Notas iniciais
Preparem seus feels, gente, pois os meus já eram :/

O pai de Lucy havia nos buscado na festa e nos levado até o hospital aonde James havia sido levado. Pulamos do carro e corremos hospital adentro sem nem mesmo agradecer o Sr. Pai da Lucy pela carona, ─ que aliás eu nem cheguei a perguntar o nome ─. Grosso da minha parte, não? Mas se você estivesse no meu lugar, indo ver seu melhor amigo acidentado, também perderia os bons modos.

Passei correndo pelos corredores do hospital a procura do quarto onde James estava. Não recebi muitas informações quando cheguei e Adrian estava muito alterado ao telefone, então não conseguiu explicar muitas coisas. Lucy estava tão surpresa quanto eu. Eu segurava sua mão e corríamos corredores e mais corredores até encontrar minha mãe ao lado da Dona Neide, que chorava sem parar nos braços da amiga.

─Onde ele está? – fiz de tudo para não chorar já de cara. ─Onde ele está?
─Filho, acalme-se. – minha mãe foi para meu lado, me abraçando enquanto acariciava meus cabelos. ─Ele foi levado para a sala de cirurgia. Não recebemos muitas informações desde que ele entrou lá. Só sabemos que ele sofreu uma fratura séria no crânio e, bom, é bem grave. – ela se calou ao notar que a mãe de James havia ficado mais aflita.

Sentei-me no banco ao lado de Paul e Adrian que estavam tão espantados quanto eu. Estávamos todos atônitos. Meus olhos vidrados fitavam o chão como se fosse a única coisa visível naquele local. Encostei minhas costas na parede e relaxei o corpo tenso, desmoronando sobre mim mesmo enquanto meus olhos lacrimejavam sem dó.

─Eles disseram se...?

Atrevi-me a perguntar algo mais após minutos de silencio tentando digerir a situação.

─Não disseram nada mais que isso. – ela me respondeu com tristeza em sua voz.

...

Ficamos até duas horas da madrugada á espera de notícias. Meu pai fora ao hospital acompanhado de Seu Antonio após o ultimo retornar do trabalho e ter sido informado sobre o acidente.

Minha mãe ficou com nós o tempo todo, consolando Dona Neide que não parava de chorar. Disseram-me que haviam mais dois garotos dentro do carro, tirando James e Carlos. Os que estavam nos bancos traseiros não sofreram nenhum ferimento grave, muito menos Carlos, pois eram os únicos que estavam de cinto de segurança. A polícia que fora no local do acidente acompanhou-os até o hospital e os levou para a delegacia após o teste de sangue ter registrado uso de drogas entre os três.

─Fiquei aliviada por não terem encontrado nada no sangue do Jay. – disse Dona Neide, tristonha, quando me contaram sobre os garotos.

Luana chegou algumas horas depois. Sua maquiagem estava toda borrada, que provavelmente fora desmanchada enquanto chorava no caminho ao hospital. Ficamos nós três sentados sobre o banco de espera, abraçando um ao outro até que o medico foi até nós, duas horas após a chegada de Luana. Sua face estava inexpressiva, o que me deixou preocupado assim que ele parou diante de nós e questionou se éramos a família de James.

─Somos. – respondi de imediato. ─Como ele está?
─Então... Como eu disse antes, o caso dele é sério. O impacto foi muito forte e provocou uma fratura grave no crânio...
─Ai meu Deus. – lamentou a Sra. Alves, recebendo apoio de seu marido.
─E como foi a cirurgia? – me intrometi novamente, abafado.
─A cirurgia teve êxito. – expressou um leve sorriso que nos tranquilizou, por ora. ─Mas, infelizmente, o caso dele ainda é delicado. O cérebro dele foi danificado pela fratura. Veias foram rompidas e... – calou-se ao ver a expressão dolorosa ao rosto de Dona Neide. ─Ele entrou em coma.
─Meu filho... – berrou Dona Neide, retornando a chorar.
─Calma, Neidinha, calma. – disse minha mãe, tentando acalmá-la.
─Roberta, leve-a para fora para tomar um ar fresco, por favor. – pediu Seu Antonio, tentando manter-se forte.
─Ok... Vamos Neide. – acompanhou-a até a saída enquanto o médico esperava ambas saírem para continuar a falar.

