Enrolada em si mesma, a gata de um só olho tirava seu segundo cochilo da tarde sobre a escrivaninha. Velas vermelhas em candelabros espalhados pelo quarto queimavam, como sempre. No centro da larga cama de casal, sob a meia luz característica dos aposentos da gótica, Cartman e Henrietta curtiam o ócio como preferiam. Ele, deitado de lado, assistia a vídeos bobos em seu celular num volume mínimo; ela, apoiando as costas contra ele, lia confortavelmente um de seus livros. Sentia cada movimentação suave conforme ele respirava.

— Sobre o quê tá lendo? — concentrado, o antissemita perguntou casualmente.

— A autobiografia de uma agente funerária. Trabalhou num crematório da Califórnia. — virava mais uma página. — Não poupou nenhum detalhe sórdido.

Cartman teve um risinho nasal. Definitivamente, isso não o surpreendia. Assim como Henrietta gostava do pior em sua personalidade, ele gostava de suas estranhezas. Também gostava de vê-la lendo, mesmo que não fosse um hobby para ele.

A essa altura, os pais de Henrietta já sabiam sobre eles. Por mais que ela não quisesse apresentações e formalidades, Sr. e Sra. Biggle já viram Cartman ir e vir. Independente disso, há algum tempo que tinham uma noção do relacionamento, porque Bradley tem uma língua bastante comprida. E de qualquer maneira, depois da gótica ter sido presentada com a gata, não teria muito mais a se esconder.

Para escolher o nome dela, por sinal, Henrietta apareceu com uma relação de ideias macabras e pediu — ou exigiu — que Eric a ajudasse a decidir. Então, no fim, escolheram juntos. A gata foi chamada de Penumbra, e a gótica fez cara de bunda ao ouvi-lo dizer que era a filha deles. Naquele momento, embora nunca fosse admitir, sentiu um calor no peito.

Ao que Cartman soube, os pais dela reagiram consideravelmente bem à novidade. Para a mãe, saber que a filha estava namorando foi uma bela surpresa; Harriet foi quem mais acompanhou o processo traumático, então vê-la o superando, depois de tanto tempo, era recompensador. Já o pai, não se sabia ao certo o que achava. Era alguém omisso, e nada mais.

Distraído da tela em sua mão, Eric lembrava-se de quando decidiu perguntar se havia uma razão específica para Henrietta não querer apresentá-lo aos pais. Aconteceu bem no início, na verdade. Mal tinham completado uma semana.

Estavam a pé, caminhando até o colégio juntos. Naquele dia, não matariam aulas. Não eram tão inconsequentes assim.

— Não tem nada a ver com você, se é o que está pensando. — a gótica respondeu com seu ar pouco emotivo. Andava ao lado dele na calçada. — Não tô preocupada em não te aprovarem ou alguma merda assim. E, se fosse o caso, eu não daria a mínima.

O argumento tirou dele um sorriso sincero.

— Entendi. Então, que diferença faria se eles descobrissem? Você já conheceu a minha mãe, então tá meio desbalanceado.

— Você me fez conhecer a sua mãe, você quis dizer.

— Esse é um detalhe sem importância.

— Cretino. — se emburrou. Ficou mais irritada ao ouvir aquela risada maldosa. — Quer tanto saber? Então, tá. Como sabe, tenho um pai, mas ele tá mais pra “progenitor”. Fez uma filha, aceitou que a esposa adotasse mais um, mas não tá nem aí pra paternidade. Nunca esteve. Quando não tá no trabalho, tá com os amigos, ou em algum bar. O vejo tão pouco que às vezes esqueço que moramos na mesma casa. Quanto à minha mãe, ela não é de todo ruim, mas tivemos muitos problemas quando eu era criança. Já me manipulou muito pra que eu fosse como ela queria. Quando comecei a ter atitudes rebeldes, nos estranhamos e discutimos muito, até de gorda me chamava. Pra tentar me atingir, ficava num eterno meio termo entre fazer tudo o que eu queria e tentar me despertar culpa. Enfim.

