Notas iniciais
AQUELA ATUALIZAÇÃO QUE TODO MUNDO PRECISAVA eu inclusive segurem as emoções!

— Já que não temos mais segredos entre a gente... O que acha de falar daquelas atualizações?

Depois de todos os ultrajes, pirraças, implicâncias, e alguns papos sobre o segredo secreto do Bruno, que de novo foi rendido pela história da vassoura, a Daniela toca nesse assunto delicado. Aquele que eu vinha segurando e talvez só por segurar mesmo, porque eu somente queria a gente junto, com nossas aventuras e doidices do bem, na paz, na liberdade de ser a gente mesmo, porém, como bem o Vinícius desejou, o companheirismo pedia para falar essa mais alto. Não porque devia a eles respostas, mas sim porque era de mim que eles poderiam ter respostas bem específicas. E com eles... com eles eu posso contar e confiar. Até mesmo de olhos fechados.

Porque eles são incríveis assim.

Vez que o Vinícius fica perdido nessa, esclareço mexendo a cabeça para seu lado:

— Os e-mails. Vou contar dos e-mails.

Isso o deixa atento.

— Como disse o Bruno mais cedo, eu também não queria que nosso encontro ficasse marcado por tragédias. Mas tenho algumas para compartilhar com vocês. Espero serem as últimas, pra encerrar logo esse ciclo de nossas vidas.

Vinícius me segura as mãos nas suas para me dar força de seguir em frente. Mas solto uma das mãos para poder abrir o celular e ir a determinado conteúdo.

— Acho que pra começar, e para me preservar de me estender em certos tópicos, tenho dois e-mails para mostrar vocês. O primeiro é da Flávia. Vou esperar vocês lerem.

(releia o e-mail/carta aqui, capítulo 183)

Passo meu aparelho pra Daniela e o Bruno cola nela para ler também. Antes que eu me desse conta, a Iara se levanta para espiar sobre os ombros deles, e o Sávio vai logo depois. Na minha cabeça, eles iriam ler dupla a dupla, mas de um jeito bem articulado eles se unem para lerem juntos. O meu celular é segurado pela Dani e o Bruno vai passando a tela pouco a pouco, bem devagar, de maneira que fique legível a todos.

Aceito que o Vinícius se aproxime mais em sua cadeira, de modo que possa me abraçar de lado e me dizer que estou fazendo bem. Não fico assistindo os outros lendo, me concentro nele e em como o cheiro do sabonete do Bruno é de uma essência conhecida de que me falta o nome. Não é exatamente ostensivo, como os de lavanda ou de erva-doce, é algo mais... sutil. Mas as reações dos meus amigos aos poucos começam a ser audíveis:

Cara...

Essa é a Dani.

Caramba.

Essa é a Iara.

Caralho, maluco! Tem até papo de morte aqui! O Gui quase jurado de...

Sim, o Bruno. Com essa me resguardo mais ainda, me aninhando ao Vinícius, para me tapar até das reações. Só não pego os fones de ouvido porque teria que me levantar pra isso, já que ficou na bolsa, e a bolsa no sofá, a alguns metros. Seria algo rápido, mas no momento só quero ficar quieta e esperar.

— O círculo, ela falou do círculo!

Daniela se exalta de repente e o Sávio é o sensato nessa:

— Não, ela falou em outro sentido.

— Ah, verdade. Espera. Volta um pouco, Bru.

Escondida ao pescoço do Vinícius, torno a me concentrar nele. No seu contato suave na minha pele, seu cheirinho diferente e... Amêndoas! Acho que é sabonete de amêndoas.

— Meu Deus, o Gui...

Pelo jeito que a I fala, um lamento como um ganido, sei que a emoção já a tomou.

— Caramba, foi ela mesmo... que insistiu. No lance de escutar a Lena falando.

Dani parece mais neutralizada, embora possa ser pelo choque. Ela inclusive repete uma parte do texto, totalmente abismada:

— Mas deu errado, deu muito errado.

Não demora para eu ouvir um choro e isso me faz suspender a cabeça. Encontro a Iara afastada dos ombros da Dani, de quem deu um a dois passos para trás, e ela cobre o rosto com as duas mãos em plenas lágrimas. O Sávio está ali também, envolvendo-a.

Na mesa, o Bruno permanece sentado, como a Dani, mas ele sequer parece estar nesse mundo de tanto que seu rosto mostra que ele está distante. Inclusive, repuxa tanto os cabelos e resmunga algo baixinho, algo que não tem quem ouça, e por um momento ele parece um desvairado.

A Dani encara a mesa por um tempo e até demora a repousar o celular de volta à superfície. Seu semblante baixa e ela fica quieta mesmo sob os soluços da Iara logo mais atrás. Mas depois parece voltar a si e me fitar diretamente. Então pega o aparelho de novo.

— Quando foi isso? Quando foi esse e-mail?

— Foi no meu período de recuperação... acho que um pouco depois daquele nosso último encontro na minha casa. Mas eu só li depois da virada. Semana passada.

— C-como... Como tu ainda anda, Milena? Como tu te... mantém... de pé?

Daniela é a única que está reagindo no modo questionadora, enquanto os outros seguem processando às suas maneiras, deslocados. Eu, por outro lado, lembro do que ela disse há algum tempo atrás nessa noite, sobre ter pessoas lhe sustentando na sua crise. Tava conseguindo ser forte porque havia um suporte me segurando na base.

— Eu tenho pessoas incríveis na minha vida, eu acho. É o que me segura de verdade.

Embora eu fale isso quase sem vida.

— Eu nem sei, nem sei por onde... é tudo... tão... Acho que eu não tenho nem... palavras. Sabe?

Outra vez neutra, apenas amasso um lábio no outro, resignada.

— Eu na maioria das vezes também não tenho.

Dani tenta dizer algo mais e não consegue. Ela abre a boca, exaltada, porém, também fica atordoada, o que faz com que se retenha. Dela observo os outros e permaneço na minha, deixando que isso vá encontrando os sentidos dentro de cada um. Mas conforme eles vão se abatendo, vejo que não está fazendo bem a eles. Como faria, né? À Iara, principalmente, que soluça quase sem ar e o Sávio precisa pegá-la pelo rosto para fazer com que olhe para ele e respire.

