Para Pete, era preocupante pensar na quantidade de vezes em que Henrietta esteve quieta. Não que silêncio e isolamento não fossem comuns para um gótico, só que mesmo um gótico deveria saber a hora de parar. Foi diminuída por conformistas, incomodada pela líder dos vampiros, espionada depois dos amigos jurarem que não o fariam e, mesmo com tudo isso, ela não estava furiosa ou reclamando aos quatro cantos. Esteve meramente apática durante todo o tempo, com um eterno vinco de pensamento marcando a testa. O que, de mais importante que todas essas coisas, tanto a incomodava?

Ao início do entardecer, após percorrerem uma distância razoável, os cinco góticos finalmente se aproximavam de seu destino. Pelo caminho, se depararam com comércios locais, algum movimento de pessoas e com as mesmas casas de sempre: praticamente idênticas umas às outras em arquitetura, diferenciadas somente por seus números e cores. Um visual repetitivo e monótono, marca registrada da cidade. De interessante para aquele grupo excêntrico, deixando o cemitério à parte, South Park possuía apenas o clima frio feito a morte, as florestas mórbidas nos arredores e a raridade de aparições completas do sol.

Por todo o trajeto, como acontece em todas as malditas vezes, receberam maus olhares de moradores que tiravam neve das calçadas. Shelly era a única que ainda estava se adaptando aos olhares de reprovação, tendo em mente que o azul neon de suas roupas se sobressaía a níveis gritantes se comparado aos trajes escuros dos demais. Seu companheiro e líder, com feições tão fechadas que poucos poderiam assimilar que estava de bom humor, tomava a dianteira do grupo de braços dados com ela, assim inutilizando sua bengala; a cybergoth era todo o apoio que Michael poderia precisar na ocasião. A atmosfera gerada por ambos relembrava a classe e o romantismo de tempos vitorianos: mesmo com visuais distintos, formavam um legítimo casal de góticos.

Pete e Firkle, igualmente sem humor, vinham lado a lado em seguida a passos nada apressados, estando o primeiro com certa apreensão: sua melhor amiga poderia sair de seu silêncio e explodir a qualquer segundo. Estes quatro antes citados, diferentes da gótica que optou por ficar solitária ao fim da fileira, já bem conheciam aquele percurso. Em questão de tempo, estariam chegando à residência dos Marsh.

— Limpem os sapatos antes de entrar. — Shelly os alertou, encontrando uma chave por ela guardada entre os materiais diversos de seus dreads cyberlox. — E lembrem-se: nada de fumar dentro de casa, minha mãe acabaria com a minha raça se descobrisse.

— Tem certeza de que você é gótica? — o anão explanou o pensamento de todos, porém com o acréscimo de sua falta de tato. — O que falta agora? Dizer que só bebe café descafeinado?

— Aí, paciência. Estou progredindo aos poucos. — se preparou para abrir a porta de entrada, até que um lapso de reflexão obrigou-a a se interromper. — Espera, existe café descafeinado?

— Existe, e é uma merda. — Pete disse em resposta. — Não sei pra quê criaram isso.

— Talvez para agradar os conformistas mais frescos. — Firkle adicionou.

— É, Firkle. Paciência. — Michael retornou severamente ao assunto principal. Não teria deixado esta passar sem defendê-la. — Somos góticos há quase oito anos. Shelly, há duas semanas.

“O amor deixa mesmo as pessoas estúpidas. E hipócritas.” Henrietta conjecturou com uma expressão entediada. “Quem decidiu viver um conto de fadas agora, Michael?”

Surpreendendo a todos, a porta da frente se abriu antes que Shelly o fizesse, revelando do outro lado um senhor alto, em seus cinquenta e poucos anos, com casaco recém colocado. Seus cabelos negros começavam a se tornar calvos e seu bigode antiquado e imponente dava seus primeiros sinais de fios brancos. Randy, o patriarca da família Marsh, sondou os olhos pelas cinco figuras bizarras à sua porta antes de fazer um comentário.

— Desculpe, crianças. Não estou disposto a ouvir a palavra de Satã hoje.

— Engraçadinho. — Shelly sorriu ironicamente, interpretando como uma piada ruim. — Aonde vai a essa hora?

