Malaxophobia

23 Acerto de Contas [5/5]


Fazia menos de cinco minutos que retornaram à estrada. O cenário, composto por conformistas e pinheiros cobertos de neve por todos os lados, era repetitivo através das janelas do carro. Morar numa cidade pequena como South Park significava conhecer cada canto, e era justamente pelo aspecto exterior ser tão maçante que Henrietta preferia se concentrar no que acontecia do lado de dentro.

Estava assistindo Cartman dirigir. Não apenas assistindo, como também analisando a maneira como dirigia. Em seu normal, Eric não era alguém que se mostrava como enigmático: todos os seus planos e atos costumavam ser objetivos e claros. Entretanto, naquele momento de plena concentração, seu rosto focado parecia carregar um grande fardo. Uma angústia, uma insegurança, uma ansiedade, Henrietta não podia decifrar. Eric realmente sabia esconder bem suas emoções quando precisava, caindo perfeitamente com as novas roupas pretas que ele usava.

E, apesar da análise psíquica... Henrietta também via o humor. Além de Cartman parecer concentrado demais em fazer todos os meneios certos ao conduzir, como se o menor deslize fosse inadmissível, a forma como ele insistia em passar a marcha mesmo sendo um carro automático a divertia. Se a gótica tivesse essa opção ao usar o carro de sua mãe, não a dispensaria. Ambos poderiam ser metódicos, mas certamente não na mesma proporção.

— O que é tão engraçado? — o fã do nazismo perguntou do nada. Propositalmente, assustando a gótica ao seu lado.

— Hm? — voltou-se instintivamente para frente. Ele sequer tinha tirado os olhos da direção para perceber suas expressões. — Tá falando do quê?

— Você tava sorrindo. E enquanto olhava pra mim. — sorriu, absurdamente convencido. — Ou você pretende me matar, ou você quer meu corpo nu.

Pff — apesar da aparente segurança e do revide debochado, não pôde evitar o calor crescente em seu rosto. — Iria mais pela primeira opção se fosse você. Seu ego é tão grande que agora está imaginando coisas?

— É, tá. Eu sei o que eu vi, não use a velha tática de manipular a realidade. Está lidando com alguém que é perito nisso.

— Tá. — rolou com os olhos. — Posso dizer no que eu estava vendo graça. Mas me garanta que quer mesmo ouvir a verdade. Não quero saber de você chorando no meu ouvido quando ficar ofendido.

— Henrietta. Autoestima é meu sobrenome. — seu convencimento era audível e visível. — Já recebi todo tipo de adjetivo merda nessa vida, nenhuma crítica pode me derrubar.

— Bom, nesse caso — examinou despreocupadamente o esmalte em suas unhas. — Você parece uma velha quando dirige.

Seguido disso, os pneus arrastaram no asfalto com um ruído estridente.

Numa reação natural de temor, as mãos de Henrietta foram projetadas à frente do rosto. O coração que esqueceu que tinha parecia querer saltar pela boca. Seu corpo tinha sido atirado bruscamente para frente e depois colidido de volta com o banco, seus olhos foram abertos com tanta força que poderiam ter escapado das órbitas. Cartman, sem motivo aparente, havia comandado o carro a uma freada brusca.

Nenhum maldito carro estava atrás. Nenhum maldito carro estava à frente. Naquela estrada deserta, sem nada além das mesmas árvores cobertas de neve de ambos os lados, só existia o carro onde os dois estavam. Pelo som dos corvos que ascenderam aos céus, o chiar dos pneus ecoou por todo o bosque nos arredores. Se não fossem pelos cintos de segurança, seus corpos teriam sido lançados vários metros através do vidro.

— Filho. De uma. Pu... — a gótica falou pausadamente, gelada e estática. Com o coração em disparada, virou o rosto lentamente na direção do rapaz ao lado.

Com as mãos enluvadas esmagando o volante, Eric a encarava visivelmente irritado.

— É. — a gótica desdenhou para encobrir seu pânico. — Autoestima inabalável, hein?

— Abalado? Eu tô é puto. — voltou a olhar para a frente. Pressionando ainda mais o volante, passou a resmungar em tom baixo. — “Velha”... Velha é meu saco.

— Tá, me dá isso. — Henrietta estendeu a mão para a chave na ignição, ignorando-o completamente. — Quero dirigir.

— Depois dessa? Mas nem pelo caralho.

— Eu dirijo melhor e há mais tempo que você.

— Melhor do que eu? — forçou um sorriso de desdém.

— Melhor do que você. — agitou a mão aberta outra vez.

Cartman olhou em seu rosto convicto. Depois, para sua mão imperativa. Os lábios da gótica, ainda que ele estivesse frustrado demais para notar, se torciam para não sorrir. Henrietta não achava que ele dirigia mal, muito pelo contrário. Ele só não precisava saber disso.

Por mera curiosidade em vê-la dirigindo, Eric chegou a pensar em ceder. Mike Makowski, o antigo líder dos vampiros de South Park – que entregou o cargo à Jenny muitos anos antes e tempos depois seguiu rumo à universidade – uma vez contou sobre o dia em que foi raptado pelos góticos e amarrado no porta-malas de um carro.

Na atual circunstância, o racista se perguntava se não foi a própria gótica à sua frente quem dirigiu na ocasião. Ou melhor: se não foi a própria quem teve a ideia de sequestrá-lo. Sendo alguém que, no ponto de vista dele, sempre se destacou dentre os outros góticos e que não se importava com suas antigas maldades, chegando a admirar algumas delas, seria algo perfeitamente possível. Infelizmente, Eric estava sobrecarregado demais em seu orgulho para se dar ao trabalho de endeusá-la.