Isso me faz saltar da cadeira para ir até ela e segurar suas mãos.

— Eu tô bem, I. E ele... Ele tá inteiro, não tá? Ele tá lidando com isso.

Mesmo assim, o rosto vermelho dela se comprime todo em choro. Tento outra vez e foco na segurança dele, no que acho que sei sobre isso.

— Ele está a salvo. Não é isso que importa?

Nessa hora, minha amiga se volta de modo enviesado para o Sávio, que fica meio incerto sobre o que faz ou como reage, inquieto, disfarçando. Estranho essa interação e estranho ainda mais quando ele diz:

— Quer que eu conte?

A Iara balança a cabeça em negativa. Em algum tempo, até fecha os olhos para tomar um fôlego e percebo nela a exaustão. Não é para menos. O Aguinaldo é assim importante pra ela.

— Não, e-u... eu conto.

Fico sem resposta, encarando o jeito silencioso deles, que parecem trocar ideias através de pequenos gestos e outras expressões faciais. Quando o Vinícius chega ao nosso lado e oferece uns guardanapos pra irmã, ela até aceita, mas logo sai andando, impassível, de volta para a mesa. Vamos em seguida retornando aos nossos lugares.

Entre fungadas e limpadas de nariz com o guardanapo, Iara começa:

— Eu também... tenho... a-atualizações.

Vendo a situação da namorada, Sávio tenta intervir e ela, a se firmar nessa.

— I, eu posso...

— Não, eu... eu dou conta.

Vinícius procura por mais guardanapos nas sacolinhas de lanches, mas vez que não tem mais, o Bruno se levanta para buscar um rolo de papel higiênico no que parecia ser a dispensa, ao lado da cozinha. Ao colocar o papel na mesa, o Sávio pega uma tira pequena para repassar à namorada, que consegue tomar um fôlego e se restabelecer.

— Acontece que... depois que o Sávio falou com o... M-ma...

Pelo jeito, ainda é difícil expressar o que ela tem a dizer, assim o Sávio completa. Ou melhor, irrompe por ela, atento ao estado dela, mas também à inquietude dos outros.

— Depois que eu falei com o Max, com o concatenado de informações que a gente juntou da outra vez, ele me disse que já tinha se encontrado com o Gui. Eu nem sei como ele me falou, porque, como se sabe, ele não é de falar ou entregar qualquer coisa pra gente. Mas nesse dia, por incrível que pareça, o Max tava mais aberto. E ele me disse, meio por acaso, que não tava podendo manter a vigilância na casa do Gui.

Bruno libera a agonia que cobre a todos nesse momento.

— Como assim vigilância?

A Iara toma a frente dessa vez.

— Já que o Max deixou escapar essa, a gente foi atrás do Gui... Pra entender. Só que ele também foi relutante de falar sobre isso, ainda mais que tava um clima bem estranho na casa. Tipo, a mãe dele tava um pouco distante e teve uma hora que falou sobre “não sair de casa”. Deu a entender que eles tinham brigado e ficamos só nisso.

Daniela é quem se manifesta dessa vez:

— Mas isso quer dizer o quê?

A Iara funga novamente, para puxar um ar e se recompor mais.

— Desculpa se tô embaralhando mais. É que...

O Sávio outra vez completa, só que num tom preocupado e de expressão séria, apesar de seus olhos vagarem pela mesa.

— Acontece que pela situação da família do Gui... Os dois tinham que tomar cuidado com as saídas e a própria proteção. E a polícia não pode dar conta disso porque a tia Alba não quis dar queixa, porque tem medo de sofrer outra represália. Então eles estão de mãos atadas, sem poder agir. Daí a orientação, tanto pro Gui quanto pra tia Alba, é de se manterem atentos e evitar ficar em casa, porque podem ser alvos de novo.

Iara, mais autocentrada e até exaltada, acrescenta:

— Mas eu pensei que era por conta do pai dele! É essa a questão! Eu pensei que isso era uma medida de proteção contra o pai dele. A gente pensou, na verdade. E o Gui nos deixou pensar que era isso, caramba! Só que agora, vendo esse e-mail da Flávia, fez sentido. Não é o pai dele, ou não somente o pai dele... Eles na verdade continuam sob a mira. De sabe-se lá quem ou por quê!

— Puta merda!

Bruno bate a mão na mesa, enraivecido e o Sávio tenta contê-lo. Eu, por outro lado, sigo na minha. Sigo encarando as ranhuras da mesa e só me dou conta de que o Vinícius tá me sondando, porque ele aproxima o rosto de mim, como que perguntando se eu tô bem. E eu tô, eu acho. Não sei. Porque não sei o que dizer sobre isso, ou como reagir a isso. Até então, estava apenas distante. Qualquer coisa que envolvia o Gui me fazia querer ficar distante, consoante àquilo que o Murilo me disse, sobre ficar fora da rota das confusões.

No domingo, depois que chegamos da casa do seu Júlio e meu irmão foi checar como eu tava depois de um dia inteiro de zoeiras, eu contei sobre o e-mail do Aguinaldo, só pra me livrar de qualquer lembrança dele. Sim, nesse nível. Descarreguei logo e também contei sobre a questão do meu pesadelo no outro dia. E o Murilo concordou que o melhor pra mim é manter o distanciamento. Principalmente o emocional no momento.

Distanciamento emocional nem sempre é uma fuga dos nossos sentimentos, sabe? É olhar pra eles e respeitar o que tamo sentindo. Respeitar também que temos nossos limites. E agora, respeitar teus limites me parece crucial, Lena, pra não prolongar a dor dessas feridas. Pra isso não ser um terror pessoal também. Você já sentiu dor o bastante por conta dessa relação. É melhor se preservar. Deixa o tempo cicatrizar sem ficar remexendo nisso. Deixa as coisas assentarem primeiro.

