Malaxophobia
22 Acerto de Contas [4/5]
Fosse por desgosto ou admiração, as pessoas pelo shopping os olhavam. Se os alunos de South Park High os enxergaram como uma relação questionável que oscilava entre amor e ódio, South Park Mall agora os via unicamente como um excêntrico casal de góticos. Ou melhor: de gordinhos góticos.
Andavam lado a lado e próximos demais. Suas mãos esquerdas estavam unidas contra suas vontades. Os ombros de Henrietta, para agravar seu pânico, estavam firmemente contornados pelo braço de Cartman. Além de estarem usando a mesma cor nas roupas, terem o mesmo modo de caminhar e a mesma maneira de se portar, mostravam o mesmo olhar apático para as pessoas. Afinal, se Cartman seria gótico por um dia, faria questão de dar jus ao traje. Pela quantidade de vezes onde já precisou fazer uma atuação para cumprir as próprias vontades, não demonstrar sentimentos por algum tempo parecia extremamente fácil.
Apesar de estarem sendo julgados por todos os lugares, apenas duas opiniões realmente importavam para ele. A de Henrietta, obviamente e em primeiro lugar; e em segundo lugar, a de um certo gestor de loja que outrora o tinha rejeitado. Na concepção de Cartman, ao reaparecer da parte obscura Luv2Pain como um gótico militarista, a cara que Grief fez foi absolutamente impagável.
“— Então... — com outro cigarro aceso entre os dedos, Grief olhou de um a outro com ar nem tão impassível. — Vocês estão juntos.
— Somos amigos. — antes que Cartman se pronunciasse, Henrietta respondeu prontamente como desculpa. Respirou fundo antes de se permitir continuar. — Somos... Bons amigos.
Cartman sorria maldosamente com essa resposta. Grief, por outro lado, piscou entediado. Não era da conta dele, afinal. Considerava que a juventude de seu tempo era bem menos indecisa.
— Sabe, garoto — o gótico dirigiu-se ao rapaz. — As regras da minha loja nem sempre foram tão seletivas. Agora que existem jovens como vocês vestidos de... “Vampiros”... Pela cidade — massageava uma das têmporas. Para alguém como ele, era realmente difícil chamar “aquilo” de vampiros. — ...Eu não deixaria um desconhecido comprar aqui tão fácil. A cybergoth que está com o Michael e a garotinha que anda vendo filmes de terror demais também tiveram uma provação de inconformismo, mas você foi o único a me ofender pra conseguir passar.
— Então estava apenas me testando?
— Estava.
— Legal. — o rapaz racista deu de ombros. — Pelo menos não me ignorou de graça.
Afirmando um tratado de paz, Grief assentiu com a cabeça sutilmente.
Num silêncio que só não era total devido ao vinil que tocava aos fundos, os três passaram a encarar uns aos outros. Grief se deu ao luxo de esperar um, dois, cinco segundos... E então compreendeu que aquele projeto de Hitler não iria se desculpar por tê-lo insultado. Liberou um suspiro pesado, deixando à beira do cinzeiro o seu cigarro.
— Não sei se te respeito ou te detesto, guri. — comentou ao mesmo tempo em que abria a caixa registradora.
— É? — Henrietta acrescentou em inexpressão. — Bem-vindo ao clube.
Por dentro, Cartman estava se divertindo: fosse bem ou mal, todos no local estavam falando sobre ele. Era esse tipo de atenção que ele procurava.”
Sim... O antissemita estava bem satisfeito com o rumo das coisas. A gótica, por outro lado, tinha a mente ruindo num verdadeiro desastre. Olhava em todas as direções, mas jamais para Eric, assim como não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Estava nervosa, estava temerosa, estava se detestando por dentro por não ter a iniciativa de afastá-lo... E estava inegavelmente apreciando todo esse calor humano. Por mais doloroso que fosse confessar, estava deliberadamente afrontando sua própria integridade.
Antes de saírem de South Park Mall, Cartman a conduziu a um pequeno Café. Comprou dois expressos médios e uma boa quantidade de cookies neutros. Se Henrietta estava com fome, que comesse algo acompanhado da bebida que mais apreciava – e ainda conseguiria evitar confronto com uma certa ruiva do KFC. Com as iguarias em mãos, ou ao menos nas mãos que sobraram, passaram pelas portas automáticas em direção ao estacionamento.
