Malaxophobia

37 Coragem líquida


No passar das semanas, a neve diária foi substituída por chuvas torrenciais. Os pinheiros por toda a cidade se tornaram alaranjados e marrons e o vento gelado cortava a pele. Com a chegada da nova estação, também se aproximava o evento que muitos adolescentes esperavam com ansiedade: o bendito baile anual.

O ensino médio estava um alvoroço. Na grande noite, adolescentes adentravam a escola em trajes formais acompanhados de seus pares, e pobres daqueles que não conseguiram um par. Mesmo do lado de fora, a música pop animada e dançante podia ser ouvida. Sobre a fachada, estava a faixa do 13º Baile de Outono de South Park High.

Entre os presentes, estava Kenny McCormick. O trabalho na loja de esportes, providenciado por Tammy e seu ex estranho, lhe garantiu o aluguel de um belo terno. E estava com o cabelo arrumado, para variar. Achava que sua companhia merecia vê-lo apresentável.

Antes de pisar na quadra ricamente decorada, o loiro respirou fundo. Conforme ele e Tammy eram vistos juntos, de braços dados, as garotas os olhavam com desaprovação.

Dando os primeiros passos com ela pelo local, Kenny olhou de canto para a Warner. Em seu longo vestido marsala, com algumas bijuterias douradas nos pulsos e pescoço e cabelos presos tal como na noite do musical, estava linda. Mas, mais do que isso: parecia muito tranquila e segura, como se os olhares das colegas não a afetassem. Isso enchia o coração dele de esperança.

Porém, o que Kenny não notava era que as encaradas fatais não iam na direção dela. Eram todas para ele, única e exclusivamente.

Na última assembleia do Comitê, Tammy dialogou com as colegas. Depois de convencê-las, puderam chegar a um acordo juntas. Henrietta Biggle pôde ter sido capaz de silenciá-lo, mas Tammy parecia a única, de alguma maneira, capaz de mantê-lo sob controle. Perto dela, o McCormick parecia outra pessoa.

Inicialmente, não pareceu justo: depois de tudo o que fez, Kenny aparentemente sairia ileso. Mas, ao final da reunião, compreenderam: a situação mais parecia com uma grande e sutil vingança pessoal. Tammy estaria trazendo justiça a todas elas.

Depois de entregar um copo colorido com ponche à morena, Kenny se viu aéreo ao contemplar seu brilhante, perfeito sorriso. O aparelho ortodôntico fez mesmo maravilhas, a autoestima dela parecia ainda maior.

— Isso ainda parece meio surreal. — próximos à mesa de bebidas, Kenny comentou antes de beber do próprio copo.

— Como assim? — Tammy inclinou levemente o rosto para o lado. A visão de seu pescoço nu chamou inevitavelmente a atenção dele.

— Estarmos aqui. Depois de tanto tempo. — desviou o olhar. — E depois de tudo.

A garota tocou-o no ombro. Fez um gesto como se estivesse limpando a poeira do terno, até Kenny perceber que ela na verdade deslizou a mão até a dele. Sentindo os dedos delicados da Warner, o rapaz tornou a olhá-la.

— Fico muito contente pelo seu avanço. — lhe sorriu novamente. Um sorriso suave, com carinho. — Ken. Quanto a mim, hoje entendo que você era só um garotinho com hormônios à flor da pele. Viu uma oportunidade em mim e quis aproveitar, e quando se cansou de esperar procurou por outros meios. Isso é bem maquiavélico, hoje entendo por que você e Cartman são amigos.

Kenny exibiu um sorriso sem-graça. Contra fatos não existiam argumentos.

— Naquela época, você já era babaca. — ela prosseguia. — Bom, sem ofensas. Sei que tá tentando melhorar.

— Ofensa nenhuma. — deu de ombros.

— Bem. Apesar de tudo, acho que chegamos a gostar um do outro de verdade. Nós tivemos ótimos momentos quando crianças, que não tiveram qualquer maldade.

— É. É verdade. — sorriu mais vividamente. — Eu gostava de passar o tempo com você. De falar com você e olhar pra você. — teve uma pausa para reunir coragem. — ...Isso não mudou.

Tammy ampliou os olhos levemente. Kenny ficou aguardando por alguma reação, alguma resposta, mas o início de uma música mais lenta ao redor roubou as atenções. Era a popular “I Wanna Be Yours” de Arctic Monkeys; quando essa começa nos bailes estudantis, é a canção que separa os meninos dos homens.

