Malaxophobia
14 Pânico
“Quero que peça ao diretor que me tire do Clube da Música Clássica e me deixe participar de outro.” Henrietta apresentou a ideia ao seu melhor amigo, ainda à mesa do Village Inn. “Qualquer outro. Ele não pode te negar isso.”
“Qualquer outro mesmo?” Pete perguntou com apreensão. “Tem certeza disso?”
“Absoluta. Qualquer outro que ainda tenha espaço, não importa qual.”
E, definitivamente, pouco importava para ela em qual clube seria inserida dali em diante. Nada poderia ser pior do que ser forçada a interagir com Cartman nas reuniões do clube atual e a conviver nele com Patty Nelson, alguém por quem adquiriu um ódio profundo pela falta de honra com as palavras. De aturar Cartman, já bastavam as aulas comuns em que era obrigada a coexistir com ele. Toda a distância possível que pudesse estabelecer seria bem-vinda.
Henrietta se sentava num dos assentos ao lado sala do diretor, aguardando por Pete. A porta se encontrava trancada para dar privacidade à conversa no interior. Nada dali podia visto ou ouvido, mesmo através do vidro fosco no centro. A apreensão que a gótica sentia fazia seu estômago congelar e sua perna direita sacudir sem controle. Pelo corredor, vazio graças às aulas que aconteciam no momento, podia ouvir apenas o som de sua bota batendo no chão nervosamente e o tic-tac irritante do relógio na parede à frente.
Ela e Pete mal tiveram algum tempo de sono depois dessa madrugada, tendo apenas o café que tiveram no Village Inn como sustento. Poderiam ter permanecido em suas casas quando retornaram e faltado um dia de aula para terem um descanso digno, mas Henrietta precisava que a questão da troca de clubes fosse resolvida o mais rápido possível. Pete não se absteve de sua vontade.
Por terem aguardado pela chegada do diretor na escola, estavam perdendo no corredor os primeiros tempos de aula, o que para ela era um grande alívio. Quanto mais Henrietta pudesse adiar para rever Cartman depois do que aconteceu entre os dois no auditório, melhor seria.
E suas lembranças constantes dos sonhos, ou pesadelos, que andava tendo com ele, em nada ajudavam com a situação no todo. Seus desejos e sua sexualidade estiveram adormecidos por todos esses anos por sua própria escolha de autopreservação, e o bastardo simplesmente troca algumas palavras com ela e destrói lentamente tudo o que construiu com esforço?
Não iria permitir isso. Nem fodendo.
O diretor do colégio, que decidiu se envolver na relação complicada dos pais de Pete, podia até ser um grande problema; no entanto, para a necessidade atual de Henrietta, era algo que vinha a calhar. Poderia até negar o pedido se vindo dela, mas não podia negar se vindo do filho de seu interesse romântico. E, mesmo se houvesse essa possibilidade, Pete poderia negociar com ele o seu silêncio.
“E por que Pete não disse nada sobre o assunto ao pai dele?” Henrietta se perguntou mentalmente. Ao menos, a dúvida recém adquirida a fez se distrair da ansiedade. “Se o pai dele for tão merda quanto o meu, acho que faz sentido.”
Quando a porta da diretoria finalmente se abriu, Henrietta se pôs de pé automaticamente. Pete enfim havia saído de lá, seu rosto parecendo duas vezes mais pálido que o natural. A gótica esperava vê-lo puto ao retornar de uma conversa cara a cara com o maior problema em sua vida atualmente mas, ao contrário: Pete transparecia temor acima de qualquer outra coisa.
— E então? — Henrietta perguntou, impaciente pelo silêncio do outro.
— Deu certo. Tem um clube disposto a te incluir. Você está fora do clube da música.
— Ah — pôs uma mão no peito e suspirou, aliviada. — Isso é ótimo, Pete. Pensei que tinha dado tudo errado, por que tá nervoso desse jeito?
— Porque você não vai gostar do que vai ouvir. — uma gota de suor se formou na lateral de seu rosto.
— O quê? Me botaram no “clubinho” dos vampiros? — sorriu de canto debochadamente. — Sério, não se preocupe, eu não dou a mínima. Talvez seja até bom. Posso colocar esses malditos nos eixos e ainda posso “me entender” com a líder deles. — emburrou-se brevemente ao lembrar-se da Simons.
