Notas iniciais
Mandem um potinho de amor pra essa Oliveira aqui

(releia o cap. 39 *temp 7* para se situar)

No escritório de casa, Iara revia uns contratos e memorandos, mesmo que a cabeça não estivesse ali, no corpo. Já havia fechado suas atividades do dia e listado os afazeres do dia seguinte, mas a anotação daquela conversa em específico que ela devia começar continuava no topo da folha, de lembrete, revirando-a do avesso. Só de olhar aquilo na sua agenda, desejava rasgar a página, porque esse era o modo que gostaria de se livrar disso, apenas rasgando, picando tudo em pedaços e seguindo em frente mais uma vez.

Mas agora já não é tempo de escolher entre apagar ou esquecer, vez que o maldito do Sérgio invadira sua sala e alterara documentos importantes. Ele cruzou uma nova linha, o que a obrigava a ter que cruzar mais uma da qual não gostaria. Para não acontecer de novo – ou melhor, não acontecer mais –, teria que abrir o jogo com o pai. É isso ou o Sérgio vai continuar a atormentando e sabotando seu trabalho e pra valer.

Iara achava que ele não teria coragem de avançar nesse sentido, mas depois de toda aquela correria de tarde para resgatar o documento certo, levar para a reunião e encará-lo na mesa redonda, ele de boa na sua altivez, ali soube que não tinha mais como ignorá-lo. Já não se tratava mais da sua reputação, como discutiu com o Thiago e com a Milena; ela tinha que agir e logo. Tinha que contar ela mesma para o seu pai, antes que ele soubesse por outras pessoas, ou, pior, que outra falha caísse na sua conta e o chefão ir com tudo pra cima dela.

Exausta de se ver nesse cenário, Iara se deixa cair no encosto da cadeira de visita, a frustração apertando sua cabeça. Se recuasse, estaria favorecendo o maldito mesmo sem querer, e se desse um passo adiante, teria que assumir que essa situação está lhe atingindo. Aliás, demonstraria que tampouco está em condições de lutar ou de resolver. Não quer ir nem pra frente, nem pra trás, porém, até mesmo para ficar exatamente no meio campo está sendo bem desgastante. Até respirar é algo pesado.

Aquela sensação de hostilidade paira no ar outra vez e Iara quase pode sentir o desprezo sufocando-a. Na real, é esse bolo de emoções que ela tenta suprimir em si, pois já havia estado em ambientes assim. Já havia saído deles também, todavia, lá estava de novo nessa situação, nessas memórias, nesses sentimentos e nessa indecisão, sem uma saída fácil.

Achava que os tempos de falatórios, de más impressões e de perseguições haviam ficado para trás, lá bem longe, na sua antiga cidade. Mas parece que não importa para onde vá ou com quem está, sempre tem alguém a fazendo se sentir insuficiente, menor, desrespeitando-a, menosprezando-a, tirando-a do seu eixo.

Como se não fosse mesmo seu direito ser feliz.

Como se não tivesse o direito de existir ali.

Nem sempre foi só sobre a sua mãe ou o seu pai, pois mesmo sem os dois isso acontecia: seus direitos são tomados, seus espaços são limitados e é ela quem toda vez tem que se retirar – recolher-se, afastar-se, excluir-se, danar-se – e procurar outro lugarzinho para si.

Mas chegaria a esse ponto na empresa também? De novo?

Da outra vez, ao deixar a casa da avó (muito tardiamente), ela ficou num apartamento em que Filipe conseguiu para os dois, só que Iara passava mais tempo sozinha do que em sua companhia, visto que o pai morava de fato na capital. A filial principal da empresa também estava lá. E a resistência dela em seguir esse caminho se dava ao fato de que o próprio pai não havia contato para ninguém sobre ela. Nem ao seu Júlio e nem mesmo ao Vinícius, de quem sempre ouvia falar. Temia que sua existência pudesse afastar mais ainda a relação desses três, principalmente de Vinícius com Filipe, que até pouco tempo sequer era uma relação reconhecida.

Naqueles dias, não sabia mais se ela estava sendo escondida ou se ela mesma estava se excluindo do cenário. Acontece que, para onde ia, carregava consigo esse sentimento de que incomodava, atrapalhava, não era querida, não era bem-vinda, que muitas vezes era apenas tolerada, quando não, ignorada. Foram tantos anos vendo isso estampado nos olhares alheios e sendo dito e ouvido com todas as letras por onde passava – na casa da avó, no bairro, na escola – que, no trabalho, Iara evitava de se expor, de contar onde ou com quem morava, ou que fazia fora dali. Por isso praticamente não tinha vida fora do seu cubículo.