Ofereceu a mão a ela. O coração palpitando. A viu hesitar um segundo. Gelado, Kenny temeu a rejeição. Então, sorridente e inconscientemente acalmando-o, ela aceitou o convite. Caminharam juntos até mais ao centro da quadra.

Kenny era um dançarino mais ou menos habilidoso. Precisou desenvolver essa aptidão, pois não era a primeira vez que trazia uma garota ao baile – embora anteriormente as intenções fossem outras. Não sabia se devia se surpreender ou não ao constatar que Tammy também não era nada má. A conduzia calmamente e era correspondido no mesmo nível.

Por ser mais alto agora, Kenny olhava-a um tanto de cima. Os rostos a uma distância respeitosa, porém suficiente. Se perdeu e mergulhou em olhos castanho-claros.

Já não fazia mais sentido negar a si mesmo que estava atraído por Tammy Warner.

Chegar a essa conclusão não foi nada fácil. Desde sempre, o McCormick sentiu atração pela maioria das mulheres, nunca houve grandes requisitos. Exceto quando se tratava de mulheres com grandes seios, grandes bundas e grande disposição sexual – não tinha distinções, mas essas lhe agradavam mais.

No entanto, depois de Tammy, nenhuma outra garota lhe despertava esse apetite sexual desenfreado. Nem as que via na pornografia; simplesmente não parecia se atrair por nada.

Tammy era bonita, mas nada espetacular. Ao menos, nada que a destacasse nas multidões. Tanto que, de início, quando ela reapareceu após tantos anos, Kenny a considerou feia e estranha, ainda mais com aquele aparelho nos dentes. Sendo magra, apesar das curvas sutis e belas, Tammy tinha pequenos seios e nada mais que chamasse a atenção. Era bonita, mas comum.

E Kenny gostava dela, com todas essas características. Bastava ouvi-la falar para ver toda a beleza que não via antes, para valorizar detalhes que nunca valorizou. E era aí que morava a sua dificuldade: estava se apaixonando por uma pessoa, não por um corpo. Isso, sim, para ele era surreal. Com Tammy, a mera visão de um pescoço – não de peitos – era capaz de balançá-lo.

Tammy Warner, com sua condição financeira similar a dele – e com disposição sexual similar à dele, embora executadas de maneiras diferentes – se parecia exatamente com a garota que ele estava procurando, mas ainda não sabia. Pois, quando a encontrou novamente depois de sete anos, carregando uma reputação de pegador para disfarçar que nasceu um fracassado pobre e continuava a sê-lo, Kenny sentia um vazio que não conseguia compreender.

Precisava arriscar. Se estava indo bem até então, tinha que tentar. Pelo que conheceu sobre ela, Tammy encontrava namorados com relativa facilidade. Mais do que isso: diferente dele, Tammy estava no último ano e em breve se formaria. Não podia deixá-la escapar entre seus dedos; Kenny não sabia se suportaria.

Tocou a face da Warner. De início, ela pareceu surpresa, mas não recuou. Então, Kenny começou a se aproximar. Os rostos a milímetros de distância.

De olhos selados, o rapaz hesitou um pouco. Queria ter certeza de que queriam a mesma coisa.

Quando ela agiu, ele não soube exatamente o que sentir. Tammy também o tocou no rosto. E o beijou demoradamente no canto dos lábios.

Sentindo o toque dela, Kenny quis envolvê-la e beijá-la com ardor. Mostrar a ela o quanto a queria, o quanto doía não poder tê-la para si. O quanto doía, certamente e com razão, por ela não acreditar que ele também queria ser dela. Queria mostrar que o valor que nunca deu às garotas no geral, queria dar a ela.

Entretanto, estático, se conteve. Porque não tinha direito a nenhuma dessas coisas.

— Eu também gosto de você. — Tammy disse olhando em seus olhos. — Gosto demais, muito mais do que antes. Mas ainda é cedo, Ken. Muito cedo.

Num pequeno sorriso, o loiro fez o possível para mascarar sua decepção. Devia ter esperado por isso. Estava tão acostumado a conquistas fáceis que acabou por se afobar.

Bem. Não era uma decepção completa. Tammy o correspondia, afinal. Significava que ele estava mesmo progredindo, e ela podia ver isso. Ao menos por enquanto, era o bastante para acelerar seu coração.

— Você manda, Tam. — com uma expressão plena, disse simplesmente.

Viu os olhos da morena brilharem. Assim que ela apoiou a cabeça em seu ombro e o abraçou ao redor do pescoço, encerrando qualquer distância entre os dois, Kenny não mediu esforços para envolvê-la de volta.

