Marcado
33 Capítulo 33 – Ofensiva
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 33 – Ofensiva
Akashi estava no apartamento de Kagami, parado em frente a porta de vidro que dava acesso à sacada. Mantinha os braços cruzados e os olhos fixos na paisagem lá fora. Podia dizer que o sol estava prestes a se pôr. Como? O céu cinzento escurecia gradualmente, escurecendo também os arranha-céus. Porém, a certeza vinha de algo além do óbvio. Como se seu animal interior fosse capaz de dizer o avançar das horas graças ao imperceptível movimento de rotação da Terra. A relação com a natureza estreitara-se a ponto de praticamente descartar o uso de relógios.
Não apenas isso. Seijuro se percebia capaz de orientar-se através das direções, podia sentir com a precisão de uma bússola em que sentido ficava o norte, como se o imã incrustado nas entranhas da terra sussurrasse o caminho.
Habilidades que talvez tivessem perdido a serventia em um mundo tão moderno, mas representavam um regresso à herança shifter. O fazia pensar em quão poderosa sua raça era e o quanto perderam ao afastar-se da natureza.
E isso era o simples inicio. Tornar-se-iam mais fortes no decorrer do tempo, pois não apenas Akashi, mas todos os Betas foram agraciados com aquela evolução em seus poderes. Seriam invencíveis. Mas, para tal, precisavam recuperar o Alpha e o Ômega. Tornar o Pack unificado novamente.
De toda aquela situação, tirava uma lição muito importante: fazia parte de uma geração nascida em um mundo moderno. Precisava aprender a equilibrar o novo com o ancestral. Ou cometeria mais erros como aquele.
Agora as coisas faziam sentido. Principalmente a forma simples como Hanamiya lhe passara a perna. Era humilhante. Uma brecha encontrada e usada como ponto fraco.
Akashi nascera em uma família tradicional e rica. Criara-se de forma clássica na comunidade shifter. Dividia seu tempo entre a educação e a arte, fazia aulas de pintura e violino. Jogava shogi. E basquete.
A tecnologia incorporara-se a sua vida assim como à grande parcela da população de forma básica: tinha o celular para contato imediato. O computador para trabalhos escolares. Tablet para pesquisas menos elaboradas. Ouvira coisas que pareciam saídas de filme de espionagem ou ficção cientifica, pensamento de uma criança de cinco anos de idade.
Uma breve conversa com o chefe de segurança da empresa de seu pai e Seijuro descobrira que uma pesquisa de dois segundos fornecia milhares de resultados com os chamados “GPS Trackers”, programas de rastreamento que diziam cada passo de uma pessoa, desde que instalados no aparelho e ele estivesse ligado.
Tão simples. Ridículo!
Pela primeira vez, prestou atenção no mundo tecnológico que bombardeava as pessoas no século XXI. Abriu um espaço em sua agenda para depois que reparasse seu erro. Acompanharia os lançamentos tecnológicos e se manteria tão informando quanto possível. Nunca mais seria enganado de forma tão infantil.
Mas era desses erros que vinham a experiência e maturidade, não? Cresceria, ampliaria sua visão e pensamento. Se tornaria mais forte. Ele e todo o Pack.
Seu pai colocara a sua disposição toda a ajuda possível naquele resgate, mesmo sabendo que seria recusado. Conhecia o filho o bastante para compreender que Akashi desejava resolver as coisas como um Pack que já caminhava com as próprias pernas. Ainda que riscos fossem envolvidos.
Assim era a comunidade shifter.
Mas o garoto não era bobo. Certas coisas não recusaria: o veiculo que os levaria até a casa da Kirisaki Daichi. E informações. Descobrira na internet uma fonte de recursos inesgotável. Tentar rastrear um dos companheiros seqüestrados era em vão. Tanto o celular de Kagami quanto o de Daiki estavam no apartamento desde a malfadada noite.
Embora houvessem outros meios de se aproveitar da tecnologia.
— Akashi kun — Kuroko aproximou-se, sem surpreender o capitão. Seijuro era um dos únicos que nunca se deixara enganar pela falta de presença de Tetsuya.