— Não. — respondeu o pedido secamente, religando o veículo que tinha morrido contra sua vontade. Até o maldito carro estava ofendido.

Soprando uma mecha de cabelo do rosto, Henrietta se rearrumou frustradamente sobre o banco.

— Eu ainda vou dirigir o seu carro.

— Hm. — o antissemita voltava a se animar pensando numa interessante possibilidade. — Que tal isso: você começa a me chamar de Supremo Senhor Fodão e eu te deixo dirigir.

— Hah. — sob o deboche mórbido, ainda se arrependia por tê-lo chamado desta forma. — Quem sabe nos seus sonhos, Eric Cartman.

E assim concluíram este diálogo. Por mais incrível que fosse, não entraram num silêncio desconfortável em seguida. Em silêncio, sim, mas que não era incômodo para nenhum dos dois.

Enquanto Henrietta apoiava o cotovelo no beiral da janela, Cartman continuava a conduzir. Descansando o rosto sobre a mão, a gótica enfim direcionava seu foco ao tedioso movimento da paisagem. Enquanto se distraía, a mão esquerda da garota em questão levantava-se de modo involuntário.

Sem rosto, Kerstin esticava-se cuidadosamente até alcançar o quepe deixado sobre o painel. Henrietta só pôde perceber seus movimentos ao se dar conta do peso a mais sobre sua cabeça. O adereço militarista, antes usado por Cartman, estava agora tortamente sobre o seu cabelo. Antes que ela pudesse expressar qualquer reclamação, a mão possessa já tinha retornado silenciosamente ao seu lugar.

No fim das contas, Henrietta ficou curiosa por saber como estava. Virou o rosto para a janela e olhou seu reflexo no vidro. Gostou do que viu, por mais que esse não fosse seu estilo.

— Ficou melhor em você do que em mim. — observando-a discretamente, Cartman não pôde deixar de avaliar. — Admito.

— Agradeço, mas discordo. É bem mais a sua cara. — não expressou com clareza se estava zombando ou fazendo um elogio. — Já que está a fim de descobrir algumas músicas no tema Military Goth, pesquise depois sobre Nachtmahr. As roupas deles fazem as suas parecerem suaves como um passeio no parque.

— “Nachtmahr”. — repetiu o nome com pronúncia germânica impecável. Muito superior à dela, notavelmente. — Um projeto composto por alemães, imagino.

— Quase. São tão austríacos quanto Hitler. Até as capas dos álbuns soam nazistas, embora as músicas não sejam.

— Foda. — deixou um comentário sincero, porém simples.

Não desejando acrescentar nada mais, Henrietta voltou a olhar para a frente com o cotovelo sobre a porta e o rosto sobre o punho. Para a infelicidade de Eric, a mesma removeu o adereço de sua cabeça e o depositou no lugar anterior; realmente considerava que o quepe nazista lhe caía bem. Mais interessante ainda seria vê-la num uniforme completo, mas por ora guardaria isso em sua imaginação.

Ao passo em que a gótica se distraía, num silêncio que só não era completo pelo roncar sutil do motor, o rapaz pensava cuidadosamente num bom arranjo de palavras. Morar numa cidade pequena também significava atravessá-la de ponta a ponta em pouquíssimo tempo, restando-lhe apenas mais alguns minutos para resolver o que precisava.

— ...Etta. — chamou-a depois de uma inspiração densa.

Um pouco em choque, Henrietta desencostava o rosto da mão. Por que, quando era ele quem a chamava por este nome, não se sentia tão incomodada?

Diferente de Michael, que usava “Etta” no modo pejorativo, ou de Pete, que forçava este apelido como reafirmação de sua paciência e amizade, Eric o usava com grande naturalidade e afeto. Era a segunda vez que ouvia este nome vindo dele, porém era impossível não notar que Eric apenas o usava docemente e em momentos específicos.

Em nome da própria segurança, Henrietta escolheu não dizer nada e deixá-lo falar. Pelos seus movimentos, o rapaz sabia que ela estava ouvindo, e isso era tudo o que importava.

— A única pessoa que contribuiu pra eu me vestir feito um nazista antes foi a minha mãe. — prosseguiu. — E, você sabe, mãe aceita a gente de qualquer jeito. Inclusive foi ela quem teve a ideia de me fazer uma fantasia de Hitler, mas enfim...

— Espera. Sério? — não conseguiu conter um sorriso. — Sua mãe te fez mesmo uma fantasia de Hitler?

— Fez. — também sorriu, involuntariamente. — Foi a minha primeira fantasia de Halloween, por sinal. Eu nem sabia quem era Hitler ou o nazismo na época, foi só a diretora da escola me mostrar um vídeo sobre que virei fã do cara.

— E se bem me lembro, tempos depois você se vestiu como ele outra vez por conta própria. Preparou um discurso motivador, conduziu massas de fiéis, tentou uma perseguição aos judeus com base no filme do Mel Gibson...

— Pois é. Essa seria uma ótima lembrança caso eu não tivesse descoberto quem é o Mel Gibson. — se emburrou irritado. — Lunático do caralho. É por culpa dele que prefiro continuar admirando um austríaco genocida.

Durante segundos, que por ele poderiam ser mais longos, Henrietta liberou uma risada prazerosa.

— O que eu disse agora? — Eric sorria novamente.

— Não, não é nada — ainda mantinha um sorriso suave. — Parei pra pensar que a admiração ao nazismo pode estar no sangue da sua família.