Eric a viu ajeitar o cabelo nervosamente. Fazia uma pausa antes de prosseguir. — Minha mãe sempre se importou bastante com a carreira dela, entende? Me criou desde sempre pra não depender deles, pra me acostumar à ausência deles. Então, não faço questão de que participem da minha vida. Fui feita independente o suficiente pra não precisar desse tipo de atenção. Isso é tudo.

...Então, esses eram os pais dela. Na perspectiva dela como filha, ao menos. Quieto, Cartman lamentava em saber. Mas compreendia. Na infância, também costumava ter uma relação bem conturbada com a mãe.

Liane o mimava, Eric era uma verdadeira peste. Um garotinho egoísta, cruel, manipulador e grosseiro. Anos depois, ele mesmo designou que a relação deles devia seguir por outros rumos. O respeito que Liane nunca conquistou dele, ele escolheu oferecer. E teve muito a ganhar com isso: além de adquirir a compreensão feminina, passou a entender que pais e mães que amam verdadeiramente seus filhos até podem cometer erros graves, mas sempre na intenção de acertar.

Só que não poderia se responsabilizar por modificar a relação de Henrietta com os pais, ou por modificar a perspectiva dela sobre eles. Ela parecia firme em suas decisões, só ela mesma poderia dizer o quão ruim foram as problemáticas em sua família. Cartman a respeitava; não via razão em insistir nesse assunto.

Em meio à reflexão, achava interessante mais essa entre suas semelhanças. Ambos foram crianças mimadas pela mãe, embora por razões distintas. Liane o fazia por inabilidade em educá-lo, Harriet como uma tentativa de manipulação e controle. Claramente, sem que desse muito certo. É curioso como, na criação de meninas, situações assim sejam bem comuns. Comuns, não toleráveis.

Seguiam o trajeto em silêncio. O colégio estava adiante. Se aproximavam dos portões na mesma serenidade com que vieram por todo o caminho.

Do outro lado da rua, Kenny McCormick os avistou. Sua recuperação do pós-acidente ia muito bem, podia se dizer quase 100%. Finalmente, estava diante de uma oportunidade de felicitar o novo casal; esperava que a convivência da revoltadinha de preto com seu Melhor Amigo Eterno a tornasse um pouco mais alegre e dócil, ou ao menos a fizesse deixar para trás o incidente do armário. Ele, particularmente, estava disposto a ser uma pessoa diferente, consequentemente deixando de lado alguns... Pequenos incidentes. Já perdoou Cartman por ferrá-lo tantas vezes, mesmo. Seria bem parecido.

Se pôs a atravessar a rua. De costas para ele, Henrietta e Eric estavam bem à frente. Com um sorriso no rosto, Kenny ergueu uma mão e entreabriu os lábios para cumprimentá-los. Mas, bem... Nunca teve essa chance.

O ônibus escolar do ensino fundamental, que vinha em alta velocidade – felizmente vazio, pois as crianças desse outro colégio ainda seriam pegas – o esmagou subitamente sob as rodas. Naquele dia, especificamente, a motorista precisava correr. Estava bem atrasada. Seguiu rumo em velocidade constante, deixando o cadáver deformado e o rastro sangrento do loiro para trás.

Atônitos pelos ruídos horríveis do acidente, Henrietta e Cartman paralisaram e se viraram. Visualizaram o corpo esmagado sobre o asfalto, não muito distante da calçada. O casaco laranja e o cabelo loiro, marcados pelos pneus e tingidos de vermelho, deixavam explícito de quem se tratava. Tinham expressões de choque absoluto em seus rostos.

Com olhos arregalados, o antissemita e a admiradora do sombrio se entreolharam. Sem avisos, as risadas irromperam de dentro deles com força. Gargalhadas descontroladas e sádicas.

