Malaxophobia
17 Inimiga interior
No lar dos Smith, família cujo casal há anos segue com uma vida pacata, o mais jovem entre todos os góticos da cidade havia chegado. Tirou suas botas e as deixou ao lado da porta de forma alinhada. Como um filho obediente, Firkle cumpriu o que foi prometido aos seus pais, voltando para casa antes do cair da noite. Pouco antes de ter entrado, havia erguido ambas as mangas de sua camisa social preta e, em seus braços, limpado o batom roxo que usa todos os dias e o delineador que esteve sob seus olhos, escondendo as evidências em seguida. Bagunçou entre os dedos sua franja negra escorrida e arrastou-a para trás, assim se parecendo mais com um conformista de sua idade.
O peso de saber desde o início que era um filho adotivo muito o afetava. A dor de ter sido abandonado por seus pais reais ao nascer o tornava socialmente agressivo. Contudo, ambos os tópicos se contradiziam em relação à gratidão por viver numa família equilibrada. Esta era sua rotina, e sentia-se perfeitamente bem em segui-la: um jovem às portas do ensino médio antipático e sanguinário para seus colegas da escola, contrapondo com uma criança amorosa e comum para seus pais, com acréscimo de um “saudável favoritismo” pela cor preta.
— Mãe? — Firkle a chamou com voz doce, quase irreconhecível. Silêncio reinava na casa. — Olá?
Seu chamado não foi respondido. Sabendo que seu pai demoraria pelo menos mais uma hora antes de chegar do trabalho, não tinha motivos para chamar por ele também. Espiou dentro da cozinha, chamou por sua mãe novamente, e ainda não pôde encontrá-la.
Ao ouvir um ruído estranho vindo do andar superior, semicerrou os olhos com suspeita. Sem cerimônias, subiu apressadamente as escadas, tirando seu canivete do bolso no processo.
No novo corredor, ouviu o ruído mais uma vez, e detectou que vinha do banheiro ao final. Parecia uma risada feminina abafada, mas isso não foi o suficiente para amenizar seu receio. Pode ser amável para sua família, mas seu ser não se negaria a matar se viesse a ser necessário – não era considerado o mais hardcore entre os góticos sem bons motivos.
Abriu cautelosamente a porta de onde vieram os rumores, fracassando em evitar que as dobradiças rangessem. No interior, instintivamente sentiu uma presença detrás das cortinas ao redor da banheira e aproximou-se a passos silenciosos, empunhando o canivete firmemente com lâmina pronta para um ataque. Ao puxar a cortina de forma abrupta, a pessoa encontrada o fez congelar em pânico interno: uma garota, conhecida e felizmente vestida, se levantou abruptamente, fazendo uma tentativa adorável de grito monstruoso para assustá-lo.
— ...Karen? — somente seus olhos se arregalaram, pois o restante de seu rosto e sua voz faziam de tudo para não exibir emoção. Sentia como se seu coração fosse explodir.
— Psicose. — a menina comentou aleatoriamente. Suas mãos ainda estavam no ar, com dedos curvados para imitar garras.
— O quê...?
Antes de esclarecer suas dúvidas, a garota saiu da banheira, pondo para fora um pé de cada vez, acabando por fazer Firkle recuar. Seus cabelos castanhos e claros, normalmente soltos, agora estavam divididos em dois e caídos por seus ombros, presos a dois pequenos laços de cor bordô. Seu suéter verde, suas botas marrons com cadarços e seus jeans do dia a dia se mantinham. Para o gótico, revê-la com o penteado desta forma era uma surpresa que ultrapassava vários níveis de graciosidade. Engoliu em seco para manter-se sério.
— Psicose. É um filme bem antigo. — Karen explicou, com olhos brilhantes. — Acabamos de recriar uma cena clássica... Na medida do possível.
— Karen — abaixou seu canivete, fazendo de tudo para não demonstrar sua inquietação. — O que está fazendo na minha casa?