— Buscar sua mãe no trabalho, não pretendo demorar. Comportem-se na nossa ausência — Randy voltou-se para o mais alto dos góticos com um olhar cauteloso. — Principalmente você.

— Pai... — a cybergoth repreendeu, com bochechas vermelhas sob a maquiagem.

— Sim, senhor Marsh. — totalmente de acordo, Michael inclinou a cabeça em respeito.

Sem outra opção que não fosse confiar, Randy deixou o grupo para trás, indo na direção de seu carro. Sem mais motivos para hesitar e sem mais ninguém no caminho, os cinco entraram na casa, que como Henrietta previu possuía uma decoração geral tão comum quanto a de sua própria. O quarto, em todo e qualquer caso, sempre será o verdadeiro lar de um jovem gótico; ou covil, dependendo do ponto de vista.

Acomodados no interior, avistaram um rapaz conhecido ao pé da escada para o andar de cima. Stan levava consigo uma garrafa de cerveja pequena e recém-aberta, encarando-os com indiferença.

Para um bom entendedor, a indiferença é algo muito mais poderoso que o ódio.

— Saudações, Raven. — o líder, ainda que mantivesse sua seriedade natural, não desperdiçou a chance de incomodá-lo.

Stan nada disse. Em nada modificou suas feições. Piscou uma vez, sem humor algum, e obteve um longo gole de sua cerveja antes de continuar subindo as escadas. Alcançando o andar superior, tudo o que pôde ser ouvido pelos góticos no térreo foi o som da porta de seu respectivo quarto sendo fechada e trancada.

A tensão no ar era clara. “Raven” um dia havia sido seu nome de gótico. Um nome que recebeu como prova de amizade, acabando por perder todo o significado.

— ...Por que seu irmão bebe, mesmo? — após a cena, Pete perguntou à Shelly.

— Ele vê o mundo inteiro como merda. Beber de vez em quando faz com que ele enxergue as coisas normalmente.

— Isso não significa que ele vê o mundo do jeito que é? — Firkle indagou.

— Bem, não exatamente. — trocando rapidamente de assunto, Shelly se voltou para a gótica gordinha. Seu meio sorriso indicava que tinha algo importante a contar. — Henrietta, pode me acompanhar enquanto passo o café?

— Eu... Posso. Claro. — ainda que concordasse, seu rosto mostrou-se pouco confiante.

— Vocês podem subir. Sabem o caminho. — a cybergoth avisou para os que restaram. — Só não ousem mexer nas minhas coisas, ou eu juro que arranco os olhos de vocês e os dou de jantar aos corvos.

— Uau. Isso foi bem gótico. — a entonação de Firkle não deixou claro se fez ou não um elogio.

— É, e o recado está dado. — sem mais demorar, Shelly segurou Henrietta pelo pulso cuidadosamente e a levou consigo até a cozinha.

Do novo cômodo, os sons dos passos dos rapazes ao subirem as escadas e andarem pelo andar de cima puderam ser ouvidos. Assim como a sala de estar, a cozinha possuía um visual mundano, sem nada de diferente ou especial... Exceto por uma magnífica cafeteira expresso cuja visão fez Henrietta salivar.

A gordinha pôde se orgulhar por perceber que Shelly não teve vontade alguma de acender as luzes, indo de encontro à cafeteira sobre o balcão com uso somente dos últimos resquícios de iluminação natural que entravam pelas janelas entreabertas.

— Pode se sentar ali, se quiser. — a cybergoth sugeriu com a cabeça um dos assentos à mesa.

A primeira gótica seguiu seu conselho, sentando-se aleatoriamente numa das cadeiras. Rapidamente, acomodou-se e pôs os cotovelos sobre o tampo de vidro, cruzando as pernas que podiam ser vistas sob a transparência do mesmo. Estando de costas, Shelly não a olhava, dedicando-se à cafeteira invejável. Era um sonho de consumo para qualquer gótico.

— Algo que precisa me dizer? — Henrietta questionou com ansiedade reprimida.

— Sim. — Shelly ocupava-se de preencher uma repartição com grãos de café. — Primeiro de tudo, preciso confessar que fui eu quem tive a iniciativa de te espionar na quadra. Os garotos iam te dar privacidade, mas acabaram me acompanhando.

— Nesse caso, eles são tão culpados quanto você. Não é uma desculpa razoável o bastante pra aliviar pro lado deles.

