Marcado

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Olá amores, tudo bem com vocês? Mais uma capítulo de "Marcado", esperamos que gostem. A todos: Boa leitura!

MARCADO

CAPÍTULO 19

Dean Winchester levantou-se da cadeira e olhou com atenção o que o rodeava em seu quarto acanhado. Tinha as costas doloridas após estar de pé durante boa parte do dia, e o fato de ter que voltar ao trabalho causava-lhe uma dor ainda maior.

Aquele pequeno cômodo lhe trazia tantas lembranças, boas e tristes, mas, apesar de todo o sofrimento, estar em casa era algo que faltava em sua vida. Passara tão pouco tempo ali, depois da morte dos pais, que mesmo que se esforçasse era difícil esconder a raiva que lhe consumia. Era só fechar os olhos que se lembrava do homem vestido de preto que assassinara seus pais e lhe roubara o irmão.

Remexeu em um dos bolsos da calça, tirando dali um maço amassado de cigarros baratos e uma caixa de fósforos. Acendeu o cigarro e então voltou a sentar-se. Pegou uma mochila que estava previamente preparada, e meticulosamente começou a analisar os objetos que havia guardado.

Cordas, correntes, facas...

Estava tudo ali. Tudo o que ele precisava para seguir com o trabalho. Depois de quase um mês observando de perto o policial Laser, Dean havia mergulhado num humor sombrio e profundo. Salvara o policial da morte e agora, ironicamente, seria ele o responsável por tirar-lhe a vida.

Após uma noite quase toda insone, era melhor não pensar mais no assunto. Ele não gostava do que fazia e enojava-se só de se lembrar do modo como agia. Se ele pudesse voltar atrás e... Não! Não havia como voltar atrás. Sammy precisava da sua ajuda e Dean prometera nunca descansar até encontrá-lo. Estava disposto a tudo para ter o irmão de volta que não se importava mais com as consequências que tudo aquilo poderia lhe trazer. Não pensava em seu futuro, mas sim no do irmão.

Pegou o telefone que estava largado na cama e discou o número de Chester.

Alô? ─ A voz do mais velho estava rouca, como se ele tivesse acabado de ser despertado do sono.

─ Preciso que prepare o quarto da tortura. Vamos precisar dele para hoje à noite.

Hoje à noite? Quer dizer que...

─ Sem muitas perguntas, Chester. Pode fazer isso?

Sim, chefe. Não se preocupe, tudo vai estar pronto. Eu vou avisar os outros.

─ Faça isso. Nos encontramos no local combinado.

Desligou o telefone e ficou observando a luz azul da tela do aparelho se extinguir. Desviou o olhar e analisou com carinho um retrato dos pais que ainda mantinha na escrivania. Era curioso, mas durante todos esses anos, Dean nunca parou para pensar no que os seus pais poderiam achar de tudo o que ele estava fazendo. Estariam eles decepcionados com o comportamento do filho mais velho? Ou estariam orgulhosos pela sua perseverança e luta por respostas?

Pensar naquilo nada adiantava. O importante era se focar no trabalho. Oquarto de tortura estaria preparadopara quando ele voltasse. E ele não voltaria sozinho.

Ele não podia errar.

(...)

Dean se arrastava pelas ruas, tomando cuidado para não ser visto ou ouvido. Ele usava uma capa pesada com um capuz preto, e embrulhava-se nela como se fosse congelar a qualquer momento. Ele caminhava de forma misteriosa em direção as luzes do restaurante pelo qual, minutos atrás, havia visto o policial Laser entrar.

Voltara a chover forte, mas, apesar dos pingos grossos, a noite estava tranquila e o silêncio nas ruas persistia. Procurou com cuidado por uma janela que lhe proporcionasse uma vista interna, e, depois de uma busca rápida, achou uma parcialmente coberta de plantas e flores. Ficou ali, agachado sobre a grama, observando o policial Laser conversar com um homem que ele não conhecia.

Perseguir o policial estava sendo uma tarefa razoavelmente fácil. O moreno não fazia nada a não ser ir à delegacia todos os dias no mesmo horário. É claro que havia uma saída para o mercado aqui e outra ali, mas isso não impedia Dean de se perguntar se a vida solitária do moreno era consequência da profissão que ele havia escolhido. E eraexatamente por isso que Dean estava surpreso com a cena que via a sua frente. Ele nunca imaginou que no meio da rotina entediante do moreno, haveria tempo para encontros e momentos de alegrias. Mas porque não haveria? Nem todos viviam nas sombras como ele.

