Marcada
27 O Milagre
Notas iniciais
— Então ele assassinou a família da própria noiva para salvar sua irmã?
— Sim – Diego observava minha reação que não estava tão discreta.
Não consegui esconder os calafrios que senti ao pensar que o Sam cordial e gentil que conheci seria capaz de tamanha barbaridade. Engoli a seco e tentei disfarçar dando continuidade ao assunto.
— Mas então isso o faz um herói de certo modo, não? Afinal, ele tornou-se um fugitivo perante a lei para salvar sua irmã.
— Herói? – ele riu sarcasticamente, desviando o olhar para algum ponto cego analisando meu comentário que parecia absurdamente incoerente.
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Alguns anos depois...
O primeiro floco de neve despencava lentamente dançando no ar, o lago congelado refletia os poucos raios de sol que escapavam entre as nuvens, os animais que ainda restavam se escondiam sob as tocas improvisadas o máximo que podiam para se abster do frio infernal que aos poucos devorava um por um.
— O que está fazendo com isso? — indagou o homem ao observar a camponesa que arrastava consigo um javali de médio porte.
— Alguém precisa providenciar o jantar!
Com um impulso ela ajustava o arco atrás de si e despejava o animal sobre a neve manchando-a com os restos de sangue do animal fresco.
— Nossa, que bela caçada, hein? — analisava o animal com esmero – Devo dizer difícil caçada? O javali parece ter lutado bravamente – apontava para o rasgo do vestido.
— Essas roupas de camponês não foram feitas para caçar – analisava os panos com desdém – Bom, de qualquer forma, estou esperando minha recompensa!
— Recompensa? Hum... Deixe-me pensar... – seu cenho franzido fingia esforço em se concentrar
O mago se aproximava em tom de espreita, a curvatura dos lábios anunciava sua próxima tentativa de ataque.
— Sam!!! — exclamava em risadas tentando desviar dos dedos frívolos que apalpavam seu abdômen. – Por favor. Para. Eu. Não aguento. – lutava contra si tentando extrair com dificuldade o oxigênio.
— Perdoe-me senhorita. Deveria eu oferecer-lhe uma recompensa melhor?
— Por favor! – arqueava a sobrancelha já recobrando o fôlego.
— Que tal isso? – beijou-lhe a testa com uma delicadeza sem igual.
— Acho que pode melhorar...
Seus lábios percorreram suas bochechas, nuca (o arrepio era instantâneo e Sam aproveitava-se disso) e finalmente selara com um beijo.
— Falta apenas um lugar... — seus olhos apontavam em direção à sua barriga, o que fez o mago arquear a sobrancelha confuso.
— Não sabia que gostava de beijos na barriga. É algum fetiche novo que não sei?
— Sam! – repreendia-o carinhosamente
— O quê?
— Você...argh! É tão lerdo quanto uma lebre bêbada! – bufou saindo a passos duros.
— Lebre bêbada? Que diabos de analogia é essa? Meu amor, tem certeza que está bem? Acho que essa caçada mexeu com o seu psicológico.
— O que você vê? – apontava para a barriga aninhando-a entre as mãos.
— Sua barriga?
— Sim, o que isso te faz lembrar?! – a expectativa transbordava nos olhos castanhos de Ana que agora brilhavam como os raios de sol que já se esvaiam.
— Não sei, que você está um pouco acima do peso? – arriscou hesitante e preferiu não o ter feito.
O semblante da mulher transformara-se completamente. Seus olhos estreitos, o cenho contraído e as veias dilatadas anunciavam que alguém estava prestes a morrer.
— O que disse Sam Ackles?! – esbravejava com seu tom rouco, o que raras vezes usava, e quando o usava, Sam sabia que só haviam duas opções: correr ou correr.
— Eu d-disse um pouco, um pouco! – ele forçava um sorriso ao enfatizar a última palavra, mas não surtira efeito. Conforme a distância entre os dois diminuía, mais próximo da morte Sam se sentia.
— Argh, inferno! – seus passos foram interrompidos e Ana tentava recuperar a paciência massageando as têmporas. – Por que você é assim?
— Talvez se você me disser o que se trata com palavras ao invés de mímica, eu consiga falar algo.