Murilo falou isso sobre o e-mail e não tem como cobrir essa parte louca de atentados. Mas meu sentimento maior é de me manter afastada. Tipo, ele tem quem o apoie. Ele tem quem se importe com ele. Não precisa ser eu, precisa? Fora que, como disse à Flávia, não quero que precise acontecer algo terrível para eu ir atrás. Não quero ter que ir atrás de algo ou alguém que me machucou, mesmo sob essas circunstâncias. Não quero que minhas relações sejam mais assim. Além disso, espaço vai ser bom para ambos os lados.

Então a expressão que faço em resposta ao Vinícius é como uma mensagem de “sinto muito pelo que estão passando, mas... não me move e tudo bem“. Não sei se ele compreende de todo, já que só contraio o rosto, comprimo a boca e meio que dou de ombros, mas unimos as mãos debaixo da mesa e me aconchego nele, no cantinho da mesa.

Quando me volto para o restante do grupo, a Iara tá numa discussão com o Bruno.

— Não, eles não estão mais em casa.

— Tá, mas onde? Onde eles estão?

— Não estão exatamente escondidos, mas estão em um lugar seguro.

— Não é como que se fosse divulgar o endereço, I.

— É, mas não sei se ele quer... se ele quer que saibam onde ele tá.

— Vou ter que seguir o cara pra descobrir, é isso?

Até o Sávio sabe que é preciso colocar limites nesse bate-boca.

— Também não precisa isso.

— Não tô dizendo que eu vou lá, só tó dizendo que...

— Eles estão no meu antigo apartamento.

Isso silencia a confusão.

— O que eu sabia é que eles precisavam de segurança e que precisavam sair da casa. E como meu apartamento tava vazio... Mas a tia Alba tava muito resistente de ir pra lá. Demorou um pouco pra a gente convencer ela, uns dias mesmo. Algumas discussões até.

Iara se recosta à cadeira, sem encarar ninguém.

— O apartamento é pequeno e o condomínio também, mas tem segurança. Tem câmera e tem porteiro e tem... Não é qualquer um que entra lá, sabe? Não é uma segurança master, mas é bem melhor do que...

Bruno desliza os braços pela mesa, à sua frente, para chegar na Iara.

— Era isso que eu queria saber. Se ele tava seguro.

— Agora ele tá, eu acho. Bom, em comparação, né, com onde eles... Tem sido estranho, claro. Mas fico mais sossegada sabendo que...

Um pouco sério e encarando a mesa, Vini atravessa a irmã com uma questão:

— Nosso pai tá sabendo disso?

Iara passa o papel ao nariz e fica sem jeito para responder.

— Ele... Ele sabe o que eu sabia. Ou o que eu pensava saber... Acha que eu devo contar essa parte?

Ela vira para o irmão, mas o Vinícius não vira de volta.

— Eu não sei.

E então ele olha pra mim, com uma expressão difícil de interpretar. Depois, volta-se para a mesa, nervoso. Vejo isso pelo modo com que batuca a mesa com o polegar, agitado e contido ao mesmo tempo.

— Tem uma coisa que eu também preciso contar, gente. Que aconteceu com a minha mãe. Na virada. Na verdade, depois da virada... porque já era umas 1h da manhã. E o Aguinaldo... ele salvou minha mãe.

Acho que esse movimento de apagar o Aguinaldo, ou afastar fatos e resquícios seus, já tem acontecido tão involuntariamente que quase reajo como o Bruno e a Daniela, com um suspiro de espanto, como se eu não soubesse tudo.

— Como assim ele salvou Djane? O que aconteceu com ela?

Sendo a enérgica e questionadora da vez, Daniela demanda essa. Mas nesse instante o Imagine Dragons corta o climão com a entrada da música It’s Time, que toca de modo abafado por estar no bolso do Vinícius. Nem eu, nem ele precisamos ver a tela para saber que é sua mãe do outro lado da linha, pois quando colocou essa música de toque para ligação, determinou que a entrada musical seria para identificar Djane e o refrão para me identificar.

— Um segundo, gente.

Vinícius se levanta para se afastar um pouco e atender. Mas Daniela insiste comigo em saber logo.

— Lena?

Balanço a cabeça em negação e até levanto a mão brevemente para demonstrar que era melhor esperar pelo Vinícius. Na verdade, é mais um limite meu, porque sobre isso da virada, e principalmente do Aguinaldo, eu não tenho como me manifestar em nada. Até porque me preservei de muitos detalhes dessa madrugada em questão.

Quando o Bruno vai na geladeira e pega uma jarra de água para repor o copo de todo mundo, acho até melhor. Todo mundo precisava tomar um tempo para se hidratar e tomar um fôlego pros pensamentos. Só que antes que o Vinícius possa retornar, a Dani se dá conta de uma coisa que ela viu. Quer dizer, que ela sabia sem saber que sabia. E vira pra mim ao perceber isso:

— O acidente de Djane! Foi ele quem puxou ela?!

~;~

Apesar de o rosto de Djane aparecer nas imagens de resgate, como parte da matéria sobre os acidentes da virada de ano, não tava lá tão nítido – isso foi o que me disseram e vi muitos desses comentários no grupo da faculdade, vez que também me preservei de ver as filmagens. Mesmo assim, foi possível reconhecê-la de longe, com o seu novo corte e a nova coloração de cabelo.

O Aguinaldo, por outro lado, não teve o seu rosto filmado, apenas parte de seu corpo e sua ação de puxar Djane. Isso foi já depois de ele ter quebrado o vidro da janela com o retrovisor próximo à professora. Pelo visto, a peça já estava solta faz um tempo e o Aguinaldo não precisou forçar muito para arrancar. Deu só tempo de Djane se encolher ao Renato, no banco do motorista, para protegerem o rosto. Quem filmou, filmou ele só de costas já resgatando Djane. Se tinha imagens do resgate de Renato, não sei dizer, pois a parte dele não passou na matéria.