─Conte-nos, doutor, ele corre o risco de... – não pôde continuar a dizer.
─Sim, Sr. Alves. Ele sofreu hemorragia interna e a fratura prejudicou muito o seu cérebro. Desculpe-me dizer isso assim, senhor, mas as chances dele sobreviver são mínimas. E mesmo que ele sobreviva, é provável que ele fique com alguma deficiência mental ou física.

Aquilo soou como um tiro de bazuca que destruiu todos nós por completo. O médico consolou o pai de James e direcionou-se para outro quarto ao ser solicitado pelo alto-falante. Luana e Lucy não puderam segurar as lagrimas que escorreram pelas suas faces tristonhas e olhares nebulosos.

Meu pai, que nunca demonstrava nenhum ato de carinho ou compaixão comigo, sentou-se ao meu lado e jogou seu braço sobre meus ombros, segurando-me em um abraço desajeitado e, no entanto, inesperado que não pude reagir de outra forma a não ser enrijecer o corpo.

─Acalme-se... Eu estou aqui. – sua voz falhava, mas pude entender a sua intenção.

Virei minha face para o seu lado e pousei minha cabeça sobre seu ombro enquanto chorava em silencio.

...

Nos dias após o acidente, Luana, Lucy e eu marcávamos de visitá-lo todos os dias. Íamos até ele, ficávamos algumas horas conversando com ele, assistíamos alguns jogos de basquete com a tevê de seu quarto de hospital e o deixava por dentro dos assuntos.

Sabíamos que ele estava inconsciente, mas já ouvíramos tantos dizerem que quando uma pessoa está em coma continua escutando tudo á sua volta, que botamos um pouco de fé nisso. Não sabíamos se era realmente verdade. Se ele realmente escutava o que dizíamos, mas tínhamos esperança. Esperança de um dia ele acordar e nos contar que pôde nos ouvir, esperança dele sobreviver e voltar a ser aquele James que conquistara nossa amizade e amor.

Passaram-se uma semana desde o acidente. O caso dele não havia melhorado muita coisa, pra falar a verdade, não houve melhora alguma. Estávamos cada vez mais tensos e com medo dele não acordar do coma ou... pior.

O Natal seria no dia seguinte e eu planejara passar com Dona Neide e seus irmãos no hospital ao lado dele. Ela insistira para que eu fosse passar junto de minha família, mas a mesma também não tinha com o que festejar com James naquele estado.

Ainda era de tarde e eu pedi para meu pai que me deixasse lá para visitá-lo, como eu estava fazendo todos os dias. Eu chegara ao seu quarto e havia uma enfermeira trajada em seu uniforme branco com sapatilhas da mesma cor. Ela tinha seus cabelos louros presos em um coque, olhos azuis anil e uma pele levemente bronzeada.

Eu havia orado tanto para a melhora de James, que quando a vi, pensei que fosse um anjo que fora atender meus pedidos.

─Ah, me desculpe. – disse ao entrar no quarto e vê-la trocando algumas fronhas da cama hospitalar em que ele estava deitado.
─Não se preocupe. – disse ela com uma voz serena. ─Veio visitá-lo?
─Sim. – assenti com a cabeça, entrando e fechando a porta atrás de mim. ─Ele teve alguma melhora desde... Ontem?
─Infelizmente não. – entortou os lábios em sinal de pena.
─Ah. – suspirei, sentando na poltrona branca ao lado da cama em que ele estava.

Sua face estava calma e tranquila, como se ele estivesse sonhando e esse sonho fosse um de seus melhores. Sua pele estava mais pálida que o normal, talvez por estar tanto tempo sem entrar em contato com o sol. Seus cabelos louros estavam parcialmente cobertos sob a faixa em sua cabeça. Em suas narinas continham pequenos tubos de plástico que carregavam oxigênio até seus pulmões.