— Seu pai recebeu uma promoção no trabalho hoje e, para comemorar, convidou sua mãe para um jantar a dois. Não quiseram te incomodar enquanto estava com seus amigos, então... — sorriu francamente. — Sou sua babá essa noite.
— Mas — piscou duas vezes. — Nós temos a mesma idade...
— Dã.. Sou mais alta que você, espertão. — deu três soquinhos delicados na cabeça do mais baixo, checando se havia algum cérebro dentro. — Seus pais acharam que eu fosse mais velha.
— Ai, meu Azathoth. — Firkle levou uma mão ao rosto, incrédulo, e Karen riu de sua reação. Pior que isso era saber que seus pais ainda consideravam sua idade cabível para precisar de uma babá.
— Ei — numa pausa, Karen olhou-o no fundo dos olhos. — Quero te mostrar uma coisa.
O mais baixo pretendia perguntar o que era, mas não pôde pronunciar sequer uma palavra a mais. Suando frio, de olhos vidrados, corando como nunca antes em sua vida, observava cada mínimo movimento das mãos de Karen enquanto lentamente desfazia os botões de seu suéter. A garota ainda não tinha seios totalmente desenvolvidos, mas eram o bastante para enchê-lo de expectativas erradas. Quis cortar o próprio pescoço com o canivete para verificar se não estava num sonho, mas não era capaz de se mover: em seu âmago, Firkle sabia que nem mesmo a timidez era suficiente para negar que queria ter essa visão.
Aliviado, porém de certa forma decepcionado, liberou um suspiro ao ver que Karen usava uma camiseta preta sob o suéter quando o abriu por completo. Em sua estampa, um tanto desbotada por muito tempo de uso, havia a imagem de um famoso personagem do universo do horror que foi facilmente identificado.
— Pinhead? — Firkle questionou, com coração leve.
— Sim! — sorriu ainda mais. O brilho nos olhos dela havia retornado devido ao seu reconhecimento. — De Hellraiser.
Muitas questões começavam a se encaixar. O ânimo da McCormick quando o viu usar a serra elétrica para apartar a “briga” entre os dois canadenses, o brilho em seus olhos a cada referência... Sem perceber, Firkle tinha feito uma interpretação indireta a The Texas Chain Saw Massacre, e assim a havia deslumbrado. Um jeito peculiar de conseguir as atenções de alguém.
— Karen... Você é fã de filmes de terror?
— Sim! Muito! — sua comoção era clara. — De vários tipos, mas principalmente os com muito, mas muito gore. Eu sempre achei o estilo dos góticos legal, mas não sabia que esses filmes se encaixavam nos seus interesses. Quando você deu uma de Leatherface pra cima do Matthew e do Ike, foi tão... Incrível.
Pendendo a cabeça para baixo, com braços cruzados, Firkle não mais pôde se controlar: sorriu feito um tolo. Já presenciou muitas coisas surpreendentes e inesperadas, mas esta entrou em primeiro lugar.
— Com muito gore, hein? — ainda sorria de canto quando retornou o foco a ela.
— Pois é — mostrou-se um tanto insegura. — Eu não sei o porquê, mas... Enxergo algo muito fascinante nas formas mais brutais de morrer.
Deixando inteiramente de lado sua postura gótica, usada e praticada durante tantos anos graças a longos esforços e treinamento solene... Firkle riu. Ou melhor, gargalhou, na medida do possível mediante sua personalidade. Ainda havia o toque sem vida em sua risada, ainda era contida e talvez um pouco monótona, mas era uma risada honesta.
Chegara o momento de Karen corar, e não só pelo choque de vê-lo rir pela primeira vez.
— Tá me achando uma esquisita, não é? — demonstrou uma mescla de vergonha e pesar.
Extasiado por tudo o que foi ouvido, com uma coragem cujas origens desconhecia, Firkle não pôde evitar de expor seu principal pensamento:
— Eu acho você fantástica, na verdade.
O espanto de Karen tornou-se visível em suas feições. O bom humor em Firkle desapareceu, arrependendo-se por ter falado demais. Trazendo ainda mais timidez a ele, a garota passou a fitá-lo atentamente, enfim reparando na ausência de sua maquiagem e em seu cabelo organizado fora do habitual.