Isso estou “descobrindo” agora, pois naquele dia na casa do seu Júlio, todos me contaram só a parte geral, sem lá muitos detalhes. Eu também não perguntei muito, não além de saber do estado de Djane e de Renato. Nem mesmo a matéria procurei depois, porque escolhi meu descanso. Qualquer pessoa sensata não só concordaria com isso, como me incentivaria a me limitar a isso. E foi o que o Vini e o Murilo fizeram.

Mas agora, com a questão na mesa, o Vinícius tá contando mais coisas. Ele, o Sávio e a Iara. E eu tô quieta, só absorvendo essas outras partes.

Depois que Daniela ligou os pontos sobre ter sido o Aguinaldo a salvar Djane, ela abriu o celular para procurar a matéria de novo e rever as imagens. Ao menos tirou o som, pois eu não queria ouvir. Nem ver. Porque não queria sentir... coisas. Coisas que essas imagens possivelmente acarretariam.

O fato é que já não sei o quanto posso negar a existência do Aguinaldo diante de tudo o que está sendo colocado sobre a mesa. Talvez aquela expressão do Vinícius, antes de falar sobre o que Gui fez, que salvou Djane, também tenha sido sobre isso. Porque tá difícil mesmo de ignorar as coisas. Não sei mais se consigo me manter indiferente.

No final das contas, foi a Iara quem respondeu a Dani, confirmando que foi o Aguinaldo quem puxou Djane do carro. Apesar de ela seguir abalada pelo conteúdo daquele e-mail – quem não? –, mesmo assim tem contribuído com a conversa.

Bom, o Sávio mais do que ela, já que esteve lá e também prestou socorro à Djane na hora de ir pra emergência. Chegou inclusive a tirar aquela sua camisa do Breaking Benjamin, aquela com que apareceu na minha casa e conversou comigo bobices antes de ir para a festa da virada. Tirou e ajudou Djane com seus ferimentos. Eram leves, mas estavam sangrando bastante e ele teve esse cuidado, mesmo com o tecido todo molhado, da chuva e da enchente, já que a professora estava nervosa demais.

— Cara, minha mãe não me contou nada dessa parte!

— Pode ter sido pelo nervosismo ou pelo pânico. Ou só não quis te preocupar. Pode ser tudo isso junto também. Mas é fato que as coisas aconteceram de uma maneira bem bagunçada e foi difícil manter a calma ou o foco. Djane ficou agitada boa parte do tempo. Tive que me manter narrando as coisas pra ela até que...

— Como assim “narrando as coisas”?

— Quando eu fui abrir a porta pro Renato, do carro do Filipe, a gente carregando ele, o Renato quase apagou e aí Djane... Ela entrou em pânico de novo. E aí eu comecei nessa de narrar o que eu tava fazendo, como uma forma de manter ela me ouvindo, seguindo a minha voz, pra não se desesperar mesmo. Consegui fazer o Renato voltar a si e fiquei com os dois no banco de trás, já que era o Filipe que ia dirigir.

— Isso ao menos meu pai me disse. Que dirigiu e levou eles pra emergência. Mas também não... Quando eu perguntava, ele só me dizia pra me concentrar na minha mãe e que ela tava bem.

— Foi o que ele me disse também. Acho que para nos poupar do susto mesmo. Vovô ficou uma fera com isso, mas parece que Djane pediu pra não contar. Agora não sei se não era pra contar os detalhes pra a gente ou só pra não deixar o vovô sabendo.

Desconcertado sobre estar revelando demais, Sávio olha da I para o Vini.

— Agora vocês me quebram, porque ele não me disse nada... que não era pra falar.

Vinícius é perspicaz na hora de aliviar essa:

— Vamos entender que ele não te limitou, só isso.

Mas a Iara... ela não deixa barato:

— Isso ou papai sendo um pai, né? Quando quer detalhes, ele falta arrancar de mim na pressão, mas na hora de falar as coisas, só conta a versão light. Não falou nada dessa situação com sangue e tudo. Fora o carro do Renato quase sendo levado pela enxurrada.

Quase... sendo levado?

Então eu peguei a versão light da light.

— Como tava escuro no carro, Djane só foi ver mesmo que tava sangrando quando a gente desceu já na emergência e foi aí que cobri ela com a camisa. Pra ela não ficar encarando e se agitar mais. E também segui nessa de narrar as coisas, cada ação que eu fazia.

— Eu... Eu nem sei como te agradecer.

Para além de toda essa conversa, comigo me surpreendendo com a abertura do Vinícius, tanto sobre Djane quanto sobre o acidente, fico mais perplexa com ele nesse ponto, quando fica até sem palavras de como agradecer ao Sávio. Porque mesmo que tivesse expressado sua apreensão em relação ao Sávio, de certo modo até envergonhado, não imaginaria que ele seria assim direto ou sincero.

De geral, o Vini fica retraído em situações assim. E o Sávio também. Como de praxe, sem demonstrar qualquer vaidade pelo que fez, meu amigo dispensa essa atenção com um aceno gentil.

— Tudo bem, não precisa. Foi uma situação emergencial e só ajudei mesmo.

Mas o Vini, ele é firme nessa questão.

— Não, precisa sim. Olha o quanto de coisa tu fez! Teve que lidar com duas pessoas feridas, além de mantê-los calmos e acordados até a hora do atendimento. Nem eu acho que conseguiria isso.

— Na hora da adrenalina, acho que...

— Cara, não sei se conheço alguém que permaneceria calmo desse jeito.

Se a dinâmica já parecia incomum, ela fica mais quando o Vinícius se levanta, passa por trás da cadeira da Iara e se coloca em frente ao Sávio. Oferta ele um aperto de mão.

— Pelo menos aceita uma camisa nova. Não pode dizer não. Não aceito um não.

Nem eu acredito no que tô vendo. Saber que o Vini estava mais atencioso e respeitoso ao Sávio nos últimos tempos já estava sendo algo fora da realidade, mas nesse nível amistoso e extremamente agradecido, é como um milagre. E dos bem inesperados.

Mesmo depois de ele ter apoiado o namoro da irmã e hoje selado um recomeço e uma amizade com o Sávio, isso está para além de tudo. E depois de ouvir o que o Sávio fez, nos detalhes do que fez, acho que não teria como não ter esse resultado. Quer dizer, todo esse cuidado fez uma enorme diferença para o Vinícius.