Cansado e com dores nas costas, Dean se permitiu um momento de sossego. Ele respirou fundo e escorregou pela parede até sentar-se plenamente sobre a grama. Não se lembrava de seu último encontro, se é que havia tido algum, mas sabia que essas coisas costumavam demorar.

(...)

Castiel saiu bufando do restaurante, irritado demais para se permitir um momento de reflexão. Se ele houvesse prestado mais atenção às coisas a sua volta, notaria que algo se mexia entre as sombras dos prédios que o cercavam. Ele estava cansado, e só o que desejava era chegar a sua casa o mais depressa possível.

A precária iluminação da rua não permitiu ao policial de perceber uma pequena movimentação que insistia em segui-lo. Estava tão inconformado com o modo que havia sido tratado por Carlos, que, quando finalmente percebeu que havia algo errado, era tarde demais. Sem tempo de reação, ele sentiu uma mão forte sobre sua boca e a outra lhe segurar a cintura, empurrando-o para longe da calçada.

Castiel se debatia, tentando se livrar da mão pesada que insistia em lhe cobrir o rosto.A chuva começara a desabar com mais força. As trovoadas rugiam fazendo tudo virar ainda mais assustador.

─ Não adianta lutar, policial Laser. ─ O homem atrás de si falou, e Castiel não precisava se virar para saber quem era o dono daquela voz. ─ Não há ninguém por perto para te ajudar.

Castiel continuou se debatendo, buscando uma forma de se livrar das garras daquele homem. Era um policial e viraria uma presa tão facilmente. Já estivera numa situação parecida antes, mas, naquela ocasião, Carlos estava por perto para ajudá-lo. Arrependia-se apenas de não estar carregado. Sempre que saía, em particular durante a noite, costumava levar a arma consigo. Ultimamente, porém, estava com a cabeça cheia de pensamentos e sabia que não estava se comportando como antigamente.

─ Pare com isso, está apenas piorando as coisas para você! ─ Dean falou, fazendo força para manter o policial preso.

Ele precisava fazer um telefonema rápido, mas chegar ao celular que estava perdido em um de seus bolsos estava sendo uma tarefa impossível de ser realizada. Arrastou o policial para perto de um dos prédios, torcendo para que ninguém passasse pela rua, e, prendendo o corpo do moreno entre o seu e a parede gelada de concreto, começou a procurar pelo aparelho.

─ Não sei por que insiste em se debater. ─ Debochou, pegando o celular e discando o número desejado. ─ Mas até que você é bastante forte para alguém do seu tamanho. ─ Comentou de forma descarada.

Castiel, que até então estava razoavelmente calmo, aproveitou aquela pequena brecha e espantou a mão do loiro que lhe cobria a boca.

Dean olhou para ele surpreso. Havia qualquer coisa de insólito no seu olhar. Esse encontro certamente havia despertado no loiro uma emoção que raramente tinha oportunidade de sentir. Num movimento desenvolto, Castiel se virou e lhe acertou um golpe forte na boca. Dean cambaleou e quase caiu sobre um dos joelhos.

Cuspiu o filete de sangue e soltou uma gargalhada. ─ É só isso? Estou desapontado.

Castiel sentiu seu suor brotar ante o frio som de divertimento no tom da voz de Dean. Ele não sabia se corria, se ficava ali parado, ou se partia para a luta. Tentou se acalmar, sabendo que de nada adiantava se deixar levar pela conversa provocativa do loiro. Mesmo se ele quisesse, ele não podia simplesmente atacar o Winchester. Ele era um policial com uma carreira de respeito. Já imaginava a cara do chefe se chegasse com Dean Winchester todo ensanguentado para o interrogatório.

Não. Ele tinha que se controlar.

Um súbito raio de luz vindo do alto de um prédio atingiu um determinado lugar na calçada, e Dean esperou que a escuridão voltasse para agir. Ele avançou alguns passos na direção do policial, mas então parou e olhou para o celular que estava tocando em sua mão.

