Marcado
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Marcado
Capítulo 23
Carlos acordou sentindo uma forte dor de cabeça. Olhou em volta do quarto, mas logo percebeu que estava sozinho. Levantou-se da cama com dificuldade, ignorando seu estado de quase nudez, cansado demais para procurar suas roupas. Arrastou as pernas e parou em frente ao espelho pendurado atrás da porta.
Sempre achou aquilo estranho, mas Águia Negra fazia questão de que cada cômodo daquele lugar tivesse um espelho. Aquele maldito possuía tantas manias que, ao longo dos anos, Carlos perdera a noção de todas elas.
Ele estava exausto e parecia dez anos mais velho. Seu rosto estava pálido, seus olhos sem brilho e sua barba mal aparada. Nunca imaginou que fosse se ver daquele jeito. Na verdade, nunca imaginou que sua vida tomaria tal rumo.
Vida essa que quase o abandonou na noite passada. Na verdade, ele não tinha como ter certeza de que ela não o deixaria a qualquer momento. Águia Negra era maluco e Sam havia dito que ele não ficara nada feliz ao vê-lo vivo.
Sam... Pensar no garoto fez Carlos se sentir ainda mais abalado, a ponto de suas pernas começarem a tremer. Ele sabia de toda a história do Winchester. Sabia quem foram os seus pais, quem era seu irmão e sabia exatamente o que havia acontecido a cada um deles. E o mais importante: Ele sabia do porque daquilo ter acontecido. Não só sabia como havia ajudado Crowley a ser bem sucedido na tarefa de eliminar John e Mary.
Não era capaz de mudar o passado, mas podia tentar fazer Sammy ter um futuro melhor. O modo como o rapaz havia se preocupado com a sua saúde fora talvez à única demonstração de preocupação e carinho que ele vivenciara nos últimos anos.
E aquilo fez Carlos se arrepender de todas as coisas ruins que fizera a ele desde sua chegada ao cativeiro. Não que tivesse maltratado o rapaz no passado, nunca havia tocado no garoto, mas deixá-lo preso num quarto acanhado não era bem a melhor maneira de cuidar de uma criança.
Seus olhos continuaram vagando pelo seu reflexo até pararem na região que a bala o atingiu.
O ferimento estava aparentemente limpo, com gazes bem amarradas, e o trabalho parecia ter sido feito por um profissional.
Estranhou. O que aquilo significava?
Mas então, antes que pudesse continuar com seus pensamentos, ouviu uma batida na porta e ficou momentaneamente petrificado. A porta foi aberta e ele deu alguns passos para trás.
– Vejo que acordou. Como está se sentindo, criança? – Águia Negra perguntou, fingindo interesse.
– Por quê? – Carlos indagou confuso. Sentiu-se subitamente constrangido. Não por sua quase nudez, mas pelo ferimento evidente que havia sofrido ao questionar aquele homem.
Águia Negra começou a rir, e o som de sua risada fez o corpo de Carlos estremecer de pavor. – Você realmente achou que eu permitiria que morresse? – O homem dirigiu-lhe um olhar sagaz, seus olhos negros vasculhando o corpo de Carlos.
– Você atirou em mim! O que eu deveria pensar? – Perguntou incrédulo, sentindo um súbito mal estar. Crowley falava como se sua vida fosse sua propriedade particular!
– Carlos, se eu quisesse realmente te matar eu teria perfurado o seu coração. – O mais velho disse de forma calma. – Isso foi apenas um aviso.
– Que tipo de aviso é esse, seu lunático?! – O policial gritou, mas logo se arrependeu quando sentiu uma forte dor na região do ferimento.
– O tipo de aviso que fará você se lembrar de quem está no comando por aqui. – Falou com a voz gélida, se aproximando e tocando o rosto de Carlos. O policial recuou com o toque. – Agora preste atenção. Eu tenho um trabalho para você.
– Você só pode estar brincando. – Protestou, andando na direção da cama. Ele mal podia ficar em pé, quanto mais realizar tarefas!
– Você sabe que eu não brinco, Carlos. – Águia Negra respondeu, sentando-se ao lado do policial. – Eu preciso que você vá ao beco Garganta Profunda e finalize a compra com o Phil. Ele está me enrolando há semanas e eu estou perdendo a paciência. Você sabe que eu não gosto de esperar.