Assistir isso me faz pensar novamente na questão da tragédia e como ela tem unido as pessoas. Que têm esquecido ou deixado para trás as diferenças que tiveram no passado. Me faz pensar também se devo ou não relutar em relação ao Aguinaldo. De modo inevitável, minha cabeça volta a ele novamente, que, naquela situação de desespero, também permaneceu com Djane. Que tirou Djane. Que avistou Djane. Ele quem prestou os primeiros socorros. Como isso não mexeu comigo?

— Tá, uma camisa e nada mais.

— Uma camisa e nada mais.

Sávio corresponde dando sua mão e recebe mais do que um cumprimento, recebe um abraço, desses com felicitações animadas nas costas, típicas dos meninos. Recebe uns agradecimentos extras também, do que dá pra ouvir da conversa baixa deles. Tem algo que o Sávio diz, que não ouço, mas acho que o Bruno ouve, pois reclama:

— Aceita que tu fez algo incrível, cara!

Soltando-se do Vini, Sávio fica sem jeito, mas os dois parecem leves e orgulhosos disso. No que o Bruno provoca, o Sávio até dá uma cotovelada de brincadeira nele, o que torna tudo tão mais... surreal. Impensável.

— Aceita e pronto.

— É só algo que eu faria por qualquer um de vocês, só isso.

Sei que faria o mesmo.

— E claro, pelos familiares de vocês também.

A emoção pega na mesa e a Dani se levanta também pra abraçar o Sávio. Só que ao deixar seu lugar, deixa também o celular próximo de mim, com a tela aberta na parte das imagens da matéria e só assim que capturo a posição do carro.

Até então, não fazia muito sentido pra mim como o Aguinaldo pôde ver que era o veículo do Renato, pois o adesivo característico fica na parte traseira e eles estavam em pistas diferentes, logo não teria como ver a parte de trás, já que não estaria num ângulo favorável. Quer dizer, a dianteira de um estaria de frente para a do outro. Mas pelo que vejo do cenário da inundação, o carro do Renato tinha virado de lado já, de modo que o adesivo ficou evidente para quem vinha da outra pista na avenida.

— Lena?

Animado, Bruno se vira pra mim, a única de nós sentada, encarando essa cena toda. Tipo, eu quis tanto isso. Eu esperei tanto isso. E... Será que eles estão esperando isso de mim também? Em relação ao... outro?

Me recosto na cadeira e acho que o Bruno cutuca os outros, que, ainda de pé, apercebem-se de mim e de como estou. Preocupado, o Vini faz o caminho de volta para me checar. Pois estou segurando o soluço com a mão ao rosto, a emoção no ponto de transbordar.

— Tá sentindo algo, amor?

— Eu só... t-tô um pouco confusa, acho. Tô feliz por vocês, claro, m-muito feliz, mas... Não sei se estão esperando isso de mim também.

A Daniela aparece do meu lado, sem compreender bem o que digo.

— Esperando de ti o quê?

Passo a palma de qualquer jeito nos olhos, de embaçados e emaranhados que estão, mas transbordo o que me alucina aqui dentro. Por mais insano que seja.

— Que eu perdoe o... Que eu perdoe ele por conta de ter salvado Djane. Porque agora tá parecendo muito cruel da minha parte não ligar pro o que ele fez. Ou pelo que ele tá passando.

Com uma calmaria não lá muito típica dela, Dani lança a questão aos outros:

— Eu não tô pensando isso. Alguém tá pensando isso?

Os outros entoam um “não” juntos. Com essa resposta, Daniela puxa um pedaço de papel e se agacha ao meu lado para me acessar melhor. Me passa o papel para que eu agarre.

— Viu só? Ninguém tá esperando isso.

À minha esquerda, o Vini puxa sua cadeira pra se aproximar mais da minha.

— Ninguém te pediria isso, Lena.

— É, mas até tu... Até tu parece ter reconsiderado o que ele fez. Por conta de Djane.

— Confesso que fiquei balançado e que... Olha, por mais que me sinta grato pelo que ele fez pela minha mãe...

De alguma forma, isso parece pior pra mim e eu seguro o papel ao rosto, como um ato de me proteger, me esconder ou me afastar, sei lá.

— Entende que e-eu tô confusa com isso?

— Claro que entendo isso. E claro que...

— Até ontem tu tava puto com o e-mail!

A Iara fala por muitos quando se aproxima e pergunta:

— Que e-mail?

— O Aguinaldo também me enviou um e-mail. Deve ter se inspirado no da Flávia.

Vez que o Vinícius fica quieto, sem corresponder à minha resposta, me estico só pra pegar meu celular de novo, para poder abrir a mensagem, e deixo o aparelho ao meio da mesa. Só que ninguém se mexe pra ir ver. Porque estão me observando. Ou sem ação.

Então o Vini meio que explode na sua cadeira, se afastando um pouco de mim.

— Peraí, tu tá achando que eu perdoei o que ele fez? Porque aquilo foi grave.

— Exatamente. Aquilo foi grave.

Cansado e também chateado, Vinícius bufa um pouco.

— Eu também tô com sentimentos ambíguos, tá bom? Eu tô sim muito grato pelo que o Gui fez pela minha mãe, mas eu não esqueci o que ele fez contigo. O que eles fizeram contigo. Mas tu foi atrás da Flávia!

Ele me acusa, levantando-se e apontando diretamente pra mim o que fiz.

— Mas eu não perdoei a Flávia. Eu só...

Fico tão alvoroçada com isso que quase parto pra cima e é a Dani que, ao se por de pé outra vez, me segura na cadeira. Me barra e me mantém ali.

— Gente, acho bom a gente dar uma pausa.

O Sávio logo se coloca por ali e consegue empurrar o Vinícius para vazarem da cozinha. Eles passam pela sala e saem pro terraço e eu tô tão transtornada com isso, que só me fecho com os braços ao redor do corpo e choro. Abaixo a cabeça e libero esse sentimento pesado de mim.

