Manos Antes das Minas

13 Na Estrada da Vida pt III


─Você não pode entrar. – repetiu o guarda carrancudo da festa, que me impedia de entrar.
─Como não? Eu sou um dos estudantes e vim para a festa... Para estudantes. – contestei enquanto meus demais amigos saiam de um carro pouco distante e pulavam o muro do clube e adentravam sorrateiramente.
─Seu nome não está na lista, então não pode entrar. – cruzou os braços, dando um passo em minha direção com os olhos fixos.
─Está bem, está bem. – verifiquei se meus comparsas de crime haviam entrado, recebendo um sinal de Carlos. ─Eu estou indo embora... Viu? Estou indo.

Parto em direção oposto a entrada do clube, virando a esquina e correndo até aonde meus amigos pulavam o muro.

─Iai, conseguiram? – perguntei em voz baixa.
─Sim. – balançou a cabeça. ─Venha, vou fazer pezinho para você.

Carlos junta as mãos, deixando as palmas como um apoio para o meu pé, subindo sobre ele e me segurando no topo do muro, me esforçando para me erguer sobre ele e, logo após, saltar de cima.

─Quer ajuda? – indaguei a Carlos que já aparecia no topo do muro.
─Não precisa, encontrei um tijolo para me apoiar. – ele disse já saltando de cima.
─Então vamos. – outro disse, já indo na frente.

***

Após algumas musicas lenta, fomos nos sentar. Ficamos lá conversando, comentando e rindo de alguns casais que dançavam fora de ritmo. Douglas e Lucy ainda estavam na pista, dançavam e riam como duas crianças. Julia, ou melhor, Julie, estava junto de Oliver próximos da mesa de salgadinhos, em uma cena completamente melosa que quase me fez vomitar... Não, mas é sério, eu não precisava ver aquilo.

Luana e eu estávamos fazendo alguma brincadeira, acho que era de quem piscava primeiro. Ela estava de frente a mim na mesa e eu de costas á entrada do clube. Após alguns minutos na brincadeira sem nenhum dos dois piscar, ela direciona seus olhos para alguém logo atrás de mim, e fica surpresa.

─Você piscou. – berrei em comemoração.
─Ele veio! – ela exclamou com os olhos lacrimejados por causa da brincadeira.
─Quem? – me virei, alcançando James, parado a poucos metros de distancia da pista. Trajado em uma jaqueta de couro preta, camisa vermelha por baixo, calça jeans e um tênis da Nike branco. Com as mãos guardadas dentro dos bolsos de sua calça, ele vasculha o local com os olhos, até que ele me encontra, me cumprimentando com um movimento com a cabeça e um sorriso leve.

Eu respondo ao cumprimento, voltando minha atenção á Luana.

─Por que não vai falar com ele? – ela lançou. ─Eu sei que você quer isso.
─Eu não sei... – hesitei com a voz falha, curvando a cabeça para o lado e vendo ele ainda lá parado.
─Deixa de bobeira. – ela deu um tapa leve em meu ombro. ─Acabe com essa rixa de vocês de uma vez.
─Você acha?

Ela apenas balançou a cabeça, fazendo um movimento com a mão, me ordenando a ir imediatamente.

─Está bem. – suspirei sem ânimo, erguendo meu corpo como se eu carregasse a mochila mais pesada do mundo nas costas.

Ao me por sobre meus pés, eu já não o encontrei. Vasculhei todo o lugar a minha volta, e nada.

─Ele sumiu! – exclamei, ainda procurando-o.
─Ah! – virou-se para o lado em que ele estava. ─Ele deve ter tirado alguém para dançar ou coisa assim. – supôs.
─Deve ser.

***

A festa não estava como eu queria, quero dizer, a festa em si estava perfeita, mas a falta da companhia de meus amigos ─ meus amigos mesmo ─ deixou aquele lugar sem graça alguma.

Dirigi-me em direção aos caras que vieram comigo, que estavam sobre um dos coretos, bebendo e fumando algo que não quis saber o que era.

─Aceita? – um deles me ofereceu o cigarro já pela metade.
─Não, eu não uso isso. – rejeitei após identificar o aquele eles fumavam.
─Pega aí cara, vai te deixar mais tranquilo pra festa. – insistiu ele.
─Eu já disse que não. – bradei alto, fazendo sua face se abrir e seus olhos se arregalarem para mim, fixos.
─Ok... Entendi. – respondeu em baixo tom, assustado.
─Não, desculpa cara. Eu to um pouco estressado. – suspirei por um breve instante.
─Você tá com a cabeça quente. – ele disse. ─Por que não vamos para outro lugar. Tem uma boate que abriu há alguns meses que me disseram que é ótima.
─Não... Eu preciso pensar um pouco. – esquivei do convite. Não queria estar em um local lotado de pessoas desconhecidas. Alguns meses atrás eu adoraria a ideia, mas naquela noite não, estava completamente desanimado. Se não fosse por eles terem ido até a minha casa e praticamente terem me puxado pra fora de casa, eu não estaria ali.
─Então tá... – ele disse, rendido. ─Se quiser podemos te levar pra casa.
─É... – pensei por um momento, sentindo o cansaço que um dia inteiro de farra havia trazido. ─Acho que preciso descansar um pouco.