– E o que te leva a crer que eu não vou te denunciar? – Indagou em tom sério, soltando o ar pelo nariz, tentando controlar a raiva.
Águia Negra sorriu, mostrando uma fileira perfeita de dentes brancos. – A sua dívida comigo, criança. – Falou, e então se levantou para ir embora.
(...)
Castiel estava com calafrios violentos que assolavam o seu corpo magro e o suor molhava sua pele. Seus ossos doíam, a garganta estava arranhada e, mesmo a febre tendo passado, ele estava tão fraco como uma criança.
Estava com o corpo estilhaçado. Literalmente.
Chester havia sido leal a suas palavras e cada pedaço de seu corpo ardia com a tortura que ele havia sofrido. Estava sentado no chão gelado, as duas mãos presas no pilar, olhando para um ponto imaginário quando ouviu passos do lado de fora. Seu corpo tremeu com as lembranças da noite anterior e Castiel sabia que nada no mundo o faria esquecer-se do ocorrido horas atrás.
Flashback on
– Sabe, policial, eu não sou como o Dean. – Chester falou e um sorriso safado se curvou em seus lábios. – Diferentemente dele, eu protejo o que é meu.
Castiel estremeceu, mas não iria deixar que o medo o guiasse. Já tinha passado por tanta coisa, o que mais poderia lhe acontecer?
– Não era a minha intenção que Alan...
– Não fale o nome dele! – Chester esbravejou. – Você não tem o direito!
Ele se aproximou de Castiel e prendeu a outra mão do policial no pilar, ficando a apenas alguns centímetros de distância do outro, sentindo a respiração entrecortada do refém.
– Eu ainda não sei por que você está vivo, mas eu te digo uma coisa, policial. – Disse, sacando uma faca pequena e afiada de um dos bolsos da calça jeans. – Você vai se arrepender de tê-lo feito sofrer.
Distanciou-se e começou a retirar o que faltava das roupas de Castiel, sorrindo com as tentativas inúteis do policial de se soltar.
Castiel se sentiu completamente perdido quando a última peça de sua roupa foi retirada e quando Chester cobriu os seus olhos com um lenço úmido.
Minutos se passaram sem que nada acontecesse. Castiel já estava começando a achar que Chester havia desistido quando voltou a ouvir a voz aveludada e carregada de malícia do outro homem:
– Você gosta de homens, não é mesmo? Então vai gostar do que eu vou fazer com você!
Castiel então abriu a boca para gritar, pois ele tinha quase certeza de que Chester estava fazendo aquilo sem o consenso de Dean. Mas, antes que pudesse pedir por qualquer ajuda, sentiu um pano ser enfiado em sua boca, fazendo-o engasgar.
Sem esperança e impotente, ele se debatia contra Chester, se contorcendo e tentando se afastar. Uma mão dura bateu em sua boca, e Castiel sentiu a ponta da faca tocando sua garganta.
– Pare de se mexer ou eu arranco essa sua cabeça!
Ele era uma presa fácil agora, e não pôde fazer nada quando Chester abriu suas pernas e brutalmente enfiou algo grosso e duro em seu ânus.
Lágrimas queriam cair de seus olhos, mas o lenço impedia que isso acontecesse. Chester enfiava e retirava o objeto com força e Castiel pôde sentir o sangue começar a cair por entre suas coxas.
– Está gostando, seu maldito? – Perguntou, sem poder controlar a raiva que estava sentindo daquele homem. Alan estava preso numa sala feito um condenado e tudo era culpa daquele policial de merda! E aquilo Chester não podia perdoar!
Os gritos de Castiel saíam abafados e ele não tinha mais força para nada.
A tortura durou longos minutos e então Chester parou o que fazia, retirando o lenço úmido dos olhos de Castiel e depois o pano de sua boca.
– Você precisa de um banho, está fedendo! – Ele falou, antes de sair do quarto, como se nada tivesse acontecido.
Flashback off
Ele passou a noite toda com dores no abdômen, hemorragias no ânus e outras feridas, menos visíveis, que levariam mais tempo para curar. Mas, sinceramente, se era para continuar vivendo assim, que a morte viesse lhe fazer uma visita o mais rápido possível.
Nu e machucado, Castiel estava com os ombros curvados e o olhar cabisbaixo, sentindo que uma parte dele havia morrido naquela noite.
(...)
