Marcado
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Marcado
Capítulo 22
— Achei que não viria. — Águia Negra proferiu, observando Carlos de cima a baixo. — Algum problema?
— Você não se interessa pelos problemas dos outros, então pare de fingir. — Ele tomou em mãos uma prancheta, verificando as mercadorias. Algumas não constavam na lista, mas estavam devidamente empilhadas no canto.
— Se eu não me importasse não estaria cuidando de você, criança. — O homem baixo, de cabelos negros e semblante debochado sorriu, instigando-o a relembrar o passado. — Você deveria ser mais agradecido.
— Não acho que devo estar, afinal seus golpes foram baixos. Por causa de um acordo estou fadado a servir você pelo tempo que quiser!— Carlos quase gritou, entretanto ponderou o tom de voz. Não queria dar motivos a Águia Negra para castigá-lo ou reviver seu passado.
— É verdade, não me interessa mesmo. — Águia Negra deu de ombros, indo se sentar na poltrona próxima a luz. — Sammy está com fome.
— Não sou babá. — Retrucou, jogando a prancheta sobre a mesa e rumando a passos rápidos para o quarto do garoto.
Além dos problemas que rondavam sua mente, ainda tinha que se preocupar em não deixar o rapaz morrer de fome. Águia Negra era sádico e pouco se importava com Sammy, então por que ainda o mantinha preso? Já causara muito sofrimento, visando sempre um método cruel. E Carlos já provara na pele o tamanho de sua crueldade.
Há oito anos ele tivera o azar — ou sorte, por ainda estar vivo — de conhecer Águia Negra naquela noite fria e aterradora. Carlos se envolvera com pessoas perigosas e devia a elas quantidade absurda de dinheiro, além de drogas. E ele não tinha mais condição de bancar suas próprias dívidas. Não existia a quem recorrer, apenas fugir dos tiros e ameaças veladas. Seu rosto era conhecido e os cobradores fariam de tudo para apagá-lo.
Entre risos insanos e assustados, Carlos o encontrou. Tão frio e impenetrável quanto qualquer muralha de atitudes. Nos olhos escuros ele testemunhou a crueldade quando aquele homem apagou seu perseguidor com um tiro certeiro, afastando os outros e findando suas dívidas.
— Parece que agora você me deve alguma coisa. —Águia Negra dissera com um sorriso, encantado com o ser a sua frente. Moreno, de olhos castanhos espertos e brilhantes, ele encontrara sua relíquia. Seu troféu, seu ponto de apoio para seus projetos.
— Não devo. Fez porque quis, eu não pedi nada. — Carlos rebatera, dando alguns passos para trás, porém incapaz de se afastar completamente. Apesar de ter tido uma infância regada, após completar vinte e um anos sua vida mudara. Desamparado e desesperado para suprir os vícios, ele se viu enrolado em uma teia de aranha perigosa. E embora estivesse salvo, a aranha não lhe permitia sair, exigindo que pagasse sua refeição perdida. Então, ele dissera sim a Águia Negra.
Fora treinado e aconselhado a seguir carreira policial, assim seria mais fácil atrair compradores e negociantes das mais perigosas pirâmides do crime. E a adrenalina supriu a necessidade de ser importante para alguém. E foi naquele dia, há sete anos, que Carlos deparou-se com o homem mais bonito que ele já vira. Um anjo que o livraria do inferno: Castiel Laser. E se apaixonara perdidamente pelo semblante sereno, pela forma como os olhos azuis se moviam, pela voz calma e decisiva... Castiel se tornara a sua perdição. Aos vinte e nove anos ele declarara abertamente seu amor por ele, porém nunca retribuído, fazendo com que se afundasse mais na profissão de contrabandista dentro e fora das prisões.
E agora, aos trinta e três anos, Carlos Schwarcz continuava a levar uma vida de mentiras e múltiplas personalidades, contudo sem nunca mentir sobre seus sentimentos quanto a Castiel. E precisava continuar escondendo Castiel de Águia Negra. Sabia do que aquele homem era capaz. Embora não tivesse contato com ele há uma semana, não movera sequer um dedo para procurá-lo. Aquela desfeita martelava com vigor dentro dele, cegando-o parcialmente. Amava Castiel, porém preservava sua dignidade e seu orgulho. Jamais rastejaria por uma parcela de afeto, já o fizera demais.
(...)
Samuel Winchester observava o homem moreno a sua frente com interesse. Ele estava quieto, o olhar perdido e parecia não vê-lo. E justo agora que precisava conversar. Apesar de estar preso sem saber o porquê, Carlos era o único que lhe destinava um tratamento melhor. Gostaria de saber o motivo e agradecê-lo por isso. Cauteloso, Sammy aproximou-se e tocou-lhe o ombro.
— O que quer? — Carlos perguntou rude, mudando parcialmente a expressão do rapaz.