— E é exatamente esse o ponto, Etta. — sua expressão era agora um mero sorriso de canto.

Desconfiada, a gótica arqueou uma sobrancelha.

— E com isso você quer dizer que...? — aguardou por um complemento.

— Quero dizer que tirando o Kenny, Stan, Kyle e outros fracassados que me suportam, você é uma das raras pessoas que sabe que não mudei em tudo.

— Você quis dizer “uma das raras pessoas”... Ou uma das “raras” garotas? — conteve um olhar de desprezo.

— Vou ser ainda mais exato: você é a única garota. A única que sabe que continuo o mesmo na maioria das coisas, e no entanto não se importa com isso. Você parece aceitar muito bem, por sinal.

— Ah, claro. — seu sorriso era colérico, revolto, até mesmo desdenhoso. Mas, acima de tudo, era um sorriso amargo. — Dentre as duas mil garotas que passaram pela sua vida eu sou a única que sabe quem você realmente é? Conta outra, Eric Cartman. Qual é sua próxima piada? Que padres jamais abusaram de criancinhas? — desconcertou-se totalmente de sua pose séria quando Eric deu indícios de rir. — Não tem graça, seu desajustado.

— Tá, tá, tem razão — ainda ria internamente, porém se continha. É claro, não se intimidava pelo olhar mortal que recebia. Depois de observar as tentativas de humor que não deram certo, Henrietta talvez fosse alguém que só conseguia ser engraçada ao não ter a intenção. — Tem razão, você não é a única. Minha mãe também sabe que continuo o mesmo. Você e ela também são as únicas que me chamam de Eric Cartman toda vez que se emputecem, aliás.

Virada para frente outra vez, a face nada paciente que ela tinha se intensificou. Cruzava as pernas com alguma dificuldade devido ao pouco espaço.

— Etta — seu ar cínico contradizia a tentativa de amenizar a situação. — Eu não convivi com tanta garota assim. E você sabe que eu não mentiria pra te impressionar, você é esperta demais pra isso.

— Não me elogie, vá se foder. — cruzava os braços, irritada feito uma criança do primário. Sacudindo no ar sem parar um dos pés, hesitou antes de perguntar. — Com quantas garotas você já ficou?

— Quê?

Quantas? — insistiu, sem olhá-lo.

O antissemita tentava não reagir à graça da coisa. Tentava mesmo, mas era ordinariamente difícil. Ciúmes não parecia estar incluso entre os sentimentos que ela sabia esconder. Se ele tentava evitar razões para que ela o sentisse, ela mesma as procurava.

Não vendo outra alternativa, Eric tomou um pequeno fôlego para responder.

— Foda-se, não quero saber — tapando os ouvidos por impulso, a gótica o interrompeu, arrependida por perguntar. Causou nele uma risada silenciosa, apesar de irritada demais para ouvir. — Ta bom, garoto. Sou a única que sabe que você ainda é você, tenho que me sentir especial ou me preocupar?

— Um pouco dos dois, se aceita um conselho. Mas continuando — conseguiu se lembrar do que pretendia dizer no início. Esse quase interrogatório sobre sua vida amorosa definitivamente não tinha estado em seus planos. — Henrietta, você sabe de quase todas as merdas que eu já fiz. Consegue até imaginar as merdas que eu talvez ainda faça. Conheceu meu modo de ver o mundo, meus métodos, até meus preconceitos e em nenhum momento você disse que sou uma pessoa horrível ou que preciso mudar. Pelo contrário, até me incentivou a continuar sendo assim. E por quê? — aproveitou a breve parada num sinal de trânsito para olhá-la. Assim que seus olhos pousaram nos dela, os orbes cinzentos que ela tinha mudaram para outro lugar. — Por que nada disso te incomoda?

Pensativa, Henrietta juntou as mãos e as levou à boca. Ocultava todas e quaisquer emoções. Parecia uma questão que realmente significava para ele, o que a inquietava. Fazendo-o aguardar com paciência, a gótica efetuou uma longa respiração.

— Primeiramente — afastou dramaticamente as mãos unidas do rosto. — Sem sentimentalismo.

— Não tô sendo sentimental, porra. Tô perguntando numa boa.

— Agora, sim. — sem pensar demais, cutucou levemente a bochecha dele. — Esse é você.

Conforme a gótica afastava a mão, mostrando que o gesto não significava nada demais (por mais contrário que fosse à sua natureza e cultura)... O rapaz tinha uma reação que há muito uma garota não lhe despertava: estava corando. Não um corar de ódio, nem um corar de vergonha como acontece com a maioria das pessoas, mas um corar que só podia ser sentido na presença de alguém que desperte atração física. Ou, no caso dele, física e mental.

Na maioria das vezes, era ele quem tinha a iniciativa de tocá-la. Nos momentos onde era o oposto, Henrietta o tocava apenas no braço – e sempre para levá-lo a algum lugar. Ser tocado no rosto era simples, breve, pouco importante, mas era único. Vindo desta gótica... Era único.

E precisava concordar com Mitch num aspecto. As mãos dela pareciam realmente macias.

— Eric. — a chamada por seu nome o trouxe à realidade. — Depois de hoje, você viu que a cultura gótica é caracterizada pela admiração ao obscuro. Misticismo, entidades, demônios, vampiros... Os de verdade. — precisou parar para especificar, fazendo-o rir. — Essas e muitas outras coisas consideradas erradas... “Malignas”... Pela maior parte das pessoas, são verdadeiros pratos cheios para nós. Vemos beleza e normalidade em coisas que pessoas comuns consideram ruins. Então, como pode esperar que logo eu te julgue por alguma coisa?