A temperatura no interior do shopping era tão controlada que Henrietta tinha esquecido do quão fria é South Park. Ao alcançarem o lado externo, todas as áreas expostas do seu corpo foram cobertas por uma brisa gelada. Contudo, como Eric estava colado a ela e a cobria com seu braço, voltou a se sentir aquecida com facilidade. Como se a situação num todo não fosse vergonhosa o suficiente, a gótica constatou outro detalhe: nem o aroma de café fresco, nem o aroma das roupas novas que Eric usava, eram capazes de se sobressair ao cheiro do desgraçado. Maldita fosse Kerstin e suas noites forçando-a a dormir respirando naquele terno.
Repentinamente, enquanto caminhavam, Cartman aproximou ainda mais os seus corpos. Henrietta estava em silêncio há tempo demais, e isso começava a incomodá-lo; queria tirar dela alguma reação. A gótica não mudou de expressão, como já esperava, mas pôde ver os olhos dela se ampliarem e perceber sua pele se arrepiar.
— O que pensa que está fazendo? — a garota usou da raiva para encobrir a tensão.
— Agora que você pergunta? — Eric zombou. Por mais “doce” que Henrietta fosse, era bom tê-la de volta. — Me diga você. O que acha que estou fazendo?
— Me abraçando feito um idiota, talvez.
— É uma boa resposta, mas eu diria “solucionando nosso problema”.
— Pois saiba que você é péssimo com soluções. Não bastou ter me carregado daquele jeito na frente da escola inteira, também teve que... — atrapalhou-se sem saber como usar as palavras. “Cobrir meus ombros de forma carinhosa” ou “me trazer mais perto para me proteger do frio” não eram termos que ela usasse. — Que...
— Engraçado. — interveio em sua fala. — Até o presente momento eu não te vi reclamar.
— Por que não vi outra escolha, talvez?
— Ou talvez você esteja perdendo a habilidade de se fazer de difícil.
O sangue de Henrietta ferveu, perdida e irritada por tamanha audácia. Não era algo para qual tivesse uma resposta. Informando o término de sua paciência, enviou para Eric seu olhar mais letal. Não conseguir afetá-lo e ainda fazê-lo sorrir por isso foi bem previsível, embora torcesse pelo contrário.
— Ei. — Eric continuou. — Só to enchendo você.
— É. Eu sei. — fechou a cara. — E pra ser franca, nem precisava explicar. Já percebi que irritar os outros é como diversão pra você.
— Então por que ainda tá com essa cara?
— Que cara?
— Essa aí. — cutucou sua bochecha apenas pelo prazer de causar mais raiva.
Estas horas. Estas eram as pequenas horas onde Henrietta se mostrava como fofa. Com lábios contraídos e uma face de completa raiva, suas bochechas pareceram tão graciosas que Cartman recorreu ao seu pouco autocontrole para não apertá-las novamente ou até mesmo mordê-las. Visto a quantidade de base sobre o seu rosto, não seria uma experiência muito saborosa.
— Quantas vezes eu já disse que te odeio, mesmo? — perguntava a gótica, fugindo do assunto.
— Hm. — Eric pôs uma mão sobre o queixo enquanto fazia uma reflexão. — Quer saber só as vezes onde disse que me odeia ou “eu te desprezo” também conta?
— Você... — fez algum esforço para não sorrir. — Está realmente contando?
— Estou. É pra jogar na sua cara depois.
— O que quer dizer?
Cartman, que ainda ostentava um sorriso suspeito, nada mais disse. Embora gostasse de respostas elaboradas, reconhecia o benefício da dúvida. Henrietta rolou com os olhos.
Voltaram ao silêncio enquanto caminhavam. Só então, a gótica percebeu que não prestava atenção aonde iam, não que tivesse outra opção que não fosse ser guiada. Lembrar-se do fato de estar fazendo uma troca de calor era realmente constrangedor.