O pai que insistia em levá-la dali. Fazia ofertas regulares de um novo espaço de trabalho, de novas pessoas, de um novo apartamento. Não era o velho apartamento que ele dividia com Vinícius, porém, um no mesmo prédio, pronto para recebê-la. Filipe iria se dividir entre os dois filhos enquanto preparasse Vinícius para a notícia.

Será que o Vini já sabe desse outro apartamento? Sabe que teve problemas com mofo e infestação e que foi por isso que ela teve que ficar no apartamento deles? Que foi assim que terminou abrindo a porta pra ele e desencadeando uma ida à delegacia depois que os dois se atracaram na casa da Milena? Ou será que o pai ainda mantém essa história consigo? E se ela perguntar, seu pai vai ser sincero na resposta? Para perguntas assim, Filipe geralmente custa falar. O que também refletiu bastante no seu Júlio.

No que constava, seu avô seria o último a saber da existência dela, já que os dois pouco estavam se dando nesse tempo. Seu pai não queria ser repreendido por ter uma vida paralela — bom, é o que ela achava e às vezes ainda acha. Filipe na verdade dizia que só não contava por que seu Júlio nunca se interessava por ele, nem mesmo se havia pessoas na vida dele.

Mas se ela fosse mesmo pra capital, ela seria apresentada como filha, inclusive na empresa; ele fazia questão. Até porque foi decisão dela manter essa informação fora de circulação na filial do interior. Iara já aguentava muito pelos precedentes de sua mãe para assumir que era filha ilegítima de Filipe Muniz.

Agora estava sendo atormentada apenas por trabalhar. Por trabalhar e fazer um bom trabalho, sendo o braço direito do pai e por ter uma posição de autoridade nomeada por essa ligação familiar. E não ter nenhum estudo formal era um adendo e tanto nesse quadro de exigências. Não por seu pai, claro. Mas Sérgio tornava isso um inferno, atropelando-a em cada reunião.

De começo, ela fazia que não via, que não tinha entendido, que ele só estivesse tentando destacar o próprio trabalho e que era só seu modo grosseiro de ser. Mas daí os ataques foram se tornando constantes e cotidianos, já comuns. As alfinetadas já não eram apenas piadinhas indiretas, eram grosserias diretas. E só porque Iara tentou barrá-lo de uma decisão insensata, Sérgio resolveu sabotá-la. Agora a coisa toda tinha ficado mais do que séria. E cabia a ela tomar uma decisão sobre isso.

Desgastava-se fazia tempos por conta disso. Thiago já havia a puxado de canto e reclamado sobre essa sua postura de pouca ação. Ou, como ele mesmo havia dito, de aceitar essas ignorâncias todas. De repente, havia tanto em sua cabeça. Tanto quanto em seu coração pesado. Achava realmente que havia dito adeus a esses sentimentos todos. Até mesmo aos pensamentos insanos de vingança – que não resolviam nada, só gastavam sua energia mental.

Às vezes, inclusive, achava que o Sérgio tinha mais direito de reclamar do que ela, afinal, o que ela estava fazendo ali, senão só sendo uma marionete do pai? Não se sentia uma digna representante. Filipe só fazia parecer que era uma porque ele era o seu pai. Se não fosse, não teria avançado na carreira assim, não teria essa posição.

Nem mesmo estaria na principal filial.

O que antes lhe parecera uma libertação, agora parecia uma nova prisão. Havia um novo nível de pressão e de carrascos. Embora tivesse novos colegas, e agora amigos de verdade, Iara se sente naquele canto da escola de novo, retida nas escadarias, sem saber o que fazer com o tormento da vez. Seu instinto sempre foi de levar como dava, ignorar, fazer que não via, retirar-se ou mesmo resolver do jeito que poderia. Às vezes, atos vingativos mesmo. Mas já não sente ter forças em si para isso.

Agora se encontrava numa outra encruzilhada e muito mais difícil. Exigia dela um posicionamento diferente com o qual ela não queria ter que assumir. Porque, para parar o Sérgio, teria que reportar o que estava acontecendo entre as salas e os corredores da empresa. E apesar de que dessa vez haveria alguém para acolher sua reclamação, ter pessoas em quem se apoiar, ela não queria isso. Não se achava merecedora disso. Não achava mais que era o seu lugar. E se não era mais o seu lugar, onde seria isso? Para onde iria?

