Malaxophobia

13 Incômoda existência


Henrietta estava consciente de que guardava um lenço no bolso interno do sobretudo, mas para que perder tempo pegando-o se podia limpar o chocolate em suas mãos no terno de Cartman? Dito e feito. Não seria mais uma preocupação dela assim que o terno fosse devolvido ao respectivo dono. Sem mais pesadelos, sem mais lembranças daquele-que-se-deve-evitar.

Não teve qualquer dificuldade em entrar na escola. A porta da frente estava destrancada, com as correntes que deveriam estar bem amarradas nos puxadores caídas no chão. Certamente alguém responsável pela vigilância da escola estava presente e Henrietta não ousaria ficar tempo o bastante para quem quer que estivesse ali descobri-la.

A madrugada avançava. Com a lanterna do celular produzindo uma iluminação quase insignificante pelo caminho, Henrietta subia as escadas do prédio onde estudava. Só precisaria encontrar o armário de Eric e tudo estaria terminado. Porém...

"Eu... Não tenho ideia de onde o armário dele fica." pôs a mão no rosto, indignada com a própria distração. Foi leviana o bastante para não ter pensado justamente no ponto mais alto do seu plano.

Um plano B lhe ocorreu. Foda-se: jogaria o terno na lixeira mais próxima. Na melhor das hipóteses, alguém irá checar as latas de lixo pela manhã, achará o terno e o mandará para o Achados e Perdidos, que devolverá ao Eric. Se não, não seria mais problema dela.

No segundo andar, rumou por um corredor em breu que parecia não ter fim, com a iluminação da lanterna bem mais fraca que antes. Mal podia enxergar um palmo a sua frente e mesmo sua querida escuridão tornou-se incômoda.

Misteriosamente, o corredor tornou-se um pouco mais claro. Sua própria sombra foi projetada extensamente no chão à sua frente. Passos puderam ser ouvidos atrás de si. Duas pessoas subiam as escadas, ambas também com lanternas.

— Tenho certeza de que ouvi passos — disse uma voz obviamente feminina. — Pelas escadas.

— Deve ser o zelador vindo buscar algo que esqueceu outra vez. — aquela sem dúvidas era a voz do diretor. Henrietta ouviu-a vez ou outra nos anúncios matinais. — Não me diga que está com medo.

— Não estou com medo, não zombe de mim — a mulher se defendeu, constrangida. Seu acompanhante riu da situação. — E, bem... Eu preciso ir para casa.

— Não tem necessidade, garanto que não há perigo nenhum por aqui.

— Não preciso ir embora por medo, é por meu filho que deixei em casa. Sou eu quem precisa acordá-lo pela manhã todos os dias e está bem tarde, não acha?

— Seu filho tem idade o bastante para acordar sozinho há muito tempo, não me preocuparia tanto se fosse você. Deixe que ele lide com suas obrigações, é quase um adulto.

— Você não deve conhecer muito bem o meu filho... Digamos que ele não faz questão alguma de ter responsabilidade com os estudos.

Henrietta devia se apressar. Por sorte, avistou uma lata de lixo próxima a uma porta. Foi até ela na esperança de ter tempo de descartar o casaco do terno, dar a volta pelo patamar e sair pela escada lateral sem ser detectada.

Assim que chegou perto da lixeira e deixou o terno cair em seu interior, a porta ao seu lado se abriu e um par de mãos cobriu sua boca, puxando-a para o pequeno cômodo bem mais escuro que o corredor. Ela ouviu a porta ser trancada e recostou, estática, no que parecia uma pia.

Precisava admitir a si mesma que estava em pânico. Não gritaria nem se quisesse e nem se pudesse, porque ainda havia mãos cobrindo sua boca. O espaço era mínimo para buscar escapatória. Tateou as paredes buscando qualquer coisa para se defender, quando as luzes foram acesas.

Aquele era o banheiro para funcionários. Foi revelado o raptor.

— Etta, sou eu — sussurrou o gótico com a longa franja avermelhada cobrindo metade do rosto.

— Pete! — seu sangue ferveu.

 Shhh — pediu silêncio, com um dedo nos lábios. — Eles podem nos ouvir.

— Pete, eu pensei que ia ser estuprada e morta! Perdeu o juízo?!

Shh... Por favor...

— "Shhh"? Que "Shhh" nada! Você não faz "Shhh" pra mim! Ninguém faz "Shhh" pra mim!

Em desespero, Pete voltou a cobrir a boca de sua amiga, que mordeu sua mão sem piedade. Ele teve que cobrir a própria boca desta vez.