— Eu devia ter queimado nossas mãos de novo. — olhou para uma direção aleatória, usando da conversa para manter sua cabeça no lugar.
— Henrietta, o fogo não é solução pra tudo. Tô feliz por não ser seu inimigo, você provavelmente botaria fogo na minha casa.
— Talvez. — mostrou um sorriso em conjunto. Tratou rapidamente de eliminá-lo. — O fogo pode não ser a solução pra tudo, mas é a saída mais rápida. Por que acha que cremam as pessoas?
— Hã... — Eric teve um sorriso tenso. Era uma lógica interessante. — Ok. Pode ser uma saída, mas nem sempre é a melhor. E, admita... — aproximava a cabeça à dela, disposto a parar apenas quando se tocassem. Enquanto sentia no canto do rosto a maciez de seus cabelos rebeldes, percebia que Henrietta o vigiava pelo canto dos olhos. — ... Não é tão ruim estar desse jeito. Ficamos bonitinhos juntos.
Fugindo inutilmente à presença dele, a gótica olhou apressadamente na direção oposta.
— É aí que mora o problema, Eric Cartman.
Não vendo o significado oculto nessas palavras, Cartman deu de ombros. Satisfeito, voltou à sua pose normal. Pelo menos, a esse tipo de resposta ele já estava acostumado.
A alguma distância, o vermelho vibrante que era o seu carro se tornou visível. Ao chegarem, com a cautela de duas pessoas coladas pelo acaso, se recostaram lentamente na lateral.
Henrietta não o olhava. O clima da cidade continuava o mesmo. O café esfriaria se continuassem procrastinando e não teria o mesmo valor abraçar os ombros dela se ela estivesse desconfortável.
— Bom, acho que já chega. — Eric pronunciou. — Não vai sentir frio?
— Eu não sinto frio. — o fitou novamente pelo canto dos olhos. — Estou sempre aquecida pelo meu ódio.
— Nossa. — rir foi inevitável. — Isso porque você não é boa com piadas.
“Não foi uma piada.” Henrietta respondeu mentalmente. Deixou por isso mesmo, não vendo um porquê de dizer isso em voz alta.
— Aí — a contragosto, Cartman falou às mãos em tom de ordem. — Será que o casalzinho feliz pode dar um tempo agora?
— É. Já me constrangeram o suficiente. — a gótica completou.
Sem nem um segundo de atraso, as mãos bruscamente se soltaram. Diante disso Henrietta enfrentou uma imensa raiva. Todo este circo realmente tinha acontecido apenas para serem vistos juntos, de maneira suspeita e por mais pessoas em outra patética demonstração pública de romantismo. Suspirou, imaginando o quanto sua vida seria mais fácil caso não tivesse tido compaixão por Kerstin enquanto gritava.
Por sinal... A gótica se perguntava onde foi parar a luva de renda que usava para calá-la. Poderia ter sumido enquanto caçava roupas com Cartman, ou a própria Kerstin poderia ter se livrado. Poderia precisar de medidas mais drásticas.
Agora que Henrietta estava livre... O calor de Cartman irrevogavelmente lhe fazia falta. Ao deixar de ter este “peso sobre os ombros”, sentiu um pequeno, quase insignificante, arrependimento por ter reclamado. Só lhe restava suspirar.
— Sabe que você foi uma das poucas a não surtar vendo o meu carro? — Eric comentava, não desejando que a conversa morresse. — Isso deve custar mais do que sua casa, você sabe.
— “Uma das poucas”? — expôs um olhar gelado. — Está me igualando às putas com quem já esteve?
— Isso são ciúmes?
— Isso é repulsa. — reforçou sua face de desgosto. No entanto, Eric não precisava saber que essa repulsa era direcionada unicamente a essas “outras garotas”. — Não dou a mínima pros seus bens, Eric Cartman. Da vida nada se leva.
— Disse a garota que se ofende ao ser chamada de pobre.
— Eu disse que não ligo pros bens dos outros, não que não ligo pros meus.
Depois destas palavras, Henrietta teve a sua primeira dose de café. Mesmo que não fosse sua intenção, provocou em Cartman uma risada.