A enfermeira se encaminhou até a cortina do local e abriu-a pela metade, permitindo uma pequena faixa de luz banhar seu rosto, iluminando-o mais uma vez e tornando seus cabelos dourados.

Direcionei minha mão até a dele e apertei com força, franzindo os lábios e soltando um suspiro baixo.

─Queria que você me perdoasse. – sussurrei para ele, mas acho que a enfermeira escutou, pois pude ver pelo canto dos olhos que ela se virara para mim. ─Eu não devia ter te tratado daquela forma, eu não devia ter... – calei-me pela emoção. ─Sabe... Todos os dias quando eu me levantava para ir á escola, eu me encontrava disposto para mais um dia, esboçava até alguns sorrisos contentes, mas aí eu olhava aquelas fotos no meu mural e me recordava de você... É, eu ainda tenho aquelas fotos. – comentei e sorri como se ele estivesse realmente ali participando da conversa. ─Eu pensava que deveria chegar até você e dizer que estava tudo bem, que eu não queria mais ficar distante de ti. Mas, como as garotas mesmo disseram, meu orgulho falava mais alto. E hoje estamos aqui, você enterrado nessa cama de hospital, e eu... Morrendo de remorso.

Curvei a cabeça, encostando a testa nas costas de sua mão ─a mesma que eu segurava─ e tornei a chorar. Os ruídos da enfermeira remexendo nas coisas do quarto cessaram e um silencio tomou conta do local, exceto pelos bipes das maquinas.

Senti uma mão leve pousar delicadamente sobre meu ombro e ergui meus olhos para ver quem era.

─Desculpe-me intrometer. – disse ela. ─Acho que tu não deves se culpar pelo o que ocorreu. Eu sei que é fácil para eu dizer isso, mas nenhum de nós poderíamos ter evitado o que aconteceu. – ela calou-se, ajoelhando-se e fixando seus olhos azuis nos meus castanhos escuros.

Sua voz era linda e soava como uma música lírica suave que entrava pelos meus ouvidos e me deixava relaxado. Poderia ficar conversando com ela o dia todo.

─Às vezes Deus permite que coisas assim aconteçam, pois decide que pessoas boas devem retornar a ele. – prosseguiu. ─Tu és muito jovem, não podes conviver com essa culpa. Tens muito ainda para viver, coisas que só poderão acontecer se tu parares de se culpar. Vamos, me digas... Tu achas mesmo que ele gostaria de te vê neste estado?

Balancei a cabeça negativamente, secando algumas lágrimas.


─Pois então, faças isso por ele. Tire esse final do dia de folga, saias com os amigos. Vivas por ele.
─Obrigado. – esforcei-me para sorrir, porém foi um sorriso sincero, mesmo estando um pouco confuso.

Ela se levantou, tomou alguns lençóis nos braços e foi em direção á porta do quarto.

─Espere. – chamei-a. ─Você... Qual é o seu nome?
─Dara. – ela sorriu, abrindo a porta e clareando o local com a luz do corredor exterior que aparentou fluir de si.

Voltei-me para James e pensei no que Dara havia dito, no mesmo instante me recordei de Luana e do bolo que eu dera nela na festa quando saí com Lucy. Eu havia prometido que iria compensá-la e eu não podia descumprir essa promessa, aliás, seria uma ótima forma de aproveitar o final daquele dia.

Alcancei meu celular no bolso de minha calça e liguei para ela.

─Cancele o que for fazer hoje. – ordenei assim que ela atendeu.
─Oi? – ela riu. ─Eu não irei fazer nada hoje.
─Ótimo, mas agora você vai.
─Como assim? Diego, o que você está tramando?
─Se arrume, não precisa demorar cinco horas, não te levarei em nenhum jantar na Casa Branca... – dei uma leve risada, voltando a falar com a voz firme e séria. ─Vou passar na sua casa por volta das sete, tudo bem?
─Ahn... Tudo, mas...
─Ótimo. – a interrompi. ─Te vejo mais tarde.
─Ok... Até.

