Marcado
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Parece que desta vez não demoramos muito... Estamos melhorando! Notamos também que alguns leitores fantasmas apareceram, ficamos muito felizes. É muito importante saber a opinião de cada um.
Esperamos que gostem desse capítulo, demos o nosso melhor.
Boa leitura!
MARCADO
CAPÍTULO 16
O beco pelo qual se esgueirava fedia a urina e fumaça, cheiro que ele reconheceria em qualquer lugar. Contudo, esses detalhes eram o que menos lhe importavam. Alan estava naquele lugar, conhecido como o mais perigoso do bairro, com apenas um objetivo em mente: Conseguir informações sucintas sobre a pessoa que se autointitulava Águia Negra.
Desde quando Dean lhe dera aquela tarefa, Alan não obteve muito sucesso em suas pesquisas. Poucas pessoas ousavam pronunciar tal apelido, outras apenas desconversavam como se estivessem diante de uma doença contagiosa e algumas mal lhe dirigiam a palavra. Francamente, aquilo não poderia estar pior, não fosse o que escutara em uma das noturnas idas aos bares daquela região, Alan certamente não estaria naquele lugar.
Aproximara-se de alguns clientes assíduos do bar e, depois de um bom suborno, recebera como orientação o Beco Garganta Profunda. E era por entre tijolos escuros e velhos que Alan seguia. Havia pessoas usando todo o tipo de droga que se podia imaginar, bebidas cujo único aroma que se misturava ao sabor era o de álcool. O rapaz franziu as sobrancelhas, deixando claro o quanto o incomodava perambular por ali. Sentiu o estômago embrulhar ao ser covardemente atingido pelo forte cheiro de tabaco.
Aquela noite um vento gélido soprava, entretanto, o Beco Garganta Profunda parecia absorver todo o frio. Mesmo assim, Alan fechou o casaco e abrigou as mãos nos bolsos, subitamente sentindo um suor escorrer pelo meio das costas. Sensação distinta, mas que era tão característico de suas percepções quanto aos lugares. Com certeza era um aviso para que ele ficasse alerta, e ele não precisava se aconselhar duas vezes.
─ Está perdido, bonitinho? ─ Uma mulher dirigiu-se a Alan, e as palavras vieram carregadas de malícia. ─ Quer companhia?
─ Quero falar com o chefe desse lugar. ─ Ele foi categórico, em sua voz um teor desconhecido até mesmo para si próprio. Estava ereto, convicto a trazer informações significativas.
─ Você não é da polícia, é? ─ Ela perguntou com certa desconfiança.
─ Acha que se eu fosse um policial, eu entraria aqui sozinho e desarmado?
A mulher resmungou algo incompreensível e passou a caminhar, chamando Alan com um gesto de cabeça. Quanto mais adentrava aquele beco, mais ele percebia que não vira o pior. O “coração” do Garganta Profunda possuía figuras que certamente manchariam a mente de Alan pelo resto da semana: Pessoas seminuas se entregando umas as outras sem qualquer tipo de pudor, sexo explícito em condições imundas... Santo Deus! Agora sei por que escolheram esse nome. O rapaz evocou em pensamentos, abstendo-se em olhar unicamente para frente.
Com o canto dos olhos, viu dois rapazes começarem uma briga sem motivo aparente. Estavam drogados e com certeza haviam bebido mais do que suas pernas podiam aguentar, pois estavam cambaleando na direção um do outro e seus socos e chutes mal tocavam o corpo adversário. Havia uma garota parada ao lado deles, e Alan não precisou de mais nada para entender que os rapazes estavam duelando pela atenção da bela morena.
Olhou em volta rapidamente e ficou surpreso ao ver que mais ninguém se interessara pela briga e concluiu que aquilo deveria ser algo bem rotineiro. Quando voltou sua atenção para frente, esbarrou com tudo em duas figuras altas que andavam em direção contraria a sua. Cambaleou um pouco com a força do contato, mas rejeitou a ideia de se desculpar.