“Ele é muito pior do que isso. Um dia você se acostuma. Sei disso, porque o conheço muito bem.” Jenny havia comentado sobre Cartman à frente de todos em sala, ao mesmo tempo em que enviava para a gótica um olhar petulante. “Que imbecil.” Henrietta pensou ao se lembrar do que foi dito, tomada pelo triplo de raiva. “E por que infernos isso me deixa tão puta da vida?”
— Não — Pete encolheu os ombros. — É pior.
A gótica semicerrou os olhos. Encarou o amigo friamente, enquanto ele sem sucesso tentava evitar seu olhar.
— Pete. O que pode ser pior do que isso?
O rapaz de cabelo bicolor engoliu em seco. Mediante o silêncio que se sucedeu, a mente dela buscou sozinha por todas as alternativas possíveis.
Após uma onda de pensamentos desordenados, uma possibilidade em especial fez seu corpo gelar. Um grupo que havia se esquecido da existência ao garantir que qualquer um serviria. Um grupo que sempre odiou. Bem mais que vampiros, bem mais que emos e bem mais que malditas fãs de cantoras pop.
— ...Não. — Henrietta selou os olhos e cruzou os braços, em completa negação. A calma em seu tom poderia ter tranquilizado alguém que não a conhecesse direito, e este não era o caso do gótico à sua frente.
— Por favor, se acalme — Pete tentava amenizar a situação, quase se atrapalhando nas próprias palavras. — Você disse que...
— Não — o interrompeu. Soltou os braços de seu aperto. Desta vez, o corpo inteiro da gótica tremia tenso, dando a impressão de que estava prestes a explodir. Seus olhos abertos e em choque.
— Etta... Henrietta — se corrigiu no mesmo instante, temendo sua ira. Tinha as mãos estendidas à frente do rosto, como se fossem protegê-lo. — Por favor...
— NÃO.
Numa ironia do acaso, o sinal para o intervalo soou abruptamente por todo o prédio quase no mesmo segundo onde Henrietta havia gritado. Haviam perdido tempo demais com toda essa espera. Enquanto Pete se encolhia e Henrietta hiperventilava de olhos vidrados, o som da agitação dos alunos se levantando para sair das salas se tornava cada vez mais alto por todos os lugares. Aumentando todos os níveis de estresse possíveis da garota, a voz do diretor tomou conta dos alto falantes:
“Jennifer Simons. Por favor, compareça à diretoria.”
* * *
Mesmo que custasse admitir para si mesmo, mesmo que tentasse manter a mente ocupada para não pensar no assunto... Cartman não poderia continuar a negar. A ausência de uma certa gótica em sala nesta manhã o havia incomodado.
Em todo o tempo, se empenhou para não se perguntar por que motivo ela não havia comparecido e falhou completamente em seus esforços. Bolou até mesmo piadas em pensamento a respeito de sua ausência para se distrair, como ela não ter conseguido passar pela porta de casa ou ter sido confundida como morta por um coveiro graças a toda aquela maquiagem. Curioso era que aquele seu amigo emo também não esteve presente; ele poderia ter algo a ver com isso.
Eric estava começando a se importar de verdade com aquela fresca bipolar.
Como consequência, sua mão falante não dava as caras há bastante tempo. Talvez tivesse desistido de tentar interferir em seus métodos de abordagem... Ou talvez tenha chegado exatamente ao ponto que precisava.
Henrietta, em palavras ditas por ela mesma, havia se tornado sua inimiga. O desprezava, e dele queria distância. Tiveram no dia anterior uma discussão bastante feia, que sequer fazia algum sentido para ele no fim das contas. Da mulher astuta, intensa e segura de si que conheceu no retorno do Casa Bonita, Henrietta se mostrou sem motivo aparente como uma louca, e das mais ignorantes. Ao mesmo tempo mostrou, mesmo que brevemente, um lado frágil, que fez de tudo para isolar. Gótica, complexa... E também problemática.
Para ele, este era um combo para sua determinação. Ela poderia ter problemas, mas ele também tinha os dele. Esta era a única explicação possível para a dificuldade que ela apresentava ser sua motivação. Precisava, e ia, descobrir o que ela tinha de errado.
“Além disso” Cartman pensou, enquanto controlava um sorriso. “Ela precisa aprender uma lição.”
Quando o intervalo finalmente chegou, Jenny Simons foi convidada para uma conversa com o diretor. Estando no comando de dois clubes e sendo uma aluna exemplar, saiu de sala com o nariz empinado, segura de que a chamada recebida não teria a ver com nenhum problema ou advertência. Cartman estava faminto — ou apenas com vontade de comer. Para ele, não fazia tanta diferença — e ia ao refeitório junto a Kyle, Kenny e Stan. Conversava distraidamente junto deles sobre assuntos banais.
