Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
206 CENAS EXTRAS 7 - Troca de notas e de julgamentos
Notas iniciais
Aguinaldo aproveita que o chefe deu uma saída e confere o seu caderno de anotações. Mesmo após semanas do ataque que sofreu, e depois de muitos remédios e discussões, ele ainda se sente um pouco perdido das ideias. Tem esquecido as coisas com certa frequência e isso já o colocou em situações chatas, tanto em casa quanto no trabalho e na faculdade. Para amenizar um pouco disso, tem anotado mais suas atividades cotidianas.
Ele não é de usar uma agenda propriamente – não desde o ensino fundamental – e, por conta dessa temporada estranha, até considera voltar a utilizar. Para as aulas, sua mente sempre foi bem veloz e decorava fácil as datas de entregas, fosse de trabalhos, fosse de apresentações ou de provas; era bastante autocentrado nesse sentido. Quando havia algo mais complexo, só anotava nas últimas folhas do caderno, para não trocar as bolas das coisas e fixar bem os lembretes.
Dessa vez, ao abrir o caderno que lhe acompanhava na mochila desde o ano passado, escreve no alto da página “comprar uma agenda?” e confere o que tava mais abaixo, no que precisaria de concentrar de fazer neste dia, só para garantir que não esqueceria mais uma vez. Recalculando a rota, vê que teria que passar no mercadinho perto de casa antes de ir para a faculdade. Era um pouco apertado por conta do horário da aula, mas prometeu pra mãe que levaria algumas coisas. Ela já havia feito tanto no seu período de recuperação, merecia uma folga. Além disso, era perto do centro universitário. Dava pra ir e voltar a tempo de pegar o primeiro horário nos primeiros minutos, isso se pegar uns atalhos. Para fixar outra vez seu roteiro, escreve do lado da tarefa “pegar o atalho de trás”.
De todo caso, checa a carteira também e vê que só tinha nota “alta”. Não é como se fosse abastado, só com notas de cem reais, mas na última vez que foi no banco pegou só notas de cinquenta e de cem, vez que lá estava em falta as de dez e de cinco. Se entregasse uma dessas para a moça da venda, ela faria o mesmo do que da outra vez e provavelmente sem muita paciência: mandaria voltar depois. Então ele precisa trocar o dinheiro antes de sair do serviço, para não ter que parar em outro no lugar no caminho e perder mais tempo.
Aguinaldo considera a lanchonete da empresa, pode ser que o atendente aceite se for uma nota de cinquenta reais; uma de cem ele tem certeza de que o moço riria da sua cara. Isso se não dissesse para consumir pelo menos um lanche completo. Mas um lanche desses teria que ser só na faculdade e... Outra vez em fuso, ele se levanta para espantar essas coisas de sua cabeça e tentar a sorte logo.
Pelo corredor principal, ele caminha compenetrado na tarefa. Se não desse a troca na lanchonete, teria que escapar para a padaria da avenida ou se aventurar por algum dos estabelecimentos das redondezas.
Andava tão bagunçado da cabeça que sequer pensa em pedir para algum colega ou conhecido dali. Mas esse é o seu jeito, ele prefere ir atrás das coisas a pedir ajuda assim, mesmo que para uma coisa pequena, ainda mais se envolve pessoas com que tem pouca intimidade. Além disso, poder se movimentar dessa maneira o faz sentir que está novamente ativo e voltando às suas atividades comuns. Não poderia mais ficar parado e isso nem ele suportava mais. Apesar de tudo, a vida continuava, né? Ele só tem que se dedicar ao que pode fazer no momento.
Estava tão focado nisso que quase não viu a Iara dobrando para um corredor transversal. Ao perceber de rabo de olho a ruiva encarando algo na tela do celular, ele estanca em seu caminho. Será que ela trocaria essa nota?
Não custava tentar.
Colocando-se ao lado dela, Aguinaldo chega chamando sua atenção, já que ela também parece estar com a cabeça em outro lugar.
— I, você poderia troc...?
— Não poderia.
Aguinaldo se detém de repente por essa resposta estranha. Não foi por exato ríspida, mas seca. O que não é nada típico de sua amiga e que o deixa interrogativo sobre essa reação. Mas como a Iara pouco o olha e parece incomodada, ele prefere se retirar. Em questão de dar umas entradas erradas, apenas não quer confusão com mais ninguém.
— Ok.
Ao se retirar, no entanto, Iara se volta para ele, que mal deu dois passos para se afastar. No que ela se pronuncia, continua séria, porém, mais amável.
— Volta aqui, Aguinaldo.
Ser chamado pelo nome de batismo dá a ele a certeza de que tem mesmo algo errado e algo de que ele não vai gostar. Não sente, inclusive, que teria energia para lidar com mais um desastre. Mesmo assim, ele para. Deixa que alguns funcionários passem por eles, com essa coisa toda em suspenso, quase pesada ao ar, e ele torna a se aproximar quando se veem sozinhos ali de novo. Apresenta-se mais reservado, embora aponte para o outro lado sua intenção de seguir caminho.
