Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
197 Capítulo 92
Notas iniciais
Desde o último domingo, quando o Murilo insistiu em me tirar de casa, ele vem com uns papos e incentivos de eu mudar os ares. Senti que ele reforçou bastante isso durante a semana e não sei se foi por conta da despedida com mamãe ou do encontro com meus amigos, que também me sugou num novo abalo. A Cris que ainda me deu um alívio na alma e no corpo por me fazer falar sobre essa criatura dúbia que tem se esforçado um bocado para me fazer sorrir e desanuviar. Também me fez relaxar na poltrona como se me desligasse e me renovasse. Ainda não sei como ela faz isso, mas gosto de como faz e como até o que falo das ideias do Murilo, que geralmente são bem questionáveis, soam mais interessantes.
Mas neste sábado em especial, a ideia dele não é apenas cativante, é relaxante. E adorável. Me senti meio avulsa ou aleatória de aparecer tão cedo – antes das 9h! – na casa da Lisbela, mas ao receber uma revista nas mãos e a orientação do próprio para tacar na sua cara – e repetidas vezes – a fim de arrancar as risadas mais gostosas da Lia, eu gostei disso. Gosto desses novos ares. Gosto dessas risadas simples, com a Lia toda acesinha e o meu irmão sendo esse bobão.
Quando o Alfonso, pai dessa princesinha, reaparece na cozinha para colocar sua xícara na pia, ele também entra em cena.
— Acho que já chega de castigo pro dindo, né? Se não vamos ter outra confusão de soluços.
Ele faz umas gracinhas com as orelhas do elefante de pelúcia da pequena, que ri, dá gritinhos e tenta as alcançar, e eu repouso a revista na mesa, assistindo a interação deles, mas curiosa com certa parte da história.
— Isso de castigo a criatura não me contou. Só disse que era pra fazer a Lia rir.
Alfonso olha de esguelha pro Murilo, que finge que não tamo falando dele.
— Ele fez a brincadeira de roubar o nariz e a Lia não gostou nadinha.
O besta se entrega logo depois, balançando um jacaré grandinho de pelúcia, para chamar atenção da sua vítima.
— Eu devolvi e ainda botei o meu nariz à tapa. Repetidas vezes!
Rio mais por força da Lia segurar o jacaré do que o Murilo assumir suas peripécias. No entanto, me bate uma dúvida:
— Mas ela já entende que é o nariz dela?
Na pia, lavando as mãos, Alfonso se divide entre a gente e a filha.
— Não entende não. Foi alguma coisa que ele fez, ou expressão que fez, que ela não gostou. Fez bico e tudo.
— Caramba. Eu sabia que a feiura dele era uma coisa, mas nesse nível de irritar uma meninin...
— Ei! Eu já fui punido, tá legal?
Antes que eu ou o Alfonso possamos dizer algo a respeito dessa punição duvidosa, a Aline chega e, da porta mesmo, anuncia com a voz mais melosa e dengosa do mundo:
— Ca-dê meu amorzinho?
A Lia se alvoroça toda na cadeirinha, iluminada como um shopping no Natal. Mas é outro ser que responde, um grandalhão intrometido que não se dá satisfeito por seu castigo, nem de ser babá do jacaré que a pequena solta sem querer.
— Tô aqui.
Agora sim a vingança, pois meu mano se retém amuado quando a Aline passa pela mesa e finge que nem dá conta dele. Enquanto ela ataca a afilhada de beijos e gracinhas, cutuco a peste.
— O que tu andou fazendo com ela também?
Antes que o Murilo pense numa resposta, a Aline atravessa o momento dele bem de onde tá, pegando a garotinha nos braços, sem sequer olhar na cara do meu irmão. Sinto que ela fala com certa seriedade, mas fico na dúvida.
— Ele contou que me fezacusações?
— Pelo jeito, ele não anda me contando muita coisa.
Como balança a garotinha no braço, que responde com novos gritinhos, fico realmente na dúvida se há algo de sério nessa conversa. Porque o Murilo tá muito do esquisito do meu lado.
— Né, neném linda? Esse teu dindo até parece que...
A Aline não termina a frase, porque apalpa a fralda da guria, nota alguma coisa por ali e o Alfonso já pega a filha para levar para o quarto. Quando ficamos só os três na cozinha, minha cunhadinha vai para a pia, pra retomar algumas louças de onde o Alfonso parou, e de lá torna a provocar o Murilo, novamente num tom bem dúbio.