Então, a viu.
A gótica estava lá, afinal de contas. Ela e seu amigo emo. Se sentavam junto aos outros no canto que sempre reservaram, na parte externa da escola. Mas algo não estava certo.
O emo, que costumava se sentar de forma desleixada, desta vez estava recluso como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Já Henrietta, por sua vez, estava estática. Tinha um olhar vago, mais morto do que seria normal até para um gótico. Olhava fixamente para uma direção, e ao mesmo tempo não via absolutamente nada. Enquanto isso, o líder deles e o mais novo entre todos fumavam com tranquilidade seus cigarros, completamente alheios à situação.
Aproveitando do momento de distração dos demais, Cartman sorrateiramente foi se afastando de seu grupo, apenas para continuar observando de longe o que acontecia entre os góticos. Se ele tinha dúvidas sobre ela ter problemas, agora não as tinha mais.
Não soube ao certo por quantos minutos a observou. Ela não se movia, sequer parecia respirar e piscava numa frequência baixa demais para um ser humano. Por alguns milésimos de segundo, teve a esperança de que ela notaria sua presença e o olharia de volta, nem que fosse para menosprezá-lo. Porém, isso não aconteceu.
Quando estava perto de decidir por continuar seu caminho, avistou Jenny Simons se aproximar dos que vestiam preto. Multiplicou sua curiosidade e necessidade de continuar vigiando. A vampira trazia roupas dobradas em suas mãos e carregava no rosto uma expressão maldosa.
Jenny trocou algumas palavras com os góticos, captando as atenções de todos. Inclusive de Henrietta. Finalmente, ela havia sido tirada de seu transe, mas seu semblante ainda não possuía qualquer emoção. A vampira deixou as roupas que trazia próximas à gótica e se foi, deixando para trás um líder e um anão em confusão completa.
As cores daquelas roupas. Cartman conhecia aquela combinação de cores.
Ao mesmo tempo em que os dois góticos, antes alheios, entraram em alerta pelo que havia acontecido e começaram encher os outros dois de perguntas, a gordinha voltou o olhar para o mesmo ponto de antes, incapaz de esboçar reações, como se não os estivesse ouvindo.
A mente de Cartman começou a trabalhar a mil por hora. Tudo fazia sentido. Precisava pensar, e pensar rápido. Precisava de saídas, precisava de ideias, precisava de...
— Craig! — o chamou de forma brusca quando o viu passar por perto.
“Que conveniente.” Eric desdenhou internamente. “Todos os envolvidos na aposta estão me servindo de alguma coisa.”
— O que é? — Craig voltou-se de má vontade para o gordo, deixando clara sua impaciência.
— O viado do Clyde não tinha recebido alta médica?
— É, recebeu. E daí?
— Cadê esse porra?
— Ué, ficou em casa coçando o saco. Por que quer saber?
Cartman nada disse em resposta. Se afastou de Craig no mesmo silêncio, deixando-o com dúvidas que foram rapidamente dispersas por um foda-se mental. Tirando o celular de um dos bolsos, o antissemita pôs-se a teclar pela tela com toda a rapidez necessária.
Clyde lhe seria útil por mais um dia.
* * *
Embora sem emoções aparentes, o interior de Henrietta estava um verdadeiro caos. Da mesma forma que esteve durante o intervalo, se manteve pelo restante do dia letivo: gelada, em completo silêncio, paralisada em sua carteira. Não havia marcado presença nas primeiras aulas, e nas subsequentes pôde estar presente apenas em corpo e não em espírito.
Um encontro de seu novo clube acontecerá esta tarde. A falta de meios para lidar com a situação a fez se perder no abismo de seus próprios pensamentos. Sua mente ponderava sobre tudo, e ao mesmo tempo se reduzia a contemplar o vazio. Isso poderia ficar incrível numa poesia mórbida, mas a literatura gótica não pode ser agradável se fizer parte da realidade.
Enquanto Henrietta se encontrava sozinha no banheiro feminino, os rapazes de seu grupo a aguardavam do lado de fora.
— Pete — o líder gótico, tentando conter a irritação, usava sua bengala como apoio. Cobria o rosto com a mão que restou, ainda incapaz de digerir tudo o que estava se passando. — Que inferno você foi fazer, Pete?
— Não foi culpa minha — tentou se explicar pela milésima vez. — Ela estava desesperada pra trocar de clube, disse que qualquer coisa seria melhor do que continuar no que estava. Se eu não tivesse feito isso, poderia ter sido pior.
