Malaxophobia

15 Chegando ao limite


À frente dos cinco góticos, grupo em que uma das únicas duas garotas teve o visual corrompido, estava a grande porta dupla que os levaria à quadra interna da escola. Michael, Pete e Shelly, ainda desconcertados com a situação vergonhosa em que Henrietta se encontrava, faziam de tudo para não encará-la e acabavam sendo traídos por seus próprios olhos. Totalmente contrário a eles, Firkle não tinha o mínimo de discrição e a olhava fixamente, em completo desgosto.

Embora ainda se mantivesse em silêncio, Henrietta conseguiu se recuperar de seu choque. Os amigos ao seu redor aguardavam que ela abrisse as portas para, finalmente, se juntar às outras líderes de torcida no interior. Porém, não se sentia capaz o bastante para enfrentar o problema; fechou os olhos e inspirou profundamente, antes de externar o maior desejo em seu coração:

— Alguém, por favor, me mate.

Pete tomou um passo à frente, pondo caridosamente uma mão sobre um de seus ombros.

— Espero que consiga me perdoar quando tudo isso tiver terminado. — tentou suavizar as coisas novamente. — Eu não queria que isso estivesse acontecendo.

— Precisa mesmo desse drama todo? — Firkle reclamou antes de se voltar a ela. — Você ainda é você. Pelo menos, do pescoço pra cima.

— Por incrível que pareça... Eu não culpo você, Pete. — Henrietta ignorou o que foi dito pelo anão. Motivar nunca foi o seu forte, se é que aquilo foi uma tentativa de motivação. — Você fez o que precisava ser feito. Se os outros clubes estão fechados e sou obrigada a estar em um, é isso o que me resta. E, Shelly... — mirou na segunda gótica desta vez, totalmente complacente. — Obrigada por dizer aquelas coisas. Sobre eu ser bem mais que as roupas que uso e tudo mais. O que você disse foi muito real.

— Ei. Não precisa me agradecer por ter dito a verdade. — a cybergótica piscou um dos olhos. — Só queria entender como foram te arranjar um uniforme que claramente não te serve. Qualquer merdinha sabe que mais vale entregar roupas que pareçam acima do tamanho de alguém do que abaixo.

— Foi aquela líder dos sósias de vampiro quem entregou. — seu namorado esclareceu. — Ela fez de propósito, não existem dúvidas para nós.

Shelly se calou, fazendo uma careta constrangida ao se lembrar do próprio passado. Por palavras de Michael, ela adquiriu conhecimento do que se tratam os vampiros da cidade e da rivalidade estabelecida entre os dois clãs. Não tinha coragem alguma em admitir para ele que um dia foi conformista a ponto de adorar a saga Crepúsculo e também inúmeras divas pop, mesmo que nesta época tenha sido uma pré-adolescente.

— E isso não tem a ver só com uma rivalidade idiota de grupos. — Henrietta se emburrou. Queria ter estado em si para ter enfrentado Simons quando a maldita veio entregar o uniforme que está usando. — Ela ainda vai me pagar. Anotem o que eu digo.

— Se não se trata só da rixa de vocês — a cybergoth perguntou, disfarçando seu incômodo pessoal. — Com o que mais tem a ver?

— É... Complicado. — Henrietta é quem estava incomodada desta vez. — E mesmo que eu estivesse a fim de explicar, não temos tempo a perder agora.

A gótica mais jovem se aproximou das portas em alguns passos. Tocou a maçaneta de uma delas com receio. Bem... Não poderia enrolar com isso para sempre.

— Vão embora. — pediu ao grupo, soando mais como uma ordem. — Não quero que me vejam passar por isso.

— Está certo. Vamos respeitar o seu momento. — Michael deu o comando para que seu pedido fosse cumprido. — Boa sorte se misturando com conformistas, mas não se esqueça a que princípios você pertence.

— Seja forte. — Shelly desejou a ela, deixando dois tapinhas leves em suas costas antes de partir junto aos demais.

“Ah, eu serei...” disse para si mesma mentalmente, melhorando seus ânimos. “Vamos ver por quanto tempo dura minha paciência com você, Simons.”

Determinada a seguir com este circo até o fim, Henrietta empurrou uma das portas, entrando na quadra abruptamente, sem mais rodeios. Obviamente, todas as garotas usando uniforme que se reuniam no centro do lugar pararam tudo o que faziam, exclusivamente para vê-la se aproximando.

Mesmo que caminhasse corajosamente na direção delas, Henrietta se limitava a olhar para o chão. As roupas que subiam por seu corpo a cada passo dado eram postas por ela constantemente no lugar certo, sem nenhuma paciência. Suas meias três quartos estendidas ao máximo, brancas com três faixas verdes no topo, incomodavam e apertavam suas panturrilhas grossas de uma maneira que nenhuma de suas meias calças estilosas um dia foram capazes. E os tênis brancos horríveis, cedidos como empréstimo do grêmio esportivo, faziam um barulho maçante em contato com o piso e já não eram mais brancos há muito tempo.

Ignorando o foco que recebia das animadoras ao juntar-se a elas, olhou no rosto de todas as cinco. Convenientemente, todos os rostos e aparências eram reconhecidos de sua infância. Tendo a análise feita, notou a falta de uma em especial.

“Só cinco?” refletiu rapidamente. “Pete não estava brincando. Quase ninguém mais dá a mínima para ser uma cheerleader desprezível. O mundo está melhorando mesmo, afinal.”

— Onde está a Simons? — Henrietta perguntou sem interlocutora específica. Seu tom severo acabou por diminuir os olhares atravessados que recebia; era bem nítido o que todas pensavam a seu respeito.

— Não deve demorar a chegar — uma garota de cabelos vermelhos medianos, quase rosados, respondeu sua questão. — Ela disse que tinha alguns assuntos a resolver.