Sabendo que não deveria insistir, Sammy sentou-se ao lado dele sem nada dizer. Ele esperaria até que Carlos passasse a notá-lo novamente.
E foi assim que as horas passaram: Silenciosas. O rapaz já andara pelo quarto, observara pela janela e agora estava impaciente. Teve ímpetos de perguntar se tudo estava bem, entretanto Carlos saiu do quarto de repente, como se tivesse se lembrado de algo. Fora estranho, então o seguiu com cuidado para não ser notado. E o que viu o deixou apreensivo. Com destreza e coragem, Carlos deixou que as mágoas carregassem seus punhos e desferiu um soco em Águia Negra, que atordoado não pôde revidar.
—É, eu te devia mesmo alguma coisa. — Carlos sorria, completamente satisfeito por ao menos daquela vez ter amenizado a raiva crescente dentro dele durante tantos anos.
No entanto, recuperado, Águia Negra sacou do bolso uma arma pequena. Prata e brilhando perigosamente, ele a apontou para a cabeça de Carlos. Contudo, tal gesto apenas expandiu o sorriso de Carlos, o que o desconcertou.
— Ficou louco, Carlos? — Águia Negra desferiu irritado, limpando o sangue que escorria do nariz. — Posso te matar agora mesmo!
— Não fará isso. — Carlos aproximou-se até que sentisse o cano da arma pressionar seu peito. — Precisa de mim, sempre vai precisar. Não consegue fazer nada sozinho, depende até de uma criança!Completamente patético, Crowley!
E em anos aquela também era a primeira vez que Carlos o chamava pelo nome. O semblante de Crowley já não era o mesmo tamanho a raiva estampada nas linhas de expressão. Provando que não estava brincando, ele destravou a arma.
— Você não é um homem de atitudes, Águia Negra. — Ele debochou do apelido. — Sempre escondido em sua toca, um medroso. Tenho certeza que seu negócio teria chegado ao fim sem mim. Acho que está na hora de mudarmos algumas coisinhas.
— Eu sinto muito, criança, mas você não me deixa outra escolha.
Os olhos de Sammy fecharam-se com o barulho do tiro, em sua garganta morreu um grito de desespero.
(...)
Uma semana havia se passado e Castiel Laser experimentara diversas formas de tortura. Seu corpo não mais se queixava de dor, totalmente entorpecido. Tivera febre devido a algumas infecções que contraíra diante os ferimentos não tratados, pois Dean mantinha a porta trancada a chave para evitar que Alan continuasse cuidando do prisioneiro. Escutara uma breve discussão alterada, onde apenas distinguiu uma palavra: Preço. Não fazia a mínima ideia do que queria dizer, mas Chester fizera questão em lhe explicar que Alan fora punido por sua causa.
— Eu devia matá-lo agora. — Castiel acompanhou o brilho magoado e furioso nos olhos azuis de Chester, e não teve desculpas para acalentá-lo. E duvidava que o que dissesse apaziguasse o que ele sentia. — Estou cansado de vê-lo ferido por pessoas como você.
— Se quiser me matar, vá em frente. Se apenas dessa maneira a sua dor passará, não vou tentar impedi-lo.
— Pensa que me impressiona com esse monte de merda?! — Chester desferiu-lhe um tapa forte no rosto, e o policial teve que se segurar nas correntes para não desequilibrar. — Você não passa de um grande filho da puta. Vou fazê-lo pagar por tudo que ele está passando, vou te fazer soltar os mesmos gritos que ele.
— Por que está aqui? — Castiel interrogou, intrigado. — Se está tão disposto a vingá-lo, deveria estar usando essa determinação para livrar seu namorado do sofrimento.
— Estou olhando para ele agora. — Pela primeira vez em muito tempo Chester sentiu os olhos arderem. Quando finalmente pensou que Alan havia aprendido a lição, tudo virava de ponta cabeça e ele era o único que saía prejudicado. Sua bondade será o desfecho de sua morte. Havia dito aquilo a Alan pela pequena abertura do quarto, e apenas recebeu em troca uma risada. — Você é a causa do sofrimento dele. Esta noite é bom que todos usem abafadores.
E Castiel tremeu diante aquele sorriso insano.
(...)
A porta do quarto se abriu com violência e o corpo de Carlos foi depositado com profundo descaso. Sammy observou a situação com desespero, Águia Negra o deixaria encarregado de vê-lo morrer sem que pudesse fazer absolutamente nada para ajudá-lo. Assim que Crowley saiu do quarto, trancando os dois, Sammy aproximou-se de Carlos e constou que ele ainda respirava. A camisa azul empapada de sangue e a cada segundo a pele de Carlos ficava mais fria.
— Fique comigo. — O Winchester pediu, pressionando o lençol contra o ferimento. Em um breve momento, ele sentiu a mão do mais velho sobre a sua. Estava trêmula e ainda mais gelada.