Da maneira que estavam, prosseguiram com a dança. Olhos fechados e corações calmos, num mesmo ritmo.

Se Kenny a queria, desta vez, teria que cumprir verdadeiramente com o tratado silencioso de paciência. Um pegador apaixonado, na seca e preso em rédeas: justiça para suas vítimas.

Isso pode nunca ter sido dito em voz alta. Mas ambos já não queriam se relacionar com outras pessoas.

* * *

Ao fim do baile, sentado nas escadas da quadra com a gravata afrouxada e com Tammy apoiada em seu ombro, ambos terminando seus últimos copos de ponche batizado – afinal, sempre há alguém rebelde que consegue entrar na festa com álcool – Kenny chegou a se perguntar por onde Cartman andava. Não viu nem sinal dele a noite toda.

Só então, se lembrou de que ele agora namora sua própria versão feminina e sombria. E góticos detestam o baile de outono. É a festa que estraga o mês do Halloween, segundo eles próprios.

A quilômetros dali, o antissemita e a gótica estavam. Se Henrietta não estava a fim de ir a uma festa, não deixariam de aproveitar a noite. Bastava que fossem a outra.

Em pesquisas online, Eric encontrou o lugar. The Underground Cave, um clube noturno praticamente escondido no grande centro de Denver, estava avaliado como “excelente discotecagem”, “lugar de gente interessante” e “responsável por manter a cena gótica do Colorado viva”. Não pensaram duas vezes.

Sendo um clube noturno, a entrada de menores não era permitida. Cartman providenciou identidades falsas com a fonte certa, é claro. Também preparou um bom suborno caso o Plano A não funcionasse, porém não foi necessário. Com roupas pretas e expressões austeras, se passaram facilmente por maiores de idade.

Henrietta esteve se corroendo de ansiedade para essa noite. Anos como gótica e nunca esteve num lugar como esse. Até então, sequer sabia da sua existência: se ela e os amigos conhecessem o The Underground antes, teriam dado o sangue para estar lá, com ou sem restrição de idade.

No Reino Unido dos anos 1980, lugares como The Underground foram responsáveis por afirmar o gótico como uma subcultura e cena urbana. Desde a popularização da internet, é possível estudar essa cultura e se identificar como gótico no conforto de casa, mas naquela época isso seria impossível. Para ser e entender o gótico, era preciso estar na noite.

Vendo-a à frente dele, descendo as escadas estreitas até o subsolo, Eric a admirava. Por mais que tentasse esconder, Henrietta estava animada como uma criança numa loja de doces. Parecia conhecer muito bem a música sombria e abafada, porém animada, que tocava no salão abaixo.

Muitos podiam considerar o estilo de Henrietta como exagerado. Vendo-a verdadeiramente “montada” para um evento gótico, o rapaz percebia que as roupas em que a via sempre eram bastante casuais. A gótica estava num longo vestido decotado, botas plataforma, um corset que marcava perfeitamente a cintura e acentuava os quadris, um cinto de couro com tantas argolas e cruzes prateadas penduradas que não se prestou a contar, muitos anéis nos dedos, braceletes de couro e prata nos pulsos e muitos colares no pescoço sobrepostos uns aos outros, repletos de símbolos místicos e lovecraftianos. Os braços pálidos e as mãos estavam cobertos pelo mesmo material de meias arrastão, dando um contraste bem interessante ao todo.

A maquiagem escura da gótica também estava mais carregada que o normal, com muito destaque aos olhos, e o cabelo parecia um pouco mais volumoso, quase um ser vivo. Em primeiro momento o arranjo poderia parecer uma bagunça, mas conseguia ser estranhamente harmônico. Eric, em contrapartida, usava o mesmo traje militarista de outras horas, que perto dela parecia quase simples. E quando finalmente chegaram no espaço em que a festa acontecia, ele compreendeu: aquilo era a cena gótica.

No ambiente escuro e gelado, tomado pela música, luzes estroboscópicas, decoração macabra e fumaça artificial, as pessoas em trajes negros e cabelos extravagantes formavam um verdadeiro espetáculo do exagero e do bizarro. Era mais impressionante que nas fotos da internet. Underground Cave reunia pessoas excêntricas sendo elas mesmas, sem julgamentos.

Enquanto caminhavam pelo local procurando onde ficar, pelo menos três mulheres góticas, em idades que podiam facilmente ir dos 19 aos 50, elogiaram o visual de Henrietta. Para a surpresa do casal, todas sorridentes e com um alto astral palpável. A casca mal-humorada da garota acabou se quebrando, levando-a a agradecer e elogiá-las de volta.

