Marcado
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Marcado
Capítulo 24
Dor e sangue, era tudo que a vida de Castiel Laser se resumira. Seu corpo fora brutalmente violado e sua mente constantemente castigada por todas as imagens e palavras daquele momento. E ele nunca se sentiu tão sujo e solitário como atualmente. Sem forças para sequer um suspiro, ele se manteve sentado nu e de mãos atadas, repudiando-se a si mesmo. A vida dava inúmeras voltas, e sabia punir aqueles que mereciam. Então, ele pegou-se pensando no que tinha feito de tão grave para merecer tudo o que estava acontecendo. Não ser rápido para prender O Torturador era algo imperdoável? Não existia sequer uma mínima chance para tentar de novo? Ele sabia a resposta e também sabia que um dia ou outro não estaria mais ali. Apesar dos pensamentos fúnebres, Castiel sentia um imenso alívio.
O ranger da porta o assustou e Castiel elevou os olhos magoados, deparando-se com a silhueta de Dean. Imediatamente seu coração acelerou e fugiu do contato quando o Winchester fez menção em tocá-lo. Contudo, mais forte visualmente, Dean quebrou as dificuldades e aproximou-se, soltando os pulsos do policial. Demorou um tempo até que Castiel pudesse mexê-los, pois estavam completamente dormentes. Logo, Dean o ajudou a chegar até a cadeira. Seu corpo reclamou e ele foi incapaz de suprir um gemido.
— Espero que esteja satisfeito por ter me feito perder dois dos meus homens. — Dean proferiu ressentido, evitando observar o estado deplorável de Castiel. — Mas não pense que parará de contribuir.
— Eu... Eu estou cansado. — Foi tudo que o policial conseguiu exclamar, sua garganta seca reprimindo cada silaba.
— É, todos nós estamos. Você poderia apressar as coisas. Te fiz uma proposta, não me faça repensá-la.
— Mesmo que eu te diga algo, não vai fazer a menor diferença para mim. — Algo caiu em seu colo e ele percebeu que se tratava de uma calça de algodão. — Agora está se preocupando com isso? Tarde demais, Dean.
— Não me agrada te machucar ainda mais, então não se faça de orgulhoso. Você não está em uma situação favorável, policial. — Pode não parecer, mas esse foi o jeito de Dean Winchester pedir desculpas pelo ato de Chester. Desde sempre ele nunca fora bom com as palavras.
— Não me chame assim! — Estranhamente o tratamento irritou Castiel. Em outros tempos ele se orgulharia de tal título, mas não agora. Ele não passava de um homem azarado e ferido, nada mais. — Por que não me mata de uma vez?
— É isso que você quer? — Dean questionou, encostando-se a mesa castigada. Os olhos espertos inspecionando o homem de forma minuciosa. Ele fora firme em suas palavras, mas o brilho no semblante condoído deixava a desejar.
Castiel não respondeu, apenas tentou reprimir as lagrimas de humilhação. Por Deus, como ele se sentia envergonhado, derrotado! Ele não se importaria em abraçar a morte se ela lhe sorrisse em meio ao caos.
— Quantas vezes eu desejei o mesmo que você, Castiel. Quantas vezes eu pensei que tudo seria mais fácil assim, mas a verdade é completamente diferente. — E conversar com o policial era tão simples que suas confissões se tornavam livres. — A morte não ajuda em nada.
— O que quer de mim? — Castiel repetiu a constante pergunta. — Me dê um motivo muito bom para que eu não mude de ideia e responda “sim”.
— Eu preciso de você. — E nenhum tom de deboche ou insegurança pairou no ar no quarto da tortura. — Acho que isso é um bom motivo.
(...)
Como se não bastasse todos os problemas que surgiram após confrontar Águia Negra, Carlos tinha os pensamentos abalados pelos sentimentos indecisos dentro dele. Recebera uma ordem de Crowley, porém não fazia a menor questão em atendê-la com a devoção de outrora. Talvez ele houvesse dito sim a um destino completamente errado e irreparável. Contudo, Carlos acreditava que seria por pouco tempo.