O antissemita deixou o pacote com os cookies bem entre eles, sobre o teto do carro. Próximo ao seu rosto porém baixo o bastante para que ela enxergasse, Eric levantou a tampa de seu próprio café e inspirou o aroma com todo o cuidado, quase como um ritual. Por pouco conseguiu não demonstrar satisfação quando a gótica reparou na sua bebida e em sua coloração.
— Café puro? — arqueando uma sobrancelha, o fitava desconfiada. — Você?
— Sabe da vez onde me fiz de deficiente pra participar das olimpíadas especiais? — fechou outra vez o seu copo.
— Meu Deus. — cobriu o rosto com alguns dedos, tentando não sorrir por antecipação. — Não, Eric. Dessa eu não sabia.
— Então. — mal conteve a própria vontade sorrir. Por mais que Henrietta tentasse esconder, conseguia ver os cantos dos lábios dela se inclinarem. — Cheguei a passar noites em claro pesquisando como agir feito um. Bebi tanto café que acabei me acostumando, dificilmente saio de casa sem ter tomado.
— Uau. Bem contraditório pra quem estava chorando por um pouco de café nas roupas.
— “Um pouco”? Você jogou a porra de uma garrafa de café em mim.
— “Você sujou o meu casaco, você sujou os meus tênis” — fazia uma terrível imitação de patricinha. — “Vou te levar a um shopping pra fazer compras e enquanto não me arrumar roupas novas nós não saímos de lá.”
— Ah, não fode. — voltou a observar o próprio expresso, visivelmente irritado.
— Ei. Sabe no que eu reparei agora?
— O que?
— Com esse quepe você tá parecendo o Senhor Escravo.
Piscando duas vezes, incrédulo, Cartman retirou o chapéu militarista da cabeça. A gótica se continha.
— Isso não é a porra de um acessório de boate gay, isso é um schirmmütze da Schutzstaffel — duplamente mais puto, mostrava o adereço a ela tentando comprovar este fato.
Em seu limite, Henrietta explodiu. Riu verdadeiramente, em alto e bom som, cobrindo a boca. Uma risada sincera, aberta e incontrolável, com falta de ordem ou tom exato, assim como na primeira vez em que ela esteve naquele carro.
A esse ponto, Cartman sentia tudo, menos raiva. Poderia ter retrucado melhor todos os pequenos insultos, mas não via um porquê de se defender neste caso. Ele próprio já tinha zombado dela muitas vezes e continuaria a fazê-lo, porque era o que fazia com as pessoas que de alguma forma gostava. Que Henrietta tivesse por alguns minutos uma pequena amostra do sabor da vitória.
Valeu o esforço ver aquela péssima imitação de garota conformista. E, é claro: valia todo o esforço voltar a ouvir aquela risada.
— Ok, ok, falando sério — a gótica aos poucos se recuperava, voltando ao seu estado normal. — Acho que você é mais qualificado a gótico do que eu pensava. Só falta dizer que... Sei lá, também já roubou café da sala dos professores ou algo do tipo.
— Mas eu já roubei. — riu por entre as palavras.
— Eu sabia. — não resistiu a rir um pouco mais.
Com mais algumas risadas discretas da gótica e outras naturais do antissemita, os dois brindaram bobamente seus copos. Por mais tolo que o gesto tenha sido, Henrietta o considerou divertido.
Eric tinha seu primeiro gole, enquanto ela estava prestes a ter seu segundo. Porém, com o rosto levemente inclinado para baixo, Henrietta teve uma lembrança repentina e importante.
— Slayer.
— Hm? — Cartman a olhou com o copo encostado nos lábios.
— Slayer. — virou o rosto para ele. — A banda Slayer.
— O que tem eles?
— Nada. Só... — voltava a olhar para a frente, chegando a mostrar um sorriso suave. — Ouvi dizer que Raining Blood é bem eficaz contra hippies.
Pasmo, o humor de Cartman tornou-se quase abobado. Seus fracassos eram tão comuns, tão frequentes, que tinha esquecido desta vez onde foi um salvador da cidade.