Tinha um espaço com exaustores onde fumantes podiam ficar, mas uma minoria estava nele. Também havia um bar – esse bem mais movimentado – e alguns assentos em semicírculo aos fundos, separados por divisórias. Grupos de amigos se sentavam neles vez ou outra para beber e conversar, mas a maioria, verdadeiramente, ocupava a pista de dança. Tinha algo de mágico nos estranhos movimentos dos góticos ao ritmo da música.

Encantada pela qualidade musical, Henrietta observou a cabine da DJ. As avaliações não exageraram, a seleção era boa mesmo. Avistando quem estava por trás da discotecagem, e quem a acompanhava à frente da cabine com um cigarro nos dedos, arregalou levemente os olhos.

— Não são os...? — Eric indagou, olhando na mesma direção.

— Eles, mesmos. — Henrietta respondeu, igualmente pasma. — Mundo pequeno.

— Minúsculo.

Sofia, que no Passe para o Inferno lembrava Morticia Addams, no comando da música mais se parecia com Elvira, com um cabelo volumoso no topo da cabeça, maquiagem intensa e um vestido negro e justo com um decote profundo. A maioria dos piercings pelo rosto de que Henrietta se lembrava da infância, e que Sofia removia durante o trabalho, estavam de volta. Grief, com seu cabelo imenso, olhos sombreados, trajes de couro e vinil com muitas fivelas e seu cigarro aceso, não estava muito diferente do que os dois se lembravam. Vestir-se como bem queria na Luv2Pain fazia parte da liberdade de ter o próprio negócio.

Depois de olharem-na tão fixamente, Sofia conseguiu avistá-los mesmo na multidão. Encolheu os olhos antes de reconhecê-los. Sorrindo, disse algumas palavras ao Grief, que automaticamente também os olhou. O gótico veterano chamou-os com um aceno de mão.

Se entreolharam com suspeita. Então, foram na direção deles.

— Mas veja só. — Grief, apoiado na cabine, falou primeiro. Um sorriso mínimo em seus lábios. — Vão me dizer que são só bons amigos, agora?

— Não tenho mais esse privilégio. — Henrietta respondeu, seca.

Cartman a fitou. Sem retribuir esse olhar, mas o sentindo, ela controlou um pequeno sorriso.

— Não vão tentar nos expulsar por sermos menores de idade. — o antissemita afirmou aos góticos mais velhos com um tom que parecia simpático, mas que Henrietta percebeu rapidamente o desafio. — Ou vão?

— Até parece. — foi a vez de Sofia falar. — Vão achando que só vocês fazem isso. Nós mesmos fizemos muito na idade de vocês.

— Além do mais, o lugar não é nosso. — Grief complementou. — Somos convidados pra discotecar de vez em quando, e é só. Aproveitem a festa, se perguntarem nem vimos vocês aqui.

— Valeu. — Henrietta agradeceu honestamente, assentindo. Olhou rapidamente em volta. — Tô impressionada com esse lugar. Não pensei que tinha tantos góticos nas cidades vizinhas.

— Muitos de nós têm emprego e filhos, agora. — Sofia explicava. — É natural conhecer a cultura gótica na adolescência, até na infância, mas todo mundo envelhece. Chamam o gótico de fase, dizem que desaparecemos, mas esquecem que o mercado de trabalho pode ser cruel. Em alguns lugares, não dá pra parecer gótico sempre.

— Estamos por toda a parte, crianças. — depois de tragar o cigarro, Grief acrescentava. — Disfarçados. Tentando nos misturar para sobreviver. E, no fim, todo mundo se encontra de novo aqui.

A gótica mais nova entre eles apenas ouvia. Henrietta não entendeu por que exatamente, mas teve um sentimento de esperança. A idade avançando não a impediria de ser quem era.

— ...Lembro de você. — Sofia lhe sorriu. — O seu rosto. Me lembrei assim que você saiu do consultório. Você me dava moedas em WaKeeney, não é? Gostava de me ver tocar.

— É... É isso mesmo. Também reconheci você. Fico surpresa por se lembrar, já faz tanto tempo...

— Eu também fico surpresa. E não só por usar o colar que te dei até hoje. — mirou o crucifixo prateado entre os muitos outros colares. Então, a olhou de novo. — Olha só pra você. Ontem conheci uma garotinha, hoje vejo uma mulher. Precisei te atender no fim do mundo de South Park pra descobrir o seu nome depois de todos esses anos e ainda te encontro como uma gótica.