— Sorte tua de não ter ficado com esse presente da Lia, sorte tua.
Ajustando a roupinha do jacaré – pois é, ele tem uma camisetinha –, a criatura rebate, também sem olhar na direção da namorada, a quem se refere no meio do caminho:
— Ela me ama que sei. Outro alguém também.
— A Milena, tu diz?
Bondosa que sou, defendo a criatura. Por quê? Não tenho ideia. Intuição, sei lá.
E ainda entro na onda de falar em terceira pessoa. Atesto:
— A Milena ama.
Isso infla o peito da criatura com alguma esperança.
— Viu só? A Milena entende.
E eu torno a falar em terceira pessoa.
— A Milena não entende. Massssss... ama.
Pesco uma expressão da Aline, de costas, quando coloca umas xícaras e papeiros lavados para secar ao lado. Pelo jeito, essa cena toda não é mera brincadeira e parece mesmo ter rolado algo diferente entre os dois. Mas estou aqui em missão de paz. Estendo a “brincadeira” para ele logo se redimir.
— Mas tem que pedir desculpas pra ela. Pra elas, na verdade. Não vale só fazer rir.
Antes mesmo que Murilo considere dizer algo, a Aline ralha, mostrando que não foi a primeira vez que chamou atenção sobre isso aí que ambos deixam nas entrelinhas:
— Eu disse isso, e, na verdade, disse muitas coisas, mas ele escolhe não me ouvir.
Murilo segura e encara o jacaré agora de frente para si e vejo uma dificuldade sua em retrucar qualquer coisa. É muito raro ele ficar calado assim, e quando fica, é certeza de que está queimando os neurônios. Porque fez merda. E quando me olha de lado, já sabe que eu percebi.
Porém, dou outra colher de chá pra ele, incentivando-o:
— Como é mesmo que se diz, Murilo?
Coçando o rosto, ele se demora um pouquinho em começar algo. Parece nervoso.
— Desculpa.
A Aline desliga a torneira, mas não se vira. Eu cutuco meu irmão para continuar.
— Desculpa por aquilo que eu falei. E por como eu falei.
Na mesma posição, a Aline só dá um suspiro e pega um pano de enxugar as mãos, no entanto, outra vez, não se vira. Só que ela já não parece nada amistosa e até bem raivosa. Mostra-se farta de alguma coisa.
— Conta, Murilo. Conta o que tu fez.
Meu irmão fica mudo, sem expressão, de olhar baixo. Vez que ele não diz nada, a Aline fica mais indignada. Dá pra ouvir quando bufa e dá pra ver o quanto seu corpo tá tenso quando se apoia na pia. Então ela cospe ódio conforme, pausadamente, chama atenção de meu mano.
— Murilo... Lins... Al-bu-quer-que... Camargo!
Falou o nome completo, é hora de correr. Não sei se eu, ou ele, ou os dois, mas acho que eu. Porque um dos meus acordos com meu mano é de um não interferir na briga de casal do outro. Ou seja, se alguém presenciar algo, é pra ficar de fora.
Por isso, com cautela, vou me levantando pra dar no pé.
— Acho melhor deixar vocês.
Como minha cadeira faz barulho por ser movida, a Aline se vira com toda a sua raiva e me manda ficar. Quer dizer, pra eu nem me mexer.
— Nem um milímetro a mais, Milena. Ele tem que falar!
Cabisbaixo e inibido, Murilo se pronuncia:
— Eu me expressei mal.
Aline ri um riso cético, de quem ferve por não acreditar na postura do outro. Mas ela segue com isso que a criatura falou e se recosta à bancada da pia, firmando bem os braços ao cruzá-los ao corpo.
— Se expressou mal, né? Agora deixa de eufemismo e conta.
Quieta, fico olhando de um pro outro e Murilo até que arrisca erguer os olhos pra frente, pra ela, mas logo depois se volta para o jacaré de pelúcia que ele não solta de jeito nenhum. Não dá pra dizer se ele tá com raiva ou só com vergonha ou sei lá mais o quê, porque, de perfil, e eu ainda de pé, só consigo ver mais ou menos a sua mandíbula travada, vez e outra se mexendo. Aquela sua expressão de inocente, como outrora, já se foi.
Sentindo o climão, sento-me outra vez, se a opção de dar no pé foi descartada.
Já a Aline, enervada, porém muito segura, sobrepõe-se ao silêncio dele, dessa vez se dirigindo a mim, mas fitando diretamente meu irmão.