Colegas de classe que também chegavam visualizavam aquela cena. Stan, Kyle, Butters, Clyde, todos assistiam indignados ao gordo intolerante e à gorda gótica rindo às custas de um amigo assassinado. Com expressões raivosas nos rostos, consideravam repulsivo. Revoltante. O casal ria tanto que começou a usar um ao outro como apoio.

Tá rindo do quê, esquisitão? — fazendo Cartman retornar a atenção ao momento presente, Henrietta indagou. Não tirava os olhos da leitura.

Controlando o riso frouxo, Eric limpou uma lágrima do canto do olho.

— De nada, não — voltava a encarar o celular. — É uma pena que não se lembre.

A garota teve um sorrisinho de lado. Não era a primeira vez que o via rir sozinho. Devia estar pensando em alguma atrocidade.

Olhava para as palavras no livro, mas já não conseguia assimilá-las. Uma das mãos de Cartman a agarrou na lateral do corpo, mais especificamente na região abaixo do peito. Deixava estrategicamente que o polegar a tocasse e acariciasse ali, tirando uma casquinha do seio macio.

A gótica respirou fundo, mordiscando o lábio. Permitia, em silêncio, que ele continuasse. A excitação crescia dentro dela. Se não tivesse escolhido manter a porta semiaberta, e caso Bradley não estivesse no quarto ao lado, se perguntava o que mais teria permitido.

* * *

Uma vez, Henrietta disse: “a admiração ao nazismo pode estar no sangue da sua família”. Constatava que não poderia estar mais correta.

“Você precisa conhecer o resto da família”, Liane também dissera quando se conheceram. Pois bem. Estava ali por culpa dela, para começar. Sra. Cartman tinha sido muito gentil, fez toda uma questão de que fosse com eles. Talvez, pela possibilidade dela os ter ouvido depois da noite do Underground Cave, a garota se sentiu inclinada a aceitar.

Enquanto estiveram a caminho, viajando de carro por horas e horas até Nebraska, Henrietta se perguntou por que não escolheu ser egoísta como normalmente faria. Teria evitado uma bunda reta, um Eric enchendo o saco durante toda a viagem e mãe e filho cantando canções idiotas e desafinadas. Ela teve vontade de se jogar do carro muitas vezes, e isso só fez os divertirem mais.

Só que, ao chegar e passar algum tempo com os parentes do seu... Namorado... (isso ainda lhe era estranho), percebeu que até que não seria tão ruim.

Quando se agrupavam, os Cartmans compunham uma família numerosa. Tios, tias, um avô, dois primos e uma única prima. Exceto por Liane e pela prima citada, que Henrietta conheceu pelo nome de Alexandria, todos ali eram, na plena acepção da palavra, redondos. A maioria na família Cartman era gorda, com os mesmos cabelos lisos e castanhos. Perguntava-se de onde vieram os genes que ofereciam a Liane e Alexandria aqueles corpos tão enquadrados nos padrões.

Como acontecia todos os anos desde que Eric se lembrava, se reuniam para comemorar o feriado do Natal. A gótica não dava a mínima para a data, sempre se sentiu uma estranha no ninho quando a própria família celebrava. E, quando podia, evitava. No entanto, lá estava ela. Fazendo algum esforço para celebrar com a família alheia.

A princípio, quando ela chegou – silenciosa e nada simpática, diga-se de passagem – os familiares reunidos se perguntaram se era alguma prima distante de que não se lembravam. Quando Eric a apresentou como sua namorada, e ela retorceu o rosto como se tivesse chupado limão, todos pareceram subitamente muito receptivos. Diferente de certa ex-namorada que conheceram, Henrietta parecia ideal para os... Padrões da família.

Harold, um senhor de idade, era pai de Liane, viúvo de uma senhora que deixou um milhão de dólares de herança para Eric, o neto predileto, há muito tempo – parte dessa herança usada por ele para comprar um parque de diversões. Eric tinha duas tias e quatro tios – um desses, por acaso, se encontrava presente apenas através de uma tela, numa conferência de vídeo. Estava na prisão há vários anos e curiosamente já dividiu cela com o serial killer Charles Manson. De tendências antissemíticas a crimes hediondos, a família Cartman não cansava de surpreender.

