Marcado

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Olá queridos, como vocês estão?

Esperamos que gostem do capítulo assim como nós gostamos, e qualquer dúvida não hesitem em perguntar.

Boa leitura a todos!

MARCADO

Capítulo 17

A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado, e Chester quase não passava de uma sombra esquecida. Somente seu rosto, virado firmemente na direção da casa de Alan, brilhava em meio à penumbra. Ele vestia uma calça jeans preta e uma jaqueta de couro antiga, e os cabelos rebeldes estavam grudados em sua testa molhada.

Não estava chovendo quando havia saído de seu quarto alugado, mas ele não iria voltar para buscar proteção, e, sinceramente, ele não se importava com sua atual situação. Alan havia telefonado duas vezes nos últimos dias, e mesmo adorando ouvir a voz do colega, ele estava realmente preocupado. Alan não costumava ligar para ele. Na verdade, Alan não costumava ligar para ninguém. Era o tipo de cara que se dedicava cem por cento em suas tarefas e não se permitia nem um segundo de distração.

A chuva continuava caindo forte em seu corpo, mas mesmo assim ele permanecia imóvel, as mãos na cintura, pensando no que faria a seguir. Respirou fundo e tirou alguns fios pretos do cabelo encharcado da testa. Ele estava sendo ridículo. Nada de ruim havia acontecido, certo? Mas então porque um pressentimento tão ruim e impregnado de medo estava se espalhando em seu coração pela primeira vez em muito tempo?

Andou decidido em direção à casa do colega e bateu na porta. Segundos depois, Alan estava parado a sua frente, e o que Chester viu fez o sangue de seu corpo começar a ferver.

─ O que aconteceu com você? ─ Perguntou, olhando o mais jovem com atenção.

─ Estou bem. ─ Alan respondeu, embora sua voz tremesse um pouco.

Chester pegou a mão direita de Alan e segurou-a bem firme. ─ Eles bateram em você. ─ Falou, passando um dedo sobre o sangue ressecado.

─ Não foi nada. Está tudo bem, não se preocupe. ─ O mais jovem respondeu, porém o curativo que havia feito em sua mão começara a se soltar.

─ Não me preocupar? ─ O mais velho indagou incrédulo, mas seus olhos azuis estavam cheio de preocupação. ─ Porque você ligou, então?

Alan desviou o olhar para o chão, meio que envergonhado. ─ Eu não sei.

Chester respirou fundo, sabendo que de nada adiantava fazer mais perguntas.

─ Posso entrar?

O mais jovem abriu espaço e Chester entrou.

(...)

Castiel ainda estava pensando no motivo que o havia levado a aceitar o convite de Carlos. É claro que ter a possibilidade de descobrir o que o colega tanto cochichava ao telefone era motivador, mas Castiel sabia que Carlos esperava algo completamente diferente daquele... Encontro.

Porque aquilo seria um encontro, certo? Castiel não era nenhum especialista no assunto, mas sabia que quando duas pessoas que se gostavam – mesmo que de formas diferentes – saíam para jantar num restaurante sofisticado numa bela noite de outono só poderia significar que estavam num encontro amoroso.

Suspirou e relaxou na cadeira. Olhou para a mesa com ar de tristeza e fechou os olhos por alguns segundos, deixando que lembranças maravilhosas de Richard preenchessem o vazio que estava sentindo naquele momento.

Talvez estivesse na hora de seguir em frente com a vida.

O telefone tocou subitamente e o policial Laser saltou da cadeira assustado.

─ Sim... Entendo... Estou a caminho.

Arrumou de forma estabanada os papéis que estava estudando, levantou da cadeira, vestiu o sobretudo e pegou a arma. Passou pela sala de Carlos e por alguns segundos cogitou a ideia de chamá-lo, mas, no fim, optou por seguir adiante sozinho.

(...)

Já se passavam das onze da noite quando Dean observou Castiel sair da delegacia. Andava com muito cuidado, em silêncio, deslizando pelas ruas como um fantasma, uma aparição. Correu do outro lado da calçada, sempre tomando cuidado para não ser reconhecido, e agradeceu aos céus pela noite sem estrelas que o ajudava a passar despercebido.

Seguia os passos do policial sem saber o que faria a seguir. Não havia pensando no modo como iria agir, mas sabia que se quisesse tirar algo do policial, teria que estudá-lo por completo, conhecer seus medos, suas virtudes e suas fraquezas.

(...)