Ninguém deu ouvidos a ele quando avisou que os hippies dominariam o Colorado feito pragas, no fim cabendo ao próprio e a uma equipe escolhida pelo mesmo a exterminar este mal (tendo a maravilhosa recompensa de forçar Kyle a assisti-lo o dia inteiro usando uma retroescavadeira de brinquedo invejável). Não apenas ele como todos na cidade pareciam ter esquecido do seu heroísmo... Exceto por esta gótica. Cartman chegava sentir certo pesar por ter igualado muitas vezes os góticos aos hippies.
Bem... Nada que não pudesse ser bem aproveitado.
— Particularmente não gosto muito de metal, mas muitos góticos são adeptos. — Henrietta considerava. — Aliar um gosto musical a uma causa, não se importando se ela é socialmente boa ou não...? Isso é bem gótico.
— Admito que comparei vocês algumas vezes.— revelava sem cerimônias. — Você sabe, os hippies e os góticos. Agora vejo que estive errado, e olha que não digo isso pra qualquer um.
— Francamente, Eric. Que comparação idiota. — apesar de decepcionada, se lembrou das palavras ditas após o treino das líderes no dia anterior: Cartman continuaria a não reconhecer sua cultura se ela não fosse explicada. — Góticos e hippies são totalmente diferentes. Quer dizer, olhe pra nós — apontou as mãos para si, usando-se orgulhosamente como exemplo.
Enquanto Henrietta mostrava-se, Cartman a admirou por completo com uma olhada rápida. Não tinha palavras exatas para dizer o quanto essa aparência caía bem a ela.
— E não é só em questão de vestuário. — Henrietta continuou, voltando a se recostar no carro. — Hippies dizem querer salvar o mundo, mas só sabem usar maconha e feder. Feder pra cacete.
— Exatamente. — apontou o indicador para ela, completamente extasiado; finalmente alguém que o compreendia. — Agora vejo mais uma diferença entre vocês: góticos não fedem. — aproximou-se sem vergonha alguma e a cheirou de uma pequena distância. — Bom, pelo menos você não fede.
— Vá se foder. — afastou o rosto dele com as mãos, não sabendo se devia ficar lisonjeada ou irritada. — Se quer mesmo reconhecer nossas diferenças, saiba que elas são bem claras. Hippies desejam a salvação do mundo, enquanto góticos querem mais é que o mundo se foda. E diferente dos hippies, nós realmente tentamos algo para transformar o mundo no que queríamos. Não ficamos só fumando e ouvindo música o dia inteiro como muitos pensam que fazemos.
— Essa vai ser boa. — antes de beber mais do café, formou um sorriso de escárnio. — O que vocês tentaram para mudar o mundo?
— Nos unimos a uma seita para despertar o deus Cthulhu. — ao ouvir isso, Cartman passou bem perto de engasgar. — Só que ao contrário do que esperávamos, Cthulhu não trouxe escuridão ao mundo. O desgraçado passou dias destruindo cidades feito uma patética versão alada do Godzilla.
E antes de prosseguir, sem perceber, Henrietta exibiu um pequeno sorriso:
— Isso até um garoto de Nova Orleans aparecer e conseguir controlá-lo.
Meticulosamente, Cartman a fitava de esguelha. Mais um dos raros momentos onde não ousaria dizer nada.
— Eu e meus amigos nunca soubemos como, mas um garoto fantasiado de herói, sozinho, conseguiu domar Cthulhu. — a gótica avançava o seu monólogo. — O deus do R’yleh pode não ter cumprido sua profecia, mas o garoto guaxinim ordenou a ele que fizesse um dos maiores bens à humanidade: matar o Justin Bieber. — a satisfação por essa lembrança foi tão intensa que seus olhos quase queimavam de tão brilhantes. — Aquele cantor medíocre não tinha alma, suas músicas eram sobre nada.
— Soube que o garoto de Nova Orleans também mandou matar hippies e destruir sinagogas? — Cartman apresentou um tom tranquilo.
— Não, não estava sabendo. — reuniu as pálpebras, retornando ao próprio café.
Três segundos de pausa. Então, a gótica parou. Reabriu bruscamente os olhos e fitou Cartman com atenção, esperando que ele se pronunciasse. Percebendo que ele continuaria calado como o bom cínico que era, não viu outra escolha.