Em sua visão turva e desfigurada, Carlos via o rosto de Castiel e sorriu fraco. Ele não deveria ter duvidado de Águia Negra, entretanto mesmo que estivesse à beira da morte ele não conseguia parar de pensar no amado. Não faria diferença se o venerasse, afinal Castiel não se encontrava ali para ver. Mas havia ele: Samuel Winchester. O garoto que sofria dia e noite nas mãos de Águia Negra e por algumas vezes pelas suas. Sentiu-se culpado, merecendo estar em uma situação como aquela. Todavia ele conseguia absorver o calor da mão adolescente, fazendo o possível para estancar o que já era irremediável.
“Uma pena eu ter notado isso apenas agora...” Carlos ralhou consigo, piscando os olhos a fim de melhorar a imagem. E algo quente e molhado pingou em seu rosto, deslizando pela sua bochecha. Estaria tão variante que não percebia os próprios atos? Não... Quando sua visão finalmente distinguiu o rosto de Sammy, contemplou as inúmeras lágrimas que escorriam dos olhos bonitos. “Não quero morrer... Não me deixe morrer!” Ele arfou com a tentativa de falar.
Apressado, Sammy desabotoou a camisa do policial, deparando-se com um buraco profundo um pouco abaixo da clavícula. Talvez caibam... O adolescente pensou, mirando os próprios dedos. E no minuto seguinte ele decidiu arriscar. Embora os gritos de Carlos dominassem o quarto, ele continuou buscando a bala incansavelmente até que a encontrou. Contente, Sammy pensou em dar a notícia para Carlos, entretanto o policial deixou-se tragar pela escuridão.
Ele observava a chuva torrencial da janela de seu quarto. Estava frio, porém ele não sentia nada. Aliás, não sentia muitas coisas naquele meio tão particular. Levou as mãos ao rosto e constou as lágrimas que marcavam caminho com um carinho sem sabor. Um espelho ao lado mostrava a sua imagem: Indiferente, triste e sem vida, as olheiras cobriam os olhos, deixando-o com uma aparência mórbida, a pele clara como mármore... E era deveras assustador estar ali sozinho.
Uma luz súbita preencheu o vazio, arrastando-o para junto dela. Uma imagem se formava a sua frente e ele pensou que a conhecia de algum lugar, mas seria impossível já que nunca saíra dali onde quer que ali fosse. Um sorriso abriu-se para ele, singular e caloroso, como se fosse feito apenas para ele. E ele sabia que não poderia ser, pois não havia ninguém além dele. Afastou a luz, sentiu-se ainda mais sozinho e tentado a permanecer no mesmo lugar. Mas algo o expulsava daquele ambiente e foi então que abriu os olhos...
— Você acordou! — Sammy comentou feliz, trocando o pano da testa de Carlos por um novo. — Pensei que tinha te perdido. Crowley não está feliz por ver você vivo.
Atordoado o policial tentou se sentar, porém a dor contagiou rapidamente seu corpo e ele permaneceu como estava.
— Fique deitado. — O Winchester aconselhou, preocupado.
Carlos encarou o rapaz, o único que se mostrava realmente contente em vê-lo, e sorriu. Talvez Castiel não fosse o único anjo em sua vida.
(...)
— Eu sinto muito. — Chester desculpou-se com Alan, podendo vê-lo apenas por uma pequena abertura na porta. Fazia quase três dias que Dean o trancafiara naquele espaço apertado, alegando que ele deveria refletir se o que fizera fora a coisa certa. E não importasse se o traísse, Alan sempre seguiria suas crenças. — Não consegui me controlar. Eu o machuquei e, por Deus, fiquei muito feliz em fazer.
—Tudo bem... — Alan disse baixo, quase cansado. — Eu sei como você é impulsivo. — Aproximou-se da porta, espalmando as mãos na madeira espessa.
— Droga, me desculpe! — O mais velho socou a porta, mostrando o quanto aquela situação o irritava. — Não posso tirar você daí, tudo por culpa daquele maldito. Alan, eu...
— Eu sei... — Chester não sabia, mas o rapaz sorria agradecido por ele estar ali. — Sou uma má pessoa? Às vezes fico pensando porque Dean me aceitou e nunca chego a uma resposta.
— Você é adorável...
— Está chorando? Eu não acredito!
— Você... — E estranhamente ele não sentiu a menor vontade de ser sarcástico. — Alan, você me aceitaria fora dessa vida?
— Que pergunta é essa agora? — Alan abaixou-se, deixando os olhos verdes visíveis pela pequena abertura. — O que está tramando?
Entretanto Chester apenas lhe deu as costas, devendo uma explicação. Vendo-o se afastar, Alan não conseguiu se sentir mais confiante perante aquela atitude. Alguma coisa ruim iria acontecer. Tinha certeza.
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