Havia sempre o perigo de algo dar errado, mas Castiel já havia passado por várias situações como aquela. Roubos e brigas de bar eram algo rotineiro, e o policial esperava resolver tudo o mais rápido possível.

O bar em questão estava às escuras. Detrás da porta da entrada, alguém roncava profundamente e Castiel entreabriu-a com cuidado. O local não era grande, mas havia muitas mesas e cadeiras espalhadas pelo piso escuro. Numa cadeira ao lado da porta, dormia, silvando o ar pesadamente pelo nariz, uma mulher gorda com um vestido suspenso acima dos quadris. Castiel piscou os olhos algumas vezes e desviou o olhar o mais depressa possível. Aquela não era uma visão das mais agradáveis.

Estranhou a falta de movimentação, mas notou que do lado direito do bar havia uma porta pequena. Talvez a confusão tivesse acontecido ali. A porta estava semiaberta e dava para uma escada de estreitos degraus que levavam para o piso inferior. O policial já estava passando por ela quando ouviu vindo de baixo um palavrão, seguido de um som alto de algo se espatifando no chão.

Segurou a arma por impulso, e seguiu em frente.

Chegou numa pequena sala abandonada e bagunçada, cheia de utensílios espalhados. No chão de madeira escuro, entre cacos de uma garrafa de uísque, havia um homem ajoelhado e com a cabeça abaixada. Ele estava sangrando, mas parecia fora de perigo.

─ Senhor? ─ Castiel chamou com cuidado e se aproximou, percebendo que as mãos do indivíduo estavam amarradas atrás de seu corpo.

O homem ergueu a cabeça e engoliu em seco. Seus olhos estavam baços e injetados.

─ Fale mais baixo! ─ Pediu o estranho, fazendo uma careta de dor. ─ Não precisa gritar, eu estou te ouvindo.

─ O senhor está ferido? Poderia me dizer o que aconteceu aqui?

─ Claro que posso dizer. ─ Ele começou a contar. ─ Roubaram tudo! Tudo! Não sobrou mais nada!

─ O que foi roubado? ─ Castiel perguntou, o coração batendo acelerado no peito.

O homem olhou para o policial com a boca aberta, arrotou, e então seus olhos se fecharam e seu corpo caiu ao chão, duro feito uma pedra.

Castiel deu de ombros e meneou a cabeça com compaixão. Embora evitasse excessos alcoólicos, o estado em que se encontrava aquele indivíduo não lhe era totalmente desconhecido.

Por um instante o policial pensou em derramar água na cabeça do homem, mas mudou de ideia e saiu do local, deixando o estranho para trás. Voltaria para ajudá-lo, é claro, mas agora não havia nada que Castiel pudesse fazer por ele.

Continuou pelo corredor e parou em frente a uma porta entalhada. Entreabriu-a com todo o cuidado, apenas o suficiente para poder entrar no aposento. Como estava na penumbra, alargou as pupilas e franziu o nariz. O ar estava carregado de cheiro de vinho azedo.

Quando seus olhos se acostumaram à escuridão, Castiel não pode acreditar no que via a sua frente. Um amplo sofá estofado em cor de marfim, outro sofá semelhante, só que preto, quatro poltronas de couro, um tapete persa estendido na parede e uma escrivania antiga... Tudo isso meticulosamente distribuído sobre o chão de marfim preto. O que um cômodo lindo como aquele fazia perdido num bar fedido e mal tratado?

Olhou fixamente para a escrivania, no centro da sala, e esta se apresentava como um autêntico campo de batalha de garrafas, taças, pratos, talheres e travessas. Sem dúvida fora ali que a confusão começara e sem dúvida aquele homem havia lutado com todas as suas forças para defender o que era seu. Aproximou-se aos poucos e percebeu um grande cofre vazio na parede lateral. O que quer que estivesse ali, era algo muito valioso.

Subitamente, percebeu que não havia mais nada a fazer. A única pessoa que poderia lhe ajudar estava inconsciente, e aparentemente não iria se recuperar tão cedo. O policial Laser saiu da sala e hesitou um instante. Havia uma expressão curiosa em seu rosto — uma mescla de determinação e estranha indecisão.

Depois de desamarrar o homem e se certificar de que não havia mais ninguém no bar, Castiel deu meia volta e saiu, respirando o ar limpo mais uma vez.

Parou por alguns segundos em frente ao bar, e quando voltou a andar, esbarrou em alguma coisa pesada.

─ Uma ajudinha, chefe? ─ O garoto tinha a cara suja, mas seu sorriso era insinuante.