— Você do-... — interrompeu a si mesma; estava falando alto e emocionalmente demais. Suas seguintes palavras foram quase sussurradas. — Você. Domou. Cthulhu.
— Eu, não. Foi o Coon.
— Porra — voltou a aumentar o tom de voz, mas dessa vez já não se importava. — Você... Porra. Você fez do deus das trevas um escravo pessoal, como diabos...?
— Digamos que até deidades Lovecraftianas tem coração. — remexeu seu café, demonstrando falsa modéstia.
— Cara... Eu quis matar o meu irmão quando soube que os poderes de fruta ridículos dele mandaram Cthulhu de volta pra obscuridade. Na verdade, quase matei. — lembrou-se de uma noite fatídica onde invadiu o quarto de Bradley com um rolo de papel toalha e uma faca. — Então, você foi o Coon. Quer dizer, estou surpresa e ao mesmo tempo não estou. Não sei como nunca parei pra pensar nisso, tudo isso realmente parece algo que você faria.
— Obrigado. — sorrindo de canto, encarou como um elogio. — Também me surpreende que nunca tenha associado o Coon a mim. Já que ele era... Bem...
— Gordo?
— Gordo. — conseguiu aceitar o fato. — As pessoas só parecem se lembrar do Coon por ser gordo. Isso quando ele sequer é lembrado. Que ao menos se lembrassem do seu egoísmo e das suas atrocidades, me sentiria bem mais honrado.
— Ah, tá. — de olhos fixos no copo, Henrietta reteve outra risada. — Entendi, mein führer.
— Oh, meu Deus. — mal contendo a comoção, aproximou dela o seu ouvido. Abaixo do sobretudo, seu braço chegava a estar arrepiado. — Diz outra vez.
Entreabrindo os lábios, a gótica chegou um pouco mais perto:
— ...Não. — respondeu secamente e se afastou outra vez, deixando um nazista frustrado. — Nunca associei o Coon a você porque pensava que o garoto por trás dele era mesmo de Nova Orleans. Não existiu apenas uma criança gorda no mundo, até onde eu saiba.
— E nem apenas uma em South Park. — mostrou um meio sorriso para ela. Foi gratificado ao receber uma devolução suave do mesmo gesto. — Teria sido engraçado se alguém pensasse que o Coon era você.
— Impossível. Você foi muito mais gordo que eu. — o olhou de cima a baixo. — Na verdade, ainda é.
— Sua bunda. — retrucou depois de olhá-la mesma forma.
— A sua. Já viu a sua? Grande pra cacete?
— Já vi a minha. Já viu a sua?
— Já vi a minha.
Trocaram olhares. Ao notar a idiotice dessa pequena discussão, Henrietta sacudiu a cabeça, rolou os olhos e deixou de encará-lo. Cartman, por outro lado, deixou sobre ela outra olhada dinâmica para apenas depois desviar sua atenção. Podia ser um pouco mais gordo que ela, mas definitivamente não tinha a mesma “qualidade de retaguarda”.
— Se serve de alegria para o Senhor Orgulho Ferido... — Henrietta prosseguiu. — Não me lembro do Coon pelo que ele era, mas pelo que ele fez. Assim como os outros góticos e todo o culto a Cthulhu pelo mundo. E sua fantasia era bem legal. Estúpida, mas legal.
— Estúpida? Por que estúpida?
— Bem, tinha orelhas e um rabo.
— E daí? A máscara do Batman tem orelhas e todo mundo paga pau.
— É diferente. As dele são pontudas como chifres, as suas eram fofas como as de um pet. E o rabo não te ajudaria muito, só tornaria mais fácil te pegarem durante um combate.
— Ah, foda-se. — emburrou-se. Porém, ficou de bom humor novamente ao pensar em algumas indiretas para outro herói de seu passado. — Pelo menos a capa do Coon não foi feita com uma toalha de mesa surrada. E a cueca ficava dentro da calça.