Quando éramos crianças, havia um lugar próximo de minha casa que eu e Luana adorávamos ficar. Um terreno baldio, ─ mas não daqueles com entulhos e sacos de lixo jogados por todos os lados ─, que chamávamos de: “O gramadinho”. Os vizinhos tomavam conta do local, aparavam a grama, colocavam alguns banquinhos e mesas de concreto ─ daquelas mesas com um jogo de xadrez pintado no centro ─ e desfrutavam do local nos dias com climas agradáveis.

O terreno ficava na decida de uma pequena colina após o meio-fio, que descia até um campo razoavelmente grande ─ grande o suficiente para os garotos da rua jogarem bola lá as vezes ─.

Enfeitando o espaço, havia algumas arvores de galhos longos que projetavam sombras frescas e confortáveis. O terreno acabava vinte metros após a primeira colina com outra maior que dava vista para a cidade.

Lu e eu, quando mais jovens, acampávamos de frente á essa colina maior à noite e ficávamos contemplando os astros nos céus. Era algo rotineiro. Não tinha um final de semana que não passávamos a noite acordados sobre aquela grama aparada, ouvindo os grilos cantarem e, de longe, os carros que passavam nas avenidas distantes. Após alguns anos, deixamos de fazer isso. Ela começou a namorar e o tempo que ela disponibilizava para nós, se foi. A partir daí eu passava os finais de semana contemplando, sozinho, as estrelas da janela do meu quarto enquanto escrevia historias infantis que o momento me trazia inspiração para escrever.

─Não vai mesmo me deixar ver onde estamos? – indagou ela, que tentava espia por debaixo da venda que eu pusera sobre seus olhos.
─Não. – dei uma leve risada. ─Confia em mim.
─Eu confio. – pude ver um sorriso tímido surgir sobre seu rosto.

Eu segurava sua mão com força enquanto descíamos a pequena colina, passamos pelas mesinhas de xadrez e paramos de frente á vista para a cidade. Retirei minha mochila das costas e a pus no chão.

─Espera só um momento. – pedi, soltando sua mão e me abaixando para abrir a mochila e retirar um pano para forrar o chão. ─Pronto... Bom, pode retirar a venda.

Suas mãos foram de encontra a venda calmamente, seus dedos tatearam o tecido e percorreram até o pequeno nó que eu havia dado para não se soltar. Ao retirá-la, sua face se iluminou.

─Dih... O gramadinho! – exclamou surpresa enquanto dava uma volta entorno de si mesma, admirando o local. ─Não mudou nada, está exatamente como eu lembrava.
─Exceto por esse pano. – eu a contradisse, completamente sério. ─Eu acabei de colocá-lo aqui. Falando nisso. – me reverenciei. ─Quer se sentar?
─Bobo. – ela sorriu, sentando sobre o pano e cruzando as pernas em posição de "pernas de índio".

Aquela noite estava quente como de costume para aquele tempo, por isso, ela estava com um shortinho jeans desfiado que ficava levemente sobre sua coxa, uma blusa de alça fina rosa, uma sandália rasteirinha e algumas pulseiras como acessórios. Eu estava com uma camisa azul sem manga com a bandeira dos Estados Unidos como estampa, uma bermuda tactel preta com detalhes em branco e um chinelo confortável.

Deitei-me sobre o pano e fixei os olhos no céu.