— Não querendo estragar o seu sermão, mas esse é seu ponto de vista como gótica. E seu ponto de vista como Henrietta? Só veria maldade em mim se não fosse a sua cultura?

— Que parte de “sem sentimentalismo” você não entendeu?

— “Você só veria meu lado filho da puta e não meu lado incrível se não fosse essa sua cultura de merda”?

— Extrapolou na última parte.

— Responde logo, porra. Já fodeu com o clima todo.

Colidindo a cabeça contra o banco, Henrietta riu abraçando o estômago. Pensando no quão ridícula devia estar, cobriu a boca com uma mão para se conter miseravelmente.

Poderia ter soado patética na visão dela própria, mas não tinha sido exatamente essa a visão de um certo aspirante a nazista. Melhor do que ser ele a fazê-la rir, era vê-la rindo em si.

— Mesmo que eu não fosse gótica, Eric — recuperando sua pose normal, limpava uma lágrima com o dorso do dedo. — Eu continuaria apoiando você. Posso julgar muita gente, mas nunca fui de julgar quem tem pensamento próprio. É essa a minha opinião como um ser humano de merda, já que minha opinião como gótica não foi suficiente pra você.

“Ótimo.” Cartman fez uma conclusão mental. O vinco entre suas sobrancelhas e seu sorriso satisfeito poderiam ser confundidos com maldade, mas nada mais eram que reações positivas às coisas nos encaixes certos.

— Se lembra de quando pedi pra que encontrasse uma figura de inspiração antes de fazer o seu traje? — a gótica trouxe mais um assunto à tona. — Vamos dizer que eu também tenho as minhas.

— Figuras tão das trevas quanto você, imagino.

— Bem mais do que eu. Afinal, não inspiraram só a mim como também a outros milhares.

— Teria uns exemplos?

— Hm. — vasculhava em sua memória por todos os seus modelos de referência. Não se lembraria de todos, mas certamente dos mais significativos. — Patricia Morrison, a baixista do The Sisters of Mercy. Morte, do Sandman. Mas, principalmente, a mulher que deu início à verdadeira aparência feminina na subcultura gótica: Siouxsie Sioux. E adivinhe, Eric Cartman: Siouxsie em muitos momentos usou quepes nazistas e faixas com suásticas, e por que? — imperceptivelmente, aproximou-se para enfatizar. — Porque ser gótico, além de algo cultural, é estético. Apreciar e usar de simbolismos não significa que concordemos com eles, que vejamos eles como a maioria das pessoas veem ou que sejamos maus. Podemos gostar do que bem quisermos, e quem não concorda que vá carinhosamente para o inferno.

— Caralho. Eu costumava pensar que existia uma Henrietta gótica e uma Henrietta “normal”, agora vejo que são a mesma pessoa. Isso tudo faz parte de você, não tem uma separação.

— Parabéns, descobriu isso tudo sozinho? — zombou, apesar de contente em ouvir aquilo.

— Isso é surreal. — continuou. — Talvez seja idiota pra você, mas eu pensava que você age e pensa de determinadas formas porque se tornou gótica.

— Não, Eric. — exibiu um meio sorriso. — Eu sou gótica justamente porque ajo e penso de determinadas formas. Sou só eu, sem fazer esforço.

Tendo consciência de que seu destino se aproximava, Henrietta se entristecia sem compreender ao certo o motivo. Não estava muito ansiosa em voltar para casa, ao contrário de todos os outros dias.

— Lá. — tentou impor algum ânimo e cinismo ao apontar para o sentido. — Siga por aquela rua, escravo.

— Diz isso de novo pra ver se eu não te jogo desse carro.

— Não seria um problema dessa distância, uma pena que não estou a fim de andar. — esticou-se preguiçosamente.

Controlando suas emoções àquele momento (ou um olhar discreto sobre o corpo dela), Cartman raciocinava o mais rapidamente possível. Estava ficando sem tempo.

— Sabe de uma coisa? — começou.

— Não sei se quero saber.

— Você já disse que sou qualificado a gótico. — ignorou completamente a resposta. — Já me vestiu feito gótico, já me ensinou coisa pra cacete sobre os góticos, mas ainda se recusa a admitir que não me acha conformista. Meio contraditório se parar pra pensar.

— Está bem, Eric, você não é um conformista. — disse de uma só vez. — Feliz?

— Hã? Não ouvi. — se aproximou, fazendo uma concha ao redor da orelha com a mão. Não desperdiçaria essa oportunidade.

— Eu disse — se aproximou, aumentando o tom de voz. Percebendo o semblante de desentendimento forçado que ele tinha, revirou os olhos e voltou ao seu lugar. — O idiota está zoando com a minha cara.

— Sim, eu estou feliz. — respondeu à pergunta anterior sorrindo amplamente. Insistir tanto nessa confissão tinha valido a pena.

— Quer saber de mais uma coisa...? — Henrietta ignorava sua própria tensão emocional. Existiam pensamentos que queria externar há muito e muito tempo. Anos, pra ser mais exata. — Você é exatamente o oposto de conformista. Você não consegue ser um conformista. Você... Tem personalidade própria. Tem seus ideais e faz o possível e o impossível pra que aconteçam. Você não hesita em usar todos os meios pra alcançar seus objetivos, você não permite que passem por cima de você, você não se importa se está sendo correto ou não. Todos têm quês de maldade, sem exceção, mas ao contrário da maioria você assume os seus. Se orgulha dos seus, e se aproveita de todos os recursos pouco se importando se isso te torna mal visto ou egoísta. Você pode até manter uma imagem de discrição pra sobreviver na hipocrisia do meio social, mas você jamais renega quem você é. Isso é... — sentindo-se estranhamente aliviada em dizer tudo isso, finalmente mirava seus olhos em Cartman. — É...