A McCormick não parecia reprovar.
— Você ficou ainda mais bonitinho agora que consigo ver todo o seu rosto. — Karen confessou com um sorriso fraco, de olhos comprimidos.
Depois de um semblante sem graça e uma tosse falsa, sem ter ideia alguma do que dizer ou pensar em relação a isso, Firkle tentou encontrar algo para desviar-se do elogio. Jamais foi bom em lidar com eles.
— Você... Quer assistir minha coleção de Evil Dead...? — esfregou a nuca em tensão absoluta. No mesmo instante, arrependeu-se de novo, sentindo-se estúpido.
Como resposta, Karen apenas mostrou-lhe um último grande sorriso de confirmação; último, pois no momento seguinte estaria ocupada. Divertindo-se a cada segundo com seu embaraço por não saber lidar com esta atitude, mantendo o contato visual por todo o caminho, aproximou-se de Firkle aos poucos. Com um único dedo em seu queixo, ergueu o rosto do rapaz, alinhando-o na altura ideal, e se pôs a beijá-lo nos lábios.
Percebendo pelo nervosismo do gótico que aquele poderia ser seu primeiro beijo, Karen segurou ambas as suas mãos e as conduziu para que tocassem seus quadris, com toda a paciência para ensiná-lo. O rapaz, até então impactado, com os olhos quase escapando das órbitas, entregou-se a sentimentos há muito guardados. Abraçou a cintura da mais alta com vontade, recebendo um abraço afetuoso sobre seus ombros em retribuição, e passou a beijá-la de olhos fechados. Numa questão de tempo, sentiram-se confortáveis para iniciar movimentos suaves, fazendo Firkle corar ainda mais duramente a cada descoberta.
E, por melhor que beijar Karen fosse... Ele sob hipótese alguma poderia negar: era realmente frustrante ser baixo a ponto de ter que levantar a cabeça para beijar uma garota.
* * *
“Quando se está apaixonado, as poesias devem ficar uma merda, mesmo.”
O crânio de acrílico sobre o criado mudo, cujo olho esquerdo exibia as horas e o direito os minutos, mostrava que deveria ter se deitado há muito tempo. Em seu quarto, sentada à escrivaninha repleta de materiais de escrita e objetos fúnebres, Henrietta apertava desesperadamente o rosto nas mãos. De cabelos desgrenhados, olhos cansados e confortada em sua camisola de seda, remoía um milhão de pensamentos em bloqueio criativo. Seu dia teve uma dinâmica exaustiva, há noites não consegue um sono completo, seus olhos queimavam por falta de descanso e, ainda assim, não conseguia se deitar para dormir. Sua mente estava agitada demais para isso.
“Eu posso, eu quero e eu vou escrever a merda de uma poesia.” havia definido mentalmente, com determinação. A frase pronunciada por Firkle estava mexendo com seu orgulho. Conforme a batida macabra e os primeiros versos do rock gótico preenchiam seus fones de ouvido, junto a respirações controladas, tentava se permitir relaxar. Há vários minutos, segurava inutilmente uma caneta acima de uma folha de papel totalmente em branco, na esperança de ideias úteis surgirem do além. À quais eventos conformistas recentes ela poderia manifestar seu desgosto a partir da escrita? Tantas opções que não sabia por onde começar.
Passou a rabiscar indefinidamente um canto da folha para aliviar o estresse. Envolvida pela música, fechou os olhos para recordar o seu dia.
A começar por Simons e seu grupo de sanguessugas. Eles, com essa tendência forçada a livros sobre vampiros brilhosos de sexualidade questionável, envergonham todos os dias a verdadeira essência do vampirismo. Bram Stoker, a mente genial por trás de Drácula, morreria novamente de desgosto ao ver tais aberrações. A gótica iria adorar jogar Simons de um prédio, apenas para checar se a vampira sabe virar morcego e voar.