─Sabe, eu tenho pena das estrelas. – comentei, olhando para aquelas lindas bolinhas de luz que eu não enxergava tão bem, graças a minha miopia. ─Mas também as admiro. – completei, esperando um questionamento.
─Como assim? – questionou com um leve sorriso desentendido, que brilhava tanto quanto os seus enormes olhos verdes.
─Bem... Eu tenho pena delas, pois elas são solitárias. Vivem sozinhas no frio e silêncio do espaço. Até mesmo as que aparentam estarem tão próximas para nós, na realidade, estão a quilômetros de distância uma das outras. – expliquei, dando uma leve pausa, permitindo-me notar que sua atenção estava totalmente voltada a mim. ─Agora eu as admiro, pois mesmo não tendo companhia e sendo, provavelmente, os astros luminosos mais solitários da galáxia; elas brilham. Enfeitam as nossas noites com suas presenças, deixando-nos contemplar suas belezas. E ficam paradas lá, sem se queixarem ou procurarem por outro para fazer companhia. “Talvez seja por que são apenas estrelas, e elas não pensam e não têm sentimentos”, outros diriam. Mas um amante não pensa assim, pois viver um dia sem sua amada, ou o seu amado, é como se fossemos uma daquelas estrelas, isoladas no escuro do espaço, e por isso, eles... Ou melhor, nós, compreendemos como elas se sentem. E não nos conformamos em dizer que elas não se sentem sozinhas. Pois acreditamos que sem amor, somos apenas corpos celestes presos no vácuo do espaço.
─E você, se sente como uma estrela? – ela me perguntou, olhando no fundo de meus olhos.

Eu dei uma leve suspirada. Cruzando os braços sob a cabeça encostada no pano sobre a grama e fixando meus olhos novamente nas estrelas sobre nós.

─Pra falar a verdade? – indaguei retoricamente, abrindo um sorriso tranquilo. ─Eu não me sentia. Mas agora, eu me sinto. Porém, não por que me sinto solitário, mas sim por eu estar me sentindo mais radiante, talvez até mais que aquelas no céu. Pois eu encontrei a minha companhia. A minha estrela companheira. – completei, arrancando um sorriso corado de seu rosto, antes de lhe beijar e sentir novamente seus lábios.

Passamos algumas horas conversando sobre assuntos que pareciam surgir naturalmente. Coisa que não acontecia quando eu estava diante de outras pessoas.

Estávamos deitados, eu, com o braço esquerdo sob a cabeça e o direito estendido sob sua cabeça, contornando sobre seu ombro esquerdo, que eu acariciava com a ponta dos dedos. Enquanto nós conversávamos, eu me limitava a sentir o perfume de seu cabelo e mordiscar sua orelha. Dava-lhe beijos em sua bochecha e, quando eu não conseguia mais resistir, saltava sobre ela e a beijava como se eu quisesse fazer aquilo há muito tempo.

Depois de um tempo retirei meu celular e um fone de ouvido da minha mochila. Dividi um dos lados do fone com ela e ficamos escutando minha playlist.

─Deveríamos ter uma musica. – disse antes de apertar o play no celular.
─Uma música? Como... Como um casal?
─Isso. – assenti com a cabeça. ─O que acha?
─Eu concordo plenamente. – ela respondeu, contente.
─Então... Eu irei ligar o aleatório e, a musica que sair, será a nossa música de casal. De acordo?
─Muito.

Fiz um suspense dramático e apertei o botão do play.

…

Give me love like her

Me dê amor como ela

'Cause lately I've been waking up alone

Porque ultimamente tenho acordado sozinho

Pain splattered teardrops on my shirt

Lágrimas de dor escorrendo na minha camiseta

Told you I'd let them go

Disse a você que os deixaria ir

And I'll fight my corner

E eu vou lutar pelo meu espaço

Maybe tonight I'll call ya

Talvez eu te ligue hoje à noite

After my blood turns into alcohol

Depois do meu sangue virar álcool

No, I just wanna hold ya

Não, só quero te abraçar

Give a little time to me, or burn this out

Me dê um pouco de tempo ou queime isso

We'll play hide and seek, to turn this around

Vamos brincar de esconde-esconde para mudar isto

All I want is the taste that your lips allow

Tudo que quero é o sabor que seus lábios permitem

...


─Eu adoro essa musica. – comentamos em uníssono.

Nossos olhos se encontraram e não se largaram por um curto tempo, até que eu tomei coragem para dizer algo...