— Eu preciso trocar uma nota de cinquenta, mas posso ir na lanchonete se v...
Em contrapartida, Iara parece nem o ouvir ou o ver direito. Sem se importar com o que dizia, interrompe-o, expressando de vez do que se trata essa nuvem pesada que acompanha a sua postura.
— Soube do que você fez.
Aguinaldo, que já se mantinha tenso, abaixa um pouco a cabeça, devagar, mordendo os lábios, sem ter uma resposta direta que pudesse dar. Chega a fechar os olhos por uns breves segundos, derrotado. Sabia que isso aconteceria em algum momento e de todas as vezes que imaginou, que pressentiu, que... Nenhuma resposta vinha. Nada mais natural que não ter uma resposta decente agora também.
Voltando novamente a si, ele levanta o rosto com cautela apenas o suficiente para a Iara poder ver como estava – pesaroso e arrependido. Não negaria ou desvirtuaria a história a seu favor, não como outras vezes leu assim em situações passadas, e aceitaria toda e qualquer reação de raiva dela como certa. Não esperava nenhuma conduta diferente de Iara.
Mas o que sai dele é um misto ambíguo de resposta, o que parece até um pouco de prepotência.
— Imaginei que não iria demorar a saber.
Encarando-o com firmeza, Iara é assertiva, sem se deter a qualquer meandro dele.
— Eu tô do lado da Milena, só pra você saber.
Aguinaldo desvia os olhos para a parede à sua frente, apesar de não sair do lugar. Não buscaria o apoio dela e nem merecia mesmo. Mas por respeito a ela – a elas, na verdade –, suspira, consternado, e confirma o que Iara disse.
— E tem que estar mesmo.
Dessa vez não ele soa prepotente, nem sisudo. Talvez afetado e triste? No entanto, Iara emenda sua opinião direta sem avaliar essa.
— Foi errado.
Seu amigo, que não sabe se ainda é um amigo de qualquer pessoa, completa:
— Foi mais do que errado.
Iara não gosta de vê-lo desse modo, miserável e condescendente, aceitando qualquer coisa, qualquer opinião, como se nada mais fosse possível. Não parece ser o seu melhor amigo à sua frente.
— Para de falar assim.
— Assim como?
— Como se... Como se fosse...
Ela não consegue achar as palavras para descrevê-lo com precisão. Aguinaldo, por outro lado, tinha muitas depois de tempos carregando isso ao peito.
— Como se fosse irreparável? Porque é irreparável. Eu não mereço o perdão dela e nem mais me atrevo a pedir. Eu errei e assumo todas as consequências disso.
Iara é quem fica sentida de novo com essa resignação.
— Mas não pode ser um derrotista. Eu não aceito esse derrotista. Não é o Gui que eu conheço.
Apesar de ela falar com o carinho de amiga, esse seu apreço ou a sua aflição não chegam até ele, não da maneira que ela quer passar. A conformidade havia criado uma barreira para não admitir qualquer resposta amorosa, nem mesmo minimamente amável ou caridosa, porque ele não acredita que seja digno de uma.
É essa mesma conformidade que toma conta do seu centro nervoso e amarga suas palavras.
— O Gui que você conhece fez isso, acredite.
Num impulso, Iara o abraça, tomando-o pelo dorso, como se fosse capaz de quebrar esse bloqueio dele ou mesmo segurar consigo esse manto pesado que ele carrega.
Aguinaldo fica tão sem jeito que fica paralisado ali, quase tocado pela comoção dela, mas ainda se massacrando por dentro, porque a Milena não teria essa compaixão. Não com ele, não depois do que ele fez, como fez. Não houve briga, não houve grito, não houve tapas ou chutes, e isso tornava ainda pior. Agora ele sabia o quanto isso era muito pior.
Já havia sido repelido, barrado, banido, desprezado. Faltava pouco para ser escorraçado. Inclusive, esperava isso da Iara e esperava isso de outros. Seria excluído, abandonado. Deserdado “de verdade”. E ele não poderia dizer nada sobre isso, senão aceitar tudo o que lhe atirassem, tudo de ruim que lhe atirassem.
Mas ter braços afetuosos lhe exprimindo tornava tudo mais confuso. Por isso que Aguinaldo não consegue tomar qualquer iniciativa nesse sentido. Não é capaz de envolver a amiga de volta, tampouco tirá-la dele. Fica mais sem jeito quando um segurança passa olhando os dois, seguido de um dos gerentes ao telefone mais atrás. Lembra-se de que tem que voltar para sua mesa. Só que ele não consegue decidir o que fazer, como fazer. Não poderia magoar a Iara também.
Teria que ser ela a primeira a soltar.
— Não era pra você estar me batendo ou algo assim?
Iara finca mais os braços nele, sensibilizada.