— Ele me cortou na frente dos colegas de trabalho dele. Como se eu fosse... como se eu fosse uma qualquer. Como se eu estivesse fazendo algo errado! Porque eu fui no departamento dele pra avisar que não sairia no mesmo horário que ele.
Num movimento quase mecânico, viro a cabeça pro Murilo, que, na mesma posição, agora só encara a bancada, num misto de sentido e envergonhado. Acabo por infringir nosso acordo e salto no limite. Porque não posso me abster com o que ela disse, não dessa maneira com que ela disse.
— Por que tu fez isso, Murilo?
O único movimento dele é de tornar a abaixar a cabeça, agora voltado para a mesa. Quando achei que não diria nada, ele solta algo num fio de voz, mas que sei que a Aline ouve. Ela não reage, eu reajo.
— Ela tava com um vestido muito curto.
— Quê?
ATÉ EU QUERO BATER NESSE MALUCO.
Muito certa do que está fazendo, numa postura de altivez, Aline acrescenta:
— Eu tava com um short por debaixo, o que nem vem à questão.
Murilo retoma a vez ressabiado, mas depois mostra a cara e a voz. Que é o que a Aline queria que ele fizesse desde o começo, acho.
— Eu só queria afastar ela do olhar dos... Vocês sabem que agora sou eu que dou conta daquele setor!
— É, mas ser um daqueles babacas não tá no meio das tuas demandas! E sim, eu tô sabendo das reclamações das novas técnicas. Mas eu não achei que tu iria me aprontar uma dessas e desse jeito.
Nesse ponto de confusão, Murilo fica inquieto, meio que sem conseguir se expressar, e até fecha os olhos. Mas então recomeça:
— Só que o vestido...
E é claro que a Aline discute. Ela não tá exatamente gritando pra toda a vizinhança ouvir, mas está agitada e mantendo o conflito só no espaço da cozinha. No entanto, não sei dizer se os outros estão ouvindo também.
— Dane-se o vestido, Murilo! Dane-se! Isso não se... Isso não se f-faz!
Meu irmão permanece na dele, de olhos fechados, mas vejo como sua testa e rosto se contraem quando ele ouve o que eu também ouço: a Aline chorando.
Com a mão ao rosto, ela segura um pouco da emoção e depois passa os dedos pelos olhos, tomando um fôlego e recobrando sua compostura. Assim, de expressão impassível e muito controlada, toma outra abordagem.
— Me diz que isso nunca mais vai acontecer. Que isso nun-ca ma-is vai acontecer. Senão eu termino bem aqui, na frente da tua irmã.
Se até eu sinto um calafrio esquisito, não sei dimensionar o que isso deve ser pro Murilo. Pela expressão chocada dele, de abrir a boca e não sair nada de lá, só encarar a namorada, agora possível ex-namorada, eu também não sei se ele vai conseguir falar o que ela tá pedindo. Fico num conflito maluco e intenso de mexer nele, pra que diga logo, e também de me manter na minha, ainda mais que a coisa ficou séria nesse nível.
Eu não posso interferir!
Como uma fera lúcida e decidida que se revela ali, Aline joga algo mais e numa calma aterrorizante da porra. Basicamente coloca as cartas na mesa de vez.
— Eu não vou ser controlada pelas minhas roupas, Murilo. Ou por como eu uso elas ou onde uso elas. Eu já passei por isso e jurei nunca mais passar. Então diz logo ou a gente termina.
Atarantada fico, porque também não sei o que fazer. Meu irmão segue atônito, meio fora do ar, bestificado e, no que se mexe, é para segurar a própria cabeça, depois apoiar nesse mesmo braço na mesa. Nessa posição ele encontra meu olhar, em expectativa, mas que também se quebra ao ver a lágrima que havia escorrido no seu rosto. Pela lufada de ar que solta que noto que ele também tava chorando, em silêncio.
No que a Aline funga do outro lado, chorosa, ela acrescenta mais um detalhe. Um que dá o peso final quando se refere a ele, no comportamento que teve:
— E tu sabe que isso significa que tu não vai mais ver a Lia também. Não porque vai ser meu ex, mas porque eu não quero uma pessoadessas perto dela.
Acho que até meu coração para um pouquinho. E quebra junto.
Num soluço meio engasgado, Murilo responde. Mesmo atordoado, ele atende ao pedido dela.
— N-nunca mais... Nunca mais vai acontecer.
— Fala para as duas ouvirem.