Esperava vê-lo dirigindo ao se voltar para ele. Ver a cidade se movendo através do vidro, uma expressão cheia de si na face daquele imbecil e ouvir um comentário babaca sobre o quanto ela queria o seu corpo. Em vez disso, quebrando todas as suas expectativas, os dois estavam estacionados na calçada de uma rua conhecida. Eric a olhava atentamente, exibindo uma expressão neutra, num aguardo silencioso. Henrietta havia falado por tempo o bastante para chegarem ao endereço que ela havia mencionado.

“Lar... Nem-tão-doce lar.” queixou-se mentalmente, esquecendo da situação por um segundo.

— Pode continuar. — solicitou o rapaz racista. — Estou ouvindo.

Piscando em descrença, Henrietta repetiu sua expressão imparcial como num espelho. Sem sombra de dúvidas, o ego inflado estampado nos olhos dele foi bem pior do que uma piadinha. A gótica suspirou.

— Nem uma palavra a mais para te bajular, Eric Cartman. — avisou seriamente.

— E nem precisa. Acho que ganhei elogios o suficiente por uma vida. — apesar da atitude desumilde, o rapaz repensava sobre o que ouviu. O que mais o impressionava é que não tinham sido elogios de fato, mas verdades. Ao menos, dentro da concepção dela. — Vou parecer sentimental demais se eu disser que nunca ouvi nada tão positivo sobre mim?

— Infernalmente sentimental.

— Nunca ouvi nada tão positivo sobre mim.

— Ah, que ótimo. — rolava os olhos com uma mão sobre o rosto. — Se tentar dizer coisas positivas sobre mim de volta eu juro que mato você.

— Eu até gostaria. É uma pena que nenhuma das minhas palavras chegaria perto das suas. — apesar de ser verdade, falou na intenção de irritá-la. — Mas se serve de alguma coisa, quando olho pra você tudo o que vejo são coisas positivas.

— Que coisa gay, meus deuses. Pior que o sentimentalismo é o romantismo.

— Então esse é o seu problema?

— O que?

— O motivo de você me rejeitar tanto.

Ok. Essa definitivamente não foi a melhor maneira de abordar esse assunto. Tampouco “rejeitar” foi a melhor palavra para o caso, mas ambas as atitudes funcionaram para causar impacto (e ainda compensaram sua falta de tempo).

Se entreolharam friamente, praticamente tentando ler um ao outro. Ou conseguindo, no caso dele, já que com aquela sentença Henrietta parecia estar expondo emoções há muito escondidas.

— Eu não sei do que está falando. — tentou inutilmente.

— É claro que sabe. As vezes onde tentou me afastar sem motivo, os sinais que você dá o tempo todo e não entendo porra nenhuma... Ou pelo menos não entendia. Não até agora. — Eric a fitava com tanta firmeza que a fez sentir raiva por não conseguir mais olhá-lo. — Por que eu sinto que mesmo com tudo o que passamos hoje o ciclo vai se repetir?

— Não, não vai. O ciclo de ódio não resolve nada, eu já disse que não quero mais fugir.

— E fugir de quê? — sua pergunta a atingiu como uma faca. Henrietta queria, até poderia... Mas não conseguia sair daquele carro. — Fugir de mim? Acho que não. Eu não menti quando disse que te acho esperta, e eu também não sou nenhum estúpido. Você gosta da minha companhia tanto quanto eu gosto da sua, não tem o direito de negar isso.

— Eu não posso, Eric Cartman.

— O que você não pode? Ter mais um amigo? — tinha um sorriso de raiva. — O inconformista que vos fala não é bom o suficiente pra você?

— Se a questão fosse só ter a sua amizade eu não teria dito que você está fodendo com a minha vida. — perdia mais da sua calma.

— E com o seu psicológico, não se esqueça disso. — sorriu novamente com ironia. — Se não é esse o problema, então qual é?

— É complicado, seu imbecil. Será que não está vendo?

— Estou com tempo. — olhou as horas no celular tirado de um bolso. — Todo o tempo que precisar, pode começar a falar.

— Olha, eu... — amenizava seu humor gradativamente. — Não estou a fim de tocar nesse assunto, está bem?

— Oh, claro, tudo bem. — unia seus ciúmes a um jogo mental. — Por mais não-conformista que eu seja, seus amiguinhos de preto são bem melhores do que eu. Afinal com eles você pode andar o tempo todo e foda-se, mas comigo...

— O que eu sinto por eles não é o mesmo que eu sinto por você — levantou o tom de voz.

— Uau, que revelação — poderia ganhar um Oscar por sua falsa indiferença. Outro por ser capaz de fingir que não entendeu o sentido daquela frase. — Que gosta mais deles eu já entendi, Henrietta. Não precisava me lembrar.

Virando o rosto para ele bruscamente, o olhar que a gótica tinha era de igual para igual: um olhar de desafeto.

— Merda, Eric — tomada por ódio, descrente de que pretendia mesmo dizer isso, sacudiu a cabeça negativamente. — Tô atraída pra caralho por você.

— Ah, você está? — um terceiro Oscar para a frieza de quem explodia por dentro. Não daria o braço a torcer ainda; queria mesmo saber o quanto mais ela iria falar. — Se for do tipo “é só beijar que passa”, eu dispenso. Já passei por isso antes e não pretendo passar de novo.