“Aliás... Ela não sabe.” sorriu consigo mesma por tal lembrança. “Tentou se matar depois de passar por uma vergonha mínima. Uma covarde, mesmo.”
Depois... Aquelas roupas apertadas de cheerleader. Os conformistas zombando de seu corpo. A fantasia de vaca que a aguardava para o dia do grande jogo, somando mais uma catástrofe para futuramente envergonhá-la. “E aquele...” fechou os olhos fortemente, sem identificar ao certo o que sentia a respeito. “Aquele desgraçado que livrou parte da minha barra.”
Quando Eric a aproximou de si daquela forma, pôde ter mais uma vez aquele maldito sentimento agradável no peito. Se seus seios não a ajudassem, o rapaz poderia ter sentido e ouvido as batidas patéticas do seu coração. A ausência desse tipo de contato humano em sua vida havia feito desta ocasião, para ela, uma experiência única. E o olhar que compartilharam, unido ao estranho desejo de se aproximar um pouco mais...
No momento do ocorrido, Henrietta havia eliminado uma vontade, no mínimo, confusa. Doía-lhe no ego e feria seu conceito de resiliência confessar isso, mas... Ela queria tê-lo beijado. Não apenas beijá-lo, mas beijá-lo intensamente. Queria perder o fôlego com ele, pondo em euforia todos os morcegos que decidiram fazer morada em seu estômago. Nunca, em toda a sua vida, houve um momento em que quisesse beijar alguém tanto como naquele.
Além de considerar que Eric possui uma personalidade admirável, uma coleção de feitos geniais e um jeito de ser distante de qualquer idealização social... Também o considerava terrivelmente atraente. Como se estes fatores não fossem o bastante para destruí-la, obteve consciência de que o infeliz sabe tocar seu instrumento favorito, o qual sempre foi desajeitada e impaciente demais para aprender a tocar por si própria. Não apenas sabe tocá-lo, como sabe tocá-lo com perfeição.
Esgotada, a gótica bateu furiosamente a testa na mesa. Seu lado racional gostaria de tecer poesias brutais, sua resistência e autopreservação queriam detestá-lo mortalmente, e seu emocional... Estava abobado. Abobado como o de uma menininha conformista.
Olhando para o teto, seu rosto possuía claro estresse estampado. Esfregava a testa para aplacar a dor. Lentamente, voltou o olhar para sua cama, que parecia seduzi-la a se deitar junto àquela infinidade de travesseiros confortáveis. Como se não ter escrito nada não fosse suficientemente frustrante, sabia que eram grandes as chances de ter mais um daqueles pesadelos caso obedecesse a este chamado.
Detestando-se, Henrietta resmungou em derrota. Contra sua vontade e razão, tomada por exaustão súbita, se encaminhou à cama tão facilmente que sequer sentiu-se levantar no processo. Ao se deitar, sem posição certa, sua mente se apagou em menos de um segundo, não permitindo tempo para pensar em se cobrir primeiro. Se encarar outro pesadelo fosse a condição para ter uma noite de sono... Ela o faria.
* * *
“...Ah. Que maravilha.
Quando me encorajei a encarar qualquer pesadelo que viesse, pensei que conseguiria induzir minha mente a não sonhar. No melhor dos termos, uma bela tentativa de merda. Ao menos, posso perceber que essa é primeira vez em que tenho um sonho consciente. Nessas situações, dizem que podemos moldar o universo a nossa volta como bem quisermos.
Se nos outros sonhos eu também soubesse que nada era real, teria conseguido evitar um milhão de problemas.
Que ótimo.
Tive um momento para observar o que está ao redor. Os mesmos brinquedos de parquinho que sempre odiei, o mesmo chão coberto de neve, o mesmo prédio amarelo minimalista à direita e as mesmas cercas de tijolos vermelhos no entorno. O pátio da South Park Elementary, onde estudei por quase dois anos do fundamental, é a realidade que o sonho projetou. Conforme o mundo a minha volta seguia seu curso, estalei os dedos uma única vez, e o som gerado ecoou por todos os lados; era como habitar uma realidade falsa, projetada num grande espaço vazio. Por minha ordem, o universo e as pessoas nele paralisaram no tempo.