─Eu... Eu te amo. – suspirei encantado.
─É serio isso ou foi por causa da música? – ela indagou sorrindo, provavelmente pensando que eu estava brincando, como de costume.
─Não, estou falando sério. – agarrei sua mão com força e olhei bem no fundo de seus olhos. ─Eu estou completamente caidinho por você.
─Eu também estou. – ela sorriu contente. ─Praticamente jogada no chão.

Sorrimos e demos mais um beijo, enquanto a nossa música zumbia em nossos ouvidos.

...

Na noite do dia seguinte, acordei com um telefonema. Eram três da madrugada e meu celular zumbia sobre meu puff em formato de bola de futebol. Despertei-me do sono e alcancei o celular, esfregando os olhos para poder focar a visão no nome na tela.

Ao ver quem era, minha barriga se tornou fria como gelo. Levantei-me da cama em um pulo e sentei com calma na ponta da cama, encarando o nome que indicava na tela de chamada. Era Dona Neide.

Com a situação de James, receber uma ligação de sua mãe no meio da madrugada, não poderia ser algo bom.

Tentei me acalmar. Relaxei meu corpo e desacelerei minha respiração enquanto repetia pensamentos positivos, criando coragem até atender a ligação.

─O-oi?!

A voz do outro lado vacilou em um soluço.

─Diego, é a Dona Neide, filho.
─Oi Dona Neide... Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Sua voz desapareceu novamente, pude a ouvir conversar com alguém, então outra pessoa atendeu o telefone. Era Seu Antônio.

─O James, Dih... Ele faleceu.

Eu fiquei completamente perplexo. Seu Antônio continuou a falar comigo, mas eu não consegui prestar a atenção em mais nada. Calei-me, desacreditado, e comecei a chorar.

Ao terminar a ligação eu lancei meu celular sobre o puff, que quicou e caiu sobre o chão. Minhas pernas enfraqueceram e caí sobre meus joelhos. Soltei um urro de dor tão alto, que logo depois meus pais apareceram em meu quarto. Encontrando-me aos prantos.

Após conseguir explicá-los o que havia acontecido, eles se ajoelharam ao meu lado e ambos me abraçaram. Minha mãe começou a tentar me acalmar, dizendo coisas em meu ouvido enquanto também chorava. Meu pai quieto, apenas nos mantinha juntos.

Meu coração doía, como se algo dentro de mim apertasse ele com força, tentando estourá-lo. Minha mãe foi para a cozinha e retornou com um copo de água com açúcar. Eu nunca tomava aquilo por que nunca realmente me acalmava, mas bebi assim mesmo, pois entendi que ela só queria me ajudar. Após algumas horas, minha mãe telefonou para a Dona Clara, mãe de Luana. Os pais dela a acordaram e lhe deram a notícia.

Eu me encontrava no meu quarto, deitado sobre meu tapete enquanto resmungava palavras que nem eu mesmo me recordo.

Meu amigo havia partido e me deixado sozinho com um enorme buraco aonde deveria estar o coração.

Um dia depois...

─Diego, quer dizer algumas palavras? – perguntou Paul com sua voz roca atrás do palanque da igreja no velório de James. Ele estava ao lado do caixão do irmão, com a mão direita sobre a cabeça de James e o microfone na outra mão. Ele acabara de fazer um discurso fúnebre, e como eu havia prometido, iria dizer algo em sua homenagem.

Me pus sobre meus pés e me direcionei até o altar da igreja. Quase toda a família dele estava presente. Amigos de escola, de basquete e outros que eu nunca vira antes estavam lá, assentados sobre os seus bancos, todos em silêncio.

Subi os dois degraus e segurei o microfone que Paul me entregou. Encarei o corpo de James sobre o caixão e não pude evitar um nó que se formou na minha garganta. Curvei minha face e, com os olhos fechados, alcancei um papel dobrado dentro do bolso da minha calça e o retirei lentamente, desdobrando-o e deixando-o estendido sobre o palanque.