— Queria eu que fosse só isso, seu idiota! Pouco me importa com que espécie de vadia você conviveu, eu não faço e nem nunca vou fazer esse tipo.

Silêncio absoluto. Dos mais inquietantes, desta vez. Em sua ira, Henrietta o fitava solenemente. Milésimos se passaram, levando-a à confusão completa por vê-lo sorrindo.

— O que é? — expressão dela tornou-se duplamente agressiva.

— Você é esperta, mas não tanto. — Eric sorria suavemente. — Se fosse, já teria percebido que é recíproco.

Mais silêncio. Incômodo apenas para o lado dela, pelo menos. A gótica não se contentaria em ficar no desconforto; não sem recuperar sua dignidade antes.

— E você acha mesmo que eu não percebi? — seu rosto queimou como em fogo vivo. — Só um maluco continuaria persistente depois de tanto fracasso. Um maluco muito orgulhoso, interessado... E muito estúpido.

— Então qual o problema?

— Tudo isso, Eric. Tudo isso é problema, problemas aos montes, um problema muito maior do que eu pensava.

— Etta, sinceramente — coçava a lateral da cabeça. — Quanto mais pistas você dá menos tudo isso faz sentido.

— Eu não quero me envolver sentimentalmente, Eric Cartman. — surpreendeu a si mesma com o quanto foi direta. — Não apenas com você, mas... Com ninguém. Eu... Não quero. Não nesse nível. Eu apenas... Não posso.

— Você não quer... Ou não se sente segura? — a inflexibilidade em seu tom e em seu rosto era quase obscura. Uma luz lhe veio à cabeça. — Algum filho da puta provocou isso, não é?

— Eric — cobrindo os olhos com as mãos, tinha sua voz notavelmente mais baixa. Se recusava a chorar na presença dele, mesmo que este fosse um choro de ódio. — Será que dá pra esquecer...?

— É isso. — cortou sua fala com um sorriso de irritação. — O tempo todo, era isso. O pior foi eu ter desconfiado e descartado a possibilidade, se tratando de você eu não achei que podia ser tão óbvio.

— Eric, por todos os deuses — conseguiu olhá-lo fundo dos olhos. Fosse ou não por má vontade, finalmente... Conseguiu fazê-lo se calar. — A última coisa da qual quero falar é sobre isso. Eu... Não estou pronta para falar sobre isso. Não hoje, não agora.

Lá estava o silêncio compartilhado outra vez. Acompanhado de um clima tenso, indesejável, tão pesado que poderia ser sentido pairando no ar. Bastaram poucos segundos para Cartman, a grosso modo, decidir se “contentar”. A insistência no assunto não o ajudaria, e seu imediatismo iria apenas prejudicá-lo.

— Tá. — o fã do nazismo bateu as costas no assento como última demonstração de raiva. Não dela, é claro. Mas a mesma não saberia diferenciar. Não naquela circunstância.

— Eu não quero perder você. — as palavras repentinas da gótica o surpreenderam. Não exclusivamente por serem inesperadas, mas também pela angústia e honestidade impostas nelas. A declaração vazou dela como uma barragem se rompendo. — Não exagerei quando disse que você é a pessoa mais legal que já conheci. Me afastar de você faz eu me sentir segura, isso é óbvio. Mas não faz eu me sentir bem. Não importa o quanto eu tente me enganar. Estar com meus amigos faz com que eu me sinta aceita, mas estar com você faz eu me sentir... Feliz? Eu não sei. Talvez eu nem saiba ao certo como é estar assim.

— Você sente como se o mundo não fosse tão merda assim. — supôs.

— Putz, é... Exatamente isso. Como você...?

— Eu já disse. É recíproco. — concluiu. Seguido a isso, pensou numa abordagem e sorriu com escárnio. — É um termo bem explicativo. A não ser que a madame não saiba o que significa recíproco.

— Não questione a minha inteligência, verme miserável. — controlou o desejo de sorrir. Ele estava mesmo tentando tranquilizá-la fazendo as coisas voltarem ao normal? Poderia se acostumar com essa praticidade.

— Pode me chamar do que quiser a partir de agora, porque você quer a amizade desse verme miserável. — sorriu orgulhosamente, mas de maneira afetuosa. — Essa deve ter sido a melhor demonstração de afeto da história.

— É, tá. Eu não teria dito nada daquilo se não estivesse à beira do desespero. — parou e pensou rapidamente numa desculpa. — Quase não tenho amigos, perder um está fora de questão.

— As condições não importam, aquela foi uma puta valorização de amizade. Aceite os fatos, Henrietta: você se diz contra o sentimentalismo mas na realidade é uma verdadeira romântica.

— Como você é irritante. — pressionou o vinco entre os olhos com os dedos.

— Mas você quer esse irritante por perto. Vai negar isso agora?

— Adoraria negar, mas nem isso eu posso mais. Você deixa as pessoas no limite pra que digam e façam o que você quer, nesse ponto eu tenho que te parabenizar. — fechou a cara. Apesar disso, teve um bom humor sutil ao reconhecer que ele sorria. — Então tá, mala sem alça. Agora que sabe que sou uma imbecil incapaz de superar um trauma, não ouse ser você a me evitar.

— Por que eu faria isso?

— Eu não sei, vai que você pegou um pouco da “coragem” do seu amigo loiro.

— Se acha isso, você precisa me conhecer um pouco mais. Não sou como Kenny ou Clyde, não desistiria agora que cheguei até aqui.