Incrível. Eu poderia sorrir, se eu gostasse ou quisesse.
Sobre o muro baixo que abriga a instituição, Pete e Firkle sentam-se lado a lado, carregando feições naturalmente apáticas nos rostos. Michael encontra-se de pé próximo aos dois, mirando os olhos no mesmo ponto que ambos. Consideravelmente distantes de nós, uma infinidade de alunos reúne-se num grande círculo, animados, para apreciar um espetáculo no centro. Todos, incluindo a mim mesma, encontram-se em idades de, talvez, nove a doze anos.
A partir de um sonho, posso reviver um momento crucial dos meus dez anos de idade. Vestido preto, sapatilhas confortáveis, meia calça grossa cinza, luvas sem dedos... Mesmo minhas antigas roupas casuais se mantiveram. É estranho encarar o mundo dessa altura novamente, e o colar com a cruz de prata alcançando minha cintura me faz sentir ainda menor.
Enquanto congelados no tempo, é possível analisar calmamente as expressões faciais de todos: muitos semblantes apresentam choque, a maioria demonstra satisfação pelo que foi presenciado.
Esse dia. Eu... Me lembro desse dia.
Sem pensar demais, me desvencilhei cuidadosamente por entre as crianças estáticas, e com esforço pude abrir caminho até o interior do círculo. Uma familiar garota de cabelos negros, usando uma boina rosa sobre a cabeça, estava posicionada para se retirar da zona de combate graças a ordem do velho coordenador e psicólogo escolar. Sr. Mackey tinha chegado tarde demais.
Os cabelos da garota encontram-se presos num coque. Não usa seu casaco, pois o havia tirado para lutar, assim expondo sua camiseta estampada por um ridículo unicórnio estrelado. Wendy é seu nome, se bem me lembro. Seu rosto se retraía em completo ódio e, observando atentamente, é possível perceber evidências de sangue em suas mãos. Mesmo com seu trabalho feito, ela tinha chutado seu oponente já vencido até que a raiva se dissipasse, e este era o motivo das expressões pasmas dos espectadores: um garotinho acima do peso, também desprovido de seu casaco e de rosto inteiramente acabado, estirava-se em derrota numa parte seca do solo. Uma derrota humilhante.
Após passos ligeiros, sem medir esforços ou consequências, me ajoelhei prontamente ao lado de Eric. Com todo o cuidado possível, ainda que ciente desta cautela não ser necessária dentro desta realidade, consegui virá-lo para vê-lo melhor. Seus olhos, roxos e tão dilatados que só com muito esforço seria capaz de abrir, possuíam grandes manchas de sangue escuro ao redor, que se estendia por quase todo o seu rosto e até mesmo às suas roupas. Inacreditável relembrar que todo aquele sangue pertencia somente a ele.
Fui consumida por uma tristeza amarga. Sem arrependimentos, sem inibições, trouxe calmamente sua cabeça para repousar no meu colo. Acariciei seu rosto delicadamente com os dedos, atenta a não atingir ainda mais os ferimentos, e arrumei alguns fios castanhos que escapavam de sua touca. Cumpri os gestos sem nenhuma pressa, com uma empatia que não sabia que tinha, confortando-o com o melhor que pude.
Era isso o que eu devia ter feito naquele dia: devia ter me aproximado. Devia ter feito algo, em vez de me limitar a observar contida, fazendo de conta que não me importava como todos os outros. Eric comprou esta briga, provocou Wendy até o último segundo, e pagou por seus erros com sua dor e humilhação.
Observando ainda mais a garota que o deixou neste estado e analisando seu tipo físico magro... Até mesmo frágil, para quem tem uma primeira impressão... Como Eric pode ter apanhado tanto? Mesmo sendo uma criança gorda, talvez um pouco mais do que eu mesma fui, não é óbvio para mais ninguém que alguém como ele teria acabado com uma menina desse tipo em segundos se realmente quisesse?