— Nem me fale. Aquele seu amiguinho que não morre tinha algum estilo sombrio, mas a fantasia parecia feita de trapos. Lembro que uma vez ele invadiu meu quarto enquanto estava numa reunião com meus amigos só pra perguntar sobre o Necronomicon. Pelo jeito, esse aí fica mais intrometido conforme o tempo passa.
“Algum estilo sombrio”, ela disse. Até então, Cartman pensava que nada mais poderia despertar sua raiva sobre seu antigo rival. Ou, em outros termos, o herói que roubou a fama que ele buscava. Afinal, ele e o rapaz por trás de Mysterion eram e continuam sendo bons amigos, apesar dessas e outras antigas desavenças. Mas isso... Ouvir isso desta gótica... Era passar da porra dos limites.
— Claro, super sombrio — nem escondeu o quanto estava indignado. — Uma roupinha de viado e um capuz de camisinha furada, chego a estar intimidado com tanta trevosidade.
— Ora, ora. — Henrietta teve um meio sorriso, lembrando de uma pergunta anterior com grande sarcasmo. — “Isso são ciúmes?”
— Quer saber? — bateu com as mãos no carro. — São, sim.
Sem que a gótica mudasse de expressão, se entreolharam. Pensando bastante no que poderia dizer, inicialmente Henrietta apenas separou os lábios.
— ...Ok. — pronunciou. — Por essa eu não esperava.
O antissemita mostrou um semblante quase mórbido. Mirou em outra direção e continuou o seu café, disposto a não dizer mais nada. Que algumas coisas ficassem bem claras.
— Vejamos — sem saber por qual motivação, a gótica continuava. — O loirinho conformista tentou bancar o esperto comigo e teve a mão esmagada. Já você está bem aqui, do meu lado e me enchendo a porra do saco. Acho que temos um vencedor.
E o vencedor teve um sorriso vitorioso.
— Muito obrigado por masturbar o meu ego. — deu dois tapinhas no ombro dela com suavidade.
— Babaca. — respondeu com uma cotovelada em seu braço.
Cartman apenas sorria. Para quem disse anteriormente que nem sob tortura continuaria massageando seu ego, ela parecia bem disposta a fazer o contrário.
— Espera aí — Eric se deu conta repentinamente. — “Aquele seu amiguinho que não morre”. Então você também se lembra que o Kenny morre o tempo todo.
— Na verdade eu não “me lembro”. — fez aspas no ar. — Só sei que ele não pode morrer, seja por acidentes ou causas naturais. É algo complexo relacionado ao culto a Cthulhu, mas não tenho mais nada a ver com isso.
— E não existe nenhuma forma definitiva dele morrer? Pra todo poder existe uma limitação.
— Bem, existe uma forma. Morte por envelhecimento e nada mais. Alguns chamariam isso de “benção”, eu chamaria de maldição. Ele verá a todos nós morrendo por várias causas e continuará vivo por um longo tempo, definhando consciente. — por um instante, sofreu pela falta de um cigarro. Por Cartman ter destruído o seu último, estava perto de bater seu recorde de horas sem fumar. — Não existe alegria na eternidade, o mundo já é uma desgraça de se viver por alguns anos. Não é à toa que os góticos cultuam a morte.
Àquelas palavras, Cartman reagia como o seu eu do passado talvez nunca fizesse: se calou para se concentrar em cada uma delas. Já não sabia mais se eram todos os góticos que diziam essas coisas ou se tais argumentos eram uma exclusividade desta. Seja qual fosse a resposta, era fascinante ouvi-la expressar suas opiniões, por mais que ele por vezes discordasse.
— Epa. — após uma reflexão, Henrietta o olhava. — Como você pode se lembrar das mortes dele?
— Deve ter algo a ver com o olho que eu... — revelou um sorriso antecipado. — Peguei emprestado.
— O que quer dizer?
— Bem. Numa das vezes onde o Kenny morreu, usei a cabeça congelada dele pra fazer um transplante ocular. Passei a me lembrar de todas as mortes dele desde então, e vou te contar — ria por dentro, lembrando-se de uma variedade de mortes brutais. — O cara tem um azar do caralho.
— Então é por isso.
— O quê?
— Seu olho esquerdo. — apontou para o mesmo. — Você usa uma lente nele. Ou tô enganada?