Meu bichinho aperta os olhos e meneia a cabeça, com dificuldade de repetir. Mas faz esse esforço de aumentar um pouco do volume da voz trêmula, o bastante para que fique claro às duas, e fala diretamente pra Aline.
— Nunca mais vai acontecer. E-eu não vou interferir no modo que você se veste... ou no que veste... ou o-onde veste. E não vou... Não vou... Me descul... Medesculpa.
Dos olhos cheios dela, que uma lágrima cai ligeira quando pisca, também vejo um cansaço e torpor. Mesmo tendo o que queria, o que precisava, seu semblante não era de vitória. Ao passar a mão ao rosto, ela mesmo se dispersa e vira para a pia, por um momento. O tempo parece ficar suspenso e o Murilo segue entrevendo ela, segurando o próprio choro, desejando uma resposta. Dá uma agonia tremenda essa espera.
Que, felizmente, tem um fim.
— Tá, isso é um começo.
Será que ela achou que o Murilo iria discutir?
O climão é cortado com a Aline cobrindo as louças com um pano.
— Acho bom tu pensar no que vai ser o daqui pra frente, do que não será mais tolerado. Agora vou lá abrir o tapetinho da Lia.
E aí ela passa pela mesa para a saída que leva à sala. Só que, antes que siga direto, Aline se detém um instante no portal da cozinha.
— Desculpe por isso, Milena, mas precisei que ele sentisse o meu constrangimento. Pra ele saber o quanto isso é uma droga.
Tão desconcertada quanto meu irmão, eu nada digo, só acompanho seus passos com o olhar, porque retorna ao espaço da cozinha para pegar o elefante da Lia que ficou na cadeirinha. De frente e agora mais próxima do Murilo, vem um novo desabafo.
— Eu aceitei isso por tempo, tempo demais. Tive que estabelecer meus limites. É o que vou ensinar pra Lia desde cedo.
Com isso, ela também pega o jacarezinho pra levar consigo. Assim que sai, o Murilo recai sobre os braços à mesa, fechando-se em si, onde libera o choro. Não é alto, porém seu corpo inteiro treme e são tantos espasmos que tem uma hora que ele se engasga mesmo, precisando sair do casulo. Recebo-o de volta com carinhos aos seus cabelos e ficando juntinho dele, para que possa deixar sua tormenta e desespero vazarem. Em algum tempo, também o abraço e repito que havia passado, o pior havia passado.
Conforme ele vai amainando, consigo fazer com que foque na respiração e, pra ajudar no processo, também pego uma água pra ele. Pra mim também, que permaneço sem palavras. De papel que encontro, só acho um rolo de papel toalha e fico com esse mesmo. Vez que meu mano tá muito calado e nem me olha enquanto passo no seu rosto, imagino o tamanho da sua vergonha. Paro por um momento.
— Quer ficar um pouco sozinho?
Meio sem vida, ele pisca lentamente, mas balança a cabeça em negativa. Eu, no entanto, continuo sem jeito, sem saber o que faço, como que cato os pedaços dele de volta. Meu irmãozão foi quebrado na minha frente e eu não pude fazer nada a respeito, a não ser assistir. E eu nem poderia partir pra cima da Aline, mesmo após tudo ter acabado, porque ela não tava errada em demandar aquilo. Murilo pisou feio na bola e foi preciso tomar uma atitude. Em meu íntimo, sei que foi preciso um chacoalhão pra colocar umas peças no lugar. Contudo, foi duro de assistir. E olha que nem sei a confusão toda.
Será que ele falaria sobre isso? Tento.
— O lance de te bater com a revista era por conta disso?
Murilo se recosta à cadeira, meio ausente, mas responde.
— Não exatamente. Foi uma brincadeira, mas foi uma tentativa minha de quebrar o gelo mesmo. Porque ontem eu vim pra cá pra esperar a Line e aí fiquei um tempo com a Lia e a história do nariz foi bem na hora que ela chegou e... sei lá, ficou um mal-entendido generalizado. Porque pareceu que eu tava usando a Lia pra me desculpar e não era isso. Eu também não te trouxe para ficar a favor de mim. Eu só achei... Achei que o sorriso de uma criança poderia curar algumas mágoas.