— Ei, não estivemos na mesma mesa do Casa Bonita no sábado passado? — questionou uma loira de cabelos longos e bastante cacheados. Era a única a usar na lateral da cabeça um laço de fita combinando com o uniforme.

— Verdade, você estava bem acanhada naquele dia. — uma garota de cabelos negros muito lisos, com uma boina francesa rosa sobre a cabeça, mencionou este detalhe. — Eu... Não esperava ver você participando das líderes de torcida. Era a última coisa que eu poderia imaginar, por causa... Do seu estilo, você sabe.

— É, eu também não estava esperando por isso. — Henrietta bufou em irritação, soprando uma mecha curta de cabelo do rosto.

— Espera aí — a única negra em todo o grupo, com um majestoso black power de tamanho médio, estreitou os olhos com uma recordação. — Não foi você quem colocou o McCormick em seu devido lugar?

As líderes presentes, exceto por uma, se puseram a suspirar e cochichar entre si com admiração. Se dando conta do olhar fixo que permanecia recebendo desta exceção em especial, Henrietta arqueou uma sobrancelha e a olhou de volta. Esta também tinha cabelos loiros, porém escuros, e possuía um arco preto fino sobre eles. Não usava nem de desprezo, nem de benevolência para encarar a gótica, somente um olhar duro que não transparecia emoção.

Ao analisar suas lentes de contato vermelho vivas e os salpicos de purpurina nas bochechas, a justificativa da afronta foi encontrada. Henrietta se pôs a encará-la de volta com repugnância.

— Permita que eu me reapresente — a que usa boina voltou a falar com a notívaga, agora em alto e bom som. — É um prazer te rever, Henrietta Biggle. Graças a você, aquele babaca teve o que merece e ainda parou de incomodar as garotas.

— Não tem de quê. Eu acho. — Henrietta deu de ombros. No início, se sentia ligeiramente incomodada por estar sendo reconhecida, mas tudo o que ouviu a respeito de Kenny ter merecido estava eliminando este sentimento. — Quer dizer... Como alguém pode cair na conversa dele? Foi literalmente a tentativa de aproximação mais patética que já vi.

Um silêncio constrangedor se instaurou, onde as moças agora encabuladas olharam umas para as outras.

— Digamos que um guepardo bem treinado sempre sabe o momento certo de atacar a corça. — a loira cacheada explicou com uma metáfora.

— Quando está vulnerável. — complementou a ruiva, em sintonia.

— Que merda, hein. — a gótica comentou, inabalável.

— É. Total. — a garota com o black power assentiu por todas. — Se souber a hora certa de atacar, nem é preciso ser um bom caçador.

Um burburinho confuso passou a ser ouvido dos corredores, roubando todas as atenções. Junto à mistura de vozes, vinham sons de passos. Muitos deles, cada vez mais próximos. Henrietta, supondo o que poderia estar a caminho, foi tomada por uma raiva genuína. Seu rosto fervendo e seus punhos fechados tremulando pela ira.

Confirmando o que esperava, Jenny Simons abriu as portas da quadra com um único empurrão, possuindo um sorriso desafiador nos lábios. Seguido dela, estava todo o seu pequeno exército de falsos sanguessugas. O período da escolha de clubes fez os números do grupo vampírico, antes composto por apenas dez, dobrar sua capacidade.

Como se essa quantidade de gente para formar uma plateia não bastasse, Jenny também trouxe consigo praticamente todos os rapazes do time de baseball semiprofissional da cidade, exceto pelo que estava em casa se recuperando de um “acidente alimentar”. E todos, todos os garotos de sua classe.

Henrietta não conseguia crer em como a líder vampira podia ser tão suja... Tão baixa... Por tão pouco.

— Por favor, sentem-se e apreciem o show! — Jenny recepcionou seus convidados numerosos, direcionando-os para as arquibancadas nas laterais da quadra. — É uma pena que a liga das torcedoras esteja tão em falta de participação este ano mas tenho certeza de que, quando nos virem em ação, irão nos considerar peças essenciais nos intervalos do grande jogo desta temporada.

Se este fosse outro tempo, os jovens rapazes de South Park não teriam dado a mínima para assistir garotas praticando qualquer tipo de atividade física. Jamais deram tanta atenção para os ensaios das líderes ou para os jogos da liga de vôlei feminino quando eram crianças. Agora que os tempos são outros, boa parte dos rapazes foi convencida a estar presente e desperdiçar este tempo da tarde apenas pelo prazer de ver alguns rabos de saia.

Olhares debochados foram trocados entre as torcedoras quando constataram a presença do loiro de quem falavam há pouco. Desejavam rir, pois percebiam que ter Henrietta por perto, de certa forma, o aquietava.

Que porra é aquela? — dentre as várias pessoas que se sentavam nos bancos altos, Henrietta pôde ouvir esta frase vinda de um desconhecido que se vestia feito vampiro.

Ele fez esse comentário sem qualquer discrição para outro sanguessuga ao seu lado. Claramente, ambos voltaram o foco para a gótica no uniforme apertado, e caçoavam com sussurros e risadas de sua visão. Ao notar que não apenas os dois, mas todos os vampiros a olhavam e trocavam comentários maldosos entre si junto a risos baixos, a raiva de Henrietta se expandiu mais e mais, acompanhada dolorosamente pela mais pura vergonha.

Entre a multidão, acidentalmente, ela avistou o verdadeiro culpado de toda a sua situação. Seu rosto, antes fervendo pelo ódio, se transmutou para uma sensação mais amena, mas não melhor: seu rosto ardia por vergonha.