— É, eu devia ter pensado nisso. — houve alívio em seu sorriso discreto. — Foi bem estranho aqueles dois tentando se aproximar de mim quase que ao mesmo tempo. E logo depois veio você. Dentre todas as garotas do mundo, procuraram logo a pior pra isso. Você e seus amigos devem ter uns gostos bem bizarros.

— Pois é... — pensava em como mudar de assunto. Prosseguir nisto e alcançar a questão da aposta não era uma boa opção, não via mais necessidade em queimar o filme de quem já o queimava sozinho. — Então, essas são as considerações finais: você não quer “se envolver sentimentalmente”, mas também não quer que eu deixe de ser seu amigo por isso.

— Precisamente, com todas as palavras. É bom saber que entendeu.

— Não. Estou respeitando, “entender” são outros quinhentos.

— É o suficiente por mim.

— Ótimo, então.

— É, ótimo.

Não, não estava ótimo. Estava bem longe de ótimo. Na verdade, era exatamente o contrário de ótimo. Não passava de uma medida provisória que o antissemita jamais escolheria, um obstáculo não apenas para seus planos mas também para suas vontades.

Com “vontades”, Eric se referia a ter um pouco de Henrietta para si. E, com “um pouco”, se referia a tê-la por inteiro e por um longo tempo. Sem prazo de validade, de preferência. Somando ao problema, – afinal, um atraso em seus planos não poderia ser frustrante o suficiente – Cartman tinha um novo alguém para odiar. Não só odiar como também para futuramente aplicar uma devida punição. Esperava que o sujeito gostasse de chili.

— Você está planejando algo nesse exato momento, não está? — pela cara que ele fazia, Henrietta supôs em sua inexpressão habitual.

— ...Estou. — perdendo a linha do raciocínio, respondeu com o mesmo humor.

— Pretende fazer tudo o que estiver ao seu alcance pra descobrir o que aconteceu comigo, não é?

— Pretendo.

— E não vai sossegar até conseguir o que quer.

— Exato.

— Também pretende deixar uma mensagem bem hostil pro cara que causou tudo isso caso descubra.

— Pode apostar o seu rabo que sim.

— Bem... — suspirou. — Boa sorte pra você.

— Agradeço pela “positividade”, mas quem garante o sucesso não precisa de sorte. — zombou com um meio sorriso marcado.

Numa busca por determinação para ir embora dali, Henrietta tocou a maçaneta interna. Eric nem mesmo questionava a atitude, acostumado à sua evasão. Não faria tanta diferença desta vez: o ano letivo estava apenas começando. Teria muitos dias próximo a ela pela frente.

— Aí. — na pose em que estava, Henrietta lembrou de algo a dizer. — Se quiser andar com a gente um dia, vista essas roupas. Tirando a Shelly, os outros góticos te acham conformista. Adoraria ver você calando a boca deles.

— Aceito seu convite. Não pretendo ser gótico de verdade, mas até que curti esse estilo em específico. — olhou para si.

— É, e eu não paguei isso aí à toa. Use e abuse. — torceu os lábios. — Sabe... De certo modo estou feliz por você não querer ser gótico. Nada mais inconformista do que preservar sua própria identidade.

— Além do fato de eu não ser gótico trazer alegria pra sua vida. Sou o diferentão do seu círculo de amigos. — piscou um olho desdenhosamente para ela. Aproveitando a oportunidade, recostou-se no assento com os braços sob a cabeça. — “Inconformista”... Estou gostando de ouvir isso.

— Legal saber disso. Nunca mais te chamo assim. — sorriu com sarcasmo.

— Bom, nesse caso vou parar mencionar o quanto você é sombria.

— Não preciso que mencione, reafirmar o óbvio pode se tornar cansativo.

— Veja só, respostas bem feitas... Parece que mais alguém tem autoestima. — aproximou-se por alguns milímetros, em desafio.

— E bem superior à sua, assim como minha capacidade de dirigir. — repetiu todo o gesto, em todos os aspectos.

Passaram pouco tempo olhando um pro outro. Ao menos, pouco tempo em comparação com outras vezes. Fingindo pigarrear, Henrietta retornava ao que pretendia fazer.

— Então — se preparou para abrir a porta. — Até amanhã.

— É. — endireitou-se no banco com um suspiro fechado. — Até amanhã.

Mediante as circunstâncias, o fã do nazismo não via melhor alternativa senão aceitar os fatos. A deixaria ir embora. Já tinha conseguido as informações que queria e, mais do que nunca, estava disposto a esperar um pouco mais. Valeria a pena.

Porém, a admiradora do sombrio hesitava. Eric a viu respirar fundo, selar as pálpebras... Para então ouvi-la perguntar:

— Você me beijou mesmo no dia do Casa Bonita... Não beijou?

“...Ah, merda.” foi tudo que o antissemita pôde pensar. De toda forma, não achava que esta questão tinha caído mesmo no esquecimento: os argumentos de Kerstin não tinham sido lá muito convincentes. Só não esperava que teria que lidar com isso justamente agora.

Eric poderia contornar a situação. Distraí-la com uma piada, convencê-la com alguma mentira. Mas, francamente... Depois da gótica ter sido tão transparente em suas declarações anteriores, ela também merecia algumas verdades. Ainda que isso muito lhe custasse.

— Beijei. — confessou, não ousando olhá-la diretamente.

Na perspectiva dele, o mundo talvez tivesse parado. Já imaginava que a resposta à confissão demoraria a vir. Restando-lhe confiar no que ouviu sobre ela querer sua companhia a todo custo, aguardava pelas menos-piores reações possíveis.