— Hn? — desviou os olhos para o garoto.
— Terminamos a análise do terreno e da propriedade. Não há nada fora do normal, aparentemente.
— Aa. Não esperava encontrar algo visível, mas poder estudar o terreno é uma das maiores vantagens — completou a informação, pensativo — Não estou surpreso.
Terminou olhando para a sala, onde Kise e Midorima estavam sentados, depois de afastar a mesinha e esparramar pelo assoalho dezenas de fotos impressas. Imagens captadas graças ao Google Maps, desde que desconfiara de que ali era o reduto da Kirisaki Daichi. Imprimiram fotos de toda a proriedade. Com tal precisão tirada de filmes de ficção cientifica.
Além disso, a equipe de segurança da família Akashi trabalhava com outras formas de colher informações, ligada ao alto escalão do governo japonês. Inclusive um sistema de transmissão via satélite com leitura de calor. Podia direcionar a antena para qualquer lugar do mundo e colher assinaturas de calor que corpos vivos exalavam. Principalmente shifters, que possuíam temperatura mais elevada do que simples humanos.
Na mesinha afastada, Momoi comparava várias fotos especiais com imagens da construção. Com a excelente capacidade de coletar dados da menina, ela logo entendeu as perspectivas arquitetônicas da residência. E algo clarificou-se.
— São dezessete marcas no total. Mas tem duas que estão sempre no mesmo lugar — ela falou chamando a atenção dos outros Betas. Então ergueu uma das fotos — Aqui, nessa construção do lado de fora. Parece um depósito, talvez de ferramentas. E uma marca dentro da casa, em alguns momentos sobreposta com outras. E sempre aparece ter um vigia próximo aos dois...
Não podia dizer com toda certeza quem era quem naquela foto. Embora só pudessem ser Kagami e Daiki.
— Excelente — Akashi elogiou. Já sabiam quantos enfrentariam e qual seria o foco da ação mais rápida.
— Você disse que o alcance de Aomine foi cerca de quinze quilômetros? — Midorima perguntou, avaliando os mapas.
— Aa. Ele estava ferido. Nada indica que isso tenha mudado. Na verdade, vamos trabalhar com a possibilidade de que Daiki esteja mais ferido, o que pode diminuir esse número.
— O alcance de um Alpha sem Ômega dificilmente excede três quilômetros — Kise levou uma mão ao queixo, ganhando um ar pensativo — Vamos supor que Seto Kentaro seja capaz de nos sentir a cinco quilômetros...
— Ganhamos por volta de dez quilômetros de vantagem. O suficiente para entrar em contato com Kagami kun e Aomine kun através do elo.
— E conseguir toda informação que Dai-chan e Tai-chan puderem nos passar — usariam todas as cartas que conseguissem como vantagem.
— Acha que precisamos levar alguma arma? — Midorima perguntou para Akashi.
A questão era delicada. Armas eram outro tabu no mundo shifter, ou melhor, o Japão tinha uma postura de repúdio contra qualquer tipo de arma de fogo. Mas Hanamiya já violara leis ancestrais antes... teria violado mais essa ou apenas aqueles humanos?
— Qual quer opção é sempre um risco — Kuroko falou naquele seu jeito inexpressivo de sempre.
Akashi refletiu por alguns instantes. Hanamiya parecia confiante demais em seu plano. Seria uma surpresa e tanto. Jogariam pelas regras, recuperariam os amigos sem precisar violar nenhuma lei shifter. Já as leis humanas... enfim... não se pode ter tudo.
— Não precisamos de armas — Murasakibara falou pela primeira vez — Um Pack que rouba os outros desse jeito é fraco. Vou esmagá-los com as minhas mãos.
O rapaz falou algo que parecia ser consenso geral. Seijuro acenou com a cabeça e tomou a decisão. Não portariam armas de fogo. Lutariam com suas forças shifters.
— Partimos em uma hora. Teremos tempo de chegar na casa de campo quando a lua cheia estiver no ponto mais alto do céu. Isso contará a nosso favor.