Fico com o coração pequenininho de ouvir isso, logo dele que tava sendo uma baita fortaleza e sempre tão animado com a afilhada. Não digo nem que esse papo de mudar os ares era balela, porque mesmo que tenha reiterado isso diversas vezes pra mim, quando me disse hoje, acho que era mais pra ele do que pra mim. Estávamos os dois precisando de algo assim. Só que a Lia não é uma boneca mágica. Adultos precisam tomar atitudes, isso sim. E a Aline fez isso, por si mesma.
— Mas eu ia conversar com a Line. Eu vim pra pedir desculpa. Ontem também. E as coisas ficaram mais atropeladas.
Faço um carinho ao seu rosto e cabelos. Meu mano suspira, pensativo.
— Eu só não queria que ela fosse um alvo também. Em poucos dias, as coisas explodiram lá no departamento e agora tô tendo que redistribuir os funcionários. Tem gente que vai pro outro prédio e... É muito pra gerenciar.
— Sabe que só tá deslocando o problema, não sabe?
— Sei. Mas não tenho como forçar os caras a mudarem a cabeça. Também não posso demitir e também não teria como dispensar tanta gente. Não é só um ou dois, é quase a equipe inteira. Ficaríamos desfalcados. Não teria como arranjar substitutos de uma hora pra outra. Isso é só uma contenção. Pra ganhar tempo.
Quero perguntar “ganhar tempo pra quê?”, mas prefiro deixar que ele fale ao seu natural.
— Mas tem sido muito, Lena. Tem que preparar as transferências, verificar as equipes e ainda dar conta de vigiar esses caras... Pra que ninguém seja... Pra eles não... Eu só não queria que eles secassem minha namorada também! Eu tô muito errado em querer isso?
— Sabe que fariam isso mesmo se ela estivesse usando uma burca, não sabe?
Murilo não responde essa. Suspiro por seu silêncio.
— Sabe que não é a roupa, Murilo. Também não é como ela se comporta. É a cabeça fudida desses caras.
— Eu sei. Perdi o ponto na hora da contenção.
Contenção. O falso controle que mascara a verdadeira situação.
Seria mesmo a saída pra um problemão desses?
Sento-me direito à minha cadeira e penso sobre a última vez que fui lá no centro meteorológico. Que nesse novo prédio o Murilo tava bem mais solto e mais firme em relação a me ter andando pelos corredores. No local anterior, ele nunca gostava de eu ter contato com os caras da sua sala ou da equipe. Posso imaginar o que ouvia e que tipinhos ele encontrava por ali. Mas no novo prédio, achei que isso tinha mudado. Então começaram as reclamações das novas técnicas, reclamações justificadas.
— Naquela outra vez que apareci por lá, teve alguma coisa? Tu já arrumou briga ´por conta disso?
Tomando um pouco mais de sua água, ele esclarece mais calmo.
— Não. Acho que por ser visita, de passagem, não deu tempo. Porque essa questão com as técnicas tem acontecido mais na sala de controle do observatório, com o maquinário, e nas áreas de descanso. Mas... sei lá. Eles podem ter... e eu não vi ou não soube. As coisas ficaram estrondosas assim logo depois que eu assumi a coordenação.
— Aposto que o problema já existia, tu que não tava vendo, ou acompanhando. Não na tua outra função.
Ele funga e isso demonstra mais de seu estado, com o nariz cheio e fanho.
— É possível. Mas agora não deixo de pensar nas técnicas se sentindo inseguras. De terem que ficar distantes porque os caras simplesmente não sabem se comportar. Eu recebi umas reclamações bem pesadas do RH. De fotos indevidas e tudo mais. Já teve reunião sobre isso e por enquanto só teve advertências. É sério, eu não sabia o quanto aqueles caras poderiam ser babacas.
Senhoras e senhores, o Murilo tá descobrindo como o mundo é mundo. E que a situação para as mulheres é, muitas vezes, uma merda.
— Mas esse ódio por eles não pode respingar nelas, tu sabe. Que estão só fazendo a parte delas.
— Eu sei. Te juro, eu sei. Mas na hora... Fiz merda. Quando a Aline apareceu no intervalo, e eu fiz minha merda, ficou parecendo que eu tava corroborando com eles. Mas eu só quis defender a minha namorada.
— E no processo, ofendeu ela.
Ele balança a cabeça, em afirmativa.
— E agora quase perdeu a Aline.
Murilo dá um suspiro sisudo, no que seu nariz congestionado permite. Mas depois uma revolta ganha ele:
— Por que homem é tão babaca?
— Tu jura que tá me perguntando... isso? Eu te pergunto isso desde, sei lá, meus 12 anos?!
