Manual para ser pedida em casamento

20 I see my future in your eyes...


Notas iniciais
Chegar até aqui… não foi por acaso. Esse capítulo marca um momento muito especial da nossa história, não só dentro da narrativa, mas também fora dela. Estamos nos aproximando do fim… e isso carrega um peso bonito, daqueles que só existem quando a jornada valeu a pena. Nossa trajetória foi linda. Intensa, caótica, apaixonante… exatamente como a gente construiu juntos, capítulo por capítulo. E eu não poderia deixar de agradecer. Ficamos em 6º lugar no desafio do mês passado, e isso só aconteceu por causa de vocês, pelo carinho, pelos comentários, pelas mensagens, por cada leitura silenciosa que, mesmo sem palavras, fez tudo isso crescer... Vocês fizeram essa história ganhar vida. Obrigada por estarem aqui. Agora… respirem fundo. Porque estamos bem perto do fim. ♡

POV BELLA

O mundo não acabou de uma vez.

Ele foi se desfazendo.

Devagar.

Como se alguém estivesse diminuindo o volume de tudo ao meu redor, como se cada som, cada sensação, cada pedaço de realidade estivesse sendo puxado para longe de mim, deixando apenas fragmentos soltos que eu não conseguia mais segurar. O chão duro da capela já não parecia tão sólido sob meu corpo, o cheiro de sangue já não era tão forte, o peso do meu próprio corpo já não me pertencia completamente, como se eu estivesse sendo lentamente desconectada de tudo aquilo que antes era certeza.

E ainda assim… havia calor.

Os braços dele.

Sempre ele.

Edward.

Eu não conseguia ver direito, tudo estava embaçado, distorcido, como se o mundo tivesse sido coberto por uma camada fina de água, mas eu sentia. Sentia a forma como ele me segurava, forte demais, desesperado demais, como se estivesse tentando me prender ali, como se fosse possível impedir que eu escorregasse para longe apenas pela força do amor.

E talvez…talvez por alguns segundos…tenha funcionado.

Mas então…

o som.

Vozes.

Passos rápidos.

Mãos que não eram as dele.

— Temos que levá-la agora! — alguém disse, firme, urgente, e aquela urgência parecia importante, mas distante, como se não fosse comigo, como se eu estivesse assistindo de fora.

Eu fui puxada.

Erguida.

Separada.

E aquilo…aquilo doeu mais do que o tiro.

— Não… — tentei dizer, mas minha voz não saiu como eu queria — Edward…

Mas ele estava lá.

Eu sabia que estava.

Mesmo quando não conseguia ver.

Mesmo quando não conseguia tocar.

Porque Edward não era algo que eu precisava enxergar.

Ele era algo que eu sentia.

E isso nunca falhou.

A luz acima de mim começou a passar rápido demais, uma sequência de clarões brancos enquanto eu era levada, enquanto o mundo real insistia em continuar girando sem pedir permissão, enquanto meu corpo parecia cada vez mais leve, cada vez mais distante, como se estivesse sendo preparado para deixar tudo aquilo para trás.

E foi aí que o pensamento veio.

Claro.

Tranquilo.

Estranhamente bonito.

“Nunca pensei muito em como eu morreria…”

A frase surgiu na minha mente como uma lembrança antiga, como algo que sempre esteve ali esperando o momento certo para fazer sentido.

“…mas morrer no lugar de alguém que eu amo parece ser uma boa maneira de partir…”

Meu peito não doeu quando pensei isso.

Não houve medo.

Não houve desespero.

Houve… paz.

Uma paz estranha, silenciosa, como se aquela decisão tivesse sido a única coisa completamente certa em meio a tudo que deu errado.

E então…o tempo mudou.

Ou talvez…tenha acabado.

Porque eu lembrei.

A teoria.

Os sete minutos.

Dizem que, depois da morte, o cérebro ainda funciona por alguns minutos, criando um último presente, uma última despedida, um último filme feito dos melhores momentos da vida.

E se aquilo era verdade…então eu sabia exatamente o que viria.

Edward.

Sempre Edward...

A música começou antes mesmo de eu perceber onde estava.

Suave.

Familiar.

Perfeita.

Quando abri os olhos, não havia mais sangue, não havia dor, não havia caos. Havia luz, havia espaço, havia um salão enorme iluminado por lustres delicados, refletindo tons dourados nas paredes, criando um ambiente quente, acolhedor, quase mágico. O chão era liso sob meus pés, o ar leve, perfumado com algo doce, e as pessoas ao redor estavam sorrindo, conversando, vivendo… como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.

E então…ele.

Edward estava ali.

Vestido de preto, elegante, impecável, mas com aquele mesmo ar de sempre, aquele mesmo jeito de existir que fazia o mundo ao redor parecer menos importante. Os olhos dele encontraram os meus no mesmo instante, e o sorriso que surgiu em seus lábios… era tudo.

— Você demorou — ele disse baixo, estendendo a mão.

Meu coração respondeu.

Mesmo ali.

Mesmo naquele lugar.

— Eu me perdi um pouco… — murmurei, aceitando a mão dele.