Não muito depois sinto alguém me envolver e só sei que é a Dani, porque ouço a voz dela, porém não entendo o que ela diz, só sei que diz algo aos outros. Mas então ela se dirige a mim.

— Desculpa se pareceu que a gente... Não estamos esperando nada desse tipo, Lena.

Bruno também se senta próximo a mim, na cadeira que era da Dani.

— É, a gente só tá... unindo as peças. Como da outra vez. Mas se isso tá sendo muito pra você... A gente entende.

A Iara me dá outro pedaço de papel e eu quase me escondo na pequena tira. Tapo os olhos enquanto os enxugo, toda embargada.

— Desculpa, g-gente. Eu que... Eu que soltei uma bomba enorme pra vocês e acho que nem tô dando tempo pra vocês processarem.

Bruno me alcança com um afago ao braço e segura a minha mão. Me puxa um pouco para que eu possa olhar para ele. E quando olho, encontro carinho e cuidado.

— Estamos aqui uns pelos outros, mesmo se a porrada é grande. Também sabemos bater e sabemos quando é hora de só ficar perto. Não precisa se exigir, tá legal?

Assinto, acolhendo isso, mesmo que não esteja calma. Apenas deixo que meu peito esvazie o ar custoso que me comprimia por dentro. A Iara, que me alisava os cabelos, também abalada dessas confusões todas, faz uma proposta.

— Que tal se a gente for lavar o rosto um pouquinho? Eu também tô precisando.

Sem muito o que dizer, só deixo que me levem.


~;~

Imaginei que o Bruno iria checar o Vinícius lá fora, mas quando saio do banheiro do corredor com as meninas, ele está a nossa espera bem na porta. Ou não?

— Bebi muito refri.

Volto para a sala com as meninas e a Dani me leva pela mão para ficarmos no sofá. A noite foi tão agitada desde cedo que esqueci de deixar meu pé acima do nível por bastante tempo. Assim dou uma alongada e coloco apoiado na mesinha de centro. O Bruno aparece logo mais, sentando-se do lado da minha perna, e traz consigo uma caixa em especial.

— Encontrei lá na dispensa. Quem quer chocolate?

A Daniela basicamente rouba a caixa dele e ataca primeiro. Quando põe no meu colo e eu repasso pra Iara, ela mete a mão lá de novo só pra jogar um bombom de chocolate pra mim. Eles estão tentando me fazer sorrir. Fico mais sem jeito, embora agradeça o cuidado deles.

Assim que a caixa retorna às mãos do dono da casa, ele pega um novo bombom e oferta a mim:

— Um chocolate por seus pensamentos?

— Eles estão valendo tão pouco assim?

Jogo a questão de volta, não pretendendo ser engraçada e nem sai lá com graça mesmo, vez que digo quase sem vida em mim. Mas o Bruno faz disso uma cena, como foi desde o nosso encontrão mais cedo. Ele vira a caixa aberta pra mim.

— Caraca, Lena, tá gulosa, hein? Tá bom. Uma caixa inteira. Ou o que sobrou dela.

— Valeu, mas não tô muito pra chocolate. Eu só...

Pego a caixa apenas pra repassar pra Iara, para que isso não fique pairando em mim. Como ela também tá quieta, não quero que isso seja desconfortável pra ela. Não quero que eles fiquem mal por conta de mim.

— Eu não devia ter falado daquele jeito com o Vini. Não sei muito bem o que eu tô pensando. E não sei o que deu em mim.

Mastigando seu chocolate, Dani bate o ombro no meu.

— Isso se chama estresse. E dos brabos. E também foi uma reação natural, acho, dado ao que tu tem passado. O que tem sido muito. Mas nós também somos muitos. E estamos aqui pra ouvir, falar bobagens e consertar algumas delas, se possível. Se tu também quiser.

Graciosa e geniosa, Dani junta as embalagens, dos dois bombons que detonava, ao colo do Bruno. Quando ele a encara por conta disso, ela se gruda em mim e bate no espacinho que abre, para ele se acomodar também. Assim ficamos os quatro bem juntinhos no sofá, que é outro cenário que parecia ser improvável pra mim.

Sei lá, achei que iriam brigar comigo. Mas o que o Bruno disse ainda pouco ecoa dentro de mim. Também sabemos bater e sabemos quando é hora de só ficar perto.

Remexendo na caixa de chocolate, sem pegar nenhum em específico, a Iara quebra o silêncio, mas não sua quietude:

— Então... Tu foi ver a Flávia.

— Fui.

Bruno aproveita pra perguntar também:

— Por conta do e-mail?

— Sim.

Vez que eles ficam calados, eu complemento a resposta.

— Esse e-mail acabou me dando um estalo sobre o que a gente conversou da última vez. Como vocês viram, foi a forma que ela encontrou para me falar as verdades que segurava consigo. E era muita coisa. Quando eu li, vi que tinha que ir lá. Porque algo aqui dentro se mexeu, foi despertado, sei lá. Eu tinha que ir vê-la.

Sopro um pouco mais de ar, devagar, pra normalizar minha respiração.

— E foi... E foi um negócio muito doido, porque nesse dia tava com todos os sinais de chuva pesada e o Murilo não queria me deixar sair de casa e eu tive que convencer ele. Convencer não, barganhar mesmo de que era o certo a se fazer. Porque me veio esse ímpeto enorme, que eu não consegui ver mais nada. Ou ele me levava ou eu faria alguém ir me levar.

Dani se recosta no meu ombro e passa o braço pelo meu para se manter bem junta. Estava ali realmente para me ouvir. Então falo, falo tudo o que me vem à cabeça, principalmente sobre o que me angustiava naquela situação.

— Ela também não tava numa situação favorável e tava... Tava sozinha. Ou se sentindo sozinha. E isso mexeu comigo num nível que simplesmente coloquei plástico-filme no pé com a tornozeleira, pra não molhar, e arranjei maneiras de o Murilo me levar lá. Mas antes de ir, eu liguei avisando e pedi que... Pedi pra ela não chamar o Aguinaldo. Porque naquela vez do Natal, ele tava por lá e não foi um bom encontro.