─Eu... – pigarreei. ─Eu preparei um pequeno texto em sua homenagem... – respirei fundo antes de começar a ler. ─James sempre foi um cara alegre, encantador e extrovertido. Era impossível manter-se triste ao lado dele. Até quando eu queria estar na minha, desfrutando da minha tristeza, ele vinha com aquele sorriso Colgate que iluminava o meu dia, arrancando a tristeza do modo mais engraçado e inusitado possível. Mesmo com as nossas diferenças, ele era um dos poucos e raros que me aturavam... E também um dos poucos e raros que eu exigia sua companhia. – alcancei Luana e minha mãe na multidão, que sorriram solidariamente para mim. ─Em situações como essa, muitas pessoas questionam a Deus o porquê de ele levar alguém tão bom e tão importante para nós... Eu não o culpo por ter tirado James de nossas vidas, para ser sincero, eu acho que compreendo. Se fosse eu, o todo poderoso, também traria James até mim e o manteria vivo por toda uma eternidade. Eu só tenho que agradecer a Deus por ter tido a oportunidade de conhecê-lo e por eu ter feito parte de sua vida e de chamá-lo de irmão. Às vezes eu acho que Deus vê pessoas como James, agindo da forma delas e trazendo o bem para os outros, ─ mesmo com suas dificuldades ─, e decide levá-las para junto dele, para privá-las do sofrimento que a vida aqui na Terra muitas vezes nos proporciona. Hoje eu não me despeço apenas de um amigo. Hoje eu me despeço de um parceiro, um irmão, um aliado. Mas também hoje, Deus recebe mais um anjo. E o céu, mais uma estrela.

Desci do altar e logo após levaram-no até um carro da funerária e nos direcionamos até o cemitério, não muito distante daquela igreja. Ao chegarmos, seguimos até aonde iriam enterrá-lo. De longe eu já podia ver a cova recém aberta, com dois coveiros á espera com um enorme montinho de terra ao lado. Ao ver aquela cena, minhas pernas hesitaram e eu parei de seguir os outros. Abaixei minha face e, em uma fração de segundo, pensei ter visto Dara, a enfermeira que cuidara de James no seu ultimo dia de vida. Tive a impressão de vê-la parada sobre a sombra de uma árvore, olhando em minha direção e sorrindo, mas quando olhei novamente, não havia ninguém. Então tornei a seguir o caminho até a cova.

Um padre, amigo de Dona Neide, fora até lá para fazer uma ultima reza. Fechei meus olhos e apenas escutei o que diziam, completando com um Amém.

O caixão foi sendo abaixado por cordas de pouco em pouco, enquanto não chegava ao fundo, pessoas jogavam rosas e flores de várias cores, formando um manto colorido sobre o caixão, alguns erravam e caiam por baixo do caixão, que já chegava no fundo.

O primeiro coveiro pegou sua pá e retirou a primeira parte de terra, ao jogá-la, Dona Neide reagiu com um ruído de dor, virando sua face para seu marido e tornando a chorar. Luana estava do outro lado da cova, ela estava com os olhos fixos no caixão lá embaixo, uma rosa vermelha cor de sangue estava em suas mãos. Parecia que ela estava esperando o momento certo para lançar a rosa, mas desistira. Quando terminaram de tampar a cova algumas pessoas foram cumprimentar a família de James e aos poucos foram saindo.

Recebi alguns parabéns pelo lindo discurso, mas nenhum deles conseguiu arrancar um sorriso sincero de minha face. Esperei de pé em frente á lapide de James até todos irem embora. Sentei-me no gramado baixo, cruzando as pernas em forma de “indiozinho” e comecei a encarar aquilo diante de mim.

...

A imagem de um garotinho sentado sobre um enorme sofá de sala de estar surgiu na minha mente. A sala estava vazia e vozes e risadas de adultos ecoavam da cozinha. O garotinho de seis anos estava sentado sobre o sofá e ficava balançando as pequenas perninhas no ritmo de uma canção infantil que passava em um programa de tevê deixada ligada para ele. Um outro garoto, esse um ano mais velho, surge despretensioso na sala e se põe de frente ao outro, que se encolhe.