Junto aos três conformistas de seu grupo, Eric Cartman estava lá. Estava lá, e iria vê-la nesta condição deplorável, assim como todos os outros. Formando um semblante miserável, Henrietta desvencilhou seus olhos dele e refletiu com angústia: “Quanto mais tento fugir... Piores as coisas ficam.”

— É... Dizem que preto emagrece. — distante, entre seus colegas, Craig zombou da gótica de forma que somente eles pudessem ouvir.

Acabou por arrancar risadas modestas de muitos, inclusive de intrometidos que escutavam a conversa de fora. As arquibancadas tinham capacidade de receber muitas pessoas e, mediante o excesso de espaço, mesmo próximos o bastante uns dos outros, os rapazes podiam se sentar desleixados, em andares diferentes e numa completa desordem.

— Cuspindo no prato que tentou comer, Craig? — Kenny caçoou em resposta, embora também tenha visto graça em seu comentário. — Se bem que você nem foi homem o bastante para tentar ainda.

— E nem pretendo, que se foda a sua aposta. Essa mulher é um mau presságio, quem tenta chegar perto sai na merda. Você se fodeu, Clyde se fodeu e eu não vou ser o próximo.

— Vai arregar logo agora? É um cuzão, mesmo.

— Pode dizer o que quiser, ambos sabemos que eu não dou a mínima. Sem contar que você fez propaganda enganosa. — o moreno formou uma pequena expressão de nojo. — Olhem só pra aquela coisa...

— Aposto que tem mais celulites nas coxas dela do que se têm crateras na lua. — Token agregou valor ao comentário anterior.

— Mas é um esforço fodido que vocês fazem pra gostar de mulher. — Cartman zombou com um sorriso cínico, inconscientemente aborrecido. Sua fala foi ignorada.

— Ela p... E-ela p... — Jimmy se esforçava para concluir sua piada. — Ela p-parece um pernil enrolado num barbante. — ao conseguir terminar, exibiu um grande sorriso.

— Uau, cara. Essa piada foi mais pesada do que o Cartman em cima da Henrietta. — fechando o debate com chave de ouro, Craig acrescentou a sentença final.

Sem pudor algum, vários se puseram a gargalhar. Risadas que se espalharam rapidamente entre outros ao redor conforme as próprias piadas internas que trocavam acerca do mesmo assunto. Em questão de tempo, o riso geral se reuniu numa melodia cruel. Desconcertada, Henrietta retornou seu olhar para o aglomerado de pessoas que a depreciavam.

A gótica selou os olhos, tomando fôlego com uma longa respiração. Não estava mais tão envergonhada, ou com a mesma raiva. Desejava apenas acordar em sua cama e se dar conta de que esse pesadelo chegou ao fim. Jamais se importou da mesma forma que os conformistas com a opinião alheia, e isso continuaria acontecendo até o fim de sua vida. No entanto, uma opinião lhe parecia importante... E se odiava com todas as forças por estar pensando desta maneira.

Assim que encontrou Cartman com os olhos novamente, sentiu aquele estranho calor em seu coração. O ritmo cardíaco passava por inúmeras falhas. Diferente dos outros, ele não ria. Possuía uma expressão séria no rosto, talvez até mesmo de incômodo, e não parecia compactuar com a imaturidade dos demais. Ele apenas se reclinou em seu assento e começou a teclar em seu celular, imperturbável... Como se quisesse confortá-la.

A comoção trouxe umidade aos olhos. Os lábios dela tremeram por segurar o surgimento de um pequeno sorriso. Mas por que ele estava fazendo isso?

— Jenny. Será que, bem... — iniciou a loira com cabelo enfeitado por um laço. — Não tinha um uniforme melhor para entregar à Henrietta? Sabe melhor do que nós que não se pode treinar com roupas desconfortáveis.

— Não posso fazer nada quanto a isso, Bebe. A organização da escola não estava preparada para receber uma “Cheerleader Extra G”. — Jenny respondeu com toda a naturalidade, antes de dirigir seu foco para a vampira que havia encarado Henrietta anteriormente. — Lola, pode buscar os pompons?

— Sim, minha senhora. — Lola assentiu com a cabeça, saindo de seu até então silêncio para obedecer à ordem da líder e dirigiu-se até uma das portas aos fundos da quadra.

A ruiva do círculo revirou os olhos com a obediência cega da braço direito de Jenny. Ela e Lola costumavam ser mais amigas, união esta que perdurava da infância, até que a segunda decidiu fazer parte do estilo de vida “dark” dos vampiros e passou a dedicar mais de seu tempo à superior.

— Isso não foi nada legal da sua parte, Jenny. — a morena de boina encarou a líder vampira duramente, com uma frieza de congelar os ossos.

— O que foi, soberana das feminazis? Virou crime pedir um favor à minha amiga?

— Você sabe que não é disso que estou falando.

— Oh, que bonitinho... Tomando as dores por ela, Testaburger? — Jenny caçoou, aproximando-se de sua desafiante. Os olhares trocados geraram um clima perturbador no ar, tão denso que talvez pudesse ser tocado.

Excluindo Henrietta somente, as demais animadoras sabiam quais motivos levaram a líder dos vampiros a ter aversão à garota de aparência francesa: Jenny não aceita nada bem as novas moças por quem seu ex-namorado se interessa, assim como não tolera nada bem as antigas. Algumas lamentavam pela tensão do momento; outras, queriam que aquela bobagem terminasse. Henrietta apenas observava Simons, sem nem tentar disfarçar o seu repúdio.

— Você é tão infantil... — Wendy desdenhou com ar de superioridade, não se deixando abalar.

— Eu sou? Só te fiz uma pergunta, caso não tenha percebido. E se ela está tão incomodada — mirou na gótica com o canto dos olhos. — Por que não deixa que se resolva por si mesma?

Completamente farta de toda a cerimônia que acontecia, Henrietta se aproximou das duas.