Bruno se move um pouco pra frente pra poder me olhar.

— E dessa vez foi um bom encontro?

— Foi. Bem diferente desse anterior. Eu, por exemplo, fiquei mais leve. E a minha intenção foi também de deixar ela mais leve. Tipo, eu não a perdoei por aquela invasão, mas... eu aceitei as desculpas dela. Fui lá pra dizer que entendi as razões dela e que envolveu tanta coisa mais. Que entendi que ela ficou desamparada quando a tia Alba disse pra guardar segredo e ela teve que ser aquela atriz. Teve que fingir, aguentar a barra e não pôde nem pedir ajuda. Não teve como pedir ajuda. Então minha visita foi nesse sentido de... dar um alívio. Um alívio a nós duas. Não fui na intenção de resolver nada e inclusive deixei isso em aberto, pra acontecer em outro momento. Mas que isso não pesasse mais na gente, sabe?

— Mas o Gui é outra história pra ti, não é?

Dani resume o sentimento numa frase só e eu confirmo.

— Completamente outra história. Aquela invasão... aquilo foi a gota d’água pra mim. E vocês viram, que não foi ideia dele, mas ele fez isso. Eu até entendo que a Flávia “sentiu” que precisou agir em relação a mim, que se aproveitou de uma brecha e que foi ela que o colocou nessa situação, mas ele não precisava ter entrado nisso, precisava? Sabendo e me conhecendo o bastante. Ainda mais no ponto que a gente tava.

Absorvendo meio neutro, Bruno se manifesta:

— Ele também falou sobre isso no e-mail?

— Não diretamente.

Levanto e busco meu celular que ficou na mesa, na mesma posição de quando deixei ele aberto e se deu aquele bate-boca com o Vinícius. Ao me virar de volta à sala, me detenho um instante encarando a porta que nos separa e não ouço nada. Me pergunto como está e se tá com muita raiva de mim.

Retorno ao sofá, porém, ainda de pé, me coloco frente à Iara, que se mantém na sua e até mesmo um pouco cabisbaixa. Entrego o celular a ela, com a tela já no e-mail do Aguinaldo.

(releia o e-mail aqui, capítulo 191)


— Ele enviou no último domingo, de tarde, depois do almoço. Assim que notificou e eu vi o nome dele, me refugiei no corredor e fui ler. Mas não demorou pro Vini me pegar fora de circulação. Foi naquela hora que ele foi atrás da raquete elétrica e depois o Murilo pegou dele.

Vez que a mensagem é curta, Iara logo passa meu celular pra Dani e o Bruno lê junto da namorada. Eu torno a me sentar no lugarzinho que deixaram pra mim, e faço isso com o coração pesado. Mesmo depois de liberar tanto, essa carga fica comigo. Não sei se culpa, vergonha ou apenas medo, porque é complicado ditar um sentimento tão nebuloso.

— Ele tem sido atencioso e paciente comigo. O Vini. E agora eu não fui atenciosa ou paciente com ele. Eu... sei lá.

A Dani torna a me envolver, mas fica com o rosto próximo do meu, ao meu ombro, não para encarar e sim para entender. Mesmo assim, eu me desvio dos olhares.

— Tu mesma disse que tava confusa, então as coisas ficaram mais confusas. Mas eu não entendi por que tu achou que a gente estaria esperando que rolasse perdão pro Gui.

— Acho que eu só não esperava que ele fosse o centro da conversa, mesmo com os dois e-mails. Mesmo com a Flávia falando diretamente dele e da situação dele. Acontece que eu venho mantendo distância de tudo relacionado a ele, mas aqui, hoje, na mesa...

Demoro um pouco, retida, a encontrar as palavras para descrever o que foi aquilo.

— Senti que o universo estava testando minha empatia... ou consideração ou sei lá. Tipo, o Aguinaldo se meteu no meio daquele vazamento do igarapé e quebrou a janela do carro de Renato e tirou Djane de lá. E ele basicamente andava jurado de morte. E eu tô ignorando o cara, sabe? Mas aí o Vini tava envolvido com isso de novo, com o resgate de Djane e aí tava fazendo as pazes com o Sávio, o que é uma maravilha, mas isso na minha cabeça foi pra outro lado e...

Dani encadeia os fatos:

— Ah, tu achou que por ele estar bem com o Sávio, porque ele também ajudou Djane, que ele faria o mesmo com o Gui? Ou pelo menos mais inclinado a...?

— Acho que sim. E acho que fiquei irada com isso.

Dar nomes aos bois – no caso, aos sentimentos – dá um sentido melhor ao modo com que reagi. Me senti irada. Revoltada. Incomodada. Provocada.

A pergunta impulsiva (e talvez inocente?) que vem do Bruno dá o que pensar sobre esses sentimentos todos. Só que também provoca ou ataca outros:

— Acha que ele te trairia desse jeito?

Mas a Iara, que não tinha se manifestado até então, se põe de pé, nervosa:

— Acha que isso é uma traição? É isso, Lena?

Nisso não hesito, pois também não quero que pense que considero o relacionamento dela e toda a escolha dela de se manter ao lado do Aguinaldo. E falo firme, porque não acredito mesmo que isso seja “traição”.

— Não. Não acho, I.

Mas ela não responde, ela se cala. E quando sua boca treme, logo se vira de costas.

— Eu meti os pés pelas mãos, I. E me exaltei. Desculpa. Sabe que nunca te limitaria quanto a ele.

Minha amiga funga, porém, não se vira de volta.

— Sei?!

— Eu não limitaria nenhum de vocês.

— Mas com o Vin...

— Eu errei, I. E tô assumindo. Minha cabeça foi pra outro lado. Eu sei que eu não tô sendo justa. Eu não tô sendo justa nem comigo mesma! Tô só essa zona... porque, de alguma forma, e-eu queria eliminar o Aguinaldo d-da minha vida. E eu n-não consegui. Acho que minha raiva é essssa.

Não sei se é a minha resposta ou todo o meu embargo que faz ela se virar pra mim.