─Aí está você! – disse ele, o pequeno James com uma camisa das Tartarugas Ninjas. ─É Diego, não é? Bom, meu nome é James. – estendeu a pequena mão para o garotinho. O tímido e bobão eu, que respondeu ao cumprimento, segundos depois. ─Você é bem tímido, né? Sua mãe falou que vocês se mudaram para cá semana passada, deve ser difícil mesmo acostumar-se com um lugar novo. Eu mesmo demorei bastante para me acostumar com essa casa. – eu estava calado, olhava para ele e pensava se ele não parava de falar. ─Por que você não vem comigo? Posso te mostrar uma coleção de bonecos dos X-Men que eu tenho.
─X-Men? – comprou-me com meu ponto fraco.
─É, sua mãe falou que você gosta. – sorriu, parecendo que já esperava uma reação daquelas. ─Vem, meu quarto é por aqui.

Fomos até o próximo cômodo. Passamos pela cozinha e pude ouvir minha mãe comentar que já estávamos nos interagindo. O garoto mais velho abriu a porta de seu quarto e alcançou o interruptor de seu quarto, ascendendo a luz para clareá-lo, que até então estava completamente escuro.

Seu quarto era todo azul com bolas de basquete desenhadas nas paredes. Uma cama beliche vermelha, um guarda-roupas de mogno branco e uma enorme prateleira recheada de miniaturas de carrinhos e bonecos de ação preenchiam o quarto. Meus pequenos olhos se iluminaram ao ver aquilo.

─Pode pegar qualquer um que quiser. – ele disse. ─Tem alguns do meu irmão, mas ele não se importa. De qualquer forma, ele está na casa da minha avó.

Percorri os olhos sobre a prateleira e encontrei o que eu queria.

─Aquele! – apontei com o dedo para um boneco de ação em um uniforme azul com uma mascara, também azul, que tampava todo o seu rosto, com exceção da boca e nariz e usava um visor amarelo com o centro vermelho-rubi.
─O Ciclope? – ele certificou, indo até a prateleira e catando o boneco. ─Você gosta dele?
─Ahan. – balancei a cabeça. ─É o meu preferido.

Peguei o boneco com os olhos cintilando e comecei a brincar com ele, disparando rajadas com ruídos feitos pela boca e frases de ação que eu decorara ao ver o desenho animado. Depois de horas brincando com o garoto, meus pais vieram até a mim, era hora de voltarmos para nossa casa.

─Ah não, tia, deixa ele ficar aqui. – pediu o garoto.
─Não Jay, amanhã é o primeiro dia de aula dele e eu quero que ele vá. – disse minha mãe, fazendo um sinal para eu devolver o brinquedo a James. ─Vamos, Dih.

Olhei para o boneco mais uma ultima vez e estendi em direção ao dono, que balançou a cabeça negativamente.

─Pode ficar com ele.
─Sério mesmo? – abri um sorriso de orelha a orelha.
─Sim, eu nem gosto muito desses bonecos. Foram todos ganhados.
─Obrigado. – sorri, indo em direção aos meus pais que comentavam a bela ação de James. ─Outro dia você passa lá em casa. – convidei, olhando para minha mãe, que assente com a cabeça, permitindo. ─Poderei te mostrar a minha pequena coleção.
─Ok. – ele sorriu, animado.

Meus pais foram até James e se despediram dele.

─Até outro dia, Jay. – disse meu pai passando a mão sobre os cachinhos louros do garotinho.
─Tchau. – despediu-se ele, olhando em minha direção enquanto meus pais saíam pela porta. ─Adeus, Dih.

...


─Adeus, James. – voltei da lembrança, levantando-me e saindo em direção ao carro que eu viera com um sorriso calmo ao rosto.

[CONTINUA]

Notas finais
Capítulo final, gente :'( Mas ainda tem o epílogo, que fechará de vez essa estória. Espero que gostem :)