E então ele me puxou.

Devagar.

A música cresceu.

I found a love… for me… Darling, just dive right in and follow my lead...

O corpo dele se encaixou no meu como se nunca tivesse deixado de estar ali, como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse sido quebrado entre nós. A mão dele na minha cintura era firme, segura, a outra entrelaçada na minha, e quando ele começou a me guiar pelo salão, tudo ao redor desapareceu de novo.

Darling, just hold my hand, be your girl, you'll be my man... and i see my future in your eles... Well, baby, i'm dancing in The dark, with you between my arms...

Nós giramos.

Lento.

Suave.

Perfeito.

E enquanto ele me rodava, enquanto o mundo se movia ao nosso redor como uma pintura viva, algo mudou.

Meu vestido.

Branco.

Depois…

rosa.

Depois…

azul.

Depois…cores diferentes, tecidos diferentes, estilos diferentes, como se cada giro trouxesse uma nova versão de mim, uma nova memória, um novo momento que eu não sabia exatamente de onde vinha, mas que fazia sentido.

Vestidos de madrinha.

Vestidos de festa.

Vestidos de vida.

E em todos eles…ele estava lá.

— Você sempre esteve comigo… — sussurrei, apoiando a cabeça levemente no peito dele.

— Sempre vou estar — ele respondeu.

E eu acreditei.

Porque ali… não havia dor.

Só nós.

POV EDWARD

O mundo estava rápido demais.

Barulhento demais.

Cru demais.

O oposto completo do que ela estava vivendo.

O corpo dela foi colocado na maca com urgência, mãos se movendo rápido demais ao redor, vozes técnicas demais, profissionais demais, enquanto eu caminhava ao lado como alguém que não pertencia àquele lugar, mas que não podia sair. O sangue ainda estava lá, ainda real, ainda impossível de ignorar, e cada segundo parecia uma contagem regressiva que ninguém estava dizendo em voz alta.

— Pressão caindo! — alguém disse.

Meu coração despencou junto.

— Bella… — sussurrei, segurando a mão dela enquanto ainda podia, enquanto ainda me deixavam.

A pele dela estava fria.

E aquilo não podia ser real.

— Senhor, você precisa se afastar — uma enfermeira disse, firme, mas não rude.

Eu balancei a cabeça.

— Não… — minha voz falhou — eu não posso…

Mas eles me afastaram.

E aquilo…aquilo foi pior do que tudo.

A porta da sala de cirurgia se abriu.

E ela foi levada.

E eu fiquei.

Do lado de fora.

Sem controle.

Sem respostas.

Sem ela.

O silêncio do corredor não era silêncio, era tortura, era o tipo de vazio que ecoa dentro do peito e não deixa espaço para mais nada além do medo. Eu passei as mãos pelo rosto, sentindo tudo desmoronar de uma forma que eu não conseguia impedir, e pela primeira vez… eu não tinha um plano.

Eu só tinha fé.

E talvez nem isso fosse suficiente.

Eu encostei na parede, deslizando até quase perder a força nas pernas, e levei as mãos ao rosto, tentando respirar, tentando me manter ali, tentando não surtar completamente.

— Deus… — sussurrei, a voz baixa, desesperada, algo que eu nunca tinha feito daquela forma antes — por favor…

Minha respiração falhou.

— Não faz isso… — continuei, fechando os olhos com força — não tira ela de mim…

O corredor parecia girar.

Ou talvez fosse só eu.

— Eu faço qualquer coisa… — disse, quase sem voz — qualquer coisa… mas deixa ela ficar…

Silêncio.

Nenhuma resposta.

Só o som distante das máquinas.

E a espera, a pior parte, sempre a espera.

E pela primeira vez…eu tive medo de que o amor não fosse suficiente.

O tempo deixou de existir.

Ou talvez tivesse se transformado em alguma coisa cruel, elástica, impossível de medir, porque cada segundo naquele corredor parecia durar uma eternidade inteira. Eu ainda estava encostado na parede, as mãos trêmulas, o peito pesado demais para respirar direito, quando a porta da sala de cirurgia se abriu de repente, com uma urgência que fez todo o meu corpo reagir antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

E então veio.

A frase.

Aquela que ninguém quer ouvir.

— Parada cardíaca!

O mundo parou.

Literalmente.

Meu coração não acompanhou o ritmo das palavras, ele simplesmente… travou, como se tivesse esquecido como funcionar, como se o meu corpo tivesse decidido que não havia mais motivo para continuar se ela não estivesse ali para sentir junto comigo.

— Não… — a palavra escapou sem controle, quase sem som.

Mas dentro da sala…o caos começou.

— Iniciando compressões!

— Carregando desfibrilador!

— Ela está perdendo!

Cada palavra atravessava a porta como uma lâmina, entrando direto no meu peito, rasgando qualquer tentativa de controle que eu ainda tinha. Eu me aproximei sem perceber, como se pudesse atravessar aquela barreira, como se pudesse chegar até ela, como se pudesse impedir aquilo só… estando perto.

— Bella… — sussurrei, a voz falhando completamente.

