Marcado
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Marcado
Capítulo 20
O quarto da tortura encontrava-se submerso em escuridão. Os olhos do policial Laser se esforçavam para se acostumar e tentar distinguir o que mais compunha o espaço amplo, de odor férreo. As paredes pareciam sussurrar todos os lamentos das antigas vítimas e Castiel sentiu todo o seu corpo arrepiar. Estreitando os olhos, as imagens começaram a se formar: A sua frente tinha uma mesa, e vários objetos sobre ela brilhavam com a fraca luz natural do ambiente; À esquerda uma porta de madeira escura e castigada pelo tempo e à direita uma pia, onde a cada minuto uma gota pingava causando um eco desesperador no cômodo.
Então, Castiel tentou analisar o local mais uma vez. Resgatando todos os lugares que investigara em casos, nada o fazia sentir que o quarto fosse familiar. Era como se ali fosse um mundo paralelo, que somente Dean conhecia. Ali era o mundo de Dean Winchester, O Torturador. O sangue havia voltado a sua pressão normal, assim como o coração que batia em um ritmo cadenciado. Finalmente ele se encontrara com aquele homem, finalmente ele poderia preencher todas as lacunas que restavam, embora não pudesse se esquecer que sua vida estava em perigo.
Conhecia Dean o bastante para saber o próprio destino: Assim que se tornasse inútil para ele, morreria. A menos que eu seja esperto. Castiel conversou consigo, enquanto a porta se abria com um ranger. O barulho era arrastado e parecia caçoar de sua situação, porém Castiel foi corajoso para erguer os olhos e deparar-se com a silhueta forte de Dean. Podia sentir o olhar gélido e furioso sobre ele, queimando-lhe todas as esperanças. Era como se ele tivesse entrado no inferno e tudo o que ele acreditava transformado em lenda. Entrai e perdei toda a fé.
─ Espero que esteja confortável, policial Laser. ─ Dean iniciou a conversa, sorrindo, e caminhou até o homem de olhos azuis.
─ Castiel. Chame-me de Castiel. ─ Sua voz atravessou o vácuo solene, tão serena como de costume. ─ Afinal, posso me considerar morto para o mundo lá fora.
─ Ora, não vamos apressar as coisas... Castiel. ─ Dean pronunciou o nome devagar, e perigosamente. ─ Sabe por que eu gosto da noite, Castiel? ─ E deu-se conta de que soava muito bem em sua voz. ─ Porque é à hora em que todos os crimes são cometidos. Passei tempo demais me habituando a rotina, o dia não possui mais cor.
─ Porque você quer que seja assim. ─ Castiel ajeitou a postura, as cordas machucando-lhe a pele dos pulsos. ─ Poderia ter enfrentado a situação de uma forma diferente, mas preferiu trilhar o caminho mais difícil. Você escolheu viver na escuridão. E, mesmo agora, acredito que no fundo deseja ver a luz mais uma vez.
As palavras do policial silenciaram o Winchester, penetrando em sua mente, coração e alma. Sim, como Castiel afirmara, ele poderia ter escolhido outro caminho, entretanto ele não o seguia por querer e sim por ser preciso. Aquele homem o tornara o ser de hoje. Ele não tinha culpa se ao olhar-se no espelho sentisse nojo da própria imagem, que ao deitar à cabeça no travesseiro todas as pessoas que passaram por suas mãos o amaldiçoassem pela eternidade, ele não podia sentir culpa por querer resgatar uma época que já se mostrava inalcançável.
─ Meus olhos não enxergam mais a luz. ─ Ele disse baixo, como se fosse apenas para si mesmo, e deu-lhe as costas. Analisou todos os objetos disponíveis na mesa, cuidadosamente escolhidos e organizados por Chester. Às vezes se perguntava até onde iria o sadismo dele. ─ O vazio... ─ Segurou uma pequena lâmina, e sua imagem reluziu no brilho prateado. ─ Eu arrumei outra forma de preencher o meu vazio, Castiel. E você vai preenchê-lo mais um pouco.