***


─Oi! Alguém viu o James?
─Ele está aqui? – disse Lucy. Seus olhos quase que me cegaram de tanto que brilharam.
─Sim. – respondi. ─Mas o perdi de vista.
─Nós não o vimos. – disse Oliver, respondendo por todos.
─Ah... Obrigado, vou ver se o encontro. – dei um passo para trás.
─Espera. – Lucy me chamou. ─Posso ir com você?

Olhei imediatamente para Douglas, que não parecia muito confortável. Ela entendeu o que estava acontecendo e se virou para ele, que ergueu o rosto com uma expressão de "cachorro sem dono".

─Me desculpa, mas eu tenho que ir. – ela disse.
─Tudo bem. – forçou um sorriso torto. ─Mas você ficará me devendo uma dança. – ele sorriu, agora mais contente, espantando seu estado anterior e tranquilizando Lucy e eu.
─Pode cobrar. – ela sorriu, dando-lhe um beijo em seu rosto que corou instantaneamente.
─Vamos. – eu disse, puxando o braço dela e indo em direção á saída do clube.

Corremos até a entrada e de longe já podíamos ver ele e seus amigos passarem sobre o muro que cercava o território. Apressamos-nos e passamos pelo segurança na entrada, vendo o carro em que ele viera partir estrada a fora.

***

Carlos estava ao volante e eu no banco do carona. Ele parecia alterado, seus olhos meio avermelhados me incomodavam e em meio a uma de suas conversas comigo, pude sentir seu hálito de puro álcool.

─Cara, tem certeza que você está bem para dirigir? – questionei enquanto ele fazia uma curva brusca.
─Claro... Por que está perguntando isso? – riu do meu comentário, como se fosse algo sem sentindo.
─Nada, só... – calei-me com um solavanco do carro.

A estrada estava escura e o carro velho rangia como se fosse se quebrar a qualquer momento. Mesmo não sendo novo, aquele carro corria como se estivesse em uma disputa. Carlos gritava e praguejava como se estivesse tentando ultrapassar algum carro fantasma invisível que só ele via. Aquilo me deixava atônito. Eu poderia colocar o cinto de segurança... Bom, se tivesse algum.

Agarrei o painel do carro e inclinei o corpo para trás, contando que aquilo fosse me salvar caso Carlos perdesse o controle de vez. Seguimos um caminho desconhecido por mim e a estrada estava molhada, como se tivesse acabado de chover por ali. Virei-me para os demais nos assentos traseiros e pude vê-los conversando em seus celulares como se nada estivesse acontecendo. Naquele instante eu estava torcendo para que uma viatura da polícia nos parasse. Uma multa ou uma noite na cadeia não seria nada mal comparado ao tamanho medo que eu sentia.

***


─Podemos ir até a casa dele, se quiser. – sugeri enquanto retornávamos para a festa.
─Não precisa. Não quero te incomodar.
─Não vai. – a parei. ─Eu meio que quero conversar com ele também.
─Mas e a festa? E a Luana?
─Ficarei devendo ela. – entortei os lábios.
─Então tá. – ela consentiu. ─Vou mandar uma mensagem para a Julie dizendo que estamos indo.
─E eu á Luana, me redimindo e prometendo um encontro de desculpas. – retirei o celular do bolso e comecei a deslizar os dedos sobre a tela do celular, digitando uma mensagem para Lu.

Um arrepio estranho percorre minha espinha repentinamente. Assusto-me e deixo o celular em minhas mãos cair sobre a grama úmida, sentindo um intenso frio no estomago.

─Dih, tudo bem? – indagou Lucy, colocando a mão sobre meu ombro.
─Tudo, eu só... Senti algo ruim. – balbuciei com os olhos vidrados no nada.


***

Estávamos novamente á BR. A estrada estava praticamente vazia, mas mesmo assim Carlos insistia em ultrapassar os carros em nossa frente, serpenteando na estrada.

─Cara, vai com calma. – alertei-o com os olhos vidrados na estrada.
─Não esquenta. – ele me respondeu com um sorriso no rosto que se prolongou por grande parte da viagem.

Eu já estava prestes a pedir para que Carlos parasse o carro e me deixasse ali mesmo no meio da estrada quando de repente, em uma de suas ultrapassagens, um carro que vinha na mão contrária surgiu na nossa frente. Pulei sobre o volante e forcei para o lado, desviando do carro que freia e sobe sobre a calçada a poucos metros depois. A pista molhada faz com que o carro perca o controle enquanto aquaplanávamos estrada à frente.

Damos varias voltas antes do carro investir toda a sua velocidade contra um poste de iluminação próximo á um posto de gasolina. Ao chocar, meu corpo é lançado através do para brisa do carro, ficando apenas da cintura para baixo dentro do carro.

***

Estávamos a caminho da casa do James quando recebemos uma ligação de Adrian. Sua voz estava falhando e ao fundo eu pude ouvir a voz da Dona Neide que chorava sem parar enquanto resmungava algo que eu não pude interpretar. Pedi para que ele se acalmasse e tentasse explicar com calma. Após alguns segundos em silêncio, ele tornou a falar.

─O Jay sofreu um acidente... Meu irmão sofreu um acidente, Dih.

Continua...

Notas finais
Mais um capítulo!!! O penúltimo, afinal. Espero que tenham gostado :)