— Está vendo? Não tem nada. — disse o diretor para a moça junto dele do lado de fora. O som dos passos estava mais alto. — Não precisa ter medo enquanto eu estiver aqui.

Combinada com a dor, Pete tinha repulsa no rosto depois do que foi dito. Os dois góticos aguardaram o som dos passos sumirem antes de continuarem a falar.

— Poderia me dar licença? — Pete pediu a ela, que ainda estava encostada na pia. — Preciso desinfetar minha mão antes que eu pegue raiva.

— Oh, não me faça rir. — cruzou os braços. Mudou de lugar a duros passos. — Você tem problemas, não é, garoto?

— Problemas pelo quê? — abriu a torneira e começou a lavar a mão mordida. As marcas deixadas pelos dentes de Henrietta ficaram muito bem feitas e um pouco de sangue saía na parte afetada pelos caninos. — Por ter te ajudado?

— Você poderia ter me ajudado de outro jeito, sabia? De muitos outros, por sinal.

— Sinto muito se não sou metódico feito você. Um "obrigada, Pete" seria o suficiente já que eu poderia simplesmente ter deixado você ser pega, mas como seu orgulho não permite...

— Sai pra lá com sua chantagem emocional! Todos estão a fim de me estressar. Já aconteceram coisas demais comigo num mesmo dia e não vai ser você a acabar com a paciência que me resta.

O gótico não disse absolutamente nada. Suspirou, decepcionado. Fechou a torneira e encarou as marcas em sua mão, sem em momento algum virar-se e olhar para quem deu a última palavra. Henrietta torceu seus lábios, como de costume, sentindo-se culpada assim que percebeu quão desnecessário foi seu surto de raiva. Mais alguns segundos de silêncio absoluto.

— Aquela com o diretor era sua mãe? — perguntou com voz calma, encarando o chão na tentativa de fingir que a pequena discussão que tiveram segundos atrás jamais existiu.

— É. — a olhou por cima do ombro. Sua voz voltou a ter o desânimo de sempre. — Anda, vamos sair daqui. Preciso de um café.

— Onde pretende tomar café a essa hora?

— O Village Inn ainda deve estar aberto.

— Posso fazer algumas perguntas assim que chegarmos?

— Será uma honra responder a cada uma delas. — Pete sorriu brevemente enquanto saíam do banheiro minúsculo.

Caso Pete fosse uma garota, ainda estaria ressentido pela discussão. Provavelmente ficaria sem conversar com Henrietta por algum tempo. Seriam espalhados boatos sobre a gótica de cabeça quente ser uma vadia ingrata e, claro, falsa — designação favorita de qualquer garota com ódio por outra, ainda que não faça o menor sentido ou se encaixe com a situação. Que dúvidas ela poderia ter sobre Pete ser um amigo fácil de lidar?

Qualquer garoto lhe parecia fácil de lidar antes de ter retornado a South Park. Desde então, todos os garotos exceto seus amigos lhe soam extremamente desagradáveis.

* * *

O Village Inn, assim como o Benny's, foi um Café muito frequentado pelo quarteto gótico durante a infância e continuou frequentado pelos góticos restantes quanto tornaram-se um trio. E enquanto trio, continuaram sentando-se à mesma mesa em todas as vezes, com um lugar especial sempre faltando. Comentários constantes eram feitos ao notarem que o lugar que permanecia vazio era o dobro do espaço necessário de Michael ou Pete num assento. Saudades disfarçadas de zombaria era o nome disso.

O café do lugar é inferior ao do Benny's, mas ainda assim não pode ser descartado. Oportunidades para o grupo inteiro se reunir no Village Inn outra vez viriam. Por ora, a presença dos dois melhores amigos do grupo estava excelente.

Estavam sentados frente a frente, numa mesa à frente de uma janela tão extensa quanto uma vitrine de loja. Flocos de neve caíam lentamente do lado de fora. O céu escuro aos poucos tingia-se de vermelho conforme os primeiros sinais do amanhecer. Para se aquecer, os dois góticos seguravam suas xícaras de café com as duas mãos e o consumiam com uma lentidão característica. Com o conteúdo das xícaras pela metade, Henrietta fez a primeira pergunta.

— O que você estava fazendo na escola? — olhou nos olhos de Pete, com uma sobrancelha arqueada.

— Pergunto o mesmo a você. — bebeu mais do café.

— Quando responder a minha pergunta, penso em responder a sua.

— Não comece, Etta...

— “Será uma honra responder às suas perguntas”, ele disse. — rolou com os olhos. — É só responder. Perguntei primeiro, então é justo.

Pete suspirou, olhando dentro de sua xícara.