O olhar de repreensão da garota foi o bastante para fazê-lo calar-se.
— Esquece.
— Anastacia Ackles, se tem algo que aprendi nesses seis anos com você é: nunca deixa-la terminar a conversa com essa frase. Pode me bater a vontade meu amor, até me deixar sem comida por três semanas, mas não vamos terminar isso com essa bendita frase, ok?
— O que disse?
Ela o fitava seriamente, como se tratasse de uma conversa de negócios e não uma discussão íntima entre namorados.
— Vai mesmo me fazer repetir tudo isso?
— Não, o que disse primeiro...
— Anastacia?
— Depois disso...
— Ackles?
— Sim. Foi a primeira vez que pronunciou meu nome com o seu sobrenome.
— Ah, isso... – coçava a barba por fazer deliberadamente – Desculpe, sei que não somos casados, eu só... Saiu sem querer. Sei que não queres isso, não foi de propósito.
— Hum...
Um largo momento de silêncio se teve ali, até ambos concordarem em preparar o almoço que a essa altura, já estava prestes a se tornar jantar. Algumas horas depois e o sol já havia se posto por completo. A pequena casa de concreto situada numa ilha a léguas e léguas dos Salões Infernais, era em suma, acolhedora. Em meados de Janeiro, era quando começava o inverno, as estações não eram originadas no mundo humano, tinham que ser copiado de algum lugar, afinal. O ressoar dos pássaros chamados de “rasga mortalha” cortava o céu da noite, para os humanos aquilo era como um “agouro”, para os demônios era sorte.
— Tem certeza que está tudo bem? Não está chateada por aquilo ainda, está? – indagou o mago revirando as costelas do animal sobre a fogueira improvisada.
— Estava pensando na minha família. Como eles estão, o que estão fazendo agora, se lembram de mim...
— Bom, você os conhece melhor que eu, o que acha que eles estão fazendo?
— Hum... Diego provavelmente está treinando, deve ter ficado mais forte, seu sonho era se tornar forte como um Dois, mesmo sabendo que não faria diferença para um Cinco, explicava pra ele que a hierarquia era algo absoluto aqui, mas ele sempre ignorou isso. – seus lábios curvavam-se em um largo e pesaroso sorriso. As lembranças era o único laço que ainda os unia. — Diana deve estar se dedicando a tomar conta da família, ela nunca se importou muito em tornar-se forte, usava a magia para fins banais, mas que lhe trazia alegria, me pergunto se ela ainda é assim.
— E quanto a que queria se juntar ao Crowley, acha que ela ainda persiste nessa ideia absurda?
— Kristen? Gostaria de dizer que não, mas não duvido. Ela sempre teve consigo uma aura pesada, sombria, forte demais para a idade dela. Temo pelo rumo que a sua vida deve ter tomado...
— Entendo, mas vamos pensar que está tudo bem, ok? – seus dedos acariciavam-lhe a face em conforto.
— Mas e você? Não pensa na sua família? Seus irmãos?
— Ah, meus irmãos são os que mais penso todos os dias. Mamãe sei que está bem mantendo a ordem em casa, meu pai deve considerar-me morto e deve usar isso inclusive como justificativa para minha ausência. Kaeth, não sei...Até a última vez que nos vimos ele ainda era um bebê, não sabia controlar o próprio poder e se sentia angustiado com isso. Derick deve estar mais poderoso que eu talvez. Ele sempre se fazia de forte para todos, mas sei que era o que mais sentia medo, e tinha mais medo ainda de demonstrá-los.
— Não gostaria de vê-los novamente?
— Sinceramente? Sim, sinto muita falta daqueles baixinhos, mas sei que nossa situação não permitiria isso. Se Crowley nos encontrar será o fim para nós dois.
— Para mim, você é um Dois, dificilmente seria punido por algo.
— Quando tocassem no primeiro fio de cabelo seu, eu já teria decapitado quem estivesse lá, então...seria o fim para mim também – indagou dando de ombros e mordendo um pedaço da carne de javali.
— Acha que nossa sentença seria negociável?
— Uma violação de regra, três assassinatos, uma fuga... Dificilmente.