Entretanto... Ao menos, de início... Não estava vendo uma reação negativa.

Desta vez, Henrietta respirou superficialmente. Aparentava tensão... Reflexão, quem sabe. E esta era uma das poucas vezes onde ela demonstrava com clareza o que sentia. A gótica não conseguia crer no que estava pensando em fazer, assim como não acreditava que realmente pretendia fazê-lo.

Por toda a sua vida, em todas as vezes onde desejou alguma coisa, esta gótica de alguma forma conseguia. Se tivesse que ser uma completa idiota e continuar traindo a si mesma... Bem, que fizesse isso direito.

Silenciosamente, Henrietta afastou a mão da porta do carro. Manteve os olhos cerrados e mordiscou o lábio inferior em nervosismo. De sobrancelha erguida, Cartman a observava em confusão, até o instante onde o olhar inseguro que ela possuía fixou-se no seu.

Era um olhar inseguro. Porém, determinado. E, claramente, carregando uma grande vontade.

A essa altura, a face da gótica queimava feito as chamas infernais. Um vermelho que maquiagem alguma poderia ocultar. Seu olhar de desejo contido, vagando dos olhos de Cartman até os lábios, deixava suas intenções bastante claras. Ele não tinha esperanças reais sobre ela pedir por isso em palavras naquele momento, mas aquele olhar... Aquele olhar cheio de expectativas e resoluto que Henrietta ostentava... Era exatamente o pedido que ele precisava.

Quando a luva de couro e os dedos de Cartman tocaram a lateral de seu rosto, Henrietta quase recuou num espasmo; ambos eram agradavelmente quentes. Não pôde evitar sua inspiração satisfeita e a aceleração cardíaca ao ver que Eric a olhava com equivalente desejo. Poderia ser uma ocasião digna de uma aproximação lenta, digna dos insuportáveis filmes adolescentes de romance, mas nenhum dos dois estava com tal paciência; era como se o próprio universo aguardasse por isso há muito e muito tempo.

O primeiro beijo tido na vida de Eric foi por iniciativa da garota em questão; o evento mais irrelevante, esquecível e desconsiderável em toda a sua vida amorosa. Se fosse para algo dar certo em sua vida, a iniciativa teria que partir dele, assim ele pensava. Somente não contava que, antes que pudesse ser ele a selar os lábios com os da gótica por quem tanto esperou, a mesma apoiaria uma das mãos em seu rosto e o beijaria por si própria.

Felizmente, naquele momento, Eric não estava disposto a dar ouvidos a seus orgulhos pessoais. Não hesitou por nenhum segundo em retribuir, aproximando-se ao quanto era possível. Só os deuses saberiam quando teria esta oportunidade novamente.

O calor humano. O cheiro que sentiam um no outro. A forma como o nariz dele tocava sua bochecha, arrepiando-a com sua respiração suave. Toda uma combinação de sensações incomparáveis, saborosas, únicas... Mas com um único problema. Henrietta, claramente, não fazia a menor ideia do que estava fazendo.

Por mais leves que os movimentos de Cartman fossem, Henrietta estava com clara dificuldade em acompanhar. O rapaz tentava conduzir o beijo com leves toques de lábios, porém a gótica parecia perdida. Talvez até constrangida, incapaz de acertar o timing de resposta. Estavam num beijo que ambos desejavam, mas era como se estivessem parados no tempo.

Fora de seu controle e não por maldade, Eric se deixou esboçar um sorriso rápido; não era possível que uma garota como aquela jamais tenha tido um beijo de verdade. Isso era demais para sua compreensão.

Como que para tranquilizá-la, com toda a calma que lhe era possível, o fã do nazismo direcionou sua mão até a lateral do pescoço da gótica. Acariciou a pele sensível com os dedos, brincando em seguida com os fios de cabelo curtos na nuca. De maneira inconfundível, a sentiu se derreter e até suspirar em seu toque. Um levante de excitações para ambos os lados, junto de uma alta carga de confiança.

Ao darem por si, tinham os corpos juntos. Mesmo suas respirações estavam em sintonia. Henrietta tinha as mãos nos cabelos dele, os cotovelos sobre seus ombros, os dedos das mãos em pequenos espasmos de alegria. As mãos de Eric ora acariciavam sua nuca, ora a apertavam com firmeza contra si, sentindo seu corpo nas palmas e dedos. Ao finalmente encontrarem um padrão no beijo, aproveitavam o sabor e prazer que proporcionavam e recebiam um do outro como se este pudesse ser o último. Ofereceriam muitas coisas para que tivessem um pouco mais de liberdade para se aproximarem no interior daquele carro.

Bem... Tudo o que é bom tende a durar menos do que deveria. A fome que tinham em aproveitar o momento, com direito a variar o ritmo e intensidade do beijo e das carícias, acabou levando-os à exaustão. Separaram os lábios ofegantes; Eric afundou o rosto em seu pescoço e cabelo, parando para sentir intensamente o seu cheiro. Nenhum desgosto por histórias de romance que esta gótica tinha poderia diminuir o valor deste momento, ou o arrepio que passou por todo o seu corpo.

Apesar dela ter recobrado a consciência de forma abrupta... Ter se desvencilhado dele, recuperado sua bolsa rapidamente, saído do carro fechando a porta com força, caminhado de volta até sua casa a passos ligeiros, escondido mais uma vez suas emoções sob um manto de orgulho e sequer ter se despedido...

Henrietta não se arrependia.

* * *