— Estava seguindo minha mãe. Sabe... Para protegê-la.

— O diretor de uma escola se envolvendo com a mãe de um aluno? Isso é um belo de um conformismo fodido, na real.

O gótico balançou a cabeça em afirmação, desta vez com um olhar desolado encarando o cair da neve.

— O que aconteceu? — Henrietta prosseguiu com as perguntas. — Seus pais se separaram, assim como os pais do Michael?

— Não necessariamente. — voltou a olhar para sua amiga. — Meus pais vêm passando por uma fase difícil há bastante tempo. O diretor conheceu minha mãe na última reunião de pais e professores do ano passado e não desgruda dela desde então. Não acho que minha mãe tenha contado a ele que é casada. E, se contou, o diretor não parece se importar.

— Pete... Isso tudo é uma merda. — apoiou o rosto nas mãos, compartilhando do sentimento do outro. — Isso do diretor chamar sua mãe pra passear na escola à noite é comum?

— Não sei. Só hoje que acordei no meio da noite e escutei conversas na sala de casa. Quando reconheci a voz do diretor e ouvi a porta da frente abrir, não tive escolha senão segui-los. Quando entrei na escola, os perdi de vista. Entrei no banheiro dos funcionários para aguardar até que eu os ouvisse passar por mim outra vez.

— O diretor já tentou algo de verdade com a sua mãe?

— Pode ser que sim, assim como pode ser que não. Se eu descobrir que ele tentou... — apertou sua mão num punho bem fechado.

— Quebre as pernas dele se isso acontecer. Eu te ajudo, e Firkle vai dar ótimas dicas de como prolongar o sofrimento do bastardo.

Pete riu brevemente.

— Já deixei claro o quanto é bom ter você de volta?

— Não, mas eu percebi. — ela se deixou levar por um meio sorriso antes de sorver mais do café.

— E sabe o que me deixa mais puto? Não é a primeira vez que o diretor tenta algo com a mãe de alguém. Da última vez, a escola inteira o viu com a mulher e todos comentavam sobre isso, exceto nós góticos, é claro. Por não estarmos tão integrados no assunto quanto os conformistas, só descobrimos a razão de toda aquela especulação quando o diretor se afastou de vez da mulher e nunca mais cruzou o caminho dela. Era a mãe de um conformista da nossa sala, e vamos dizer que ele e o diretor não se dão bem desde o incidente do Clube do Neonazismo. Cartman, se me lembro bem.

Henrietta engasgou com a bebida. Tossiu diversas vezes, na tentativa de voltar a respirar. Usou alguns guardanapos na mesa para limpar o café que sujou seu rosto.

— Você está bem? — Pete perguntou, preocupado e ao mesmo tempo espantado.

— Estou. — tossiu outra vez e tornou a beber o café com leve tremor nas mãos.

É como perseguição. Ela pode se afastar dele o quanto quiser, mas a fama de Cartman na escola, na cidade, estado, país, mundo... Sempre, de alguma maneira, ele virá para atormentá-la e lembrá-la de sua incômoda porém impactante existência.

— E... Como sabia que era eu? — ela mudou rapidamente para outra pergunta.

— Como eu...?

— Quando eu estava passando por perto do seu esconderijo. Como sabia que era eu ali? Foi tudo tão rápido que você não teria me ajudado se não tivesse certeza absoluta de que era eu.

— Bem... — passou a mão na nuca com o nervosismo. — Por que não responde o que a levou ali antes de eu responder outra pergunta?

— Tive insônia, decidi fazer um passeio noturno e avistei você entrar na escola. O segui por curiosidade. — mentiu, sentindo-se mal por isso. Mentir é fácil apenas quando não é para uma pessoa querida. — Sua vez.

— Tive certeza de que era você pelo som do seu andar. Não posso deixar de reparar nisso quando ando com você.

— O que tem de errado com o jeito que eu ando? — encarou-o friamente.

— Nada. — ergueu as mãos como defesa. — É porque é seu jeito de andar.

— E o que seria o “meu” jeito de andar?

— Seu jeito de andar, ora. É o seu jeito, não sei explicar. Você anda de tal forma e ponto final.

— Você é tão estranho, Pete. — cutucou o resto de café já frio no fundo da xícara com uma colher. — Mas sua esquisitice me salvou, então não posso te julgar.