Caminhando apressado pelo Beco Garganta Profunda, vários olhares lhe eram direcionados de homens e mulheres, afinal ele era bonito e trajava roupas que o deixavam ainda mais atraente. Entretanto, os olhos castanhos de Carlos se focavam na porta mal cuidada, o Olho de Hórus induzindo-o a quase dar meia volta e deixar que Águia Negra bancasse os próprios negócios. Mas no final acabou por anunciar sua chegada.
Como todos Carlos pagou a entrada e deparou-se com Phill, os pés jogados sobre a mesa displicentemente. Apesar de conhecer aquele homem, o policial não podia evitar ficar desconfortável. A postura de Phill era agressiva e o sorriso afiado, como ele se lembrava.
— Parece que as coisas andam mal, hein. — O chefe de Garganta Profunda iniciou, divertido. A expressão de Carlos denunciava dor e o rosto suado não lhe comoveu. — Mas era de se esperar... Se tivesse aceitado trabalhar pra mim estaria mais bem cuidado. Águia Negra não serve para você.
— Pare, vai me fazer chorar. — Carlos teatrizou, tirando do bolso do casaco uma folha dobrada. Colocou-a perto dos dedos de Phill, que apenas observou com uma careta.
— Mais ordem daquele cretino?! — Phill perguntou ao desdobrar o papel e ler a primeira linha. — Ele acha que eu sou o quê? O desgraçado não vai ter nada enquanto não me pagar. Ele deve se achar muito esperto se pensa que...
— O negocio é o seguinte, Phill: Ou você atende ou serei obrigado a tomar medidas diferentes e não será agradável para nenhum de nós.
Phill trincou os dentes, entendendo muito bem a pontuação de Carlos, mas mesmo assim ele não podia ser submisso apenas por receber uma ameaça. Ele mandava no Beco Garganta Profunda e não havia homem algum que o fizesse tremer. Exceto Águia Negra. Conhecia-o o suficiente para saber do que ele era capaz, contudo se Águia Negra tinha seus truques, Phill se igualava. Abriu um sorriso descontraído e levantou-se, caminhando na direção do homem moreno. Encarou-o de perto, do jeito que ele sabia que Carlos odiava.
— Que bonitinho, parece que Águia Negra tá perdendo a confiança. — Ousado, Phill tocou o rosto do policial. Ele queria tanto que Carlos abandonasse aquele filho da mãe e viesse ficar ao seu lado. Para ele, Carlos era um grande troféu, que ele estimaria passasse o tempo que fosse. — Fica sabendo: Os negócios com Águia Negra serão apenas palavra, a não ser que cê esteja disposto a fazer aquele servicinho pra mim, sacou? — Encostou-se a mesa, a mão grande apertando o próprio membro sob a calça.
— Eu volto em dois dias e será bom que as mercadorias estejam em perfeita ordem. — Dito isso, Carlos dirigiu-se para a saída, escutando atrás de si a risada de Phill. Um homem repulsivo que achava ter o controle de tudo e todos, e talvez ele fosse capaz.
(...)
— Tem certeza que esse é o lugar? — Ambrose perguntou a Ivan enquanto caminhavam pelos becos apertados e fedidos. — Na boa, agora entendo porque Alan se ferrou.
— A descrição do garoto está certa. — Ivan evitou comentar mais, quanto antes terminassem mais cedo iria sair dali. Era o típico lugar que abrangiam as piores pessoas e aquele ambiente não o deixava confortável. — Agora, precisamos achar aquela maldita porta.
— Eu preciso é de um sanduíche bem recheado, isso sim. — Ambrose ralhou, ajudando o outro a localizar o símbolo que Alan explicara. — Por que eles tiveram que ir embora? Que merda! Isso não é trabalho para mim.