— Se pensa que vou continuar usando essas roupas ou que vou cantar e dançar feito uma palhaça desajustada — semicerrou os olhos para ela. — Você vai precisar me conhecer melhor, Simons.

Jenny, retomando o sorriso dissimulado, uniu as mãos para indicar que a gótica com traje apertado havia conseguido sua atenção.

— Veja bem, “Beagle” — a vampira fez um trocadilho com seu sobrenome, levando mais alguns espectadores a rir. — Como capitã das líderes de torcida, fiz uma grande bondade em te aceitar conosco. Você deveria ser mais cuidadosa com o que diz.

— “Cuidadosa”? Cuidadosa é o cacete, sua vampirinha desgraçada. Enche o cu de glitter, usa presas de plástico e acha que tem moral pra colocar medo em alguém? Vá se foder.

Mesmo enfurecida, Henrietta manteve parte de seu tom pouco emotivo para se manifestar. As garotas reagiram à afronta com espanto, e os observadores nas arquibancadas se empolgaram com a possibilidade de uma briga. Embora a vampira se esforçasse para esconder, era nítido para a gótica que sua reação nada passiva teve sucesso em amedrontá-la.

“Alguém que late mais do que morde?” Henrietta sorria por dentro. “Que amadora.”

Para manter sua compostura, Jenny levou uma mão ao peito, como se demonstrasse valentia numa reação falsa de temor.

— Bom. Sendo assim, posso te remover das torcedoras também. Com certeza você vai conseguir se virar esse ano com a falta dos pontos extracurriculares — a vampira debochou com um sorriso. — Se é que você quer alguma coisa da sua vida, né.

Desconcentrando-se do que fazia no celular por um instante, Cartman moveu os olhos para ambos os lados torcendo para que ninguém o fitasse naquela ocasião. Lembrou-se de uma frase que não considerava exatamente justa ou verídica, mas que usou para tirar sarro do grupo dos góticos enquanto Henrietta sequer estava na cidade e ainda namorava Jenny Simons: “A diferença entre góticos e hippies é a cor das roupas e o que fumam.”

Henrietta teve um longo momento de pálpebras unidas e respiração ritmada para normalizar os nervos novamente. Querendo ou não, a infeliz estava certa. Porém... Os pontos extracurriculares são por participação no clube, não por ser uma excelente integrante. Pode continuar com isso, caso venha a ser a pior líder de torcida que o mundo já conheceu.

— Pois é. — prosseguiu com a discussão. Mesmo usando da calma adquirida, a primeira frase foi dita de dentes trincados: — Eu preciso desses pontos... Mas não vou continuar me sujeitando a usar essas roupas. Você não é cega, está vendo que não me servem direito.

— Meu bem, o que quer que eu faça por você? Já falei que não temos nada do seu... — olhou-a de cima a baixo. — ...Porte.

— Dá teu jeito. — de olhos semiabertos, forçou um sorriso nervoso. Não se deixou levar pela tentativa de ofensa. — Ou quer que a coordenação saiba que você está tentando expor uma aluna ao ridículo? Depois disso, pode apostar que você não vai conseguir liderar nem a merda que caga.

Simons piscou. Estava sendo ameaçada? Não, não poderia ser. Não achou que Henrietta fosse usar de sua brincadeira para denunciá-la aos superiores da escola por danos morais.

Um sorriso de orelha a orelha brotou no rosto de Jenny, destacando completamente as próteses pontiagudas em seus caninos. Ela tinha a solução.

— Eu já volto. — declarou, apenas para em seguida caminhar até o mesmo local de onde Lola retornava.

— Perdi alguma coisa? — agora tendo uma caixa abarrotada de pompons em mãos, a segunda loira no grupo perguntou.

— Nada demais. Só uma guerra entre facções. — respondeu a garota negra.

Em meio ao silêncio desagradável, cortado por um ou outro sussurro dos observadores, a gordinha se espantou ao ouvir um espirro vindo das portas de entrada. Ao se voltar para a direção do ruído, sua capacidade de raiva extrapolou todos os limites possíveis: Pete, Shelly, Firkle e até mesmo Michael (“Vamos respeitar o seu momento”, ele disse) estavam espiando por uma fresta das portas entreabertas. Estiveram espiando a porra do tempo todo.

Ao perceber que foram notados e a expressão furiosa de Henrietta, o quarteto começou a correr para longe em disparada. Se fosse fisicamente possível, tamanha a sua fúria, os cabelos da gótica estariam em chamas. Baixou o rosto e apertou-o nas mãos, puxando a pele maquiada para baixo e borrando-a. Queria estrangular cada um deles, queria socar cada um até a morte.

Jenny retornava a passos largos. Diferente de Lola, não tinha demorado a encontrar o que precisava no depósito. Em seus braços trazia algo grande, de tecido, com cor predominante branca e manchas pretas, num formato bizarro que Henrietta não foi capaz de identificar à distância. Quando se posicionou à frente da gótica, Jenny ergueu o objeto acima de sua cabeça e o encaixou, sufocando sua adversária ideológica por um instante e não permitindo a ela qualquer tempo de reação.

Tratava-se do “elmo de honra” da mascote de South Park: uma grande cabeça de vaca, feita de feltro e espuma, com uma aparência caricata.

O interior daquilo fedia a decomposição, lixo e ao suor de muitas gerações. Era impossível respirar normalmente ao usá-lo e o riso alheio era abafado antes de chegar aos seus ouvidos. A ira da gótica seria o bastante para fazer aquele capacete de vaca liberar vapor pelas ventas, às quais por acaso eram as únicas vias por onde conseguia enxergar o mundo exterior.

— Veja pelo lado bom — Jenny fingiu doçura, afastando-se para vê-la melhor. — Além de te servir perfeitamente... A fantasia vai combinar com você.