— Como assim três assassinatos? – questionou a mulher se livrando dos resquícios de madeira
— Eu já disse que esse javali está uma delícia? Bom trabalho, amor! Uma delícia! – erguia o polegar direito em aprovação engolindo a carne mais rápido que sua mastigação permitia.
— Por que sinto que não vou querer saber sobre isso?
— Bem que dizem que intuição feminina não falha.
— De qualquer forma, acho que deveríamos pensar em um meio de resolvermos isso. Não quero ser uma fugitiva para todo o sempre, principalmente agora...
— O que tem agora? – perguntou engolindo seu último pedaço.
— Digamos que...temos alguém a mais para nos preocupar.
— Alguém a mais? – Sam vasculhava seu campo de visão a procura de alguém. – Não me diga que trouxe algum bicho de estimação? Sabe que eu tenho alergia a pelos, Ana.
— Não é nenhum animal de estimação...
— O que é então?
— Veja você mesmo – ela erguia a mão convidando-o a adentrar suas memórias. O que era raro, Ana nunca gostava quando Sam a pegava desprevenida e vasculhava suas lembranças, sempre o repreendia por invadir sua privacidade. Era a primeira vez que o deixava fazê-lo de livre e espontânea vontade. Era sério, e Sam sabia disso.
— Tem certeza? – se aproximava ainda hesitante.
Quando finalmente segurou sua mão, as memórias mais íntimas da jovem o alcançaram. Ele sorria ao se deparar com lembranças relacionadas a ele, conforme os flashs iam passando por sua mente, mais recentes as memórias se tornavam. Até finalmente ele ter acesso a principal, sem entender muito bem o contexto, ele se esforçava para ter mais clareza no que estava vendo. A memória que Ana guardava com tanto amor, esse laço sentimental forte que surgia por alguém que não era ele, o deixou curioso e preocupado. E sua última lembrança o fez cair de joelhos. Seus dedos trêmulos que apertavam aquela mão que o ligava a um terceiro ser, seu filho.
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— Um filho?! – exclamei mais alto do que meu espanto permitia.
Estava tão perplexa como da vez que vi Derick em sua forma de lobo pela primeira vez. Sam havia tido um filho, e nunca havia ouvido falar sobre, queria saber mais, mas não podia demonstrar tanto interesse. Sam, nunca quis tanto vê-lo.
— Sim, uma completa maldição, não? – comentava com naturalidade enquanto coçava o nariz afilado livrando-se de alguns resquícios de neve.
— Não acho que um filho seja uma maldição. Para nós humanos é uma bênção. – concluí o mais sutil que pude.
— Para nós também. Ter alguém que dê continuidade a linhagem é algo importante para os demônios, mas para Anastacia fora uma maldição, assim como ter conhecido aquele maldito Ackles!
— O que quer dizer? – perguntei com medo da resposta.
— Não demorou muito para o conto de fadas do casalzinho acabar...
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Meses depois...
Não fazia muito tempo desde que o sol havia se posto, alguns corvos alçavam voo em busca de seu próximo cadáver vítima de algum infortúnio, a estrada coberta pela neve tornava ainda mais difícil trilhar o caminho de volta, o ar frio que rasgava as narinas prestes a congelá-las, os rios petrificados guardavam o que seria o jantar, sobreviver ali era uma constante batalha. Sam havia reduzido as tarefas da esposa em noventa e cinco por cento, deixando a seu encargo somente atividades como tomar banho, caminhar – acompanhada dele — comer e coisas que não exigissem o mínimo esforço, como respirar por exemplo. Mesmo sendo lembrado constantemente que só haviam três meses de gravidez e que isso não a impedia de executar suas tarefas, ele preferia não arriscar, o que era motivo de comuns discussões.
“Eu já disse que não estou doente, tão pouco morta, Sam! Estou grávida apenas, posso muito bem fazer minhas coisas”, insistia, mas ele não lhe dava ouvidos, continuava a fazer tudo sozinho. E a cada mínimo movimento suspeito durante a noite, até mesmo uma respiração irregular, o fazia despertar subitamente. Pais de primeira viagem.