Meu irmão se detém nessa, sem resposta. Já que não diz nada, eu pontuo uma coisa que acho que não tá clara pra ele.
— Eu não sei se tu já percebeu, mas tu já foi esse babaca, Mu.
A cara que ele faz é como se eu estivesse ofendendo-o com as piores palavras de baixo calão, um vinco enorme na sua testa, chocado e desatinado com minha abordagem. Como se fosse uma acusação. Sendo que é só uma constatação.
— Acha que eu desrespeitava as mulheres?!
Não exatamente certa de que esse é o momento pra dizer isso, digo de qualquer maneira.
— Não acho, Murilo. Eu sei que tu fazia isso. Mas na tua cabeça, tu achava que não. Lembra do caso da enfermeira Mônica?
A enfermeira que deu a injeção nele no hospital, quando o Vinícius tava internado, e o Murilo tava na emergência por conta de uma gripe forte, e eu tive que me dividir em três pra atender também Djane, que tava precisando de mim, e lá estava meu irmão dando em cima da enfermeira Mônica, várias e várias vezes e de forma descarada. Ela até chegou a dar um número de contato e era falso. A genialidade do meu irmão não processou isso na época, achou que foi um erro na hora de escrever e queria voltar pra pegar o certo.
Outra vez sisudo, porém raivoso e de raiva contida, ele rebate:
— Eu só demonstrei meu interesse.
— Argh, Murilo! É o que vocês dizem, caramba! Vocês se saem com essas histórias. Mesmo se a mulher demonstrar o desinteresse, o cara insiste. E aí elas têm que tomar alguma providência. No caso, que eu me lembre, a Mônica te deu o número de telefone errado. Na hora, tu pode ter achado que insistir foi uma coisa boa, mas não foi. Pra te parar, ela teve que te enganar!
Meu irmão fica de boca aberta, de quem acordou pra vida, entendendo a vida vinte anos depois. Dá quase pra enxergar as engrenagens dele paradas e então se movendo de volta.
— Caramba!
Eu sei que agora tá mais que nítido, mas até eu fico besta que isso não foi percebido tão de cara assim por ele.
— Tu jura que nunca fez essa leitura da situação? Porque isso ficou claro pra mim no mesmo segundo.
Sem jeito, Murilo abaixa a cabeça e firma a mão à nuca, desnorteado.
— Eu só achei que...
— Entende o que eu quero dizer? Tu não vai resolver isso na ordem. Porque, na cabeça deles, eles acham que isso não é nada demais. Acham até que é exagero nosso reclamar de algo. Mas é algo sim. Tem situação que é mega desconfortável. A gente também aprende desde cedo a se desviar de tipinhos assim. Mas pra vocês, homens, a ideia é completamente outra. Isso até passa batido.
Esse papo todo acaba despertando o Murilo em outro entendimento também.
— Tu já teve problema no trabalho por conta disso? Seja sincera.
— Olha... Eu tive muitos problemas com o André. Ele era descarado assim. E teve um supervisor... que ele ficava me dizendo umas coisas desconfortáveis. Não do tipo de me cantar ou de se aproveitar, não, não era nada desse tipo. Era mais de... Uma vez ele me perguntou se eu era amante do Aguinaldo, assim, sem mais nem menos, porque eu disse que ele não era meu namorado. Na hora eu tava preocupada com outra coisa e nem dei trela, mas depois a I me falou que isso não era boa coisa. Depois, não sei o que se sucedeu dali, se houve reclamação de alguém, só sei que esse supervisor veio me pedir desculpas. Mas por um bom tempo eu evitava topar com ele.
Meu irmão permanece quieto em suas engrenagens e penso se é algo positivo. Pois é melhor ele queimar neurônios do que ele nervoso querendo resolver coisas na base da violência. E já que ele tá assim, mais “receptivo”, também sou sincera sobre outros casos. Porque, para toda mulher, nunca é só um caso, infelizmente.
— Teve um cara também que andava assediando a torto e a direito lá na empresa. Não chegou até mim, mas aconteceu com muitas funcionárias. Eu lembro porque a Iara tava acompanhando o caso e me deu o alerta. E tu sabe o desfecho do caso Sérgio. E do caso do professor Bartolomeu. Não é na porrada ou na gritaria ou na transferência que resolve. Ajuda a conter, mas não resolve.