— Sim, eles têm culpa, mas fui eu que influenciei. Peço desculpas por isso, nenhuma curiosidade justifica minha atitude de merda. Eu teria odiado estar no seu lugar.

— É bom que saiba disso. Não justifica, não alivia... Mas isso não importa. — encarou sua mão esquerda com receio, movimentando os dedos para checar se algo de diferente havia acontecido. — ...Tenho coisas piores para me preocupar no momento.

“Talvez eu só esteja ficando louca.” tentou convencer-se, não notando qualquer anomalia em sua mão além do pequeno sinal de queimadura provocado pelo próprio isqueiro. Sempre soube que a companhia daquele insano que conversa com a própria mão iria prejudicá-la, e agora poderia tê-lo espelhado. Crer na loucura era mais cômodo do que crer que havia segurado a mão dele por livre e espontânea vontade.

— E, bem... — a segunda gótica teve um intervalo para controlar uma risada. — Desde quando anda saindo com o Cartman?

Com uma carranca agressiva, num ato reflexo, Henrietta esmurrou a mesa com a mão esquerda. O vaso de planta no centro saltou por meio milímetro.

— O quê? — externou todo o nervosismo.

— Ah, para. — Shelly desistiu de segurar os ânimos. — Acha que não percebi que ele foi o único naquela quadra que não riu de você? Ou o jeito que você olhou pra ele? Sorrisinho bobo, olhos brilhando... Cheguei a me perguntar onde aquela garota fria e gótica tinha ido. Se não estão saindo, algum rolo tem.

— Eu não tenho nada com Eric Cartman, está bem? Nem amizade, nem “rolo”, nem porra nenhuma. Nada.

— Tá falando sério? Putz, isso é o que eu chamo de desperdício, a química entre vocês parece tão forte que...

— Shelly — perplexa, Henrietta a interrompeu, sacudindo a cabeça em negação. — Que tipo de gótica é você?

— Ué. Uma cybergótica, talvez? — zombou da questão óbvia com uma expressão emburrada.

— Não, não é isso. Esse papo de “sorriso bobo”, “olhos brilhando”, “química”... — com uma expressão semelhante ao nojo, quase sufocou em si mesma para proferir a palavra tão odiada. — “Amor”... Essas coisas não são nossas.

— É, nada disso é gótico. Mas, como eu disse antes, Henrietta — mostrou um olhar franco para sua companhia. — Se há uma verdade a ser dita, eu digo. Não tem a ver com aliviar as coisas ou romantizar. Eu simplesmente lido com fatos.

A gótica mais jovem, abalada moralmente, foi limitada a se calar com um ar aborrecido no rosto. Shelly retornou sua atenção para a máquina expresso, fazendo de conta que Henrietta a havia convencido. De uma forma ou de outra, sentiu que suas palavras surtiram algum efeito.

— Bom. Se você e ele não têm nada, o que é uma pena... — olhou de soslaio para Henrietta por um segundo. — Eu só gostaria de dizer que, se tivessem alguma coisa... Você teria meu apoio e confirmação.

— O que quer dizer? — irritada, semicerrou os olhos. O rumo daquela conversa estava tornando-se estranho, estranho até demais, e esse apego bizarro que Shelly parecia ter por Cartman ao falar em “sua confirmação” a incomodava.

— Sabe, apesar de trocarmos palavras raramente, Eric é como um irmãozinho mais novo pra mim. Mais irmão do que o meu próprio, não que eu não goste de Stan. Quando eu tinha uns doze anos, fui babá dele numa noite em que a mãe esteve fora e, não vou mentir, fui uma verdadeira tirana, assim como já fui e muito pior com o Stan. Alguns socos e puxões de cueca épicos que dei eu tenho certeza de que eles jamais vão esquecer. — riu por um instante com o sentimento nostálgico. Em sequência, formou uma face melancólica. — E, mesmo assim... No final, o Eric me ajudou. Me ajudou a lidar com um “babaca indesejado”... E foi legal comigo.

— Taí, algo em que somos parecidas. — Henrietta, mesmo tomada por um sentimento amargo que não compreendia, sentiu-se obrigada a comentar sobre esta coincidência. — Eu também fui bem adepta a atormentar o meu irmão.