— Saiba que você foi minha primeira referência. — sorriu de canto. — Você e as personagens trevosas que via na TV. Mas ao vivo e sem cores? Só você.

— É uma honra ter te inspirado. Você também deve inspirar muita gente, não tenha dúvidas. — a satisfação da gótica veterana era clara. Por dentro, Henrietta ficou levemente constrangida. — Mas, e aí? Ainda gosta de violinos?

Diante do silêncio da garota, Cartman decidiu tomar a dianteira. Imaginava que ter desistido das aulas de violino há tanto tempo por conta de um garotinho babaca ainda a envergonhasse.

— Ela gosta, sim. — disse. — Pode não parecer, mas também sei tocar. Ela tem aprendido uma coisa ou outra, só gosta mais de violoncelos agora.

— Ah, isso também é legal! Que bom que encontrou seu próprio caminho. Henrietta, certo? Depois pego seu contato com o Grief, vou a lugares com minhas amigas que você e as suas também podem gostar. — Sofia passava a dar atenção aos aparatos de DJ, selecionando a próxima faixa. — Agora, se não se importam, vou pedir que se mandem. Tenho trabalho a fazer.

Com despedidas casuais, Henrietta e Cartman se distanciaram. Indo juntos até o bar, Henrietta não recuou quando sentiu o toque quente da mão dele arrastar-se por seu braço até alcançar a mão dela, em que segurou. A essa altura, o toque e a presença de Cartman já eram familiares, agradáveis, muitas vezes excitantes. Se um dia achou estranho estar nesse relacionamento, mal se lembrava; se tornava não exatamente impossível, mas difícil, imaginar-se fora dele. Talvez por isso sempre teve tanto medo.

Se sentaram lado a lado ao balcão. Olharam-se; ele com aquele sorrisinho maldoso de lado, ela com um sorrisinho trêmulo e contido de quem sabia o que ele estava pensando. Não faziam questão de consumir bebida alcoólica — pois Henrietta tinha um bebum em casa a que chamava de “pai”, e Eric achava que álcool era para barraqueiros e pobres. Mas, naquela noite, era diferente.

Porque gótico que é gótico gosta de café, mas gosta muito mais de vinho.

A primeira taça foi esquisita, mas aprazível. Era um vinho tinto doce na medida certa e bem fermentado. Em festas como essa, a regra é clara: primeiro servem o melhor. Quando se está alto o suficiente, começam a servir o vinho de qualidade suspeita. Nem dá pra saber a diferença.

Na segunda taça, Henrietta o chamou para dançar. Embora uma névoa alegre já cobrisse os pensamentos de ambos, Cartman ainda se sentia bastante sóbrio. Era grande demais para ser derrubado tão fácil. Dançar nunca foi problema para ele, e já presenciou a dança frenética da gótica como Mascote. Logo, não foi surpresa ter que assumir que ela era mesmo uma dançarina espetacular. Não se parecia em nada com a dança apática que ela fazia com os amigos na infância: ela certamente costumava dançar sozinha, quando ninguém mais olhava. Dependendo da música, Henrietta poderia oferecer tanto passos firmes quanto movimentos leves e etéricos. O antissemita chegava a rir de si mesmo tentando acompanhá-la, desta vez ele que precisaria de aulas.

E, é claro: na maior parte do tempo, vê-la dançar olhando no fundo de seus olhos era uma tentação. Se perguntava se ela sabia o que estava fazendo.

Depois da terceira taça, Henrietta se tornou subitamente sociável. Começou a elogiar a aparência e a dança de outras góticas que passavam por eles. Algumas pararam para conversar, trocaram mídias sociais com a garota e até tiraram fotos com ela como se fossem amigas de longa data. Cartman mal podia esperar para ver todas essas fotos depois; poderia ser cruel, mas torcia para que ela não se lembrasse apenas para ver sua cara.

Antes que terminassem a quarta taça, Henrietta desejou fumar. Chegava a tremer de vontade. Era como se o consumo de uma química a lembrasse da dependência de outra. Eric a afastou da pista de dança, se sentaram juntos nos bancos em meio círculo aos fundos. Entendendo que tocá-la inadequadamente sem mesas por perto e num lugar tão cheio era uma ideia idiota, se contentou em perturbar a mente da gótica até que tremesse feito um pinscher pelo ódio e vontade de matá-lo. Era sua especialidade.