E a respeito dos primos, primeiro havia Fred, um homem já com mais de trinta anos. Elvin, o mais novo, era um garoto que devia ter a idade de Firkle. Alexandria, que ao que tudo indicava era mais velha que Henrietta e Eric pois dois a três anos, tinha a idade mas aparentemente nenhuma vontade de ir para a faculdade. Pelo que a gótica entendeu, ela trabalhava online. Só não soube com o quê.

O que poderia dizer daquela gente...? Para começar, gostavam muito de comer. À mesa, concentrados em seus pratos, era o momento em que Henrietta os encontrava em maior harmonia. Porque, no restante do tempo, gostavam de falar bem alto. E, mesmo que não fosse seu feitio, vez ou outra a gótica pedia perdão internamente a todos os deuses existentes: aquele pessoal não conseguia passar cinco minutos sem dizer algo que ofendesse ao menos quinze minorias. Ela tentava sufocar o riso entre garfadas e lábios espremidos, mas não conseguiu em muitos momentos. Foi o suficiente para sua aprovação máxima.

No sofá, ao lado de Eric, com as pernas cruzadas e o estômago cheio, Henrietta olhava entediada para a grande árvore de natal decorada no canto da sala de estar. Ainda achava o feriado uma perda de tempo.

— Bem-vinda à família, trevosa. — Alexandria lhe disse da poltrona ao lado. Tinha um ar debochado como uma típica Cartman. — Tem que ter coragem pra suportar esse aí.

— E eu não sei? Às vezes parece que fiz um pacto com o diabo sem ler os termos.

— Que bom que estão se dando bem. — Eric pronunciou com sarcasmo. Fitou a prima. — Por que não vai lavar uma pilha de louça, prostituta?

— Tá doido pra dar uns pegas na gótica, né? — mostrou um sorriso venenoso. — Agora que não levanto daqui, acha que esqueci que ano passado você empatou a foda com o meu ex?

— Se lascou. — riu livremente da cara dela. — Se a avó fosse viva teria me deixado com o melhor quarto e é lá que vou continuar, você que se foda.

Achando graça daquela cena por dentro, Henrietta chegou a sentir saudades de quando trocava farpas daquele tipo com Eric. Ainda havia provocações, é claro. Mas não naquele nível. A essa altura, tinham afeto demais um pelo outro para isso.

Bom... Ela não declararia essa saudade em voz alta. Com os familiares disponíveis para ele implicar, ela até que estava gostando do sossego.

* * *

O sossego não durou muito.

De um lado, Henrietta insistiu aos Cartmans que estava tudo bem em passar a noite na sala de estar. Poderia ficar até na varanda, desde que ninguém a incomodasse; só queria dormir de uma vez para que o tempo passasse e pudessem voltar para casa. Do outro, Eric insistiu que seria bem melhor os dois juntos no tal do melhor quarto de hóspedes. Era óbvio que ele venceria.

Não seria a primeira vez que compartilhariam um quarto. Mas as condições seriam bem diferentes.

Emburrada, Henrietta saiu da suíte de rosto limpo, vestindo uma calça preta de moletom e uma camiseta com uma arte do Nosferatu. Gostava mais de camisolas elegantes, mas não o faria na casa de outros.

Ao olhar para a cama, avistou Eric deitado ao centro e também vestido para dormir. Tinha os braços sob a cabeça, um sorriso mal-intencionado e uma pose de quem esteve aguardando por ela.

Enquanto pôde, analisou bem a gótica. Não tinha muito a ser feito: mesmo com roupas largas, podia ver suas fartas, tentadoras curvas. Porém, naquela ocasião, deu mais atenção ao rosto. Exceto pela fotografia de infância em que a viu um dia, era a primeira vez, oficialmente, que a via sem maquiagem alguma.