— E tá errado? Se não mostrarmos pro mais novo quem é que manda, eles acham que podem tomar conta da porra da casa. — seu comentário fez a gótica à mesa reter uma risada. Talvez fossem mais parecidas do que pensava. — E... Eric pode ter sido uma peste com babás que não fossem duronas como eu e ter dito coisas como “nunca vou me deixar ser mandado por uma mulher” ou daí pra pior, mas... Na real, ele simplesmente não gosta de ser mandado por ninguém, e isso é absolutamente normal. Ninguém gosta de receber ordens. A diferença é que ele deixa isso bem claro, ao contrário de muito conformista por aí.

— Eu sei que ele não é um conformista. — com uma respiração profunda, porém ainda aflita, apoiou o rosto nas mãos. Falava mais consigo mesma que com qualquer outra coisa. — Ele não consegue ser um. Nem se quiser ou tentar.

— E... Um dia, quem sabe... Mas só quem sabe — com tom brincalhão, Shelly inclinou a cabeça na direção dela. — Caso você se torne, ao menos, amiga dele, saiba que vai ser de grande ajuda. Aquela Jenny Simons é um pé no saco e você soube pôr rédeas na marra dela, coisa que o Eric se tornou frouxo demais pra fazer sozinho com essa mania de respeitar as ex-namoradas.

— Posso ter conseguido pôr limites na Simons, mas aquela puta me colocou como mascote do time. Eu ainda não venci. — de sua expressão furiosa, o rosto de Henrietta se amenizou rapidamente por incredulidade. — ...Ex-namoradas?

Shelly controlou um sorriso vitorioso.

— Olha. Se você não está mesmo interessada nele, seria melhor não reagir com ciúmes a cada palavra que eu digo. A sensação que passa é exatamente a contrária.

— Ah, eu mereço. — retornando à ira, a primeira gótica levantou-se e se pôs a sair da cozinha. Se quisesse alguém analisando os sentimentos que tenta esconder, teria ido a um psiquiatra. — Onde é o banheiro?

— Andar de cima, porta ao fim do corredor. Mas volte aqui pra me ajudar a carregar os cafés.

— Não sou sua escrava.

— E nem eu a sua. Se não me ajudar, vou pegar só o meu e deixar que cada um venha buscar o seu.

— Tá, tá... — grunhiu, pondo uma mão na testa. — Eu volto pra te ajudar, peste do cão.

Tendo efeito contrário ao que Henrietta pretendia, Shelly riu em resposta. Como reação, a primeira rolou com os olhos, acabando por exibir um meio sorriso em conjunto, e seguiu seu caminho. Shelly podia ser uma gótica muito esquisita, romântica demais e alegre demais, mas conformista ela não era, e isso é mais que suficiente para ser benquista.

Quando a gordinha ficou longe de vista, a cybergoth finalmente parou com sua enrolação proposital e girou a chave da cafeteira, preenchendo as xícaras uma a uma. Durante o processo, pegou seu celular num bolso discreto da meia calça e facilmente encontrou o contato de Cartman, para quem se pôs a digitar habilmente:

“Pronto, rolha de poço. Falei bem de você pra ela.”

Como era esperado, a mensagem de resposta não demorou a vir:

“Valeu, hippie apocalíptica. Aposto que tem maconha nesses seus dreads de plástico.”

“Valeu é o caralho, to esperando minhas 20 pratas”

“Se me contar como ela reagiu, serão 50 pratas.”

“Hahaha. Acha que vou facilitar ainda mais pro seu lado? Minha parte está feita, agora se vira.”

* * *

O quarto da cybergótica, apesar de muito atrativo visualmente, em pouquíssimas coisas se assemelhava a um quarto de góticos mais tradicionais: numa das paredes, tubos de neon multicoloridos organizados na aparência de um circuito, variando em tons de púrpura, verde e azul. Noutra, cobrindo-a por completo, o papel de parede de uma cidade altamente tecnológica, porém de aparência devastada. Espalhados pelas paredes restantes, vários pôsteres de bandas de EBM e synthwave, junto a pôsteres de filmes como Blade Runner, Matrix, Terminator e do anime Ghost in the Shell. Sobre uma cômoda totalmente negra com respingos de tinta fluorescente, cabeças de manequim inexpressivas onde Shelly reservava outras duas variações de Dreads Cyberlox e três lâmpadas de lava também em cores distintas.