Ele seguiu a mulher até pararem em uma porta velha, mas que ninguém se atrevia a violar. Analisou com cuidado, e percebeu que um símbolo adornava a madeira descascada. Alan conhecia bem aqueles desenhos, pois era comum as gangues famosas adotarem símbolos para marcarem seus territórios. Aquele símbolo em particular era o Olho de Hórus, que segundo a Maçonaria, significava que todos ali estavam constantemente sendo observados por um ser superior. E Alan teve a impressão de que os boatos que ouvira sobre Phill não estavam de todo errados.
─ Sugiro que tenha cuidado, bonitinho. ─ Havia um sorriso maldoso adornando os lábios dela. ─ Phill não gosta muito de ser interrogado. ─ Ela aproximou-se perigosamente de Alan, colocando algo no bolso de trás de sua calça. ─ Diga a ele que é um presente, sabe como são as coisas. ─ E dito isso, deu duas batidas leves na porta.
Antes do que Alan pudesse prever, a mulher havia sumido e um ranger de fechadura foi o som que ouviu a seguir. De onde estava não podia definir o que existia lá dentro e nem como era o tal Phill, entretanto ele não precisava observar muito mais para deduzir o tamanho da sala.
Um homem alto e forte, com a pele morena tatuada, entrou no campo de visão de Alan; Nas feições um alto índice de arrogância e impaciência. Esquadrinhou o rapaz de cima a baixo, julgando-o por sua aparência como um garoto rebelde e que estava fazendo coisas indevidas escondidas da mãe, um mero garoto que mal sabia o que estava fazendo ali ou o que o Beco Garganta Profunda significava. Sorriu altivo, estendendo a mão em gesto pedinte.
─ Você trouxe, né? ─ O homem, que depois Alan soube se chamar Tyler, questionou ao ver a confusão nos olhos do rapaz. ─ Para entrar, precisa pagar.
E em um instante, Alan se lembrou do que a mulher havia guardado em seu bolso, contudo ainda lhe era de curiosidade saber o porquê. Os dedos de Tyler o apressaram e ele entregou logo o pacote, aliviado por aquele ser o tipo de pagamento.
─ Entre. ─ A porta abriu-se mais, dando passagem a Alan, e ele não estava errado ao imaginar que a sala fosse pequena, embora ocupada por quatro homens tão fortes e altos quanto o homem que o atendera.
Não havia muitos móveis disponíveis, apenas uma mesa retangular média e um rapaz de cabelos loiros e compridos na altura dos ombros, de olhos castanhos espertos que se fixaram sedentos nos olhos de Alan, lábios finos adornados por um piercing na parte inferior. E quando ele sorriu, o rapaz arrepiou-se com o brilho de um dente dourado.
─ Quem é você e o que quer comigo? ─ Embora a aparência dele fosse rígida, a voz era suave e calma, indo contra quaisquer impressões que Alan tivera ao vê-lo. ─ Eu nunca te vi por aqui antes...
─ Meu nome é Brad. ─ Algo em Alan dizia para não se apresentar abertamente. ─ E eu soube por algumas pessoas do bar que você é os olhos e os ouvidos daqui. Então, pensei que talvez pudesse me ajudar a encontrar uma pessoa.
Phill direcionou os olhos a cada homem na sala, como se lhes dessem ordens, e logo se reclinou na cadeira, passando o celular entre os dedos como se fosse um objeto de pouca importância.
─ Brad... ─ Ele saboreou tal nome, fazendo questão de pronunciá-lo pausadamente. Atitude essa que causou em Alan inquietude, ora ele já estava nervoso o suficiente para certos hábitos. ─ Certo, Brad, e quem é essa pessoa?
Subitamente a sala começou a ficar abafada demais e Alan não podia ignorar a sensação desesperadora que crescia dentro dele a cada segundo, contudo, teria que se obrigar a se manter firme até o final. Vamos, você consegue.
─ Águia Negra. Soube que vocês dois são bem... Próximos. ─ Ao dizer tal apelido, Phill ofereceu-lhe total atenção.
Havia algo peculiar nos olhos castanhos de Phill, um brilho suspeito e interrogativo que não agradava nenhum pouco Alan. Inconscientemente deu um passo para trás, notando que os quatro homens o cercavam.
─ Ah, sim, Águia Negra é um desgraçado filho da puta! ─ Phill praguejou, cuspindo no chão em nojo. Levantou-se, dando a volta na mesa. ─ Mas antes, Brad, o que cê quer com ele? Cê não me parece o tipo de pessoa que anda fora dos trilho. ─ E quando terminou de falar, encontravam-se a cinco passos exatos de distância.