Na quinta taça, Henrietta já estava alegre demais. Qualquer porcaria que ele dissesse a fazia gargalhar descontroladamente, acabando por contagiá-lo e o levando pelo mesmo caminho. Ainda nos bancos, ela usava o quepe de Cartman na cabeça e apoiava um dos pés com a bota a pesada sobre o colo dele. Sem tocarem em celulares há tempos, não faziam ideia de que horas eram.

Apoiando a bochecha num punho, ela o estava olhando demais. Com o quepe torto sobre os cabelos, um sorrisinho de Monalisa parecia brincar nos lábios negros. Segurando uma taça pela metade tal como ela, Cartman a fitou de volta. Teve um longo gole antes de fazer um comentário.

— Que foi? — limpou uma gota da lateral da boca. — Tá querendo me dar?

Dessa vez, Henrietta teve um riso engasgado.

— Você é um verme, Eric. O pior tipo de ser humano. E eu te odeio. — séria, encarava-o profundamente. — Mas gosto de você pelos mesmos motivos. O que me faz te odiar mais. E me faz te querer mais. Isso nem faz sentido. — pensativa, olhava para nenhum ponto específico. Silencioso e discreto, Eric foi tirando o celular do bolso. O arrastou pelo banco com o gravador ligado. Ela tornou a olhá-lo, e ele se fez de inocente. — Já disse que te acho bonito pra caralho?

Bom, essa o pegou de surpresa.

— Não que eu me lembre.

— Porque eu acho. — aquele sorrisinho aparecia de novo. — Dá pra entender por que a Simons não saía do seu pé.

A observação foi interessante. No início desse antigo relacionamento, ao que Eric se lembrava, Jenny Simons não parecia muito atraída por ele. Não fisicamente, pelo menos. Ao todo, ser gordo não atrapalhava em flertes, mas por outro lado também não ajudava. Não achava que sua aparência tivesse sido um fator de influência para que Jenny insistisse. Devia ter mais a ver com outras questões.

Analisava Henrietta por completo. A beleza sombria, o corpo farto e curvilíneo, as pernas grossas cruzadas uma sobre a outra no colo dele. Linda, e muito gostosa. Não foi à toa que a fetichizaram e criaram uma aposta sobre ela quando voltou à cidade.

Vai ver, a tal beleza que viam um no outro fosse realmente individual aos seus olhos. Teriam que fazer muita força pra enxergar no mundo alguém mais atraente.

— E você é bonita pra caralho. — ele respondia, sorrindo. — Já te disse isso?

— De formas diferentes, sim. Mas é sempre bom saber. — teve um rápido gole da bebida. — Porque tô com você, agora. Também vai ter que me aguentar.

Eric recolheu o celular e interrompeu a gravação. Pensou que conseguiria um material constrangedor, acabou conseguindo uma bela memória.

* * *

— Acho que já tá bom, né. — disse o antissemita, divertindo-se. Ajudava a gótica a se manter de pé com um braço em torno dela.

Juntos, deviam ter bebido três garrafas, no mínimo. Só que ele parecia – e estava – bem melhor que ela. A conduzia lentamente para fora de Underground Cave.

— Merda... Eu vou muito me foder. — sustentando-se nele, Henrietta se queixou com voz aérea. — Por que não me mandou maneirar, seu maldito?

— Eu poderia dizer que você não me ouviria, mas eu só não quis perder esse momento.

Eric sentiu a mão dela encostar delicadamente na sua face. Seria um tapa caso ela tivesse forças.

Enquanto bebiam, Cartman até pensou em avisá-la para pegar leve, mas decidiu não o fazer. Sabia que poderia tomar conta dela caso a situação chegasse a esse ponto. E assim fazia.

Se planejaram encher a cara, prudentemente nenhum dos dois dirigiu até ali. Depois de saírem do lugar, entraram no carro que Eric chamou por aplicativo. Sem muita noção de tempo e espaço, pareceram se praticamente se teletransportar a South Park.

Ao chegarem na calçada da residência Cartman, o rapaz saiu do carro primeiro. Estendeu a mão à gótica para ajudá-la a se erguer; no entanto, ela sequer se moveu. Ouviu-a emitir um grunhido e viu seus olhos nublados e estreitos o fitarem como se pedisse por socorro.

Fazendo o possível para não demostrar a graça que via no todo, Eric dobrou-se de forma a sustentá-la no ombro. Henrietta o ajudou no processo, sendo pega e erguida sem reclamar. Algumas coisas mudavam; outras, não.