— Eu não posso acreditar nisso. Me recuso a acreditar que não tinha outra solução além dessa.
— Não tinha, Michael. Era a única alternativa. Sabe que eu não a deixaria nessa enrascada de propósito.
— Cara... — o mais novo dos góticos começou a refletir em voz alta, olhando o próprio reflexo em seu canivete enquanto recostado na parede. — A gorda entrou em colapso.
Em meio ao movimento de outros jovens pelos corredores do térreo, uma cybergoth que sequer estudava na instituição se aproximava. Se apoiou no ombro de Michael quando enfim chegou, surpreendendo-o e inclinando-o suavemente para beijá-lo no rosto. Um gesto simples, porém suficiente para amenizar sua raiva e provocar nele um sorriso discreto.
— Ah, eu vou vomitar. — Firkle pressionou o nariz entre os dedos.
— É bom te ver também. — Shelly lhe mostrou a língua. — Onde está Henrietta? Podíamos ir todos até minha casa, acabei de reformar o quarto. Oficialmente, agora tenho tudo que um gótico precisa.
— Ela tá no banheiro tentando não se matar. — o mesmo rapaz respondeu, possuindo uma naturalidade surpreendente.
— Como assim? — a cybergoth franziu o cenho. — Aconteceu alguma coisa?
— Você não faz ideia... — o mais alto se pôs a massagear as têmporas.
Querendo saber por si mesma o que estava ocorrendo, Shelly se afastou e bateu três vezes à porta de onde se encontrava a gótica veterana. Encostou um ouvido na porta para tentar captar qualquer sinal de vida no interior.
— Henrietta? — chamou por ela, pressionando mais o rosto na madeira fria devido à ausência sonora no lado de dentro. — Está tudo bem?
Silêncio total. Shelly mirou os olhos no rapaz com a franja de garras, esperando que ele pudesse dizer algo a respeito de sua melhor amiga.
Após um longo suspiro, Pete encontrou disposição para falar, mais uma vez, sobre o assunto. Não sabia por quanto tempo mais conseguiria explicar todo este problema a alguém.
— ...Ela agora faz parte das líderes de torcida. — esclareceu, esfregando o rosto com as mãos, incapaz de lidar com o peso na consciência. Era como viver um pesadelo.
— Por culpa dele. — Firkle ressaltou.
— Eu não quis fazer isso, ok? Quase nenhuma garota se importa em ser líder de torcida a essa altura do ensino médio, era o único grupo com vagas disponíveis.
— Meu Deus. — Shelly voltou a bater à porta. — Henrietta, por favor. Vestir essa roupa ridícula em alguns momentos não vai te tornar uma conformista, nem vai te tornar menos gótica. Você é bem mais do que uma roupa preta então, por favor, saia daí.
Após mais alguns segundos privados de qualquer som, Shelly finalmente pôde ouvir um pequeno ruído através da porta. Havia conseguido sua atenção.
— Henrietta? — tentou chamá-la novamente. — Vamos... Sei que você pode lidar com isso.
Uma ligeira pausa e, para o alívio de todos, finalmente a maçaneta se movia. A cybergoth tomou distância em alguns passos, temendo em seu íntimo pelo que poderia presenciar a seguir. Mesmo que não a conhecesse há muito tempo, Shelly ouviu bastante sobre ela a partir de todos os rapazes góticos, e agora estavam unidas num mesmo grupo. Essa amizade poderia funcionar.
Caminhando para fora das sombras do banheiro escuro, a visão dela enfim lhes foi concedida. À medida que os rapazes góticos arregalavam os olhos impactados, Shelly levou uma mão à boca, absolutamente abalada.
Seja lá quem selecionou aquelas roupas para ela, ou era muito cuzão, ou não tinha noção espacial alguma. Seu uniforme de cheerleader devia estar, no mínimo, dois números abaixo do que ela realmente deveria vestir. A saia plissada e a blusa em branco, verde e preto, estampada com a mascote da cidade, precisaram estar totalmente repuxadas para cobri-la com decência. E em suas pernas, finalmente expostas após seu hábito e frequência de usar meias calças que as cobrissem por completo e saias longas o bastante para manter sua classe, podiam ser vistas todas as marcas e defeitos que mulheres optam por esconder ou disfarçar.
Na parte mais remota de seu subconsciente, Henrietta amaldiçoava a si mesma pelo dia em que decidiu retornar à South Park.
* * *
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