Iara só não queria estar revivendo essa desgraça outra vez.

Chorosa, ela passa a mão pelo rosto e, para disfarçar, reúne a papelada na mesa, batendo o maço para juntar tudo. Isso porque ouviu passos pelo corredor, o que significa que tem alguém próximo e ela não quer se denunciar outra vez. No outro dia, só de ter ficado trancada no quarto, chamou atenção de seu Júlio e do pai. Os dois bateram na porta dela várias vezes e fizeram perguntas que ela não queria responder, só ignorar.

Foi assim que Filipe acionou a Milena. Que, felizmente, não a entregou. Mas também entrou para o time dos “a favor” de uma denúncia formal. Não formal no sentido de ir no RH, mas sim de revelar o caso em casa, para o seu pai. É isso que não consegue fazer e precisa urgentemente fazê-lo.

Como faria? Como entraria no assunto até? Falaria das câmeras? Que precisa de autorização para acertar certas imagens? As imagens de que houve um executivo invadindo sua sala e remexendo na sua mesa? Que alterou documentos de propósito para ferrar com ela?

Para fugir de olhares, Iara segue apressada pelo corredor do escritório e adentra no quarto de hóspedes logo à frente. Larga sua agenda e os documentos do trabalho de qualquer jeito na primeira cômoda que vê e vai para o banheiro da suíte. Era melhor se refugiar ali do que em qualquer outro lugar da casa, uma vez que teria menos chances de ser vista ou pega. Mas isso não ameniza o sufocamento que sente lhe cobrir o peito.

Firmando a mão na pia de mármore, ela leva a outra à boca para reprimir com força o choro que quer explodir. Logo cobre o rosto em meio ao soluço que lhe escapa. Nem se atreve a se encarar no espelho, não agora, pois estaria mais do que derrotada.

- O que foi, filha?

Assustada pela chegada do avô não apenas ao quarto, mas à entrada do banheiro, de modo que ela o vê pelo espelho, Iara salta de repente, escondendo o rosto, virando-o para o pequeno armário utilitário dali. Júlio, no entanto, aproxima-se dela, caridoso, enquanto a neta tenta disfarçar a todo custo sua crise.

- O que foi, Iara? O que aconteceu?

- Não é nada demais, seu Júlio.

Ela solta o nome dele desse jeito por estar atrapalhada e envergonhada. É como se a cabeça tivesse dado tilt e voltasse para o modo operante anterior; no caso, quando Iara ainda o tratava formalmente. Júlio infere nessa, segurando-a pelos ombros.

- Vovô. Você sabe que é “vovô”.

Atarantada, Iara se move pelo banheiro, ficando de frente para o box e de costas para ele, e o que responde é só para dispersá-lo e ela ter um segundo para se recuperar.

- Não é n-nada, vô Júlio... São só... só a-algumas coisas... coisas do serviço.

Receoso de a neta se fundir à parede do banheiro, Júlio permanece onde está.

- Mas a ponto de te fazer chorar, não são meras coisas.

Iara foca em se firmar para não se entregar.

- Não tô chorando não, é só um resfriado. Que eu não quero que o senhor pegue.

Fingir logo pro seu familiar mais espertalhão? É claro que o avô não cai nessa.

- Sei, querida, sei. Se é apenas um resfriado, não teria problema em se virar pra mim, teria?

Isso desmonta a Iara, que se deixa abater e cair no choro de vez. Ainda de costas, ela se encolhe em si, cobrindo o rosto, o corpo tremendo, os soluços pulando de si. Seu Júlio vai de encontro a ela, cobrindo-a em seu abraço.

- Como eu posso te ajudar, filha?

Apesar de todo o amor que seu pai lhe deu entre as distâncias, as ordens de trabalho e as brincadeiras dentro de casa, foram poucos os momentos em que ela se deixou vulnerável para que ele a abraçasse. Tinha medo e vergonha de precisar de um abraço simples, então ela se fazia de forte. Isso até mesmo quando brigavam feio e ela saía porta afora, sem saber como voltar. Quando ele precisava, Iara não hesitava; virava a fortaleza dele. Até mesmo cedia aos planos malucos dele. Mas quando era ela quem precisava de um pouco mais de atenção, carinho ou abraços, logo se sentia estranha de ficar perto dele e logo saía de seu campo de visão, para lhe aliviar a pressão de algum cuidado com ela.