Por conta do peso, a carregou até a casa com alguma pressa, mas não o suficiente para sacudi-la. Os penduricalhos no corpo dela faziam barulhos metálicos a cada mínimo movimento ou passo. Henrietta estava rendida sobre seu ombro feito uma boneca de pano; tentar deixá-la na própria casa neste estado, à própria sorte, estava fora de cogitação.

Destrancar a porta e entrar foi a parte fácil. A difícil foi subir as escadas. Bravamente, porém sentindo que a qualquer momento a coluna poderia ceder, ele conseguiu. Entrou com ela no quarto e, cuidadosamente, a deixava sobre o lado mais próximo da cama. Podia dizer que o dever estava praticamente cumprido.

Ao deixar Henrietta se deitar quase que completamente, Eric foi surpreendido pelas mãos dela agarrando seus ombros. Atordoado, com aquelas unhas tão fincadas em seu traje, não viu alternativa senão cair sobre ela. Um raciocínio rápido e pôde apoiar-se a tempo nos braços.

Enquanto a observava de cima, a expressão e os olhos de Henrietta não tinham nada da embriaguez de segundos antes. Com lábios entreabertos, aquela expressão fixa e os cabelos rebeldes espalhados pelo travesseiro, o olhava como se quisesse devorá-lo.

Não. Como se quisesse ser devorada.

Cartman se viu incapaz de fechar os olhos quando a gótica puxou sua cabeça para um beijo profundo. Explorava a boca dele com pressa, com fome, como se o quisesse o mais rápido possível. Compartilharam o sabor e o aroma do vinho; era maravilhosamente indecente.

Selando os olhos, não resistiu a beijá-la na mesma intensidade. Apreciava aqueles lábios macios que com certeza o sujavam de preto de novo. Conseguia sentir conforme as mãos que se demoravam em sua nuca, passeando no cabelo, se tornavam quentes. Os dois estavam inteiramente quentes, pra dizer o mínimo.

Henrietta envolveu os quadris dele nas pernas. Ainda que o vestido fosse longo, aquelas pernas grossas, o segurando e pressionando contra si, estavam quase totalmente expostas ao escaparem pela fenda lateral. Ao tocá-la na coxa, Cartman primeiro sentiu a textura rasgada da meia calça, depois a pele suave. Apalpou e apertou a carne macia.

Não teve alternativa. Quando a ereção dele pressionou contra a calcinha úmida, ambos gemeram de necessidade. O membro pulsou dolorosamente nas calças dele, os sexos separados por milímetros de tecido. Eric sentiu água se formar em sua boca apenas com essa amostra, se imaginava a invadindo com perfeição. Vê-la tão necessitada por ele fazia bem ao seu ego; ouvi-la gemer pela primeira vez num lugar que não fosse sua imaginação ou seus sonhos foi demais pra ele.

Sonhos. Por quantas vezes sonhou com isso? O quanto sonharam com isso? Era algo a se pensar, mas não algo que algum deles tivesse em mente. Arfando e esfregando-se contra ele, Henrietta o guiava para que a beijasse entre os seios, a carne pálida exposta pelo decote. Cartman dirigiu a boca até a região sem hesitar.

Distribuindo os primeiros beijos úmidos ali, manchando-a com preto e ouvindo seus gemidos baixos, o rapaz concretizava um desejo de meses. Até que ampliou os olhos numa súbita lucidez.

Estavam juntos há menos de um mês. O que não era um problema, na verdade. Parecia mais que suficiente para isso, não era tão puritano assim.

Na maioria dos amassos deles as coisas esquentavam, mesmo. Era natural. Nunca foram tão longe antes, mas era natural.

Só tinha uma “pequena” coisa: Henrietta não estava sóbria. Aquilo era o vinho falando, não ela. Ao menos, não totalmente.

Vê-la o desejando fazia muito bem ao ego, sim. Ele também a queria demais, de uma forma literalmente dolorosa. Entregue desse jeito, seria fácil tomá-la ali e agora. Seria hipócrita negar a si mesmo que queria.

Mas, se tivessem que fazer isso, queria que ela se lembrasse de cada detalhe. De cada sensação. E de cada suspiro e gemido que liberasse graças a ele.

— ...Etta. — sussurrou com dificuldade contra o pescoço dela. A frustração aumentava conforme se detinha de continuar.

— Hm? — a resposta veio mais como um murmúrio distante.

— Acredite, eu não queria ter que dizer isso — falava com dificuldade, ainda sentindo a pressão dos seios dela em seu peito e as intimidades se tocando. — ...Mas não acho que seja uma boa ideia.