Os demais Betas acenam com a cabeça, acatando as ordens. Todos ansiosos para salvar os preciosos companheiros.
R&B
O veiculo não era dos preferidos de Akashi, uma Sprinter Crew prateada, todavia possuía o tamanho ideal para acomodar os seis Betas. O garoto ia ao volante, ignorando o fato de violar a lei de transito. Completara dezesseis anos e não poderia dirigir um veiculo daqueles. Além disso, violavam o toque de recolher. Mas não era como se isso importasse muito.
A viagem foi feita praticamente em silêncio.
Midorima observava a paisagem pela janela, absorvido em contemplar a mudança conforme saiam do centro urbano de Tokyo rumo ao noroeste. Trazia um ursinho de pelúcia branco no colo. O item da sorte daquele dia.
Kise analisava os mapas dos arredores, assinalando as prováveis rotas de invasão mais eficientes. E eram variadas opções, já que a casa não tinha vizinhos em um raio de quase seis quilômetros.
Momoi conferia apetrechos em uma grande bolsa térmica. Levava bandagens, remédios e o básico de um kit de primeiros socorros. Além de coisas para comer e beber. Roupas limpas. Tudo o que ajudasse os garotos a se sentirem melhores.
Murasakibara recostara-se no banco e mantinha os olhos fechados, como se dormisse. Mas estava plenamente em alerta. E mascava um chiclete.
Por fim, Kuroko ia no banco do carona, segurando um mapa rodoviário para ajudar Akashi a seguir o caminho certo.
Pouco a pouco abandonaram a cidade. Gradativamente, a lua se posicionava no céu, junto às estrelas. Akashi nunca perdera tempo admirando as constelações, mas naquele momento; caso olhasse para cima, reconheceria as principais. Pontos de referência desde a antiguidade.
A medida que se aproximavam do destino final, a ansiedade e expectativa aumentavam, sentimentos gêmeos a todos os Betas. O asfalto no chão acabara a algum tempo, quando perceberam que estavam perto o bastante para que o vinculo entrasse em ação.
E não foi nada sutil. Ou delicado.
Por sorte, Seijuro não corria muito com o carro e o guiava com mãos firmes. Em um segundo, tudo estava normal, em menos de um instante depois foi como se atravessassem uma barreira invisível de aflição. E dor.
Tão forte que perdeu o controle do carro por breves segundos, permitindo que ele derrapasse na terra e avançasse para o campo de grama alta que ladeava o caminho deserto e silencioso. Parou o carro para recuperar-se. Um breve olhar na direção de Tetsuya deu a certeza de que ele padecia da mesma injuria.
Tantos sentimentos ruins que sequer sabia distinguir e separar um do outro. Como se tivessem pegado todas as coisas ruins e batido em um liquidificador, forçando-lhe garganta abaixo. As mãos trêmulas voaram em direção ao volante e ele manobrou a Sprinter, recolocando-a na estrada outra vez.
Pisou fundo no acelerador, sem se preocupar com a segurança. Acabara de entender dois fatos. A situação era pior do que esperara. E a presença de Daiki estava estranha. A ponto de não senti-la como estava acostumado. O que deveria acontecer, já que estavam finalmente ao alcance do vínculo.
— Akashi kun — Kuroko murmurou, fitando as próprias mãos.
— Aa — cortou, adivinhando o que ele falaria. Uma onda de adrenalina inundou sua corrente sanguínea. O que Seijuro mais desejava estava a um passo de acontecer.
— É melhor parar o carro — Midorima aconselhou com certa surpresa em sua voz.
Seijuro não retrucou. Não podia. Simplesmente freou e desligou o motor. E o fez no momento mais apropriado possível.
— Pra fora! — ordenou, imperativo, sem dar margem para reclamações.
Mal desceu e uma dor inimaginável o fez arquear as costas, como se sua espinha dorsal estivesse sendo arrancada de si. Era seu animal interior que respondia ao chamado do Alpha. Aomine parecia prestes a tirar o animal da Zona.
A transformação ia começar.
continua...
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