Se a situação não pudesse vir contra ela e não houvesse tanta gente para testemunhar um desastre, Henrietta teria voado no pescoço da vampira e esmurrado sua maldita cara até que suas mãos esfolassem. Ela, que opta por ser socialmente ignorada, será o assunto mais cômico do ensino médio por muito, muito tempo.

Se Simons considera que este é um jogo de humilhação e território... Havia envolvido nele alguém sem disposição alguma para recuar. Iria descobrir isso, e da pior maneira.

Do lugar onde estava, um Cartman ansioso enviava mais mensagens pelo celular. Sua impaciência o forçou a spammar pontos até que seu destinatário finalmente visualizasse ou se irritasse. Sempre detestou depender da ação dos outros e sempre detestou envolver incompetentes em seus planos; por ironia, estas duas coisas sempre aconteceram. Seu aproveitamento estratégico iria por água abaixo se a peça indispensável para este acontecer demorasse mais. Ou pior: não aparecesse.

— Ué — Butters piscou, sentindo-se perdido ao reparar em quem chegava na quadra. — Pessoal, aquele não é o...?

— Cara — Kyle, incrédulo, expandia seus olhos diante da cena. — Não acredito que ele vai mesmo fazer isso.

— Ora, ora — Kenny caçoou. — Mais uma coisa em que ele conseguiu te superar, Craig: além de pelo menos ter tentado cumprir sua parte na aposta, está cumprindo o desafio.

— É... Grande mérito. — Craig respondeu com sarcasmo. — Tem que ser mesmo muito homem pra ter coragem de se vestir de mulher. Certo, Stan?

O ex-gótico e seu amigo judeu optaram por ignorar, ainda que perturbados. Querendo ou não, alguém sempre viria a lembrá-los.

Enquanto, com muito sufoco e sacrifício, Henrietta removia seu capacete pavoroso de mascote, Kenny pensava num meio para cumprir sua meta e desviar as atenções em torno de seu fracasso. Não esperava que Clyde viesse hoje para cumprir o trato, e isso pouco lhe importava: a quadra estava cheia de espectadores, e isso adiantaria muito o seu trabalho. Mirou o olhar em Clyde, levou o polegar e o dedo médio aos lábios, assoprou para gerar um assovio estridente e, a plenos pulmões, gritou:

Ô GOSTOSA — assoviou outra vez para dar ênfase. Depois de conseguir fazer Clyde ganhar todo o foco do público, foi incapaz de não reclamar consigo mesmo em seu tom natural. — Puta merda, que visão do inferno.

Agora com um motivo melhor para rir, tanto a audiência quanto as líderes de torcida tiraram vários celulares dos bolsos para registrar a cena de todas as formas possíveis. Para cumprir o trato dentro das exigências de Kenny, Clyde estava ultrapassando a definição de grotesco: uma peruca castanha mal encaixada e despenteada sobre a cabeça, um uniforme amarrotado e curto, meias três quartos em suas pernas peludas vestida de forma desalinhada e, finalizando o show de horrores com chave de cu, uma maquiagem péssima que parecia ter sido feita no escuro por uma pessoa com mal de Parkinson em sua face mal-humorada.

— Me dá essa merda aqui — Clyde praguejou ao furtar dois pompons da caixa de Lola.

— Meu Deus todo poderoso — Jenny, assim como Henrietta, não sabia como reagir ou o que pensar sobre aquilo. — Clyde, que porra você ta fazendo?!

— Olha, longa história. Isso só vai durar hoje, então vamos acabar logo com isso. Bota uma música pra tocar, me passa o grito de guerra de vocês, qualquer porra que vocês fazem.

No momento em que Clyde se colocou em posição como as outras, se deu conta de que Henrietta estava entre elas, e o vigiava. A frieza naqueles olhos pesadamente maquiados o petrificou até a alma. Sua força de vontade e autoconfiança para cumprir o acordo de uma vez foram ralo abaixo, substituídos pelo medo de ter os dedos quebrados ou algo pior. Todos os acontecimentos fizeram-no esquecer completamente da existência dela.

— Você não estava se recuperando do acidente com os nachos, seu fracassado? — a gótica alfinetou-o com palavras de forma tão ácida que o fez engolir em seco. — Tem ideia de tudo o que seu descuido provocou desde aquela noite?

— Desculpe — sua voz esteve tão fina que, se houvesse se vestido decentemente, seria capaz de enganar a muitos. Não se sentia seguro para discutir com ela esta questão.

— Não fale comigo. — e, prontamente, Clyde desviou seu olhar. — Está com sorte, desajustado. Acho que a vida já te puniu o bastante, e bem mais do que eu faria.

— Ta, ta, chega, se manda. — a líder vampira enxotou Henrietta com um abanar de mão. — Qualquer retardado pode ser mascote. Vá praticar em outro lugar para não nos atrapalhar e apareça só quando precisarmos de você. Ainda bem que está aqui, Clyde, precisamos de uma torcedora que não faça a escola tremer quando pular.

Agora, mesmo as garotas que até então estiveram impassíveis seguraram risinhos. As unhas pintadas de preto da gótica quase feriram ela mesma quando suas mãos apertaram-se em punhos, reprimindo a necessidade de desferir um soco. Andou até Jenny e apontou um dedo em seu rosto, fazendo as outras meninas instantaneamente recuarem.

— Escuta aqui e escuta direito, sua va... — teve um lapso de realidade durante a sentença, paralisando em suas palavras. Com uma calma repentina, largou no chão o capacete da fantasia e ergueu as mãos, fingindo dar-se por vencida. — É, você tem toda a razão. Estou indo.