— Eu decido a hora. Agora eu só quero te abraçar.
Isso quase, quase, quase abala a estrutura que ele criara. Estremece-o por dentro, comovido pela postura dela. Mas não deveria, deveria? Não deveria permitir isso. Já nem sabe dizer se a sua conduta é uma autorresponsabilização ou uma autoproteção. Do que se autoprotegeria, afinal? Até então, acreditava que estava protegendo pessoas e isso o levou a tantas decisões erradas. Agora as protegia dele mesmo, por isso precisa se afastar.
Mas como fazer sem magoar de novo?
— Por que você fez isso? Hein, Gui?
Iara levanta a rosto para ele, quase chorosa. Aguinaldo não consegue encará-la e desvia as vistas outra vez. Mexe-se um pouco apenas para conduzi-la mais à parede no largo corredor. Queria agora protegê-la de olhares alheios e/ou curiosos de quem passava por perto.
Iara, contudo, insiste.
— Por que você fez isso?
— Não é hora e nem o lugar pra discutir isso. As pessoas estão olhando e eu tenho que voltar pro meu posto.
Isso supre bem o buraco de justificativas que ele não teria como improvisar. Até porque não saberia argumentar em mais nada, já que tudo parece tão idiota, estúpido e... não havia mais uma defesa. Se é que houve uma. Olhar para os lados é a sua única saída, demonstrando que estavam públicos demais para algo deveras íntimo e complexo.
No que a Iara alivia um pouco do aperto, apesar de não o soltar por completo, faz com que o amigo se volte para ela quando diz:
— Tu tem que fazer alguma coisa, tu sabe.
Com essa, Aguinaldo desce os braços dela de si.
— Não há o que fazer.
Isso alarma outra vez Iara, que contesta, dessa vez baixinho, pois outra leva de funcionários passa por eles.
— Sempre tem algo a se fazer, Gui, sempre. Além disso, todos erramos.
Cansado de pensar sobre os seus erros, ele se vira para voltar por onde veio. Era melhor parar em qualquer lugar, era melhor chegar atrasado na aula, qualquer coisa era melhor do que continuar essa conversa que não levaria a nada, a não ser mais mágoas.
Mas a Iara é mais rápida e se coloca na frente dele, tempestuosa.
— Gui!
— Eu errei demais, tá? Eu errei e venho errando há muito tempo. Até o Bruno tava me escancarando isso e eu não quis ver, nem ouvir. Mas agora eu sei. Eu só não concordo com o que o Vini disse.
Agoniado para sair dali, Aguinaldo deixa escapar essa última.
— O que ele disse?
Uma vez indignado com isso, quase explode a teoria do outro frente a todos os funcionários das redondezas. Como vê que tem um segurança fitando-os, desconfiado, baixa a bola de sua raiva, fincando-a outra vez ao seu interior, engolindo qualquer revolta que não poderia encontrar espaço aqui, muito menos na sua amiga. Não havia dito nada disso para a Flávia e, se não fosse a Iara, não teria ninguém mais para dividir.
Percebendo certos olhares para cima dos dois, Iara puxa Gui para o banheiro feminino dali perto sem mesmo verificar se havia alguém lá dentro. Fecha a entrada e volta a questionar.
— O que o Vinícius disse? Do que tu tá falando?
Entre a impaciência e a derrota, Gui por fim cede uma resposta.
— Disse que eu dormi com a namorada dele.
Aguinaldo imagina que a expressão horrorizada na face dela deve ser parecida com a que teve quando ouviu esse absurdo.
— Olha, eu fiz besteira e eu assumo, mas não foi nada desse tipo. Eu não dormi com a namorada de ninguém. Mas conhecendo o Vini como eu conheço, posso até entender como isso ficou na cabeça dele, não posso é consentir que ele fale uma atrocidade dessas. De qualquer forma, eu sou um imprestável mesmo e...
— Não fala assim.
— I, eu não vou ser bonzinho comigo e nem você deveria.
— Eu sei tomar as minhas decisões, Aguinaldo.
— Viu só? Já tô aqui infringindo a tua paciência e a tua boa vontade.
— Eu tô vendo bem o que tu tá fazendo e eu tô te dizendo que isso não vai ficar assim. Eu não vou assistir vocês dois... vocês três... quantos forem... Não vou assistir sem fazer nada.
— Eu não tô pedindo nada, I. E agora eu tenho que voltar mesmo.
— A gente ainda vai conversar e vai conversar sério sobre isso, te digo logo. Tu não vai conseguir me afastar. Eu tô sim do lado da Lena, mas tu não vai ficar sozinho. A gente vai dar um jeito nisso.
Ele quer muito poder acreditar que existe essa possibilidade, mas a única coisa que ressoa em sua cabeça é “não existe jeito pra isso”. Só não expressa porque a Iara iria insistir e ele quer sair logo. Assim, encerra o papo e a deixa de braços cruzados.
— Preciso ir.
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