— Reclame menos, Ambrose, e mexa essa bunda enorme. — Apesar de empenhado, Ivan concordava com o colega. Eles nunca saíam em perseguição abertamente, e agora as tarefas ficaram apertadas somando novas atividades.
— E quanto ao policial? Dean parece chateado, o que acha disso?
— Não é da minha conta, mas é estranho ele manter uma vítima por tanto tempo. Castiel Laser deve ter alguma utilidade ainda. — E inesperadamente Ivan trombou com um corpo alto e forte, por pouco não perdendo o equilíbrio. Mesmo que tivesse mantido contato visual com a pessoa por poucos segundos, fora suficiente para decorar o semblante dele. Sua memória fotográfica era o seu ponto forte.
— Saco. — O homem resmungou e ajeitou o casaco nervosamente, seguindo caminho.
Ivan ficou ainda mais um tempo observando-o se afastar, tinha a leve sensação de tê-lo visto... Mas aonde?
— Pessoinhas estranhas essas... — Ambrose comentou, enquanto viravam um beco ainda mais apertado e cuja única saída era uma porta velha. — Já chega, estamos rodando que nem tontos aqui.
— Espera... Essa não é a porta que o garoto disse? — Ivan fez questão de manter a voz baixa, pois a conversa acalorada ultrapassava a porta. Aproximou-se e colou a orelha na madeira, atento.
“Aquele merda pensa que pode fazer a gente de idiota! Como se eu fosse me arriscar mesmo. Eu preciso de dinheiro e se ele não me trouxer eu mesmo irei buscar”.
“Vai se meter com Águia Negra, Phill? Carlos não está brincando dessa vez”.
“E dai?” Um barulho de algo se chocando se fez presente. “Cê tá com medinho, ta? Pare de chorar e faça o que eu mandei”.
E por alguma razão Ivan achou melhor sair dali. Aquela conversa poderia não ter significado algum para quem não soubesse o que estava procurando, entretanto o técnico já tivera o suficiente. Enquanto saíam do Beco, ele explicava o que ouvira a Ambrose que não aparentava muito interesse, alegando que queria comer. E Ivan até agora não via qualquer habilidade em Ambrose além daquela, então passou a pensar que só estava no grupo para fugir da monotonia após a prisão. Em todo caso, eles não podiam voltar para casa agora, Dean pedira um tempo.
— Diz aí, o que você arrumou depois que saiu da cadeia? — Ivan se interessou, vendo que o colega tinha olhos apenas para a refeição. Quando se tratava de encher a barriga Ambrose achava facilmente um restaurante bom e barato.
— Eu nunca fui preso. — Sorveu um gole de suco.
— Então, por que está nessa? — Ivan pedira apenas um pedaço de pizza, que por sinal já havia terminado.
— Acho que eu precisava de um sacode, entende? Minha vida era muito chata, diferente da sua não é? Acho que de todos no grupo, depois do maluco do Chester, você é o mais perigoso. Quem em sã consciência socaria a mulher que amava ate partir a cabeça dela?
E talvez Ambrose tivesse passado dos limites, pois as feições de Ivan mudaram drasticamente. Ele quase podia sentir a aura assassina dele, entretanto ele sabia que o colega estava arrumando um jeito de se redimir pelos erros. Era verdade que não conhecia muito de Ivan, mas ele era altamente limpo no que fazia e expressava. O motivo que o fizera dizer sim para Dean foi para, justamente, expiar um pouco da sua culpa e quem sabe também se perdoar.
— Então é por isso que decidiu ajudar Dean? Eu acho que pode dar certo.
— Não fui eu. — Ivan confessou em um fio de voz, as cenas de cinco anos atrás voltando com força em seus pensamentos. — Marina era doente e abusava das drogas, teve um surto e se matou.