O grande tapete redondo no chão possuía o desenho de uma explosão nuclear, e a manta escura sobre a cama de casal, estampada com símbolos de radioatividade em verde fluorescente, dava uma verdadeira impressão de ser tóxica ao toque. Mesmo com tantas cores, a falta de iluminação branca dava ao quarto um ar gelado e sombrio. Tornou-se evidente que as principais influências deste arquétipo gótico, como mostrado no próprio nome, pertencem aos universos de cyberpunk.

Ao entrar no cômodo seguida por Shelly, com um prato contendo três das xícaras em mãos, esta aparência foi para Henrietta uma surpresa agradável. Pegou-se admirando a decoração após recuperar um café para Pete e outro para si mesma. Michael era o único a se sentar na beira da cama, enquanto os outros dois rapazes se sentavam em locais consideravelmente distantes um do outro sobre o tapete. Mediante a feição mal-humorada que Henrietta carregava ao fitá-los, Firkle manifestou-se sem arrependimentos:

— A culpa foi da Shelly.

— Eu já confessei isso pra ela, seu pouca sombra. — a cybergoth sentou-se na cama, ao lado de Michael, e sorriu ao ter sua mão segura por ele. — Ela culpa a todos nós, e está certa.

— “Pouca sombra”? Eu ainda vou crescer, retardada.

— É impressionante o carinho que você tem por garotas. — Henrietta zombou após sentar-se ao lado de Pete. — Me surpreende que esteja interessado por uma.

— Oh, então o anão sinistro tem uma namoradinha? — Shelly participou. Seguidamente, sussurrou somente para o líder. — Jurava que ele era gay.

— Quem é você pra me criticar? — como um gótico típico, o anão respondeu à Henrietta com tom impassível. — Todo mundo percebeu o jeito que você olhou praquela sua versão masculina e conformista. Por que demorou quando disse que ia tirar o uniforme? Se encontrou com ele pra dar uns amassos?

Sob a vista atenta de todos, Henrietta corou violentamente pelo constrangimento. Não sabia o que poderia ser pior: enfrentá-los e levantar suspeitas erradas ou permanecer em silêncio e deixar que teorizassem coisas piores. Michael transpareceu desconfiança, Firkle voltou a beber seu café com satisfação e o gótico de cabelo bicolor soou perturbado, olhando para sua melhor amiga pelo canto dos olhos.

Diante do desconforto geral, Shelly buscou por alguma música interessante para sincronizar de seu celular e distraí-los, enquanto Pete pensava numa desculpa para intervir.

— O que acham de compartilharmos nossas poesias recentes? — mesmo incomodado, fez o possível para defendê-la. — Há algum tempo que não fazemos isso.

— Eu... Não tenho escrito nada ultimamente. — Henrietta admitiu, ainda mais constrangida, porém grata pela tentativa. — Não venho tendo boas ideias.

— Quando se está apaixonado, as poesias devem ficar uma merda, mesmo. — Firkle alfinetou outra vez e depois sorveu da bebida quente.

Rock gótico num volume confortável começou a tocar de uma pequena caixa de som bluetooth. Pela quantidade de góticos old school ser a maioria no lugar, a cybergoth optou por uma música mais ao agrado dos demais.

— Pessoal — Shelly chamou a atenção de todos. — Se lembram de quando fizeram meu irmão se vestir de garota pra voltar pro grupo? Aquilo foi hilário.

— É. — Pete seguiu com seu jogo. — Devíamos contar à Etta como tudo aconteceu, nós não tínhamos entrado nos detalhes.

— É, eu gostaria de saber essa história completa. — Henrietta ignorou totalmente o nome pelo qual foi chamada. — Muita coisa interessante aconteceu na minha ausência.

— Está bem... — o líder suspirou. — Mas não pensem que não estou percebendo o quanto querem fugir do assunto. Não esperava que seu interesse pelo conformista fosse voltar depois de tanto tempo, Etta. Algumas coisas da infância deviam permanecer na infância.