Castiel não era um homem que se alarmasse com facilidade, porém, diante do sorriso inexpressivo do Winchester, ele tremeu. Acompanhou o movimento dos dedos de Dean, que brincavam com a pequena lâmina intimamente, e sentiu-se sem ar. Ele sabia o que o aguardava, contudo, estranhamente, Castiel havia aceitado o fato de se machucar a partir de sua captura. Respirou profundamente ao sentir o calor metálico de encontro a sua pele.
─ Venho te observando há mais ou menos um mês, Castiel, e devo dizer que é um homem interessante. Correto, simples, inteligente e confiante... Um modelo para o futuro. ─ Devagar e sem desviar os olhos das feições do policial, Dean deslizou a lâmina da clavícula até o umbigo. O corte não fora profundo o suficiente, mas rendeu aos seus ouvidos um longo gemido de dor. As pálpebras de Castiel se cerraram, dando-lhe a seu ego uma camada de satisfação. ─ Use sua inteligência agora, policial... Diga-me tudo o que sabe.
Castiel sentiu o forte puxão em seu cabelo, obrigando-o a inclinar a cabeça para trás e sua respiração se tornou ruidosa. O sulco que se abrira em seu corpo ardia, um desconforto muito pior de todas as vezes que uma bala o atingira de raspão. E mesmo que sua consciência o alertasse para despejar todas as informações arquivadas sobre o caso Winchester, Castiel conseguiu superar a razão. Ele precisava achar uma saída antes que sua vida chegasse ao fim, e era essencial que se disponibilizasse de tempo.
─ Infelizmente você me capturou cedo demais, Dean. ─ Castiel controlava o tom de voz, comunicando-se quase em segredo. ─ Tudo o que eu sei, provavelmente você também sabe. As atualizações sobre o seu caso pararam com Olívia Tissé. Lembra-se dela? Uma dançarina muito bonita, que acabou tendo a cabeça descolada do pescoço.
─ Está tentando me provocar? ─ Com força, Dean afundou a pequena lâmina no ombro de Castiel, ouvindo um resmungo alto de dor. O sangue escorreu quente e lento. Entretanto, não havia qualquer excitação de Dean naquele gesto. ─ Tenha em mente que isso não vai te levar muito longe, policial. Preciso de informações confiáveis e você é o único que pode me fornecer isso. Onde está o meu irmão?! ─ A perguntou acabou por ser feita aos gritos.
─ E como eu vou saber? ─ Castiel arfava, ele não mais distinguia o que sentia. A lâmina pareceu se adaptar muito bem a seu corpo, quase como se tivesse sido feita para feri-lo. O suor já se acumulara em seu rosto, começando a lavar o pescoço. ─ Nos arquivos... Nós... O departamento encerrou as buscas pelo seu irmão há dois anos.
─ A cidade ficaria melhor sem vocês. ─ Dean falou com mágoa, aproximando-se da mesa. Abriu uma garrafa de álcool e regou um pedaço de pano. Não o torceu. ─ Cheios de conversas moles, atitudes baixas e descaso... ─ Sem prévio aviso, o líquido queimou todas as feridas de Castiel. Desta vez o policial gritou. ─ E ainda nos perseguem, nos acusam de crimes e adoram nos punir por isso. Sabe por que nunca conseguiu me colocar na cadeia, policial? Porque eu não tenho medo de nada.
Os olhos de Castiel haviam se fechado, praguejando mentalmente a sua desgraça. Por Deus, agora sentia na pele a fama de Torturador que Dean carregava. Lamentou pelas pessoas que passaram por isso. Não, lamentou por não ter sido rápido o bastante para evitar que elas morressem. Seu maior fracasso eram as atitudes de Dean, a forma bruta como ele lidava com cada desespero e agonia. Ele era o responsável por Dean, embora que não diretamente, e sentia bem mais o peso daquele caminho escuro.
─ A propósito... ─ Há essa hora, o torturador ocupara as mãos com um objeto peculiar: Ele possuía três pontas e pendia sobre uma corrente igualmente de aço. ─ Isso vai doer.