Vir um abraço espontâneo desses a faz chorar mais intensamente, quase a se engasgar com o muco que lhe enche a boca e as vias nasais. Nesse exaspero, Júlio a vira para ele e Iara se deixa ser envolvida, aninhada ao corpo do avô, o rosto colado ao peito dele, tão preocupado quanto aflito junto. Com o aceite dela, também afaga seus cabelos e as costas.

- Me fala, filha. Só me fala o que houve. Me fala o que tanto te aflige.

Buscando ar, Iara confessa.

- Eu s-só... n-não aguento mais isssso.

- Isso o quê, minha menina?

- As provocações... As... humilhações.

- Onde isso? Na empresa?

Iara balança a cabeça em afirmativa e Júlio a aperta mais em si, descrente de que isso acontecia com ela.

- E agora... a-agora tentaram... me sabotar. E vou ter que f-falar com... com o meu pai. E isso... isso vai gerar um desconforto geral. Vai gerar atritos e vai sobrar tudo pra mim de novo!

Júlio se afasta um pouco apenas para a encarar e perguntar:

- Como assim “de novo”?

Os olhos de sua neta se enchem com força por ele não saber por todo de sua história. De como foi perseguida e pisada por quase toda a sua vida. Que seu pai não havia contado isso. Que ela é um segredo ainda. Ela é um segredo, um mistério, alguém à parte, nunca pertencente a um lugar de verdade. Será que ele a aceitaria quando soubesse de tudo? Ainda a amaria? Ou se afastaria? Iara já não sabe com o que sonhar. O que balança com seus temores interiores e referenciais anteriores, claro. Só que dessa vez isso mexe no sentido de a indignar e não apenas remoer.

- É o que sempre acontece c-comigo, vovô. Sobra pra mim e as pessoas... elas me cobram e me culpam! E fazem atrocidades às vezes, coisas que e-eu... que eu t-tenho que suportar, mesmo não suportando.

Angustiada, dessa vez Iara leva os braços ao dorso do avô e o aperta consigo, pois não quer que ele seja levado dela também. Ela não quer ter que ir embora.

Júlio, em reflexo, recebe-a bem, afagando-a com um carinho generoso. Também contesta isso de ficar guardando tudo para si. Sabia que a neta se fazia de forte e até então não havia podido acessá-la dessa maneira, mas mexerem com ela dessa forma, nesse nível, é inconcebível. Inaceitável!

- Nada disso, não é pra suportar nada dessas coisas; nenhuma dessas coisas, aliás.

Sua menina, desacostumada de ouvir esse tipo intervenção, acaba tentando compensar em seu desabafo, como costuma tenta compensar em tudo e suprir em tudo.

- E eu tento tanto, vovô, tento tanto fazer um bom trabalho... Eu me esforço pra caramba. E no final eu sou só vista como a filha do chefe. A filha burra e desajeitada do chefe.

- Burra nunca! Nem nada desajeitada.

- Mas é assim que eles me veem...

- Todos eles? Todos da empresa se comportam assim?

- Não todos... mas alguns... sim. E tem um executivo que tem feito o inferno comigo. Porque eu tive que barrá-lo numa transação. Que não seria benefício pra a gente, já que ele não tem a visão geral dos outros setores, como eu tenho, e ele tava insistindo. E me colocou em xeque de novo dizendo que eu não entendo nada dessas coisas. Como se eu não soubesse... como se eu não fosse experiente. E ele fica o tempo todo me perturbando por eu não ter uma formação. Que só tô onde tô por conta do meu pai. Que só tô enchendo a mesa da diretoria. Que tô atrapalhando as reuniões. Que...

Iara pausa e suspira, cansada – do choro, do desabafo e dessa insanidade.

- Às vez... às vezes eu só não queria que as pessoas soubessem que sou a filha do chefe. Pra diminuir a pressão. Pra diminuir... tudo.

- Ô, minha menina. Se eu soubesse que enfrentava tudo isso... Eu já tinha dado um jeito nesse sujeito.

- Eu só não queria que tivessem que dar um jeito por eu não conseguir dar jeito.

- Nem diz uma coisa dessas, Iara.