─ Estou na esquina da Brooklyn com a Michigan. Venha depressa, ele está atacado.

Castiel aproveitou o momento exato em que Dean guardou o celular paralhe desferir um leve chute em um dos joelhos. Não foi um pontapé contundente, do tipo que quebra ossos, mas um chute forte, que fez Dean se estatelar de costas na calçada molhada. Ele bateu com força no chão, mas pareceu se recompor de forma rápida e eficiente.

─ Já disse que não adianta lutar. ─ A voz macia e felina — usada deliberadamente como instrumento — nada tinha de impulsivo ou espontâneo.

─ Eu posso te ajudar. ─ Castiel começou a falar em tom de confiança. ─ As coisas não precisam ser assim. ─ Ele esforçou-se para manter o rosto sereno, calculando que qualquer expressão só faria rebaixar ainda mais a opinião de Dean sobre ele.

─ Policiais e suas conversas mentirosas! ─ Dean gritou, sem se preocupar em ser descoberto. Ele calculava que tudo iria se resolver em poucos segundos. ─ Não, policial Laser. As coisas irão acontecer do meu jeito.

Dean se movia de um modo que Castiel nunca tinha visto. Não que fosse veloz, embora o fosse, mas essa não era a essência. Movimentava-se com perfeição, sem jamais dar dois passos quando um era suficiente.

Mal Dean acabara de pronunciar aquelas palavras e Castiel percebeu uma viatura se aproximando. Era óbvio que Dean estava acompanhado. Se ao menos ele conseguisse alcançar seu prédio! O porteiro poderia chamar alguma ajuda.

Um homem saiu do carro e se aproximou, parando ao lado de Dean. Era mais baixo, um pouco acima do peso e parecia não gostar do que estava vendo.

– Dean – Ivan começou, com sinistra satisfação na voz. – Está na hora de terminarmos com isso.

Castiel ouviu aquelas palavras com pavor, e Dean se aproveitou de seu espanto para desferir um soco rápido que atingiu o policial logo acima do estômago.

Castiel caiu de joelhos, com dificuldade para respirar. Dean se curvou e puxou o rosto do policial para cima, fitando os olhos do moreno.

– Eu te disse uma vez ao telefone. Te disse que faria de tudo para achar meu irmão e que se você fosse inteligente sairia do meu caminho. Eu lhe avisei, policial Laser.

Dito isso, ele ergueu um dos braços e Castiel caiu numa escuridão profunda e gelada.

(...)

Castiel abriu os olhos e nada viu. O sentimento de desespero o encobria, fazendo-o suar como um cavalo depois de uma longa corrida. Sua respiração estava entrecortada e o coração acelerado. Sentia-se sufocado, como se alguém muito mais forte que ele estivesse segurando sua cabeça dentro do mar.

Vez por outra ele ouvia passos pesados do lado de fora do... Quarto? Cela? Onde exatamente ele estava?

Haviam retirado seu casaco e sua camisa, fazendo o policial se sentir ainda mais exposto, fraco. Grande parte das cicatrizes de seu corpo estava evidente. Eram lisas e prateadas, riscando-o como raios. Lembranças de uma profissão de risco.

Tentou se mexer, mas logo soube que seus esforços seriam em vão. Ele estava com asmãos amarradas atrás da cadeira e seus pés estavam presos com uma corrente de metal. Ela prendia seus pés a cadeira de tal forma que era impossível mover um músculo sequer. Tentou mexer as mãos, mas, fazendo isso, sentiu a pele dos pulsos rasgando, tamanha a força que haviam sido presos na corda.

Respirou fundo e tentou se concentrar em tudo o que havia acontecido desde sua saída do restaurante. Como ele não havia percebido que Dean Winchester o estava perseguindo? Carlos e seu jeito controlador o haviam deixado completamente perdido e agora... Agora isso!

Acabou desistindo de tentar acertar onde estava ou como havia chegado até ali. Muito cansado para dar importância àquilo, parou de ordenar suas ideias fatigadas e apenas esperou que algo acontecesse.Esteve sozinho durante a maior parte da sua vida, mas raramente se sentiu tão solitário quanto naquele momento.