─ Sinto muito. ─ Castiel respondeu e retornou a andar, mas então algo muito estranho aconteceu.

Ouviu passos apressados vindos da porta de trás do estabelecimento e deu a volta na calçada com a arma em mãos. Dois homens. Dois homens estavam descarregando mercadorias numa van preta.

─ Parados!

Os dois se viraram rapidamente, olhando o policial com olhos arregalados. Estava claro que não esperavam serem descobertos.

─ Mãos para cima da cabeça! Agora!

Os homens obedeceram e Castiel se aproximou dos dois.

─ Não estamos fazendo nada de errado, policial. ─ O mais alto dos dois falou.

─ É mesmo? ─ Castiel indagou, dando uma bela espiada na mercadoria que estava na van. Armas e... Ouro?

─ Estávamos apenas... Apenas...

─ Ora, fique quieto! ─ O mais alto gritou para o parceiro, seus olhos vermelhos de irritação.

─ Fiquem quietos os dois! ─ O policial Laser exigiu. ─ Aproximem-se da lateral da van, cabeça e mãos apoiadas no veículo!

Os homens obedeceram e depois de revistar os dois, Castiel prendeu as mãos de um deles com as algemas que sempre carregava, e usou um pedaço de corda que achou na rua para prender as mãos do outro. Satisfeito com seu trabalho, pegou o celular e ligou para a delegacia.

─ Aqui é o policial Laser... Eu preciso de uma viatura na rua...

Não terminou de falar, pois um barulho de carro freando roubou sua atenção. Castiel apontou a arma na direção do veículo preto, sempre mantendo um olho nos indivíduos que havia prendido.

─ Saía do carro com as mãos para cima!

Estava tão escuro e os vidros do carro eram negros, que Castiel não podia ter certeza de quantas pessoas estavam lá dentro. Na verdade, estava começando a se sentir desconfortável com aquela situação, e amaldiçoou a si mesmo por não ter chamado Carlos nessa investigação. O colega era mais experiente em situações como aquela e saberia o que fazer a seguir.

Castiel gritou novamente, mas mais uma vez, ninguém saiu do carro. Andou alguns passos em direção ao veiculo preto e aquele talvez tenha sido seu único erro naquela noite. Ao se afastar um pouco dos dois homens, o policial deixou de ver a mudança de expressão em seus rostos, Deixou de prestar atenção em como seus olhos se iluminaram e de como um sorriso vitorioso surgiu em ambos os lábios. E então...

E então, antes que pudesse ter qualquer tipo de reação, o policial ouviu um barulho de tiro atrás de si. Quando virou o corpo, viu um homem de arma na mão caído no chão e Dean Winchester em pessoa parado a alguns centímetros da cena. E ele também estava armado e encarava o policial de maneira fixa, quase íntima.

Castiel ficou paralisado, sem saber o que fazer. Por um lado, tudo o que queria era aproveitar aquela situação e prender aquele homem, que era o mais procurado do país. Por outro, sabia que seu lugar era ali, perto daquele corpo e daquela van, pelo menos até que chegasse o reforço.

Aproveitando-se que o policial estava em estado de choque, os dois homens supostamente detidos correram em direção ao carro e então partiram. Foi só quando ouviu o barulho dos pneus que Castiel voltou a si. Olhou rapidamente para o lado e percebeu que todos haviam sumido. Tudo aconteceu tão rápido como um flash: Ao voltar à atenção, buscando por seu salvador, percebeu-se sozinho na solidão da rua. Dean havia desaparecido.

Ligou para a delegacia mais uma vez e explicou tudo para os policiais que chegaram ao local. Bem, quase tudo. Por mais estranho que fosse, Castiel simplesmente não conseguiu relatar a participação de Dean naquela confusão. Era estranho, mas para Castiel o que ocorrera entre ele e Dean soava-lhe como um segredo, que somente ele deveria saber.

─ Então, você não viu quem atirou? ─ Um dos policiais perguntou. Ele anotava tudo o que Castiel dizia num bloco pequeno de papel.

─ Não, policial Jason, eu não vi. Foi tudo muito rápido.

Uma mentira. E uma mentira tão tola. A maneira idiota com que se diz a primeira coisa que ocorre à cabeça, em vez de demorar dois minutos para pensar. Ele poderia ter dito qualquer outra coisa. Descrito alguém imaginário. Ora, ele era um policial e recebia esse tipo de resposta todas as horas. O policial Laser sabia que mais cedo ou mais tarde seus companheiros iriam descobrir a verdade, mas por enquanto, aquele era um assunto encerrado.

