Kagami encarava o aparelho eletrônico em suas mãos, arrastava o dedo sobre a tela na esperança de que isso fosse fazer surgir uma resposta da qual lhe agradasse. Estava nervoso, sentia-se apreensivo apenas por cogitar uma aproximação com o outro. Não sabia mais o que fazer para ser notado pelo aho, até encenar para ele que mantinha uma relação de segundas intenções com o próprio irmão o ruivo encenara! Tudo bem que não eram irmãos consanguíneos, mas não tinha a menor chance de despertar tal interesse por Himuro. A tentativa com o irmão fora tão falha ao seu ver que até considerou desistir dos conselhos de Satsuki, porém a sua mais nova amiga e confidente deu uma prova de suas habilidades quando persuadiu Kise para este inventasse encontros entre os dois.

Fora tudo muito bem pensado pela garota que até mesmo coincidiu com os desmarques que precisara dar a Aomine durante aquele período. Havia burlado os encontros semanais em função de suas notas, precisou ficar três dias em um intensivo de estudos projetado por sua treinadora, não contara para o aho porque não sentia que havia necessidade para tal, ainda questionava se ele apreciava os encontros que mantinham tanto quanto ele. Mas assim que ouvira a enxurrada de questionamentos a respeito das tais aulas particulares com Kise, mal conteve o burburinho de animação crescente dentro de si. Claro que aproveitou para tirar sarro da cara daquele desgraçado, afinal quem ele pensa que era para questionar quem, o que, quando e onde deveria ou não fazer ou ter qualquer coisa com alguém seja lá quem fosse. Sim, provocara Daiki, para que ele provasse do próprio veneno, como das vezes em que recebera olhares furtivos de algumas garotas e retribuía-os com sorrisos e piscadelas mesmo com a presença do tigre ao seu lado. Sentia-se um pouco infantil por essa e demais atitudes, mas não conseguia controlar, gostava daquele imbecil afinal de contas.

E gostar de Aomine por si só já era um castigo, então quando via uma oportunidade provocava-o. A primeira vez em que chegou à conclusão de que nutria algo além de raiva, desejou fugir daquela cidade, daquele país e de preferência daquele continente. Não queria mais olhar na cara dele, como poderia jogar com aquele desgraçado sem sentir-se envergonhado? Envergonhado porquê havia se metido em uma enrascada, não tinha expectativas de ser correspondido e sabia que uma hora ou outra ele acabaria por descobrir e da maneira que aquele bastardo era, bem capaz de usar aquele sentimento tolo contra si. Gemeu em frustração, tentou evitá-lo o máximo possível, mas precisava vencê-lo e para isso tinha que estudar as táticas de jogo dele, isso significava passar um tempo considerável o observando. Sim, estava nessa angústia desde um pouco antes da final da Winter Cup, começara apenas instigado pela prepotência dele, queria arrastar a cara daquele bastardo no piso da quadra de preferência; no fundo era só um dos muitos desafios contra a geração milagrosa. Porém, quanto mais estudava, mais se admirava com a desenvoltura dele em quadra. Daiki era realmente bom no esporte, jogava basquete de rua desde fedelho e isso o tornava hábil em diversos aspectos, mas quando se encontraram a arrogância preponderava e isso o tornou vulnerável, contribuindo na vitória do tigre; que estava satisfeito com o próprio desempenho e naquela altura ainda tinha esperanças de que toda aquela admiração e interesse fossem desaparecer magicamente, pois agora derrotado não precisaria mais ter contato com o outro. Entretanto, o ruivo desconhecia por completo os efeitos que aquela partida pudesse causar no azulado.

Acabou que as posições se inverteram, agora Aomine era o interessado e o observava. Ele não era tão discreto no último quesito, sempre se deixava exposto, como se exigisse ser notado como uma ameaça. Isso perdurou até o momento em que Taiga cansado de tudo aquilo desafiou-o enquanto treinava na quadra ao lado de sua lanchonete favorita. Depois dessa rixa, passaram a se encontrar esporadicamente, apareciam, jogavam e iam embora. Mas isso não tornava as coisas mais fáceis para o tigre que se sentia paranoico durante os jogos, seu cérebro insistia em interpretar situações, toques durante o roubo de bola e até mesmo xingamentos de forma subliminar. Sempre retornava para o seu apartamento com uma pilha de hambúrgueres nas mãos e outra pilha de fantasias exacerbadas na mente. Em uma dessas tardes, quando se preparava para ir comprar mais fast-food e ir para casa sofrer com seus pensamentos pecaminosos, fora interceptado com um aperto em seu braço, o toque era quente e tinha a impressão de aquilo não era efeito somente do esforço físico, Aomine parecia ser quente a todo momento. Estava tão concentrado no toque que não prestara atenção na fala do azulado, que aumentara o contato e repetira. -Oe bakagami, me passe de uma vez!

Precisou piscar mais umas duas vezes para entender o que ele dizia. -O quê? Passar o quê? — Notou o rolar de olhos do moreno e sentiu-se absorto, praticamente suspirara com o sorriso que ele dera quando o inquiria pela última vez.

—O número do seu celular baka, me passe a porra do número. — O aperto continuava e agora estava tão quente quanto suas bochechas, como odiava aquele desgraçado. Quis perguntar a razão daquele pedido, mas ele fora mais rápido. -Preciso saber quando você estiver aqui para treinarmos...- Balançou a cabeça positivamente e repassara os numerais, tão logo feito sentira a distância entre os dois corpos aumentando, ficou tão surpreso que nem conseguira reclamar da forma que ele o chamara.