Do lado de fora do quarto da tortura, os integrantes do grupo ouviam nitidamente os gritos sofridos do policial. Alguns se mostravam indiferentes como Chester, Ivan e Ambrose ─ este último degustava um sanduíche natural ─, outros evitavam se concentrar nos gritos e zunidos de metal que tingiam o silêncio, como Alan e Emily.
Apesar de o destino ter parado de sorrir para Castiel no momento em que se envolvera com ela, Emily sentia o coração apertar a cada segundo. Nenhum homem a tratara tão bem como o policial Laser. Era como se estivesse assistindo um membro do grupo ser castigado por inimigos.
Contudo, Alan não compartilhava dos mesmos pensamentos de Emily. Violência desnecessária o machucava, sua personalidade jamais iria permitir que aceitasse a tortura como algo preciso. Também acompanhara Castiel, não tanto quanto Dean, entretanto quem ele era para julgar quem merecia morrer ou não? Limpando o rosto suado com a mão trêmula, Alan dispersou do grupo e dirigiu-se até a varanda. Pelo menos ali estava protegido dos sons agonizantes que Castiel liberava.
Uma hora se passou, e Castiel finalmente pôde desfrutar de um pouco de calmaria. O peito desnudo gritava de dor, ensanguentado. O objeto o chicoteara como a um animal, os cortes profundos mostravam a carne ferida e sedenta por compaixão. Mal conseguia respirar e manter os olhos abertos, por isso aguçou os ouvidos. Os passos de Dean eram arrastados, como se também estivessem cansados. E talvez estivesse. A força que o torturador empregara em seus gestos ficariam marcados para sempre não só em sua pele, como em sua alma também.
─ Ei, não durma. ─ Dean estapeou-lhe o lado esquerdo do rosto, forçando o policial a manter-se lúcido. Segurando-o pelo braço, obrigou-o a ficar de pé e arrastou-o até a pia. Tapou o ralo e abriu a torneira. ─ Vou te segurar aí por vinte segundos, e é bom que me conte algo de importante ou o tempo vai prolongar.
─ Você... ─ As palavras de Castiel estagnaram na garganta ao ter a cabeça submersa, não o dando tempo de reter ar. Em sua mente ele contava os segundos, a mercê da misericórdia. Como o combinado, Dean o puxou e o policial engasgou-se com a rispidez. ─ Isso não vai adiantar.
─ Quem é Águia Negra?
E aquela pergunta atentou-o para os pensamentos. Carlos havia falado sobre tal pessoa no jantar e só agora percebeu que talvez devesse ter perguntado mais, sanado sua curiosidade. Cansado, Castiel deixou-se encostar ao corpo de Dean enquanto recuperava-se do susto repentino. Os músculos tensos do torturador pressionando suas costas.
─ Não estou responsável por esse caso, e sim meu parceiro. ─ Bom, as coisas finalmente estavam chegando a algum lugar. ─ Infelizmente ele está trabalhando nisso sozinho, não posso ajudar com mais informações.
─ Você me desaponta, Castiel. ─ Dean disse em falso fingimento. Fez menção em afogá-lo mais uma vez, contudo as pernas do policial cederam e precisou segurá-lo antes que desequilibrasse os dois. ─ Realmente me desaponta.
─ Solte-me... Eu não vou a lugar algum, Dean. ─ Pediu sonolento pela tortura que suportara, enquanto o homem loiro o levava de volta para a cadeira. ─ Falei sério quando disse que posso ajudá-lo, não foram táticas policiais. Posso descobrir quem é Águia Negra.
─ E por que faria isso? ─ Dean tinha um sorriso de escárnio enfeitando os lábios. ─ Por acaso está implorando por sua vida?
─ Não, Dean. Apenas quero te ajudar a apagar essa marca da sua vida. ─ A sinceridade do policial mudou a postura do torturador. ─ Deixe-me fazer algo por você. Somente desta vez.
E quando Dean abriu a boca para retrucar, Castiel havia se rendido ao sono. Cauteloso, desamarrou apenas as pernas dele e analisou o homem a sua frente. Mesmo diante da imagem que o transformara, Castiel ainda guardava a serenidade,os cabelos molhados dando uma aparência atraente, embora o momento não fosse para divagações.