Aqueles góticos, exceto por Shelly, graças aos anos de união de grupo, tinham ciência dos motivos para Henrietta abominar romance e relacionamentos. O coração da primeira gótica acelerou enquanto seu sangue esfriava; se seus amigos pensassem um pouco mais, poderiam associar a razão dela ter sumido de South Park. Talvez já tivessem descoberto e se recusassem a acreditar, e essa possibilidade conseguia ser bem mais assustadora.

— Michael, dá pra largar de ser besta? — provocando choque nos presentes, a cybergoth o censurou. — Henrietta não está interessada num conformista, mas e se estivesse? Você não está com alguém que era conformista até pouco tempo?

— Shelly, não é a mesma coisa.

— É claro que é. Agora, parem de incomodar a pobrezinha e deixem que eu conto essa merda.

Aconteceu há dois anos. A febre desproposital de góticos na cidade há muito havia chegado ao fim, induzindo a aumentar o número de vampiros. Lamentavelmente, a relação que Stan tinha com Wendy era praticamente de obsessão: ele não sabia por que ainda a queria, e na verdade ainda não sabe, mas permanecia seguindo com os velhos hábitos. Tentava se reaproximar, tentava reconquistá-la... E continua tentando. Agora parece surtir algum efeito com o apoio de seu melhor amigo, mas... Para quê?

Ele esteve lá para tentar reatar outra vez. Tentou outra vez, mesmo tantos anos após o período em que ela esteve com Cartman e mesmo após ter sido usada por Kenny. Ele não se importava, não era como se não tivesse sido “trocado” por ela antes disso. Continuou lutando por Wendy, sem reciprocidade ou amor, unicamente por codependência. E, outra vez, sentiu a dor da rejeição.

Palavras de consolo não são úteis para alguém que sentia que perdeu tudo, e nenhum constrangimento seria relevante para alguém que se sentia vazio. Como antes mencionado, apenas os góticos poderiam compreendê-lo.

Quanto a isso, Henrietta sentiu-se mal por obter consciência. Os sentimentos de Stan em muito eram diferentes dos que a mesma um dia teve por alguém mas, com uma pequena análise, era possível encontrar algumas semelhanças. Mesmo não admitindo, lamentava por ele, e se colocava em seu lugar.

Tudo isto prova apenas que o amor não passa de sofrimento, ilusão e fraqueza. Uma falha na inteligência humana.

Todavia, a parte “cômica” estava por vir. Stan sequer hesitou ao aceitar as condições dos góticos para retornar ao grupo. Se vestir de garota gótica? Por que não? De que isso importa para quem já se sente fodido da vida? Depois de algum tempo, as pessoas esqueceriam.

Somente não contava que os góticos fossem dar a ele roupas convincentes demais. Ou que sua irmã contribuiria com sua maquiagem, fazendo sua transformação ser crível além da medida. Com vestido longo, peruca com cachos delicados na cor favorita dos góticos, um pouco de enchimento para gerar pequenos seios e braços bem cobertos para não deixar dúvidas, num resultado assustador... Stan entrou numa perfeita e irreconhecível imagem de gótica lolita.

“ — Caralho... — a falta de emoção ao falar, em seu primeiro dia de cumprimento do acordo, era capaz de tornar Stan um gótico perfeito. Estava pasmo com o quanto ficou feminino, mas se afetava de fato. Poderia aturar a humilhação por algum tempo, não era nada perto do tormento em que se pôs a vida inteira por Wendy.

— Aquele não é o seu amigo? — Firkle, que arquitetou toda a vingança, comentou ao ver Kyle passando pelo corredor da escola. — Por que não vai falar com ele?

— Tá. Tanto faz.

— Com voz de garota. — Michael acrescentou. — Não temos mais garotas neste grupo. Faça isso valer.

Como resposta, Stan liberou um longo suspiro. Começava a se perguntar se recuperar estas “amizades” valia mesmo à pena.

— No fundo, sentimos por isso, Raven. — Pete somou, mais lamentoso pelas razões de Stan que os demais. — Mas você precisa pagar de alguma forma. Não se rejeita os góticos daquele jeito.

— Se parar de enrolar, isso vai terminar rápido. — o anão o empurrou para que andasse.

