Marcada
26 Uma Noite de Crime
Notas iniciais
O sino já ressoava sua quarta badalada anunciando que o julgamento estava prestes a começar. A câmara fria escondida sob inúmeras paredes oca há mais de cem metros do chão abafavam os gritos de dor do demônio. Ana já havia passado por sete carrascos diferentes, cada um com um método inovador de tortura. Dentre eles, cortes, queimaduras, e sufocamento. Ossos quebrados, tendões rompidos, cortes profundos no corpo, órgãos remexidos, e ainda restavam cinco horas de tortura até o julgamento final. Dependendo da sentença, muitos prefiriam ser extintos ali mesmo na tortura.
O oitavo carrasco se aproximava, Ana com seus membros presos à correntes sob eletricidade, não tinha forças sequer de manter-se de pé. O sangue que já não se identificava a origem, despejava-se sob o solo fétido e frio daquele lugar. Haviam dez carrascos ao todo, eram demônios especiais selecionados por Crowley, além de serem seus seguidores fiéis, não detinham de emoção alguma, a única coisa que os mantinham vivos era a dor e o desespero de seus alvos. Esse tinha um porte mais alto que os anteriores, e seu físico não era tão rudimentar como os outros, mas ainda sim, sua presença empunhava medo. Ele arrastava consigo uma maça com o dobro de seu peso, em uma das extremidades haviam espinhos enormes e pontudos a base de ferro, capaz de abrir a cabeça de um indivíduo em um só golpe.
— O que vai fazer com isso? – Ana balbuciava entre um engasgo e outro – Não terei julgamento então? – ela sorria com sangue entre os dentes
— Com sorte, você sobreviverá. – o oitavo sussurrou e algo incomodou Ana. A voz era grave como a dos outros, mas havia algo diferente, algo familiar. Seus olhos se estreitaram em cada movimento daquele carrasco.
Ele continuava rondando arrastando sua arma com seu olhar fixo em mim, ao contrário dos outros que não expressavam absolutamente nada, esse parecia querer me dizer alguma coisa com o olhar. O vi recuar alguns passos e comentar algo com os outros, os mesmos acenaram em uníssono e se esvaíram um por um, nos deixando a sós. Ele tornou a olhar para mim com seu olhar impetuoso, mesmo com o rosto coberto por um manto negro, suas feições ainda me eram familiares. Alguns passos a mais e estávamos frente a frente. Ele analisava meus ferimentos um por um seriamente, vi sua mão se erguer em minha direção, estava trêmula. Por algum motivo a luz conseguiu penetrar aquelas paredes rochosas e iluminar seu rosto. Deparei-me com o cinza daqueles olhos, aquele olhar que reconheceria mesmo sob a escuridão da noite, era ele... As lágrimas deslizavam sobre os cortes e não liguei para a dor, só estava feliz por vê-lo ali, como alguém que está se afogando e consegue chegar a superfície, era assim que me sentia, aliviada.
— Sam... — sussurrei para mim mesma
— Perdão — o vi recuar ainda trêmulo. Seus olhos brilhavam com as lágrimas retidas, ele parecia estar sofrendo e sentindo minhas dores, parecia amedrontado.
— Eu estou bem – forcei um sorriso, mas não o convenceu — Você veio me tirar daqui?
— Sim – ele recobrava a postura acoada — Vou tira-la daqui a todo custo. Vais ficar bem, eu prometo! – ele enxugava as lágrimas rudemente e quis fazê-lo por ele. Os sentimentos que havia tanto lutado contra, os deixei livres, livres como a mais suave correnteza.
— Meu julgamento está próximo, se o Crowley o vir, será nosso fim. Eu ficarei bem, preciso apenas que cuide da minha família. Eu aceitarei meu destino e--------
Fui calada com o mais terno dos beijos, o meu primeiro beijo. Seus lábios molhados pelas minhas lágrimas acalentavam os meus trêmulos. O doce da sua boca me dizia que eu ficaria segura, que ele estaria pronto para dar a vida por mim a qualquer momento. E naquele momento, eu o amei. O amei como nunca havia amado alguém, e nunca amaria novamente.
— Vamos sair daqui! – ele soltava as correntes, e mesmo sem poder ver o seu rosto, conseguia sentir a expressão triste e dolorosa a cada vez que ele avistava um ferimento meu.
— Não se preocupe, nada que um chá medicinal não resolva. – tentei descontrair a tensão, e fiquei aliviada ao fitar um meio sorriso seu. – Sam, os carrascos voltarão logo, quando Crowley descobrir...
— Anastacia! – ele posicionou meu rosto entre suas mãos me forçando a encará-lo, mesmo com o corpo dormente, ainda conseguia sentir meu coração disparar com a proximidade. – Confias em mim?
Acenei afirmativamente ainda presa em seu olhar.
— Isso será suficiente, apenas confie em mim, vai ficar tudo bem.
Já livre das correntes, ele me colocava sob seus ombros, meu corpo reclamava de dor e o via receoso a cada simples toque. Quis perguntar como sairíamos dali, já que não se podia utilizar magia nos Salões Infernais, mas prefiri não fazê-lo, iria confiar nele. Mudei de ideia ao vê-lo deslanchar suas asas.
— Espera, o que você está fazendo?
— Disse para confiar em mim! – ele me olhou por sua visão periférica e exibiu um meio sorriso confiante, mesmo já estado a beira da morte, temi por minha vida. E ele alçou voo desembainhando sua espada que logo assumiu o dobro do tamanho, e começou a ser envolvida por uma sombra tomando a forma de lâminas. Algumas colisões depois e ele havia rompido todas as barreiras acima de si. Me perguntei qual o limite do seu poder, não que houvesse algum.
— Só uma pergunta, como conseguiu chegar aqui? Não creio que Crowley o tenha convocado. – o fitei em suspeita
— Segredo, meu amor, segredo...
Algumas horas mais tarde...
— Papai? Está em casa? – a menina adentrava a casa arrastando seu vestido de seda sob a trilha de sangue que se estendia pelo lugar.
Ainda amedrontada ela seguia as pegadas desconhecidas deixadas para trás. A porta entre aberta do que antes era o quarto do casal, agora era a cena de um crime. Dois corpos estraçalhados com seus membros espalhados pelos móveis, e os órgãos pendurados na janela, configuravam um crime bárbaro. Do quarto, só gritos, do assassino, sorrisos.
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