─ Não confunda minha aparência, Phill. ─ Alan começou a se sentir irritado. Estava ciente que sua aparência gentil despertava as mais diversas impressões nas pessoas, e ele odiava quando outros a mencionava. ─ Tenho algo interessante a oferecer a ele.
─ Hmm... Conta aí, quem sabe eu...?
─ Sinto muito, é um negócio direcionado exclusivamente a ele. ─ O rapaz tratou logo de cortá-lo, e segundos depois o celular vibrou no bolso do casaco. Chester.
A expressão serena de Phill transformou-se em uma expressão maldosa, os lábios se franziram em raiva. Como aquele garoto ousava interrompê-lo e, pior ainda, recusar-se a negociar com ele? Ele estava ali para isso... Ou não? Apagou os passos que os separavam, forçando Alan a recuar.
─ Amanhã eu terei um encontro com ele e podia até dedurar o lugar, mas cê foi um menino malcriado... Brad. ─ Ele pronunciou novamente o nome falso, desta vez em divertimento. ─ Só que, como eu admiro sua coragem, vou te dar uma informação bacana: Ele esteve aqui hoje, acho que cê até esbarrou com Águia Negra por aí, ta sacando? Mas não vou encher sua linda cabecinha com neuras.
─ O que quer em troca para me dizer onde posso encontrá-lo? ─ Os punhos de Alan cerraram-se. Aquele joguinho havia dizimado a sua boa face, levando-o a sentir uma sensação há muito esquecida: Vontade de descontar em alguém. Seu sangue corria eufórico nas veias e imaginou-se arrancando aquele maldito piercing com um alicate, lenta e dolorosamente.
─ Gostei de você, Brad... ─ Phill sorriu de maneira indecifrável, ousando tocar o belo rosto do rapaz. ─ Sabe, eu poderia torná-lo meu e...?
Phill não chegou a terminar a insinuação, pois mordeu a própria língua ao receber o forte soco de Alan. Um belo e maldito Jab, que o fez cair de imediato sobre a mesa. Os objetos que nela estavam se quebraram ao encontrar o chão. O sangue escorria livre, deixando Phill completamente desorientado.
─ Eu não estou à venda, seu desgraçado de merda! ─ Desta vez Alan gritou, cedendo à raiva e deixando-a esvair. Raras eram às vezes em que isso acontecia e, pelo que ele se lembrava, fora a segunda vez em vinte e um anos.
Enquanto um dos homens ajudava o chefe a se levantar, dois prenderam Alan que, apesar da declaração de briga que havia feito, instigava Phill com o olhar mais arrogante e furioso que conseguia. Era nítido o seu descontrole, como se recriminava-se por ter se deixado levar por meras provocações.
─ Ah, Brad... ─ Phill fingiu lamentação, colocando-se de pé e empurrando o homem que o ajudava. Sentia-se extremamente humilhado, e iria sim revidar. ─ Cê não devia ter feito isso, sabia? ─ Limpou o sangue com as costas das mãos e ajeitou a postura, mostrando-se altivo e transbordando toda a autoridade que possuía no Beco Garganta Profunda. Ninguém o desafiava. Ninguém. ─ Agora, terei que marcar a sua bela imagem. Façam.
Foi essa a única palavra que desencadeou tudo. Os dois homens prenderam com mais força os braços de Alan atrás das costas, não o dando a chance de escapar. A postura indefesa era como uma atração, e Alan não conseguiu acompanhar a rapidez com que eles o atacaram.
Socos o atingiram no rosto e abdômen, em seguida chutes de pernas potentes e violentas acertaram-lhe as costelas. O ar faltou-lhe por minutos, e ele sabia que se continuasse naquelas condições não iria voltar para casa. E isso ele não podia permitir.
Usando o agarre como apoio, Alan impulsionou-se, ignorando a dor e a dormência de alguns membros e partes do corpo. Algo quente e viscoso cobria-lhe o olho esquerdo como uma máscara mal feita e a visão se tornava quase impossível. Um barulho estrondoso chamou-lhe a atenção, porém ele não pôde discernir o que era; Aquele brilho assassino ele reconheceria mesmo estando no escuro. Era um punhal dourado, talhado com símbolos que no momento não lhe traria benefício algum identificar.