- Eu não queria decepcionar, só isso. Nem ao meu pai, nem ao senhor. Eu não quero dar trabalho. Isso infelizmente fica me corroendo aqui dentro.

Ela bate punho ao peito, sentida.

- Nessa história você é a vítima, minha filha. Tá sendo vítima de pessoas mal-encaradas. Não tem por que ser a pessoa que tem que aguentar tudo, nem conciliar tudo. E lidar com isso não é nenhuma vergonha, nem nos traz decepção. Pelo contrário, quero te tirar agora de lá.

- Como isso não é dar trabalho, vovô?

- Não é, minha querida. Não é mesmo. Mas eu entendo o que me diz. Essa pessoa te atormentou a ponto de te fazer acreditar nisso, não foi?

Iara apenas deita a cabeça no avô, que mantém os braços em volta dela.

- Nem todo mundo encara nossa posição no trabalho de uma boa maneira, filha. E, realmente, existem pessoas que se sentem intimidadas e são competitivas de uma maneira execrável. E isso é inadmissível.

Para além de exausta, Iara ainda murmura, procurando um sentido em si.

- Eu só não sei o que faço que deixa as pessoas assim, com raiva de mim.

Por mais dolorido que isso seja, Júlio tenta dar todo o seu suporte, sendo bondoso e gentil, até mesmo para se contrapor às injustiças que sua menina ouviu por todo esse tempo.

- O simples respirar às vezes basta. Ainda mais de pessoas que não sabem apreciar... a bela e... a capacitada... a mulher maravilhosa que tu és. Mas me diz, vai denunciar isso?

Receosa, Iara não o olha diretamente, envergonhada.

- Fala sobre eu ir no RH?

- Falo sobre ir conversar com o seu pai. Perseguição é uma coisa séria e não é... Não é aguentando que se resolve. É preciso comunicar e comunicar principalmente ao seu pai. Não porque ele é seu chefe ou o chefe de todos, e sim porque ele é seu pai.

Num bico minimizado, sua neta revela que isso já foi batido na sua porta.

- A Milena também me disse isso. Para falar com o meu pai enquanto pai.

- Eu endosso, minha menina. E você não seria nenhuma decepção por isso. Você não tem do que se envergonhar aqui. Mesmo.

Júlio acolhe os resquícios de lágrimas no rosto da neta e as novas que vão surgindo da fonte.

- Eu sei que não tenho grandes estudos, vovô, m-mas...

- Minha querida, você mesma disse. Você atua em diversos setores e atua neles porque o Filipe confia em ti. Acha que essa pessoa faria o mesmo que você faz, com o mesmo empenho e desenvoltura?

Iara pisca, pensativa, detendo-se a essa imagem.

- Não. Seria um desastre, com certeza.

- Então você tem sua resposta. Você é um orgulho, não uma decepção. E essa pessoa não sabe o lugar dela.

De repente, Filipe solta os cachorros, entrando no banheiro com tudo, denunciando que estava a ouvindo a conversa deles.

- Mas esse canalha tá prestes a descobrir, no minuto que eu souber quem é esse salafrário.

- PAI!

Iara se esconde no avô, retraída por mais essa entrada repentina e inquisitória.

- A primeira coisa que eu vou fazer é ARRANCAR a cabeça dele!

Júlio mantém a neta atrás de si e repreende essa abordagem do filho.

- Filipe!

Queria poder dizer que não é espumando feito um cachorro bruto que ele iria conseguir uma resposta, mas não tem tempo, pois seu filho brada outra vez, tentando se aproximar da Iara, já pronto para sair porta afora para esganar esse tal maldito que ousou mexer com a sua filha.

- Fala! Fala o nome desse filho da mãe agora!

Júlio o empurra para que saia, deixando a neta um pouco para trás.

- Deixe que eu falo com ela, tá? Nos dê uns minutos e você vai ter a tua resposta.

Ao ouvir o choro da filha, Filipe se detém. Ao encarar seu pai, voltando para acalmá-la, ele faz um esforço de tomar um fôlego e não sair arrasando tudo a sua frente. Precisava de cautela para agir. Mas tornar a ouvir o choro esganiçado de Iara não deixa nada fácil. Quase até reza para que não seja quem ele está pensando que é, pois não vai deixar pedra sobre pedra dessa vez.

Notas finais
MEXEU COM A FADINHA, MEXEU COM TODOS