Bobby Singer estava em sua sala, pensativo, enquanto esperava a chegada de um grupo de policiais recém-promovidos. Ele olhava com atenção suas anotações, franzindo o cenho, sem realmente entender onde havia errado.
Sempre achou que tinha tudo sob controle em sua unidade de trabalho, mas aparentemente as coisas estavam piores do que ele imaginava.
Castiel Laser não dava sinal de vida há pouco mais de uma semana. Ele não atendia as ligações, não era visto em lugar nenhum e quando Bobby foi a sua casa para visitá-lo, saber se estava tudo bem, ninguém apareceu à porta para recebê-lo. Perguntou ao porteiro, e o homem idoso lhe dissera que não se lembrava da última vez de ter visto Castiel no prédio.
A princípio, Bobby havia achado que o moreno havia decidido tirar alguns dias de folga devido ao stress que sentia ao investigar o caso de Dean Winchester, mas agora o policial mais velho não tinha mais dúvidas de que algo de ruim havia acontecido.
A porta de sua sala foi aberta e cinco jovens entraram e pararam em frente à enorme mesa de vidro.
Bobby respirou fundo antes de falar. – Chamei vocês aqui, pois eu estou convencido de que algo ruim aconteceu ao policial Laser. – Disse, e então elevou uma das mãos pedindo silêncio. – Quero que comecem uma busca por ele.
– Por onde devemos começar, senhor? – Um dos policiais indagou.
– Vamos começar voltando ao locar onde ele foi visto pela última vez. – Bobby comentou, olhando em um de seus papéis. – No cruzamento das ruas Michigan e Brooklyn. De acordo com uma testemunha, ele estava dentro de um carro azul com outras duas pessoas.
– Temos o número da placa ou o fabricante do carro, senhor?
– Infelizmente, estava muito escuro. – Respondeu, torcendo o nariz. – Eu sei que não temos muito, mas façam o impossível para encontrá-lo. – Ordenou. – Quaisquer novidades venham falar diretamente comigo. Agora vão!
(...)
– O que você fez com ele? – Dean perguntou a Chester, assim que ficaram a sós na sala que Ivan usava para guardar seus equipamentos eletrônicos.
– Como assim? – Chester perguntou sem interesse. Ele apoiou o corpo na parede e olhou para Dean com uma sobrancelha arqueada.
Dean passou uma das mãos no cabelo, irritado. – Não fazemos esse tipo de tortura, Chester! Eu não dei permissão para isso!
Chester abriu um sorrisinho debochado. – Eu não preciso da sua permissão, Dean. Ele teve o que mereceu.
Os olhos de Dean adquiriram um brilho perigoso ao ouvir aquilo. – Será que eu vou ter que te trancar também, Chester? – Indagou, se aproximando do outro homem.
– Eu gostaria de ver você tentar, chefinho. – Retrucou o mais velho, o sorriso ainda presente em seus lábios. – Qual o seu problema, afinal? Você vai matar o coitado de qualquer jeito, não vai?
Dean ficou em silêncio por alguns segundos. – Eu preciso da ajuda dele.
– Nossa, cara, você está ferrado se acha que ele vai te ajudar. – O moreno comentou. – Ele vai acabar te apunhalando pelas costas, aquele viado!
– Eu não tenho outra saída, Chester!
– Claro que tem, Dean, mas você prefere trancar os seus companheiro ao invés de pedir ajuda! – Esbravejou, sentindo a raiva voltar ao se lembrar de onde Alan estava.
– É por isso que você está assim? É por isso que fez aquilo com Castiel? Você é patético, Chester. – Dean falou, voltando a se distanciar. – Alan não deveria ter me desobedecido.
Chester se aproximou de Dean e segurou sua jaqueta de couro com ambas as mãos, empurrando o corpo do loiro até batê-lo com força na parede mais próxima. Dean ficou surpreso com a ação do mais velho e tentou se soltar de seus braços.
– Eu quero ver como você irá se sair sem a minha ajuda. Eu vou embora, Dean, tô de saco cheio! – Disse, soltando o Winchester e começando a andar em direção à porta da sala. – Vou levar Alan comigo.
– Chester...
– Eu já me decidi, Dean. Apenas te digo uma coisa... – Comentou, se virando para fitar os olhos verdes de Dean uma última vez. – No final do dia, ele ainda é um policial e você um assassino.
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