Surpreso, Cartman arqueou as sobrancelhas. Seu orgulho pessoal estava em alerta por ela ter reparado até em seus menores detalhes, mas não valeria à pena estragar o momento com um comentário sobre isso.
Com seu copo já vazio, descansou-o sobre o carro. Separou as pálpebras do olho esquerdo com os dedos, usando o dedo médio da outra mão para remover a lente castanha com cuidado. Apenas afirmar a pergunta dela poderia ser mais fácil, mas deixá-la ver o que se escondia sob a lente poderia ser bem mais objetivo.
— Bela percepção. — Cartman elogiou honestamente, virando o rosto na direção da gótica. Inevitavelmente, assim que avistou aquele orbe azul, Henrietta precisou dilatar os próprios olhos.
Ela queria saber por que ele escondia esse detalhe. Apesar de ser um olho do maldito McCormick... Conseguia deixar Eric bonito. Mais do que ela já o considerava. Enquanto Cartman colocava a lente de volta, para não pensar no assunto, a gótica mirou em qualquer outra coisa.
Mesmo que ela não fosse perguntar, a resposta para sua dúvida não era nem um pouco intrigante ou nobre: o antissemita usava uma lente meramente por prezar um fator de simetria. A heterocromia pode ser encantadora na visão de muitos, mas não tanto na visão de outros. Além do mais, Eric queria manter sua “aparência de fábrica”: junto ao sutil sobrepeso, preservava esteticamente os cabelos e olhos castanhos predominantes na família Cartman.
— Por que você foi direto pro transplante ocular? — Henrietta perguntou. — Ia perder a visão desse olho ou algo assim?
— Nah, era só um astigmatismo. No direito eu só precisei trocar a córnea, mas o esquerdo estava tão na merda que uma lente de contato não seria o bastante pra conseguir enxergar. Eu não tava a fim de usar óculos com grau só de um lado igual um retardado.
Esfregando os braços para se aquecer, Henrietta teve um riso interno.
— É — somou com um meio sorriso ponderado. — Com um amigo feito você, ninguém precisa de inimigos.
— Você sabe que não sou tão ruim assim. — diferente de todas as expressões anteriores, agora Eric tinha um sorriso sem graça.
— É, eu sei que não é. E você não me viu reclamar. — olhou-o seriamente. Uma expressão quase fria. — Já disse e repito, Eric: não banque o correto comigo. Eu não faria o mesmo por você.
Uma última olhada mútua, e Cartman sorriu. Não poderia ter esperado uma resposta melhor.
Era apenas um último teste. Se ela o incentivou a não buscar aceitação social, fez dele um dark cosplayer de Hitler, se sente bem em sua companhia e mesmo com seus atos incorretos o considerava agradável... Não era como se não soubesse que Henrietta não o rejeitava.
Agora... Faltavam apenas mais alguns passos.
— Quer ir embora desse lugar? — Cartman sugeriu, recuperando o copo vazio.
— É tudo o que eu mais quero. — pôs uma mão sobre o peito com um pequeno tom dramático.
— Então, vamos. Acho que não quero olhar pra esse shopping por um bom tempo.
— Ah, é? — Henrietta afastava-se do veículo junto dele. — Quem diria.
Contornaram o carro, cada um seguindo por uma direção. A gótica permaneceu à direita, onde antes estavam encostados, enquanto Cartman seguia pelo sentido oposto e destrancava o veículo. Antes que abrisse a porta, o rapaz percebeu que ela o observava do outro lado.
— O que foi? — teve um sorriso involuntário.
— Devia pôr o quepe de novo. Vai ficar parecendo um motorista.
— Ah, chupa meu saco. — foi a vez dele de perder a paciência.
Embora ele não tivesse medido palavras, Henrietta sufocou um riso.
Se essa reação foi surpreendente para ela, foi duplamente surpreendente para ele. Sorrir com alguma frequência, rir de piadas tolas, comer fast-food e, agora... Se divertir com as frustrações alheias e ter suas próprias ideias para tirar sarro. Era Henrietta quem estava mostrando sua cultura, ou era Eric quem estava mostrando a dele?
* * *
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