Muito atento – ou muito disperso – às próprias mãos à mesa, Murilo permanece inerte, ouvindo e não reagindo que nem um maluco. Então assume:
— Eu não tô sabendo resolver, mana. Tenho até procurado uns livros sobre isso, sobre como resolver conflitos. Mas os que li não falam nada disso. Não nessa ordem.
— Talvez por que os livros que tu tem lido são escritos por homens? Por homens que também não ligam pra essas partes?
O olho duro do meu irmão é outro sinal de espanto seu, de algo que novamente passou batido por ele, que fica tão tão pasmo, que é como se eu tivesse roubado o nariz dele. Ou a inocência dele. Parece que tenho mesmo que ser sua mensageira, apresentando o caos do mundo que sempre esteve camuflado para ele e sempre muito aberto para mim.
— Eu vou separar uns pra ti, tá? Acho que Djane deve ter umas referências melhores. Aliás, eu acho que sei de alguém pra te ajudar. A professora Silvana lida com muitos desses casos e desenvolve diversos estudos nessa área. Djane pode fazer essa ponte entre vocês.
Mas meu irmão continua me encarando, perplexo. Faço um carinho ao seu rosto para trazê-lo de volta – não para esquecer essas loucuras, mas sim pra saber que dá pra se mexer enquanto essas loucuras permanecem no nosso mundo. Caridosa, também vou fundo aos seus olhos.
— Em certa medida, eu entendo o que tu quis fazer, Mu. Entendo... a tua intenção. Mas não é assim que tem que fazer. Como tu viu aí, isso pegou bem num ponto delicado da Aline, de outras experiências. Desde o começo da relação de vocês, que eu me lembre, ela fala sobre isso. Mas é provável que tu tenha ouvido isso de outra maneira. Assim como também passou anos me ouvindo de outra forma.
Murilo abaixa o olhar, mas não se sai do meu carinho. Assim continuo:
— O curioso, pra não dizer trágico, é que tu sempre me cobrava uma postura, como se eu fosse a oferecida, como se eu tivesse me comportando mal, quando eu só tava existindo ali e seguindo com as minhas atividades do dia a dia. Mas entre os caras, isso não acontece, né? Ninguém fala pro outro se alguém passa do ponto. Essa cobrança não existe entre vocês. Bom, só quando envolve irmãzinhas e namoradas. Aí tem que tirar o olho, né?
Lembro de um fatídico dia, em que estava eu e o Murilo no caixa do supermercado e ele queria arrumar confusão porque um cara tava olhando pra mim quando me abaixei para pegar um dos últimos itens do carrinho. Eu tava com um short-saia que ele dizia que era muito curto e que eu não devia me abaixar daquele jeito perante “um homem”. Sendo que não tinha como não se abaixar pra pegar o sabão que tava na parte funda do carrinho. Foi muito natural pra mim apenas buscar o item, mas teve de fato um tal cara “me secando”, me olhando com outros olhos e intenções, e o Murilo foi lá peitar o cidadão.
Terminou que o segurança realocou o cliente para outro caixa para evitar briga, mas eu ainda me senti vigiada pelo profissional enquanto a gente levava as compras para o carro, porque o Murilo tava sendo um bruto comigo. Tava raivoso e tava gritando. Talvez na cabeça do segurança, a criatura era um namorado muito ciumento e violento. Acho que ele estava pronto pra intervir, mas eu acabei me saindo por mim mesma.
Falo isso pro meu mano? Não. Eu poderia listar quinhentos outros casos nossos, mas não o faço. Deixo que isso vá encontrando espaço dentro dele primeiro. E se continuo, é porque ainda tem muito mais dessa fonte que, pelo jeito, ele não tá sabendo.
— O que eu tô dizendo... é que não é pra esperar ser alguém importante pra ti, ou da tua responsabilidade, pra exigir respeito e espaço. Tem que ter respeito em todas as instâncias, independente de quem seja ou do tenha feito, e principalmente do que está vestindo.
Ele balança a cabeça devagar, aceitando bem o que digo. E pra mencionar uma coisa que quero dizer, arrisco comentar um dos nossos casos.
— É “curioso” também que tu vivia me perguntando sobre os caras, do teu setor ou não, se tavam dando em cima de mim. Mas sabe uma coisa que tu nunca se ligou? Outras pessoas podem ter falado do teu comportamento com as mulheres. E as mulheres costumam avisar umas às outras, sabe? Eu não tenho como afirmar, mas é provável que alguém já tenha comentado algo assim sobre ti, sobre como... como “demonstrava” teu interesse.