Minhas mãos foram para a cabeça, puxando o cabelo com força, tentando acordar de um pesadelo que claramente não era um sonho.

— 200 joules!

Silêncio.

— Afastem!

O som do choque ecoou.

Meu corpo inteiro reagiu.

Como se tivesse sido em mim.

— Sem resposta!

Não.

Não.

Não.

— Carregando novamente!

Eu não conseguia respirar.

Literalmente.

O ar parecia ter desaparecido do mundo, como se tudo estivesse sendo sugado para dentro daquela sala, como se o universo inteiro estivesse concentrado naquele momento.

— 300 joules!

— Afastem!

Outro choque.

Mais forte.

Mais desesperado.

Eu bati a mão contra a parede.

— Por favor… — minha voz saiu quebrada, implorando para qualquer coisa que pudesse estar ouvindo — por favor…

E pela primeira vez na minha vida…

eu estava completamente impotente.

Sem dinheiro.

Sem influência.

Sem controle.

Sem ela.


POV BELLA

A música continuava.

Suave.

Perfeita.

Como se nada estivesse errado.

Barefoot on The grass, While listening to our favorite song...When i são you in that dress looking so Beautiful...

Como se o mundo não estivesse desmoronando em algum lugar que eu não conseguia mais alcançar.

Edward ainda estava ali.

Comigo.

I don't deserve this, darlign, you look perfect tonight...

As mãos firmes na minha cintura, o olhar preso no meu como se não existisse mais nada além daquele momento. E enquanto ele me girava pelo salão, enquanto o tecido do meu vestido mudava mais uma vez , agora um tom delicado de champagne, leve como o ar, eu senti.

Algo.

Um puxão.

Distante.

Invisível.

Como uma corda sendo tensionada entre dois mundos.

— Você sentiu isso? — perguntei baixo, minha voz quase se perdendo na música.

Edward não respondeu imediatamente.

Ele me olhou.

E algo mudou.

Muito sutil.

Mas mudou.

— Bella… — ele disse, mais sério agora.

I have falta in what i see, now i know i have met... An Angel in person, and (she ) looks perfect...

E o salão…tremulou.

Por um segundo.

As luzes falharam.

A música oscilou.

E então voltou.

Mas eu sabia.

Eu sabia que não estava tudo certo.

— O que está acontecendo? — perguntei, sentindo um aperto estranho no peito, algo que não existia ali até então.

Ele segurou meu rosto com cuidado.

Com aquele cuidado que sempre foi dele.

— Você precisa voltar — ele disse.

Meu coração travou.

— Não… — balancei a cabeça, sentindo o medo surgir pela primeira vez — eu quero ficar aqui…

— Bella… — a voz dele falhou pela primeira vez — olha pra mim.

Eu olhei.

E aquilo…aquilo quebrou tudo.

Porque ele não estava mais calmo.

Não estava mais seguro.

Ele estava… com medo.

— Eles estão tentando te trazer de volta — ele disse baixo.

No, i don't deserve this, you look perfect tonight...

E então…eu ouvi.

Distante.

Mas claro.

— Carregando 360!

— Última tentativa!

Meu corpo inteiro gelou.

— Edward…

Ele encostou a testa na minha.

— Você precisa ir.

— Eu não quero ir sem você… — minha voz saiu em um sussurro desesperado.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Como se aquilo doesse mais nele do que em mim.

— Você nunca vai estar sem mim — ele respondeu.

E aquilo…

aquilo era verdade.

Mas não era suficiente.

— Eu te amo — eu disse, rápido, como se o tempo estivesse acabando — eu te amo em tudo… em todos os momentos… em todos esses minutos… é sempre você…

Os olhos dele brilharam.

— Eu sei.

Silêncio.

A música começou a desaparecer.

O salão começou a se desfazer.

Como areia sendo levada pelo vento.

— Bella — ele chamou, firme — vai.

E então…

eu caí.


POV EDWARD

— Carregando 360!

Eu parei de respirar.

— Afastem!

O terceiro choque veio mais forte.

Mais desesperado.

Mais final.

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

Três.

E então...

— Temos ritmo!

O mundo voltou.

De uma vez.

Brutal.

Violento.

Real.

Eu não percebi quando comecei a andar, quando me aproximei da porta, quando minhas mãos começaram a tremer ainda mais forte, quando minha respiração voltou de forma descompassada, como se meu corpo estivesse tentando compensar todos os segundos em que eu simplesmente… não existi.

— Ela voltou! — alguém disse lá dentro.

E eu fechei os olhos.

Deixando o peso sair.

Não todo.

Nunca todo.

Mas o suficiente para eu não cair.

— Obrigado… — sussurrei, sem saber exatamente pra quem.

Talvez pra Deus.

Talvez pra ela.

Talvez… pro amor.

Mas eu sabia.

Sabia com uma certeza que nunca tive antes.

Eu quase perdi ela.

E se tivesse perdido…eu não teria sobrevivido.

Não de verdade.

Porque a minha vida…

sempre foi ela.

E agora…mais do que nunca…eu não ia deixar ninguém tirar isso de mim.

Nunca mais.