Sem que Anastacia soubesse, Sam começou a tentar estabelecer contatos mentais com Derick. Visto que o dom de seu irmão era comunicar-se com as pessoas telepaticamente, Sam imaginou que seus poderes já tivessem evoluído desde então. As primeiras tentativas foram falhas e sem resultados. Até que após bastante insistência, Derick passou a responder as tentativas. O mais velho se perguntava se o motivo da demora em resposta era causa das dificuldades de se estabelecer conexão, ou da recusa de seu irmão em falar com ele, afinal, desde que havia partido, Sam nunca mais tentara nenhum tipo de contato com a família. Temeroso por ter sua localização rastreada por seu pai, ele preferia evitar se arriscar.
Após algumas conversas curtas e atualizações sobre como estava a vida de ambos, Sam contou-lhe seu primeiro segredo, que seria pai, só então Sam pôde fazer seu pedido.
— Quer que eu faça o quê? – indagou o garoto ainda sem entender.
— Isso mesmo que ouviu, para isso vou precisar da sua ajuda e de Kaeth. Conto com vocês! – finalizou sem dar espaço a refutações.
— Posso saber com quem estava falando ou já posso taxa-lo como louco? – surgia a camponesa atrás de si.
Mesmo sem recursos e com tantas dificuldades, sua beleza se adequava perfeitamente a situação. Ana havia trocado as roupas de couro por vestes de tecido, nada que apertasse os quadris. Os cabelos longos amarrados por uma fita antes da batalha, agora viviam soltos e com as madeixas mais curtas a altura do queixo, o que lhe trazia uma aura angelical, mas não menos intensa como era sua presença.
— Pode me taxar como louco, louco de amores! – exclamou em tom poético
— Não comece com essas ladainhas, é capaz da criança nascer antes do tempo para não ouvir isso – interrompeu-o antes que Sam pudesse finalizar sua fala.
— É isso o que ganho por tentar ser romântico. Está vendo meu filho? Como seu pai é maltratado? – envolvia a barriga da mãe como se pudesse ser ouvido.
— Não faça drama para ele, vai assustá-lo.
— Como sabe que é ele? Pode ser uma menina.
— Sinto que será um homem. Mulheres têm intuição para essas coisas.
— Huum, e posso saber como se chamará então, vossa senhoria vidente? – ele gesticulava em menção de reverência e Ana retribuía na mesma intensidade com um falso ar de superioridade.
— Claro, seu nome será----------
Sam é surpreendido por fortes dores de cabeça, o que o faz perder o equilíbrio.
— Sam?! Sam, o que houve?!
— Não é nada, não se preocupe. Apenas cansaço, vou espairecer um pouco. Por favor, volte para o quarto, precisa descansar.
— Tem certeza que está bem? Eu já disse que não precisa fazer tudo sozinho! – esbravejava lhe dando pequenos tapas nos ombros.
— Eu sei, eu sei. Não se preocupe, ficarei melhor se caminhar um pouco.
— No meio da neve nesse frio de matar? Quer mesmo que eu acredite nisso? Sam... – ela o forçava a encará-la e seu semblante era de completa desconfiança – Não está me escondendo nada, não é?
— Claro que não, eu tenho amor a minha vida. Voltarei logo! – e com um rápido beijo na testa, ele se despede.
Alguns minutos depois, após certificar-se de estar seguro, Sam retoma a conexão mental.
— Precisa mesmo me causar toda essa dor?
— Desculpa, mas achei que precisava ser dolorido pra chamar sua atenção.
— Existem outras formas de chamar atenção, sabia?
— Não me dê sermão a essa altura do campeonato, abdicou do seu cargo de irmão mais velho quando foi embora.
Silêncio
— Bem, de qualquer forma fiz o que me pediu e tenho duas notícias, uma má e uma boa. Qual quer ouvir primeiro?
— Pode começar pela boa, não acho que possa haver algo ruim o bastante que se compare com a boa.
— Bom, a boa notícia é que será um menino ------
— Não acredito que ela estava certa – sussurrou para si mesmo imerso em seus pensamentos.
— O que disse?
— Nada, continue...
— A má é que não vai precisar se preocupar com isso.
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