Henrietta tinha um rosto pálido, mas vivo. Lábios volumosos e rosados. Bochechas infladas, pequenas cicatrizes de espinhas antigas aqui e ali e pequenas e suaves sardas sobre o nariz. Mesmo sem sua “máscara”, ainda tinha uma expressão e um olhar sombrios, de quem poderia roubar sua alma. Continuava uma beldade absoluta para ele.

— Saborosa. — ergueu uma mão e fez um “ok” com os dedos.

Bufando de raiva, Henrietta se apressou em se deitar. Se pôs de costas para ele, recusando-se a olhá-lo. Também foi a primeira vez em que Eric a viu vermelha.

— Se tocar em mim, eu juro que peido em você. — a gótica avisou.

— Garanto que não é algo em que queira competir comigo. — levava uma mão até ela.

De súbito, Cartman a viu virar o rosto em trinta graus. Enviou para ele um olhar mortal e penetrante.

— Tenta. — sustentando o olhar, Henrietta o desafiava. — Tenta pra você ver.

Congelado, o rapaz piscou. Gradualmente distanciava a mão. Certas coisas talvez não valessem o risco.

Assim que ela parou de observá-lo, se aconchegando ao travesseiro, os olhos dele foram parar na redonda, cheia, enorme bunda praticamente implorando para ser apalpada. A mão dele literalmente tremeu. Frustrado, Cartman se virou para o outro lado e fechou os olhos, pedindo mentalmente ao universo para que o fizesse dormir. Que vida cruel.

Henrietta abriu os olhos e arqueou uma sobrancelha. Escutava um cantarolar suave, uma canção de Natal crescendo. Suspirou.

— Eric, eu ainda pretendo dormir essa noite.

Também o ouviu suspirar. Com uma voz cansada, respondeu:

— Não sou eu.

As mãos esquerdas, com vida e rostos, ergueram-se e reuniram-se num dueto irritante de “All I Want for Christmas is You”. Que merda. A presença de Mitch e Kerstin era um presente de Natal que ambos não queriam. Cantaram juntos até que estivessem satisfeitos.

— Estamos muito orgulhosos de vocês. — Mitch deu início. — Progrediram muito nos últimos meses. Se vocês estão bem, nós estamos bem. Nosso trabalho está feito.

— Dá pra ver que não precisam mais de nós. — Kerstin seguia a deixa. — Vamos tirar um ano sabático, depois de tudo merecemos um tempo só nosso. E Henrietta, querida — se voltou para a gótica. — Tenho orgulho de você. Ainda é uma gorda burra, mas não tão burra quanto pensei. Continue assim.

Henrietta agarrou o pulso em que Kerstin estava. Furiosa, iniciava uma tentativa de enforcamento. No entanto, não teve muito tempo para isso: as mãos falantes se desfizeram em agitares de dedos, o gesto que demonstrava que estavam de saída para sabe-se lá quando aparecerem outra vez. Honestamente, esperavam que demorassem bem mais de um ano. Também não estavam nem um pouco a fim de saber para onde e como iriam.

Ambos terem mãos esquerdas autônomas era um delírio que queriam fingir não ter vivenciado. Para evitar que algo do tipo acontecesse novamente, esperavam se manter bem longe de restos mortais alheios e de brincadeiras com fantoches. Viver em South Park provocava situações bem estranhas.

Deitados de frente um para o outro, ainda mais exaustos depois da bizarra exibição, Cartman e Henrietta trocavam olhares. “Que se foda.” foi a última coisa que ele pensou; a agarrou e puxou na própria direção, a envolvendo nos braços completamente. Desta vez, não foi uma grande surpresa quando ela começou a envolvê-lo de volta, agarrando-o com braços e pernas e os conectando centímetro por centímetro. Um encaixe tão perfeito e um contato entre corpos tão maravilhoso que se sentiam no céu. Com corpos fartos, um oferecia ao outro muito em que segurar.