Quando retornou para casa naquele dia ficou imaginando se os beijos dele eram tão quentes quanto o toque de suas mãos, aquela fora a primeira vez que se tocara pensando no outro. Assim que se despejara na parede do box a ficha caíra, aquilo definitivamente não seria passageiro, não sumiria de seus pensamentos e sonhos como um passe de mágica. Ainda em recusa, ficara com algumas garotas de sua escola, até mesmo alguns garotos, mas nada fazia-o esquecer daquele bastardo. Não tinha problemas quanto sua sexualidade, mas sim a pessoa a quem seus desejos eram direcionados. E a cada encontro que tinham isso ficava pior e mais evidente para todos, menos para o imbecil em questão que parecia usar uma venda nos próprios olhos. Até mesmo Kuroko o questionou uma vez a respeito da repentina aproximação de suas luzes, desconversara é lógico; já era difícil aceitar aquele turbilhão de sentimentos em segredo não gostava nem de imaginar a reação dos outros.

Essa dinâmica perdurou até o fatídico dia em que marcaram de se encontrar após o treino, aparentemente o moreno iria ser libero mais cedo e o encontraria em sua escola para que fossem ao Maji Burguer juntos, não queria refletir muito a respeito da repentina mudança de planos nem da aura ansiosa que o circundara quando lera a notificação. Não era a primeira vez que recebia mensagens dele, desde que passara o número era bombardeado com conteúdo de variados gêneros, de ofensas a até mesmo aquelas em que seu cérebro desocupado o levava a viajar por caminhos obscuros, mas era a primeira vez que ele o buscaria. Quando se despediu de seus colegas, inclusive de sua luz, visualizou o moreno recostado nos portões de entrada da instituição. Caminhou em sua direção, mas ao se aproximar notou que ele não estava sozinho. Sentiu-se enganado para dizer o mínimo, a garota ao lado do moreno parecia bem animada e ambos estavam tão entretidos na conversa que mantinham que não notaram sua presença, precisou pigarrear para chamar-lhes a atenção e para tentar espantar a pontinha de ciúme que subia por sua garganta.

Por um momento quase imperceptível conseguiu ver um lampejo de arrependimento na face de Aomine enquanto este o apresentava a garota; Momoi Satsuki. Cumprimentou a rosada e os três se encaminharam a lanchonete com a mais baixa no meio tentando a todo custo puxar assunto com o ruivo e integrar o amigo de infância na conversa. Respondia de forma sucinta, não queria ser desagradável, mas não conseguia disfarçar o incômodo. Em sua defesa, fora pego totalmente desprevenido pela presença dela. Quando adentraram a quadra naquela tarde com a garota de plateia, o clima estava tenso. Tentou repetir algumas jogadas que estava treinando, mas não conseguira se concentrar totalmente, até o bastardo perguntara o que havia de errado, mentiu dizendo que não se sentia bem e que precisava ir pra casa terminar algumas tarefas. Não era uma total inverdade, precisava terminar um trabalho para a aula de história e sentia-se cansado pelo treino puxado que Riko formulou. Apesar do olhar desconfiado, Daiki encerrara a partida mais cedo, não se importou nem em contabilizar quem havia ganho, já que para ele não tinha graça quando o ruivo não se entregava cem por cento. A garota que permanecia calada observando os dois, sentada junto dos pertences deles, urgiu para que fossem comer antes de ir embora. Em suas palavras, se o jogo não fosse acontecer ela ao menos queria se empanturrar. Taiga tentou recusar seu convite ou sua intimação, mas seu estômago resmungara por não ter almoçado direito.

Arrastado pela rosada. Foram até a lanchonete, escolhendo uma das mesas no canto do estabelecimento. Aomine por insistência da amiga acabara por ir fazer o pedido dos três. Do outro lado da mesa, Momoi encarava o ruivo com um sorriso mínimo em seus lábios, ela era muito bonita na visão de Kagami. Questionou-se se ela e o aho já teriam nutrido algum tipo de sentimento um pelo outro. A menina, claramente impaciente, rolara os olhos e bufara, gesticulando para que ele começasse a falar. O rapaz não entendia a insinuação, não se conheciam direito, claro que ele sabia quem ela era por ter observado o outro durante um tempo, mas nunca foram devidamente apresentados, não tinham assunto. Engano seu. Ela olhou na direção do amigo de infância e sem olhar para a face do ruivo proferiu. -Eu me pergunto quando ele irá descobrir, você não?

Olhou na direção dele, as costas largas e amorenadas se destacavam no ambiente. Mordeu o lábio e voltou a encará-la, não precisava ser nenhum gênio para entender o que ela pretendia com aquele tópico. Suava frio e tentava inutilmente secar a palma das mãos em seus shorts. Abriu a boca para respondê-la, mas nada proferia. Em uma vã tentativa de conseguir escapar daquele lugar, impulsionou o corpo para fora daria uma desculpa para Aomine depois, mas ela agarrou suas mãos e o fez permanecer sentado. Aprendera naquela tarde que o humor dela era efêmero. Era óbvia a crise que o garoto estava passando. Kagami sabia que aquele momento chegaria, mas definitivamente não esperava que fosse na porra de uma lanchonete. -E-eu não... Eu... — Ela negou com a cabeça enquanto afagava suas mãos.

—Está tudo bem... — A rosada sorria abertamente agora, debruçada sobre a superfície da mesa para que alcançasse suas mãos, estavam próximos, quem testemunhasse de longe poderia acreditar que formavam um casal. -Seja lá o que esteja fazendo para Dai-chan, isso o trouxe de volta e eu espero que continue dando certo... — Ela piscou em sua direção, como uma forma de confidência e aprovação. Ficou surpreso com a fala da mais baixa, quis prolongar a conversa, mas foram interrompidos por um Aomine com cara de poucos amigos, as vezes se questionava acerca do que o havia chamado atenção naquele cabeça de vento.

Notas finais
Quaisquer comentários serão bem vindos. :)