O gótico — ou a gótica — não hesitou por nem um segundo a mais. Foi em direção ao Kyle cautelosamente devido aos sapatos plataforma que usava. Era seu melhor amigo, iria reconhecê-lo. No pior dos casos, seria repreendido por ele e poderiam ter uma discussão breve sobre seu retorno à vida inconformista. Tomando fôlego para dar início a essa situação patética, ao aproximar-se do judeu, cutucou seu ombro para chamá-lo.

— Oi. — plenamente consciente de que os góticos o observavam, Stan forçou a melhor voz feminina que pudesse fazer. A melhor acabou por ser a pior.

Quando o judeu se virou em sua direção, o resultado ultrapassou o inesperado: Kyle havia corado, e demonstrou insegurança antes de respondê-lo.

— Oi... — claramente acanhado, Kyle vacilou em suas palavras. — Precisa de ajuda?

“...Isso não pode estar acontecendo.” foi tudo o que Stan pôde pensar diante dessa conjuntura. Mesmo mais alto que Kyle graças aos sapatos altos, aquele disfarce dava a ele uma aparência delicada, e este era o perfil de garota por qual o judeu sempre teve interesse.

O Marsh voltou-se para os góticos. De onde estava, viu o líder com uma expressão fora de seu normal: em vez de insensitivo como sempre, possuía um mísero sorriso de diversão. Michael girou o indicador no ar, ordenando que prosseguisse.

— Meu nome é Stacey — Stan deu ênfase no nome fictício para ver se Kyle entenderia. — Sabe, nós estudamos juntos há anos. Muitos anos.

— Mesmo? — reagiu com uma surpresa tímida. — Como nunca te vi antes?

— Ah, talvez porque você é um pouco distraído demais. Não percebe o que está bem debaixo do seu nariz. — exibiu um sorriso nervoso.

Nenhum dos dois se dava conta de quantos alunos da instituição paravam o que faziam só para vê-los conversar. Quem não tinha percebido que aquele era Stan foi alertado por colegas que notaram, e puseram-se a assistir ao show silenciosamente.

— O que nossa amiga quer saber — Firkle aproximou-se para piorar a situação. — É se você gostaria de acompanhá-la naquela festa que vocês conformistas estão ansiosos pra ir.

— O baile de outono? — o ruivo suou frio.

— É, essa merda que sempre estraga o mês do Halloween. O que você diz? Eu não deixaria passar se fosse você, oportunidade única.

— Hã, eu... — coçou a nuca, inseguro em olhar para a gótica. — Adoraria ir ao baile de outono com você, Stacey. E... Seria legal te conhecer melhor. Se você quiser...

Quando Stan avistou Kenny e Cartman chegando pelo corredor, atônitos e parando para vê-los, foi sua gota d’água.

— Porra, Kyle, ta de sacanagem?! — farto de tudo isso, abandonou totalmente sua voz afeminada.

Seu amigo precisou de alguns milésimos para se situar. Analisou-o melhor, de olhos semicerrados. Mesmo com isto feito, ainda não era capaz de crer.

— ...Stan? “

Ao terminarem de relembrar todos os pontos altos, os rapazes góticos, que repelem qualquer tipo de felicidade banal, sufocaram risadas com tosses forçadas e goles trêmulos de café. De lábios trêmulos, Henrietta controlava um sorriso maldoso, olhando no interior de sua xícara pela metade. Stan poderia ser irmão de Shelly, mas mesmo ela reconhece que ele mereceu, e por respeito a ela não zombavam dele ainda mais. A cybergoth pode ser terrível com seu irmão, só que apenas ela possui esse direito: mais uma coisa que estas duas góticas têm em comum.

Henrietta e os garotos do grupo, enquanto crianças, sempre tiveram reuniões como esta em seu quarto. O sentimento de nostalgia foi benéfico, e lhe agradava esquecer que ele existe, ao menos por algum tempo, acompanhada por seus amigos. Estas amizades eram sua motivação para não ter escapado da cidade novamente quando todo o problema começou a crescer.

Era bom se concentrar em seus velhos hábitos. Era bom fingir que não tinha problemas para lidar. E, principalmente... Era excelente voltar a esquecer que possui sentimentos.

* * *

Notas finais
Pra quem tem interesse em encontrar novas fics de South Park pra acompanhar, deixo aqui uma recomendação de leitura especial à fic Coon Hunters do Knight Beast: https://fanfiction.com.br/historia/735025/Coon_Hunters/ E... É isso açlsça