Deu meia volta e se pôs a caminhar, com um enorme contentamento em seu coração. Que se foda a vampirinha, que se fodesse esse uniforme, que se foda tudo isso: sem perceber, Jenny deu tudo o que Henrietta mais queria: estava livre. Por ora, livre. Ainda não era o fim, ainda precisaria ser a mascote, mas estava livre.

— Vá pela sombra... Se couber nela. — a capitã adicionou, deixando com satisfação completa a última palavra na discussão.

Se Jenny não tivesse se virado para dialogar com as moças sob seu comando... E com Clyde... Teria visto que Henrietta se interrompeu em seu caminho. Apertou com força seus olhos fechados, contou até dez mentalmente, fez o possível e o impossível para manter a calma. Caso contrário, daria meia volta outra vez e só iria descansar quando visse o rosto da vampira deformado e suas presas embebidas pelo próprio sangue.

Ao se sentir tranquila o bastante para abrir os olhos, Henrietta piscou algumas vezes. Olhou, por um instante, para as pessoas. Então, notou algo que era relevante apenas para ela: mesmo que estivesse estática, praticamente ao centro da quadra, destacada e exposta, usando roupas ridículas, alterada após ter seu tipo físico humilhado... Ninguém mais dava atenção a ela. Ninguém mais tinha interesse em sua desgraça.

Clyde estava mais ridículo. Clyde estava mais interessante de se zombar. Clyde estava sendo o espetáculo principal. Jenny armou para que ela fosse um motivo de piada e, agora, Henrietta foi simplesmente banida para o esquecimento das pessoas. Seu vexame se reduziu ao passado, e não teve que fazer absolutamente nada para que isso acontecesse.

Alguém teve que fazer. Alguém precisava ter a ver com isso.

Tão rápido quanto começou a procurá-lo, conseguiu encontrá-lo. Quando o olhar de Henrietta cruzou com o de Cartman, seu corpo gelou com o choque e seu peito aqueceu de apreensão por finalmente estabelecerem um contato visual direto.

Ele.

Como se oferecesse uma confirmação para suas impressões, num semblante convencido ao extremo, Cartman ostentou um meio sorriso. Com uma sobrancelha levantada e um olhar astuto, sua expressão era quase sadista.

“O bastardo... Sorriu pra mim?”

* * *

Um controle novo para seu console, a promessa de não zombar dele pela situação que viria e o empréstimo de alguns de seus jogos: esta foi a condição para que Clyde saísse do conforto de sua casa apenas para cumprir um trato que sequer envolvia seu negociador.

Cartman jamais foi de oferecer recursos demais numa troca. Não emprestaria aqueles jogos nem ao melhor entre seus amigos, o que era um alívio, já que este posto pertence ao Kenny e ele sequer tem onde jogar agora que seu velho PSP foi vendido. Entretanto, diante das circunstâncias, aquele parecia um acordo justo e compensador: havia matado mais coelhos numa cajadada só do que seria capaz de contar.

As coisas caminhavam exatamente como ele queria. Podia ter fracassado na reaproximação no auditório, mas não havia fracassado desta vez. Queria ser o centro das atenções daquela gótica, nem que fosse por um momento, e foi perfeitamente capaz disso. A livrou de um constrangimento aproveitando-se novamente da aposta que Kenny propôs – e, um dia, quando puderem conversar sobre esse aproveitamento mútuo de falhas, poderão relembrar e rir desses tempos, quem sabe.

E, talvez, o mais importante: diferente de muitas garotas inseguras e fracas, viu que Henrietta sabe se impor sobre Simons. Mesmo que não a tivesse ajudado, ela saberia ter se virado sozinha. Sua independência o impressionava.

Adivinhar o que estava acontecendo não tinha sido complicado. Era como se sua convivência com Jenny tivesse transmitido para ela uma de suas características de infância: tinha disposição para foder com os outros, amedrontar os outros, por motivos banais. Patty provavelmente deve estar irada com ele por tê-la envolvido em seu plano de exibição do violino para Henrietta e, neste processo, acabar por fazê-la sair de seu clube de música apenas para não precisarem conviver juntos. Bem, paciência; uma boa guerra jamais termina sem baixas. A Simons pode até ter conseguido deixar a gótica na situação que queria, mas o constrangimento que ela passou não durou o esperado.

Enquanto se inclinava num bebedouro do corredor, o gosto na boca de Cartman não era apenas de água intoxicada com cloro, mas de vitória. Um plano bem-sucedido, junto à satisfação de ter feito algo bom para aquela bipolar. E um adendo: ainda que ajudar Henrietta não tivesse estado em seus planos desde o início, teria bolado algo da mesma forma. Não deixaria outra pessoa gordinha ser diminuída abertamente daquela forma sem haver devolução. A ajuda que ofereceu foi a ajuda que ele gostaria de ter recebido nas vezes em que precisou, e satisfação é a palavra que se une ao seu sentimento de ter servido justiça.

Henrietta poderia fazer de tudo para cortá-lo de sua vida, mas não poderia cortá-lo de seu mundo. Cedo ou tarde, ela virá até ele por si própria. Valerá à pena ver isso acontecer.

Olhando para o chão enquanto tem sua água de forma descontraída, Cartman franze o cenho ao ver um par de botas negras parar ao seu lado. Continuou a beber tranquilamente, como se nada surpreso, para somente então se erguer e olhá-la com toda a serenidade que sua cara de pau pôde oferecer.

Certo... Esperava que viesse até ele por conta própria, mas não esperava que isso aconteceria tão cedo.

Henrietta estava com os braços cruzados e as pernas juntas. Trocou o uniforme para seu traje do dia a dia, com seu colar de crucifixo exposto, diferente de como estava enquanto vestia as roupas inadequadas. Ela voltava o rosto ligeiramente para baixo, recusando-se a abrir os olhos, e seus lábios com batom roxo escuro se encolhiam num bico irritado.