Wendy... E Simons. A pequena e desnecessária discussão que tiveram antes do treino das líderes, sem razões aparentes. Jenny claramente não vai com a cara dela, então, isso significa que... Eric já gostou da Wendy? Ou, talvez, significa que ele e Wendy já estiveram juntos?
Eric se deixou ser vencido apenas porque não queria bater nela de verdade?
— Seu... — iniciei, com mãos trêmulas nas laterais de seu rosto, olhando em seus olhos fechados uma última vez. — Inconformista idiota. "
Por sua própria escolha, tinha sido um sonho breve. Não dormiu por uma hora sequer, e sua cabeça latejava. Despertou pensativa, dolorida pela posição péssima em que se encontrava. Se sentou à beira da cama mediante a necessidade de parar para refletir e respirar melhor.
Que merda de sonho angustiante tinha sido aquele?
Sem reação, de olhos apenas semiabertos graças às bolsas extenuadas sob as pálpebras, encarou a peça de roupa com textura agora áspera que seus dedos seguravam. Piscou uma vez, na tentativa de se situar no mundo real novamente, checando se aquela situação estava realmente acontecendo: em sua mão esquerda, sob nenhuma explicação lógica, o casaco do terno de Eric estava de volta; mesmo as manchas de chocolate criadas por ela própria na noite passada estavam ali para assombrá-la.
Com o terno em sua posse, incapaz de expressar pânico devido ao cansaço em vários sentidos, Henrietta levantou-se da cama, inexpressiva, e andou pelo quarto a passos arrastados. Recolheu uma lixeira metálica, felizmente vazia, que estava ao lado de uma pequena mesa coberta por velas vermelhas, um grimório aberto e um cinzeiro cheio até a borda com bitucas de cigarro. Com tranquilidade, saiu do quarto lentamente e percorreu o corredor, descendo as escadas em seguida, e passou pela sala de estar antes de chegar à cozinha. Num armário sob o balcão, pacientemente, conseguiu encontrar uma garrafa de álcool e, numa das muitas gavetas, uma caixa de fósforos.
Iria se livrar daquela merda de terno. De um jeito ou de outro.
Centralizou a lixeira na cozinha, enxergando consideravelmente bem por estar habituada ao escuro. Despejou o terno no interior, pingou algumas gotas do álcool em sua extensão e observou, com um suspiro aliviado, o fogo formado no fósforo após riscá-lo. Estava mais do que pronta para dizer adeus a este problema.
Não contava somente que sua mão esquerda, que segurava os fósforos, ia golpear involuntariamente o recém aceso, derrubando-o para apagá-lo.
O sono imenso que suportava a impossibilitou de processar o acontecimento. Não satisfeita, agora impaciente e frustrada sob a névoa de fraqueza, Henrietta acendeu outro fósforo, e o mesmo gesto para impedi-la foi repetido contra sua vontade. Impondo um fim às suas tentativas, a caixa de fósforos foi lançada para longe, encharcando com os últimos resquícios de água que restavam na pia.
— Mas... Quê? — fitou sua mão descontrolada com uma forte lentidão mental.
Uma lentidão que, em questão de segundos, foi dispersa ao ampliar os olhos. Um fenômeno inesperado, que lhe trouxe mais dúvidas que respostas, aconteceu à sua frente: sua mão esquerda, por si própria, posicionou-se no ar feito um fantoche.
O polegar correspondia ao maxilar. Lábios desenhados e preenchidos com um batom roxo avermelhado, que Henrietta possui e sequer usou em toda a sua vida, correspondiam à sua boca. Olhos pouco detalhados, porém bastante femininos com cinco cílios em cada, desenhados com delineador, completavam o rosto. E, no que deveria ser o queixo, a unha pintada de preto no polegar da gótica dava a impressão de ser uma pinta. Com uma voz equivalente a uma versão mais fina e emocional da que pertence à sua hospedeira, movendo o polegar conforme as palavras, a mão viva enervou-se com um carregado sotaque sueco:
— Você não vai conseguir fazer isso enquanto eu estiver aqui... Sua vadiazinha.
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