Cartman se ergueu superficialmente acima dela. Ouviu outro grunhido. Então, constatou que a gótica tinha apagado. O som fora um roncar suave.

Suspirou. Isso meio que resolvia as coisas, mas não ficou mais contente por isso. Se distanciou para se sentar à beira da cama, em que coçou a nuca e encarou o velho amigo abaixo, ainda mais decepcionado que ele.

Henrietta ainda o deixaria com as bolas azuis. Isso sim é pagar pelos pecados.

* * *

Quando a admiradora do macabro acordou, a primeira coisa que sentiu foi a dor excruciante na cabeça. Parecia que tinha sido golpeada vinte vezes. Resmungando, levou a mão à região, abrindo os olhos com dificuldade. A maquiagem que permanecia no seu rosto grudava as pálpebras e a mínima luz as queimava.

Fragmentos da noite anterior vinham à memória. Se lembrava de Underground Cave, da música excelente, de Grief e Sofia, de góticas e góticos de muitas idades sendo estilosos e gentis. E, claro, se lembrava do vinho, e depois disso algumas cenas começavam a ficar confusas. Se lembrava da risada maníaca de Eric e de ser carregada – “Porra, de novo.” pensou ao lembrar este detalhe, sentindo-se estúpida. Então...

Abriu os olhos completamente. Constatou que não estava em seu quarto, mas no de Eric. Sentiu a presença dele, às costas, não muito distante. O momento em que esteve debaixo dele, trazendo-o para um beijo faminto, veio à mente com clareza. Pôde reouvir a si mesma implorando por ele pateticamente. E não lembrava de mais nada.

Esfregou os pés um no outro. Não estava calçando botas. Também não estava desconfortável, então assumiu que o cinto, os braceletes e colares foram removidos. Os encontrou empilhados ao lado, sobre a mesa de cabeceira. O corset em torno da cintura parecia frouxo. Eric devia tê-lo tentado tirar, sem sucesso. Não o julgava, eram muitas amarras. No mais, só tinha o corset, o vestido e o rosto maquiado; ele fez o bastante para que ela dormisse o melhor possível.

Teve um susto interno ao sentir sua cintura ser envolvida. O coração dela batia rápido, muito rápido. Assim que Eric encerrou a distância entre eles, respirando em sua nuca, Henrietta viu o rosto queimar e um arrepio subir pela coluna ao sentir a ereção matinal dele tocar sua bunda. Algo dizia que não a sentia pela primeira vez.

— ...Eric. — fez o máximo de esforço para não demonstrar vergonha. Um calor passava pelo corpo todo. O antissemita a segurava com firmeza, e ela não tinha a menor intenção de se mover.

— Sim? — respondeu serenamente. A naturalidade no tom de voz a fez engolir em seco.

— Por acaso nós...? — iniciou, esperando que o término da frase fosse óbvio. Não sabia se estava pronta para a resposta.

— Ah, sim. Transamos a noite toda. Você foi ótima. — a pressionou mais contra ele. — Aliás, não sei você, mas já tô pronto pra outra.

Cartman jurou que a sentiu ficar gelada. Não rir dependeu de um esforço absurdo. Daria tudo pra conseguir ver a cara dela.

— Tô zoando. — sorriu na curva do pescoço pálido. — Não fizemos nada. Você capotou.

Com isso, Henrietta reaprendeu a respirar. O alívio se sobrepôs à vontade de se virar e dar uma cabeçada nele – que seria uma ideia idiota, pois a dela ainda doía como o inferno. Fazendo uma careta irritada, se aconchegou melhor no abraço. A essa altura, não tinha muito mais a se fazer. Aceitar o contexto parecia o mais fácil. Ou isso, ou estava curtindo o toque.

— O que houve antes disso? — perguntou a ele.

— Quer mesmo saber?

— Não. — respondeu prontamente. Outra questão sobre a noite anterior lhe ocorria. Decidiu soltar antes que ele pensasse em fazer mais alguma brincadeirinha. — ...Acha que sua mãe ouviu alguma coisa?

— Provavelmente. Eu não tinha fechado a porta.

Henrietta gemeu. Dessa vez, de frustração. Logo se levantariam; ele provavelmente procuraria algo pra comer, ela caçaria alguma coisa para lidar com aquela ressaca maldita.

Não sabia com que cara daria “bom dia” à Liane Cartman. Quem diria que agir feito uma adolescente retardada ao menos uma vez na vida daria errado.

* * *