— Eu já fui machucada por t-tanta gente... e acho que até agora eu não acredito que fui p-pega... e de novo... e logo no m-meu ponto mais vulnerável, quando eu não tinha nem como me d-defender.

A Iara me abraça com tudo.

— Eu nem t-tive como reagir.

— Me perdoa, Lena, eu não quis dizer dessa maneira. Não sei, me deu um medo de que tu fosse me odiar por eu... por eu estar ajudando ele e por continuar sendo amiga dele. Sendo que eu amo os dois! Não me faz escolher entre vocês dois. Por favor.

Abraço ela de volta e aperto ela comigo. Porque não quero que pense que estou cogitando um negócio desses. Por isso reitero e me esforço para me manter firme no que digo.

— Não vou te fazer escolher, I. Nunca fiz e nunca vou. Tu tá mais do que certa... Tá certa de ajudar ele. Porque ele tá precisando mesmo. Ele continua sendo uma pessoa. Tá certa de dar abrigo. Eu que não sei se tô certa no que tô fazendo.

Iara se desvencilha de mim, tão perdida quanto eu nessa parte.

— Como assim?

Assumo enfim o que sinto. Assumo meu conflito.

— Eu não sei se consigo ser indiferente a ele. Eu... Eu não me sinto impelida de ir atrás dele, mas também tô vendo que ele tá... Caramba, ele tá tendo que se refugiar num lugar com câmeras e segurança reforçada, sabe? Fora que ele já sofreu um atentado. E no final das contas, era pra a gente estar unido. Todos nós.

Bruno se materializa ao meu lado e apoia os braços na gente.

— Mas a gente tá unido, Lena.

A Dani também abraça eu e a Iara.

— É isso, a gente tá unido. Não da maneira que gostaríamos, mas da maneira que podemos. E respeitamos tua situação, Lena. Não precisa se preocupar com isso. Não precisa mesmo.

Passando a mão ao rosto, a Iara funga outra vez nessa noite.

— Acho que... Acho que podemos diminuir o papo sobre o Gui. Vamos te falar só se tu perguntar, tudo bem? Assim tu pode se concentrar nas coisas que já tá lidando. Até porque tem que se cuidar também.

Ela me segura o rosto, bondosa e chorosa, e a Dani deita no meu ombro outra vez, fazendo um carinho ao meu braço.

— É, o restante deixa com a gente. O nosso trato afinal era de cuidarmos uns dos outros e isso vamos manter. Você não precisa se envolver esse tanto e estamos ok com esse limite. Tu tem esse direito.

Com essa que eu respiro. Ou melhor, puxo e solto o ar e solto a tensão que me tomava por inteiro.

— Valeu por entenderem.

O Bruno também firma seu apoio e formamos um bolo de abraço coletivo e emocionado. Mas que dá suporte e ampara e resguarda um ao outro. E se eu pudesse, também os protegeria do mundo. Faria o melhor por eles, do jeito que fazem por mim.

Os seus amigos são os melhores quando se trata de você.

Essa frase ecoa mais uma vez dentro de mim e decido dividi-la, para quebrar essa comoção toda. Me desvencilho um tantinho deles, só o bastante para compartilhar essa frase tão preciosa.

— Sabe... Uma vez o Max me disse uma coisa, que eu nunca esqueci. Disse: “os seus amigos...”, “os seus amigos são os melhores quando se trata de você”. Nesse dia ele falava de ti, Dani.

Ao passo que viro o rosto pra ela, Daniela sorri um sorriso contido e tímido.

— Que tinha jogado um suco na Keyla. Fez algo com a Keyla, porque ela tava falando mal de mim. Tava espalhando baboseiras sobre mim. Mas essa frase do Max... Acho que ele falava de todos vocês.

Viro o rosto para frente, para a Iara.

— Falava do Sávio protegendo a gente.

E depois para a esquerda, onde meu amigo se mantém, bem afetado.

— E do Bruno sempre por perto.

Mas volto-me à Iara, novamente, que também tá se recuperando aos poucos.

— E talvez falasse de ti também, I. Que tava sim sendo nosso suporte. E nem todo mundo acertou na hora que a batata ficou quente na mão.

Ela assente e firma as mãos nas minhas, com um sorriso afetuoso. Quando fala, sinto que essa é sua maneira de transbordar amor e confiança.

— Mas agora vamos acertar. Juntos. Os Oliveiras juntos.

Com essa sentença, o Bruno retoma seu posto provocante, mas de sabor agridoce (pra não dizer emocionado).

— Ai, assim vocês me matam, viu. Vou aproveitar essa deixa e ir checar como estão aqueles dois lá fora. Volto já.

Assim que ele sai, as meninas me abraçam novamente e eu passo os braços por volta delas também.

— Obrigada por me ajudarem a colocar a cabeça no lugar.

— Do jeitinho que tu faz com a gente, fazemos contigo. Esse também é o trato. Né, Dani?

— Com certeza!

Quando o Bruno abre a porta da sala e traz seu sorriso resoluto, eu tenho esperanças do que ele tem a dizer. Me solto das meninas e vou para perto dele.

— Pronta pra reconciliação, Lena?

Só passo a mão ao rosto rapidamente, pra eliminar os resquícios de choro, porque esses sim tão no meu alcance de eliminar, e confirmo. Em pose, expressão e declaração.

— Pronta.

— Ainda bem. Porque ninguém sai dessa casa hoje brigado.

Notas finais
"Mas a gente tá unido, Lena." *CHORA* Deu merda, mas deu certo. Eles precisavam se ouvir *funga* Nem digo o que esperar do próximo, mas solto uns trechinhos procês: "Atesto: - A Milena ama. Isso infla o peito da criatura com alguma esperança. - Viu só? A Milena entende. E eu torno a falar em terceira pessoa. - A Milena não entende. Massssss... ama." e "Mas depois uma revolta ganha ele: - Por que homem é tão babaca? - Tu jura que tá me perguntando... isso? Eu te pergunto isso desde, sei lá, meus 12 anos?!" e TÁ ENORME, MAS NÃO POSSO REVELAR MAIS DO QUE ISSO!