─ Talvez você possa, Castiel. Talvez...
(...)
O dia estava quase amanhecendo quando Castiel abriu os olhos e percebeu que não se encontrava sozinho no quarto. Alguém falava com ele e a voz era macia, porém soava entrecortada em seus ouvidos. Uma fisgada o abateu de repente, em contrapartida Castiel gemeu.
─ Desculpe.
Devagar, a figura masculina adentrava o seu campo de visão e o policial vislumbrou um jovem rapaz, cabelos loiros e olhos verdes. Bonito, mas não entendia o que alguém como ele fazia ali e, para completar o cenário estranho, cuidando de seus ferimentos.
─ Sou Alan Diamond. ─ Terminando de desinfetar todas as aberturas no corpo de Castiel, Alan começou a enrolar as gases. ─ E não, Dean não me mandou aqui. Vim por vontade própria. Então, agradeceria se não se mexesse tanto.
Observando-o com mais atenção, o policial notou um corte profundo no olho esquerdo do rapaz. As partes separadas estavam quase completamente unidas, no entanto ficaria uma cicatriz feia e longa.
─ Você não deveria estar fazendo isso. ─ Castiel alertou, podendo enfim movimentar os braços doloridos.
─ É, eu não deveria fazer várias coisas. ─ Alan suspirou, derrotado. Prendeu a ponta da gase com um pedaço de esparadrapo. ─ Preocupe-se com você, policial.
Um pigarreio chamou a atenção dos dois homens e Alan não precisou se virar para ver de quem se tratava. Chester Thompson estava encostado ao batente da porta, de braços cruzados e feições fechadas. Não lhe agradava em nada ver seu namorado tratando de um prisioneiro, muito menos alguém como Castiel. Pessoas politicamente corretas lhe tiravam do sério, e Castiel Laser era uma delas. Além, claro, de ir contra as regras.
─ Saia daí, Alan. Agora. ─ Chester ordenou irritado, a voz em tom ameaçador. ─ Ou vou ser obrigado a contar ao chefe.
─ Faça como quiser, Chester, não me importo. ─ Alan sustentou o olhar faiscante, perguntando-se onde havia se escondido o homem daquela noite chuvosa. ─ Se ele morrer, será inútil.
─ Você está faltando com as regras. ─ Ele avançou quarto adentro, a postura alta erguida de forma superior. Não esperou que o mais novo retrucasse, apenas o agarrou pelo braço e tentou arrastá-lo para fora do cômodo, porém Alan livrou-se de seu contato.
─ Vá cuidar das suas coisas e deixe que eu resolvo as minhas.
─ Não se arrisque por mim, garoto. ─ Castiel sentiu-se na necessidade de se pronunciar, acabando com o clima chato. Olhou rapidamente para Chester, demonstrando o que queria dizer. ─ Já fez muito, obrigado. Agora, vá com ele.
─ Daqui a pouco trago algo para você comer. ─ Foi tudo o que o rapaz respondeu, passando por Chester sem lhe direcionar qualquer olhar. Logo, Chester o seguiu, batendo a porta com força.
Diante de tal cena, a única reação de Castiel foi sorrir. Ele mal se lembrava qual foi a última vez que se sentiu feliz e protegido ao lado de alguém. Não era somente Dean que tentava preencher um vazio, ele também. Havia uma marca em sua alma, cuja jamais iria se apagar. Um burburinho se estabeleceu em um ponto distante do quarto, contudo as paredes eram finas demais para bloqueá-lo. Ouviu algo como “Você é um irresponsável, não se assuste se encontrar aquele cara morto” e “Que espécie de amor é esse, Chester? Pare de se comportar como criança!”.
Tomado por uma onda de nostalgia, Castiel permitiu-se vagar entre as memórias perdidas há muito. Memórias estas que logo se dispersaram ao ouvir o ranger da porta, indicando que alguém havia entrado.
─ Bom... ─ Dean anunciou-se, indo diretamente até a mesa. ─ Onde paramos?
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