—...
A pergunta fez Kagami refletir. Kuroko não deixava de ter sentido. Mas ainda se sentia magoado e um tanto ofendido. Não era um objeto para ser cobiçado. Segurou na alça da bolsa com mais força. Se aquele cara de Seiho era uma indicação do que estava por vir então o futuro se mostrava negro.
— Me aproximei porque você é um Ômega. Mas descobri que Kagami kun é uma boa pessoa e quero que tenhamos um vínculo, mesmo que não escolha a Geração Milagrosa como Pack. Eu disse que seria a sombra de Kagami kun e vou protegê-lo até que escolha um grupo. Não permitirei que obriguem você a fazer algo que não queira.
— Por quê? — não compreendeu a atitude. Estava recusando juntar-se a eles! Então pra que ser legal consigo?
— Porque somos amigos — o outro respondeu simplista, surpreendendo Taiga — Tsugawa kun faz parte de um Pack bem tradicional. Um dos Alphas é senpai em Seiho, mas creio que Tsugawa kun é imaturo demais para perceber que Kagami kun é um Omega. Ainda estamos em vantagem. Mas isso logo vai mudar. A notícia irá se espalhar e você será o centro de toda a atenção.
— Você conhece todos os Alphas e Betas?
— Alguns, não todos, claro. E sei o bastante para temer a aproximação de alguns. Nem todos irão se anunciar como Tsugawa kun ou agir sem ter certeza do que Kagami kun é.
Taiga respirou fundo. Aomine tinha razão em uma coisa: expulsá-los de sua casa não fizera os problemas sumirem. Alguns segredos não podiam ser mantidos para sempre. E nem podia culpar a Geração Milagrosa por isso. Tsugawa dissera que a melhoria de Seirin chamara a atenção e que essa melhoria era sua culpa. Outros chegariam a tal conclusão muito em breve. E o veriam jogar no Intercolegial.
— Kuroko... eu preciso de ajuda.
— Hn. Dê uma chance para Aomine kun. Ele é um Alpha poderoso, o mais poderoso que eu conheço, e pode ajudar você a harmonizar com seu animal interior. Não precisa aceitar o vínculo enquanto isso. Decida depois, Kagami kun.
— Se eu sintonizar com meu animal, — ainda era estranho dizer esse tipo de coisa; mas não tinha opção — posso ficar mais forte? E me defender sozinho?
— Em teoria sim. Ômegas são raros, por isso não tenho certeza. Quanto a se defender sozinho... com certeza não. Shifters precisam de Packs. Números nos fazem fortes. Nada garante que o próximo a mostrar interesse seja um simples Beta ou venha sem companhia.
Taiga ergueu os olhos e fitou o alto céu azul. Sentiu-se um pouco encurralado, porém o que poderia fazer? Talvez dar uma chance a Geração Milagrosa? Se eles ajudassem a entrar em contato com o bendito animal interior seria mais fácil decidir o próximo passo.
— Tudo bem, Kuroko. Diga aquele Aho que eu quero falar com ele e esclarecer alguns pontos.
— Obrigado, Kagami kun — o garoto balançou a cabeça, sem demonstrar o alívio que sentia. Recebera uma mensagem de Akashi naquela manhã, convocando uma reunião urgente para sexta-feira. Isso daria tempo suficiente para combinar um encontro entre Aomine Kun e Kagami kun.
E talvez ambos se acertassem.
continua...
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