De todas as palavras do mundo para descrever esta cena, por incrível que lhe pudesse parecer, Cartman conseguia relevar uma acima de qualquer outra: fofa.

— Pois não? — perguntou com uma seriedade que não pensou que pudesse demonstrar nesta situação.

A gótica abriu os olhos, mas os esquivou dele. A mente dela estava uma verdadeira bagunça. Sentia-se uma estúpida por estar ali, mas precisava esclarecer tudo aquilo ou não conseguiria dormir durante a noite. Quem ainda estava na escola preparava-se para ir embora, afinal, já haviam perdido tempo demais; mas lá estavam eles, próximos ao bebedouro feito dois idiotas desocupados.

— Como? — Henrietta finalmente perguntou, com estresse evidente, não deixando claro o que queria perguntar.

— Como o quê?

— Como você... — tomada pela raiva, após sacudir a cabeça em negação, não mais se conteve em olhá-lo cara a cara. — Como você pôde namorar aquela vampirinha sem sal?

Silêncio recíproco para uma pausa. Cartman piscou duas, talvez três vezes, não tendo estado pronto para essa.

— ...Quê? — por melhor que tenha tentado, não conseguiu evitar: o tremular discreto em sua voz e seu sorriso nada contido deixaram notório o quanto ele queria rir.

— E você ainda acha graça?! — se aproximou para empurrá-lo uma vez com a lateral dos punhos, mas tudo o que conseguiu foi fazê-lo rir verdadeiramente. — Imbecil! Eu sei de tudo. Sei que você foi o culpado da Simons comandar os babacas dos vampiros e sei tudo o que você disse a respeito de nós góticos para conseguir isso.

— Henrietta, veja bem: eu precisava de algo convincente para deixá-la no comando. — ergueu as mãos de forma segura, mostrando que não possuía remorsos. — Foi uma escolha errada, eu não fazia ideia do que ia causar, mas só me arrependo daquilo que não faço.

— Que ótimo, muito obrigada! É isso o que você pensa de nós, então? Uns “viadinhos de preto que só falam sobre dor”?

— Não. Eu não sei nada sobre a porra dos góticos, só precisei de algo pra colocar mais vampiros no grupo.

— Se você não sabe nada sobre nós, não saia falando merda por aí. Num dia fala mal de góticos, no outro faz parecer que sou fascinante... — para mascarar sua decepção, aproveitou-se de sua raiva. — Pensei que você fosse mais do que esse tipo de conformista, Eric. A boa impressão que teve de mim, sua gentileza... Foram todos falsos.

— Não, Henrietta. — opôs-se novamente, com toda a sua honestidade. — Eu não mentiria para tentar te impressionar. Eu pareço burro? Tá na cara que você não é alguém que se deixa levar por isso. Já parou pra pensar que eu poderia entender seu estilo de vida se você não me afastasse sem motivo nenhum?

Aquele bico zangado nos lábios, quase cômico, que considerava típico da gótica, foi substituído por uma linha reta melancólica, com lábios apertados e infelizes. Ele não poderia compreender.

Ter namorado Jenny, ter feito dela a líder de um grupo que ultrapassa a linha da babaquice... São todas coisas que ela não consegue e jamais conseguirá engolir. Entretanto, nada disso teria sido pior do que saber que este alguém, por quem sempre teve admiração justamente por se diferenciar dos demais, não passa de mais um conformista barato. Estava decepcionada de um lado, porém tranquilizada de outro.

Henrietta deveria estar ainda mais irritada por ter seus argumentos refutados, mas... Sentia-se tão bem por ter tido essa conversa...

— De qualquer forma... — Cartman tentou mudar de assunto para normalizar as coisas. Se tudo isso significava que podiam ficar bem um com o outro novamente, ele que não perderia tempo demais em dramatizar. — Que bom que decidiu não me chamar mais pelo sobrenome. Acredite, você só seria mais uma na fila do ódio.

— Heh. Pois é, né — encabulada, passou uma mão pela nuca, dando graças a qualquer deus existente por estar melhor maquiada e o vermelho em seu rosto não poder ser evidenciado.

Aquele sonho tinha sido bem convincente. Sua descrença em fantasias bonitinhas de adolescente sobre sonhar com a pessoa amada colaborava para diferenciar sonho de realidade, mas ainda assim era algo constrangedor a se lembrar. Concentrava todas as suas energias em não se lembrar dos detalhes; o cheiro do rapaz à sua frente já não estava ajudando nisso.

— Tem mais uma coisa. — ela prosseguiu antes que se esquecesse. — Eu sei que foi você, Eric. Eu vi você.

— Eu? Eu o quê? — fez-se de desentendido.

— Não se faz de sonso, tá legal? Eu sei que você fez o Clyde se foder no meu lugar.

— Bem perspicaz da sua parte ter percebido, tô surpreso. Como descobriu?

Um ruído curto, semelhante a um riso debochado, escapou de Henrietta sem sua autorização.

— Acho que um metódico reconhece outro. — sorriu de canto, olhando para baixo por um segundo. — Como fez aquilo, Eric? Por que fez aquilo?

— Digamos que eu me aproveitei dos planos de alguém. — deu de ombros. — E não entendi o que quis dizer. Por que eu não faria?

— Talvez porque eu fui uma cuzona com você e não merecia sua ajuda?

Desta vez, foi a vez de Cartman rir brevemente e com desdém.

— Você não tá sendo sentimental demais pra uma inconformista?

— É, eu sei. Que desgraça.— levou uma mão à testa, enfurecida novamente. Seu estado de confusão o divertia.

— Esquece isso, tudo bem? Não importa mais. Mas será que, pelo amor de Deus, você poderia não fazer isso de novo?

— Se eu não precisar, eu não vou. — respondeu simplesmente, com sua sombria e costumeira falta de humor.