Nesse ponto, Murilo fecha os olhos e aperta a ponte do seu nariz, como quem tá entendendo só agora ou vendo só agora como as coisas eram, como as coisas foram, e que não eram nada bonitas.
— Eu lembro que a Aline hesitou bastante sobre o relacionamento de vocês no começo, mas eu também lembro do que ela me disse quando houve o caso do André. Basicamente, ela me mostrou como te via e como permanecia te amando. Tipo, como viu uma violência extrema tua e como permaneceu contigo. Eu não vou lembrar palavra por palavra, claro, mas lembro de ela ter falado algo sobre entender a tua cabeça, como funciona e que ali tu tava me defendendo de um ser desprezível. Ela viu o teu pior e ficou, mano, porque se tratava de mim, a pessoa que tu mais amava nesse mundo. Quem não partiria pra cima se tratando de alguém especial assim, né? Então ali... foi compreensível. Mas acho que ela tinha... tem... tem outros limites. Como todos temos. E isso ela precisou esbravejar. Como muitas vezes eu também precisei.
Considerando outras discussões desses dois, também sei que a Alina grita. E não apenas grita com ele, como grita pra liberar essas emoções. Porque em muitas situações assim, tem que ser no grito mesmo – vide inúmeras brigas minhas com o Murilo. Mas dessa vez ela não exatamente gritou; ela deu um ultimato. Ou isso para, ou isso acontece.
Eu aceitei isso por tempo, tempo demais. Tive que estabelecer meus limites.
Meu irmão torna a pousar a cabeça sobre os braços à mesa, meio derrotado pelos próprios atos, e eu sinto que é um momento propício para abrir mais coisas pra ele, sobre essas atitudes todas, já que tá tudo escancarado mesmo. Mas faço novamente com um carinho na sua cabeça, um que noutra instância não teria sido possível. Nas nossas outras milhões de discussões, era a Aline que ficava falando manso com ele. E muitas vezes ela até ficava do meu lado ou concordava comigo.
— Não sei se outras pessoas teriam ficado, Mu. Eu fiquei porque eu te amo. Mas foram inúmeras as vezes que tu me desrespeitou. Tantas que eu desisti de ti diversas vezes também. E isso tu nunca foi capaz de entender. Eu sempre tive que te entender, mas quase nunca tu quis me entender.
Abafo um suspiro de vê-lo tão inanimado, que até acho que ele tinha dispersado a atenção de mim. Mas quando toco num ponto chave, ele se manifesta demonstrando que não tava aéreo não.
— Até hoje tu implica com algumas roupas minhas, como se o Vin...
Ele levanta minimamente a cabeça.
— É que na cabeça dos hom...
— Exatamente, Murilo. O problema tá na cabeça de vocês!
A minha exclamação faz ele abaixar a cabeça aos braços outra vez.
— Só que não é afastando um e outro ou cobrindo a gente dos pés à cabeça que isso vai parar. Só se passa pra próxima vítima. É um problema sistemático e grande. Ainda assim, tem coisas que dá pra fazer. E não é repreendendo uma mulher que tu vai conseguir isso. Na verdade, é essa repreensão que tem que parar. Isso precisa parar de verdade. Eu posso questionar todo o método da Aline, de querer te constranger e tal, mas não posso deixar de concordar com ela no que disse sobre o restante.
Em resposta, meu mano apenas passa a mão aos olhos, encarando a mesa, calado.
Isso me faz pensar que, em termos de lição, ele já levou bronca o bastante. Não quero que ele foque na parte derrotista da coisa toda, quero que ele se mexa e que seja para algo melhor.
Toco em outro ponto chave pra isso:
— É possível, Murilo, que o que tu faça hoje possa mudar o dia de amanhã para a Lia. Mas que não seja necessário uma relação direta com ela pra você fazer o certo. Tá bom?
Com essa ele assente, mais calmo.
— Tá.
Olho para trás pra ver se tinha algum movimento da cunhada ou dos outros e parece tudo quieto pela casa. Ao longe que ouço um dos gritinhos da Lia.
— A gente ainda vai lá pra...?
Murilo se mexe e também se situa, sentando-se ereto. Outra vez passa a mão no rosto, mesmo que não dê pra apagar as emoções de lá.
— Acho melhor a gente ir, a Aline também precisa do tempo dela. Só vou me despedir mesmo.
Levanto-me e, com todo o carinho do mundo, com todo o suporte de amor que posso ceder ao momento, seguro-o pela mão.
— Então vamos juntos.
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