— De todo modo você foi para cadeia por três anos, portanto alguma coisa você fez. — Ele enrolou o macarrão no garfo, despreocupado com os olhares irritados de Ivan. — O que foi?
— Você é muito inconveniente. — Ivan cruzou os braços, evitando ceder as lembranças. — Concentre-se na comida, é mais proveitoso.
— Bom... Eu já estava cansado de puxar assunto mesmo.
(...)
Castiel poderia classificar sua condição como “perdida”. Sua cabeça dava um nó cada vez que tentava entender Dean e suas ações. Agora vestido e um pouco mais recuperado da brutalidade que sofrera, o policial conseguia enxergar com mais clareza, porém as dores no corpo ainda persistiam. Dean soltara suas pernas e braços por alguns minutos para que ele pudesse ter uma parcela de alívio, para logo prendê-lo novamente.
— Eu preciso de você.
— E depois que eu te der o que precisa, o que vai acontecer? — Castiel perguntou apenas para se certificar, pois não havia outro destino para ele. Isso era certo.
Dean não respondeu de imediato, analisando a forma como as palavras dele soaram: Conformadas. E não era daquele jeito que imaginou que tudo terminaria. O plano no começo era muito simples: Capturar Laser, interrogá-lo e, assim que obtivesse suas respostas, calá-lo para sempre como atuara com todos os outros. Então, por que estava sendo árduo continuar com a tradição? Talvez por perceber que, de alguma forma, os olhos serenos de Castiel o fizessem se lembrar dos olhos de Sammy. “Que motivo inútil...”, Dean conversou consigo.
— Não pense tanto no futuro, Castiel. Se você tiver um, ele mesmo virá buscá-lo. — O Winchester esfregava a lâmina com um pano, se ela enferrujasse seria perda de material. — Fique feliz por ainda ter o presente.
— Você pensou no que eu disse? — Castiel sabia que as falas anteriores de Dean queriam induzi-lo ao silêncio, contudo ele era teimoso demais.
— Quer mesmo que eu acredite que vai me ajudar? — O torturador tinha um sorriso descrente nos lábios. — Por que você abriria mão de uma vida limpa e ajudaria um homem que já cometeu muitos erros?
— Porque todos nós merecemos uma segunda chance. Eu sei que você não é má pessoa, apenas não teve apoio algum quando começou a fazer justiça com as próprias mãos. Eu posso mudar isso, se você deixar.
Cortando o fio da conversa, Dean escutou a voz de Ambrose o chamando. Ele quase havia se esquecido do que os mandara fazer e talvez deixar Castiel a par fosse uma boa ideia. Anunciou onde estava e logo os dois recém-chegados compartilhavam do mesmo cômodo.
— Alan tinha razão, Águia Negra mantém negócios com um tal de Phill daquele Beco e nós escutamos um novo nome. — Ivan jogou as informações, fazendo o cenho de Dean se franzir.
— Outro nome?
— Se não me engano era “Carlos”, mas eu não vi esse homem.
— É aquele maldito que quase te derrubou? — Ambrose apontou, achando importante não esconder detalhes da busca. — Ele era alto, moreno e bem bonitão, pelo jeito que ele ficou atacado deve estar acostumado com lugares como aquele.
— Carlos? — Castiel quando deu por si já havia se intrometido. E talvez ele não devesse ter dito tão alto. — Não é possível que...
— Ele está ficando maluco? Falando sem parar, que esquisito... — Ambrose exclamou incomodado.
— Ei, você conhece esse tal Carlos? — Ivan proferiu, querendo acabar com o cansaço do dia.
— É claro que conheço. Ele era o meu parceiro e é o único na delegacia que está investigando Águia Negra. Mas eu não consigo entender o que ele foi fazer no Beco Garganta Profunda.
— Parece que estamos esquentando. — Dean afirmou, por algum motivo muito mais confiante do que antes. “Só mais um pouco, Sammy, e eu prometo que vou trazer você para casa”.
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