— Se não preci...? — piscou atônito, incapaz de repetir as palavras por inteiro. — Henrietta, faça um favor ao universo e me explique de uma vez qual é a disso tudo. Esse suspense já deu o que tinha que dar.

— Hm. — a gótica fingiu pensar, voltando os olhos para cima e pondo o indicador em seu queixo. — Não tô a fim. Adeus, Eric.

Com uma retirada nada dramática, Henrietta deu meia volta e começou a ir embora com seu andar orgulhoso na intenção de deixá-lo lá, plantado e boquiaberto. Queira admitir ou não, os embates que tinham eram sempre divertidos, e poderia acostumar-se com isso. Podia ter se sentido uma verdadeira rainha da estupidez ao ter quebrado seu voto de silêncio para com ele, mas não se arrependia.

Poderia aprender a administrar esta relação amigável, a não se deixar envolver e a ter controle sobre os sonhos impróprios. Fugir de seus medos feito um gato assustado em vez de enfrentá-los era algo tão conformista a se fazer que se perguntava como foi capaz disso durante tantos anos. Estava se tornando mais forte, estava amadurecendo seu modo de pensar, e isso pode ser relatado em sua tabela de resistência e evolução.

Contudo, inesperadamente, quando se afastou de Cartman por apenas um metro e meio... Um aperto quente e macio em sua mão esquerda a fez parar em seu lugar. Estática feito uma vítima de pane cerebral, se sentiu aquecer e congelar ao mesmo tempo com o ato surpreendente, se é que isso é algo humanamente possível. Se virou para o rapaz lentamente, viu sua expressão desentendida porém não reprovadora, e olhou para baixo: suas mãos esquerdas, seguras uma na outra, estavam unidas de maneira tão cuidadosa que um desavisado os confundiria com um casal compartilhando um momento doce de romantismo.

Já havia segurado a mão de Eric antes, quando ele a ajudou a se levantar daquela fonte. Não tinha sido como agora. Definitivamente, não era a mesma coisa. Dúvidas, raiva, insegurança, os desgraçados dos morcegos no estômago, ela não sabia o que suportar primeiro.

— Eric. — Henrietta uniu as pálpebras, desdobrando-se numa luta interior para se manter paciente. — Que porra você pensa que está fazendo?

— Eu não fiz porra nenhuma, você que segurou a minha mão. — ainda que zombasse deste fato, acabou sendo contaminado pela grosseria.

— Não segurei nada, foi você.

— Ainda tá segurando.

— E você também está!

Compartilharam um olhar ríspido e frustrado. Ao enxergar através de Eric, Henrietta avistou dois garotos aleatórios os observando ao fim do corredor; um deles, claramente, vampiro. Numa tentativa desesperada, a gótica tentou puxar seu braço para conseguir separá-los, e nada além de ter movido Cartman por inteiro em alguns milímetros aconteceu em resposta. De fato: uniam as mãos reciprocamente, e não conseguiam comandá-las.

O rapaz, a respeito de si mesmo, sabia muito bem quem era o responsável por isso estar acontecendo, pelo menos de sua parte, e não fazia ideia de como poderia tocar nesse assunto com ela sem parecer esquizofrênico. Porém, definitivamente não esperava isso da outra, e isso lhe roubara as palavras.

Assustando a ambos, fora de seu controle, Cartman a puxou para si. Qualquer distância que antes existia entre seus corpos foi aniquilada. A princípio, o impacto os desnorteou; o braço esquerdo de Henrietta, preso à mão de Eric, estava dobrado atrás de seu corpo, mantendo-a confinada num abraço de via única.

A surpresa do momento os deixou sem reação. Não conseguiam deixar de olhar nos olhos um do outro. Olharem também para seus respectivos lábios era inevitável, e uma torrente de lembranças de sonhos a atormentava. Os seios dela estavam tão pressionados contra seu peito que Cartman foi incapaz de não pensar em coisas demais, e não se importaria em se sujar com aquele batom escuro; seria bem mais interessante com ela estando consciente desta vez.

— Aí — um dos garotos que os assistiam, usando roupas comuns, gritou apontando para uma direção com o polegar. — O motel fica pra lá.

— Talvez prefiram o aquário da cidade, é lá onde acasalam as orcas. — somou o vampiro.

— Tomar no cu vocês não querem, não é?! — Henrietta cortou o contato ao se afastar para enfrentá-los, ainda com Eric preso à sua mão. — Saiam daqui, seus fracassados!

— Corre que a Free Willy tá puta — o primeiro a tê-los incomodado pronunciou, antes de pôr-se a correr com seu colega.

Cerrando os dentes, a gótica demorou alguns milésimos para voltar à realidade e virar-se para sua companhia. Os olhos dela se moveram para suas mãos juntas e para o rosto dele, diversas vezes, em total pânico. Desesperadamente, num momento fugaz, Henrietta pegou de forma desajeitada o isqueiro em sua bolsa e o acendeu com um riscar de unha, passando a chama sob suas mãos unidas e queimando a ambos. Teve sucesso em separá-los ao fazer Cartman recuar, protestando em forma de grito silencioso. Henrietta bateu em retirada a passos largos, levando consigo mais confusões mentais para lidar.

“Estava tudo indo tão bem...” foi o único pensamento de Eric Cartman, frustrado, com dedos pressionados no nariz e um Mitch convulsionando para suportar a queimadura, enquanto ela ia embora sem olhar para trás. Estava cogitando seriamente a possibilidade de arrancar fora a sua mão esquerda e substituir por um gancho; isso teria sido mais útil.

Quando Henrietta já estava bem longe, Cartman arrependeu-se por não ter perguntado sobre algo que poderia vir a precisar e há muito não tinha notícias concretas: o paradeiro de seu terno.

* * *