(...)

Bobby Singer chegou à sala de Carlos irritado, para dizer o mínimo.

─ Sabe o que seu parceiro idiota acabou de fazer? ─ Ele gritou, fechando a porta atrás de si com força.

Carlos ergueu os olhos para o chefe, sem saber o motivo de tanta irritação.

─ Não, senhor. Eu não sei. Eu não vejo o policial Laser desde a hora do almoço.

─ Então deixe eu te dizer o que ele fez. ─ Bobby começou, respirando fundo. ─ O policial Laser achou que era James Bond e foi investigar uma briga de bar sozinho, embora ele saiba que é estritamente proibido fazer isso sem apoio.

─ Ele o que? ─ Carlos perguntou, sentindo-se incomodado com tal notícia. Porque Castiel não o havia chamado?

─ E como se isso não bastasse, o policial Laser deixou que todos os envolvidos escapassem... Bem, quase todos.

─ Ele conseguiu fazer uma prisão? Isso não é tão ruim, chefe. Podemos interrogá-lo e...

─ O homem está com a cabeça estourada! ─ Bobby o interrompeu, perdendo o último fio de paciência que lhe restava.

Carlos ainda estava desapontado por não ter sido chamado por Castiel, mas mesmo assim sentia a necessidade de tentar ajudar o colega. ─ Castiel deve ter tido um bom motivo para atirar nele, chefe.

─ É ai que as coisas ficam mais divertidas, policial Schwarcz. Não foi Castiel quem atirou no homem e sim outra pessoa.

─ Outra pessoa? Quem?

─ Não sabemos, porque aparentemente o policial Laser não conseguiu ver quem foi o seu salvador.

─ Salvador? ─ Carlos sentiu o coração começar a bater de forma acelerada em seu peito. ─ Está dizendo que Castiel quase foi morto?

─ Estou dizendo que se você não for investigar, vão parar os dois no olho da rua!

─ Sim, senhor. Já estou indo.

(...)

Castiel voltou para a delegacia, pegou o carro, e já estava no caminho para casa quando Carlos telefonou.

─ Carlos, eu não estou com paci...

─ Porque você não me chamou? ─ Carlos o interrompeu e ele soava mais desapontado do que irritado.

“Porque eu não confio mais em você como confiava antes.” Castiel pensou.

─ Eu não achei que seria perigoso.

─ Você quase morreu, Cass! Que droga! Não pode fazer isso! Não pode sair por ai bancando o herói!

─ Eu não estava bancando o herói, Carlos. ─ Castiel respondeu, estacionando o carro em frente ao apartamento. Não adiantava levá-lo até a garagem. Ele iria voltar ao trabalho em poucas horas. ─ Eu realmente achei que fosse apenas uma briga de bar, eu não imaginava encontrar uma van cheia de mercadorias roubadas.

─ Isso não interessa, Cass. Eu sou seu parceiro e você deveria ter me incluído nessa investigação. Prometa-me que de agora em diante eu e você vamos fazer as coisas juntos. Somos parceiros, Cass. E se algo acontecer com você, eu...

─ Carlos, nada aconteceu comigo, mas sim, eu prometo. E agora, eu tenho que ir. Boa noite.

Às duas da manhã, Castiel já estava na cama, porém não conseguia dormir. Não conseguia entender Dean Winchester. E não conseguia entender porque ele havia salvado sua vida. Começou a cogitar seus motivos para tal efeito, pois Dean poderia facilmente tê-lo deixado à mercê do que estivesse para acontecer. Contudo, ao invés de seguir o rumo natural do destino, ele decidiu alterá-lo. E agora não havia justificativas que explicassem o ato heroico do Winchester, pelo contrário, ele apenas contribuiu para instigar mais dúvidas em sua mente. Já ficara comprovado para Castiel que, naquela noite, ele não dormiria.

Notas finais

Agradecemos a leitura, a todos aqueles que sempre aparecem para comentar e esperamos ansiosas as opiniões de vocês. Qualquer dúvida, crítica construtiva, sintam-se à vontade. Estamos abertas as sugestões de todos.
E leitores fantasmas, não tenham medo da luz! Sigam pelo mesmo caminho! É sempre muito legal ler e saber a opinião de todos vocês, estamos nos dedicando muita a essa fic :)
Agradecemos a todos o carinho e paciência!

Até o próximo capítulo!
Kaay e With.