E a cada piscar de olhos o instrumento se aproximava rapidamente. No intuito de se proteger, acabou por segurar a lâmina às cegas, resultando em uma bela abertura na palma da mão direita. Praguejou, notando que sua visão ameaçava sair de foco e o ar lhe foi cortado quando um braço musculoso prendeu-lhe o pescoço.
─ Cê é bem nervosinho, Brad. ─ A ironia de Phill chegava aos ouvidos de Alan de forma entrecortada. Sem prévio aviso, puxou o punhal, aprofundado ainda mais o corte. O tecido adiposo totalmente a mostra. ─ Olha a confusão que cê arrumou. Não havia necessidade disso. ─ Apontou para o próprio rosto, que por sinal apresentava o inchaço.
O tempo e rapidez de Phill foram além do que Alan esperava. O golpe de vingança o atingiu, e ele não soube dizer quando a escuridão o invadira.
(...)
Seu corpo todo doía e os olhos abriram-se preguiçosos, na verdade apenas um deles. O outro estava colado devido ao sangue que secara. Forçou-se a sentar e traduzir o lugar que se encontrava, porém tudo o que via eram ruas desertas. Que ótimo... Alan lamentou consigo, enquanto usava a parede como apoio para se manter de pé. Mesmo envergonhado, tinha que admitir que Phill possuía o soco mais potente que já tivera a má sorte de experimentar.
Enquanto arrastava-se pelas ruas, com um dos braços transpassando a altura das costelas, Alan repensou em tudo que conseguiu arrancar de Phill. Águia Negra esteve naquele lugar e eu não prestei a mínima atenção! Bom, o que eu poderia fazer se por acaso o encontrasse? E amanhã, pelas suas contas, eles negociariam em algum lugar. Se ao menos soubesse... Poderia segui-lo.
E, no momento em que cruzou a rua, Alan cogitou se realmente as informações eram verdadeiras. E se Phill apenas usou a situação ao seu favor e mentiu para ele? De qualquer modo, Alan sabia que não podia se arriscar mais do que deveria. Na verdade, do jeito que estava agora apenas congestionaria os planos. E ele não queria causar problemas para Dean.
Enfiou a mão livre no bolso do casado, notando que seu celular ocupava o espaço apertado. Até que você não é um desgraçado de merda como pensei. No visor havia três chamadas perdidas de Chester, e ele respirou pesadamente. Se Chester o visse daquela forma, seria capaz de ir atrás de Phill procurando revanche. E amontoar dívidas e brigas desnecessárias não estava no script. Em todo o caso, mais cedo ou mais tarde Chester iria descobrir.
Digitou o número do celular do companheiro e aguardou, ouvindo as chamadas. Tinha certeza de que ele o mandaria para os infernos, porém ele era o mais próximo. De todos os lugares, Chester achou ─ por segurança ─ alugar um quarto não muito longe de Alan. Como se eu precisasse de babá. Alan sorriu irônico, percebendo que sempre dependeria de Chester, seja no que fosse. E isso o frustrava, era como se admitisse para si mesmo que não fosse capaz.
─ Que é? ─ A voz carregada de sonolência preencheu o outro lado da linha.
─ Você apenas dorme? ─ Alan retrucou, enquanto abria a porta de casa e acendia a luz como podia.
─ E você, por outro lado, não consegue ficar longe de mim. ─ Chester entrou na provocação, escutando um riso desolado do menor. ─ Aconteceu alguma coisa, bebê?
─ Falando desse jeito, eu perco o tesão. ─ Embora não estivesse no clima para piadinhas, ele não permitiu que essa escapasse. Entrou no quarto e descansou o corpo no colchão com dificuldade, soltando um gemido no ato. ─ Poderia vir até a minha casa?
─ Francamente, você me coloca na coleira. Me espere pelado, chego em um minuto.
Notas finais
Dúvidas, sugestões, críticas? Sintam-se à vontade para opinar, será muito bem vindo.
Nos vemos nos próximos capítulos.
Um beijo,
Kaay e With.
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