Depois de seis horas de viagem, uma tarde e uma noite lidando com tanta gente, aquele seria um sono merecido. Por ora, estava mais do que ótimo. Tentar algo além disso na casa do avô – ainda mais sendo a primeira experiência de Henrietta – poderia não ser lá muito agradável de se lembrar.

Antes que pegasse no sono, Eric teve um sorriso maníaco de satisfação. Quase se esqueceu. Àquele horário, o seu presente de Natal para alguém especial já devia ter sido entregue.

* * *

Numa residência de alto padrão na cidadezinha de WaKenney, a noroeste no estado do Kansas, um rapaz de dezessete anos chegava. Era alto, com pele pálida, cabelos negros penteados para trás e um corpo esguio, porém bem desenvolvido, de quem se interessa por boa alimentação e exercícios físicos. Vestia um traje esporte fino, elegante e digno de um universitário de destaque. Sobre o nariz, tinha um par de óculos caro, de excelente aparência e qualidade.

Considerado com uma inteligência acima da média desde criança, Howard West conseguiu a proeza de completar o ensino médio cedo e ingressar na faculdade de medicina do Kansas, em que seguiria os passos dos pais como neurocirurgião. A família tinha dinheiro o suficiente para arcar com isso, promovendo a ele uma vida de conforto e privilégios em que não precisava fazer grandes esforços além dos estudos.

Por levar uma vida tão confortável, se dedicava em pesquisar meios para aumentar a longevidade humana. Quem leva uma boa vida não tem interesse na morte, nem em assuntos relacionados.

Liberado da faculdade devido ao feriado, voltava à casa dos pais para celebrar o Natal. Só que as coisas pareciam um pouco estranhas. Há dois dias que nenhum deles respondia às suas tentativas de contato, mas quanto a isso, parecia tudo bem; sempre foram profissionais ocupados, com agendas extensas. O mais peculiar foi ter encontrado a casa escura ao chegar. Não encontrou a mesa posta, ou a pobre empregada correndo para servi-los, ou as mil pequenas lâmpadas acesas da enorme árvore de Natal. Ao acender as luzes, tudo parecia bem arrumado, mas muito quieto.

Sob o pinheiro decorado, havia um único presente. Era grande, quadrado, envolvido em papel brilhante imaculado e um grande laço. Não sabia por que exatamente, mas a presença dele o deixava desconfortável. Uma etiqueta pendurada na lateral, preenchida com letra cursiva, não deixou dúvidas: estava entregue no nome dele.

Se aproximou da caixa com algum receio. Encostando uma orelha sobre ela, tentou ouvir algum som que indicasse se tratar de um explosivo, porém não ouviu nada. Estava fria.

Desfez o laço com cuidado. Observava cada movimento, temendo acionar algum dispositivo. A morte, apenas o pensamento sobre ela, o apavorava e deixava paranoico.

Ao rasgar o papel, compreendeu que se tratava de uma caixa térmica maciça, de aço galvanizado, selada no topo. Seu coração batia rapidamente, gotas de suor começavam a escorrer por seu rosto. Abria a caixa com lentidão.

Teve razão em temer o que encontraria dentro. Entretanto, não era pela própria vida que devia ter temido. No interior do recipiente, entre revestimentos de gelo seco, encontrou um par de cabeças humanas mortificadas tombadas uma sobre a outra. Tinham olhos bem abertos e vazios, a palidez característica e lábios azulados. Mesmo conservadas, o odor era terrível.

Sr. E Sra. West estavam naquela caixa. Seus pais, entregues a ele como as cabeças de indigentes que recebia para estudos na universidade.

Sozinho na noite de Natal, Howard chorava em gritos desesperados por sua família, ceifada sem que soubesse o motivo. Um gordo de vermelho diferente decidiu presenteá-lo este ano.

* * *