Ela ergueu o rosto, fazendo seu olhar encontrar o de Pete. Trocaram o mesmo olhar por bastante tempo. Pete só então encontrou um momento tranquilo onde pudesse perceber algo que jamais vira antes: a gótica não estava usando nenhuma maquiagem, porque assim que levantou da cama somente calçou as botas, vestiu o sobretudo e saiu. Seu cabelo se encontra preso e, desta forma, Pete pode ver cada detalhe de seu rosto. Cada feição e cada imperfeição em sua exclusividade. Desde marcas de espinhas nas bochechas até a cor natural rosada dos lábios. Sem tanta maquiagem, seus olhos parecem muito menores do que o esperado. Uma Henrietta normal, sem nada excepcional, mas com sua originalidade.

E, para Pete, a beleza que Etta possui é especial. Como um padrão de beleza próprio. Algo único, assim como seu jeito de andar.

Enquanto Pete se perdia, Henrietta pensava e repensava, alheia a toda a tensão do momento. Desde que saiu do auditório com Patty e Eric em sua lista negra, vem se perguntando como pode mudar de clube e não sofrer com as presenças indesejáveis do clube atual pelo resto do ano. A resposta para seus problemas estava à sua frente.

— Pete — ela o chamou abruptamente, cortando o momento. — Preciso de um favor seu.

* * *

Uma cômoda antiga, um pôster raro da Nascar e seu velho PSP. Coisas das quais Kenny precisou abrir mão para totalizar a quantia necessária para um ingresso para o show dos Jonas Brothers. Com isso, ficou certo de duas coisas: uma delas é que valeu a pena. A outra é que precisa mesmo de um emprego.

Um novo dia escolar comum. No momento, Kenny se encontra satisfeito por sua atitude recente, guardando livros em seu armário. Satisfeito com sua atitude porque, ainda que não tenha conseguido o perdão de Tammy, fez uma boa ação e foi espontâneo ao dizer que suas intenções com a garota eram boas. Dignas. O show ocorreu na noite passada, logo, lembrar-se de sua atitude era gratificante. Ele espera que Tammy tenha ido e se divertido.

Além de satisfeito, Kenny estava esperando, assim como todos os garotos cientes da situação, pela ocasião mais aguardada do semestre: o retorno de Clyde e o cumprimento da aposta.

Clyde recebeu alta após consumir os nachos com pimenta questionável e o Casa Bonita está aliviado por não precisar arcar com um processo. Finalmente, serão cessadas as perturbações quanto ao fora que ele recebeu de uma certa gótica e as atenções serão dadas a outra pessoa, como planejou.

Parou de pegar livros e colocá-los em sua mochila surrada quando sentiu alguém cutucar seu ombro fracamente, como se esse alguém estivesse apreensivo. Ao se virar, lá estava Tammy, usando uma camiseta dos Jonas Brothers. Uma lembrança do show.

— Oi, Ken. — evitava olhá-lo.

— Oi. — se virou para o armário outra vez, o trancou e fechou sua mochila. — Como foi o show?

— Foi... — inspirou antes de se permitir dizer. — Foi o melhor dia da minha vida. É ótimo assistir a um show normal, sem o apelo que eles tinham quando trabalhavam pra Disney.

— Legal. — sorriu.

Tammy olhou para os dois lados do corredor nem tão vazio.

— Olha, Ken. Direto ao ponto, eu andei pensando bastante e confesso que o que você me disse me comoveu. Aquilo de estar se esforçando pelo meu perdão.

— Que bom. — começou a andar com Tammy logo atrás. — Mas minha intenção não era comover você, espero que saiba disso.

— Eu gostaria — o segurou pelo braço. — De dar uma chance a você. Você errou, Ken, mas não acredito que você possa ser uma pessoa ruim. Ninguém no mundo é totalmente ruim.

— Ainda não consegui provar que tô bem longe de ser ruim, não é?

— Não, não conseguiu. Prefiro me certificar disso eu mesma. — pegou algo no bolso.

— O que é isso?

— Ingressos. Um pra você e outro pra mim. Se quiser... Podemos sair, conversar, nos divertir... E resolver todas essas questões pendentes entre nós.

Kenny se impressionou com o que acabou de ouvir. Pensava ele que estava tudo perdido e que tinha fracassado com Tammy; agora, isso. Ele não poderá deixar passar a oportunidade. E não poderá falhar.

— Seria ótimo, Tammy.

— Mesmo? Sem ressentimentos? — expôs seu aparelho ao sorrir.

— Se você não tiver, por mim tudo bem. — se juntou a ela. — Ingressos para o quê e que dia será?

— Lembro que você apreciava um pouco a ópera quando éramos mais novos e, convenhamos, você tinha um dom para isso. O máximo e o mais próximo que consegui foram estes ingressos para um musical da Broadway que vai rolar aqui na cidade daqui a duas semanas.

* * *