Certamente não havia muito que fazer, a não ser esperar por Dean Winchester e torcer para que, pelo menos, ele pudesse ver o sol nascer mais uma vez.

(...)

Num apartamento perto de Westwood, o telefone tocou. O proprietário, Carlos Schwarcz, mexeu-se na cadeira. Foi tomado de um sentimento de frustração. Sabia, antes de atender, do que se tratava. Estava tão frustrado com o encontro que havia tido com Castiel que deixou passar alguns segundos antes de atender a ligação.

Carlos! Onde diabos o policial Laser se meteu?– Bobby Singer gritou do outro lado da linha.

– Não estou entendendo, senhor. – Respondeu, tentando manter a calma.

A delegacia recebeu um telefone minutos atrás de uma pessoa que diz ter visto Dean Winchester num carro, acompanhado de mais duas pessoas.

– Isso é muito promissor, senhor.

Não me venha com esse papo, policial Schwarcz! Estou tentando ligar para Castiel, mas o celular dele parece estar fora de serviço. Liguei para casa dele e nada. Onde diabos ele se meteu?

– Eu não sei, senhor. Eu não vejo o policial Laser desde ontem de manhã. – Mentiu. A última coisa que ele queria era que seu chefe descobrisse do fiasco de horas atrás. – Talvez eu possa...

– Não há nada que você possa fazer. Laser é o responsável por esse caso e é melhor que ele tenha uma boa desculpa para ter sumido desse jeito!

Carlos suspirou derrotado e desligou o telefone. Será que alguma coisa ruim havia acontecido a Castiel? Sentiu o coração acelerar e, então, sorriu feito um maníaco. Ele tinha que parar de se preocupar com Castiel. O parceiro havia deixado bem claro que não se interessava por ele. E agora Carlos tinha outra coisa com que se preocupar. Castiel estava suspeitando de seus telefonemas e a última coisa que ele queria era virar alvo de investigação por parte do agora, ex amigo, policial Laser.

(...)

A porta se abriu de repente, assustando o policial. O rosto de Dean espiou por uma fresta estreita, desconfiado, e então se iluminou com um sorriso sádico.

– Não deveria confiar tanto assim nas mulheres. – Dean falou, se referindo a Emily. – Principalmente as mulheres bonitas.

Castiel permaneceu calado, xingando a si mesmo por tamanha burrice. Sempre soube que havia algo peculiar em Emily, mas nunca imaginou que ela poderia estar envolvida com o Torturador. Mesmo sabendo da verdade, alguma coisa apertou em seu peito.

– Não seja duro com si mesmo. Qualquer homem teria acreditado nela.

Seu sorriso se desfez lentamente. Sem expressão, ele lançou ao moreno um olhar penetrante. Tinha a voz baixa, fria, aguda:

– Alguém andou metendo o nariz onde não era chamado, policial.

Dean andava em círculos, deixando Castiel ainda mais desorientado. E então ele parou, olhando fixamente para o prisioneiro.

– Eu vou voltar, todos os dias, até que você me diga o que eu preciso saber. – Dean falou, se inclinando para baixo, seu rosto a centímetros do moreno. – E não importa o que eu precise fazer, você me dará as respostas que eu estou procurando.

Castiel começou a respirar de forma mais pesada, até que fitou os olhos claros de Dean. Por um breve momento, houve uma brecha em sua máscara perfeita de placidez e por trás dela, Castiel pôde enxergar a verdade. A morte para Dean não significava nada, mas ele estava aterrorizado, com tanto medo quanto qualquer outra pessoa que Castiel já tivesse visto numa posição parecida com aquela.

Dean olhou Castiel nos olhos por um longo momento especulativo, depois virou-se para ir embora fazendo um gesto para que fechassem a porta.

Castiel ficou para trás, imóvel, observando o subir e descer da própria respiração silenciosa.Haviam lhe dito que a maior virtude que a mente possuía era capacidade de lidar com a dor e o desespero. Castiel não sabia se aquilo era verdade ou não, e por alguns segundos tenebrosos, desejou não estar vivo para descobrir.

Notas finais
Obrigada por lerem, espero que tenham gostado. Qualquer dúvida, crítica construtiva, sugestões... Será muito bem vindo. Nos vemos no próximos capítulo! Beijos, Kaay e With.