Mais Que Um Segredo...

28 Capítulo 28 - Suficiente...


Quinn se olhava no espelho do banheiro com uma expressão apática. Tinha sido um dia estranho... Rachel tinha passado por um susto enorme e foi ela quem a ajudou das formas mais arriscadas possíveis. Ela a abraçou em público e envolveu Russel naquela situação. Ela podia sentir o pavor de ser descoberta embrulhando seu estômago...

Lembrou-se do jantar e da forma fria com a qual Judy tocou no assunto. A mulher insistia que Russel não devia ter ajudado Leroy. Que aquele ato contrariava todo o discurso que ele já havia feito tantas vezes contra os homossexuais. Tudo o que Russel se limitou a dizer foi: “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador...” Ele foi atencioso com a filha e a incentivou a dar força à amiga... Frannie percebeu a tensão que dominava a irmã e fez de tudo para mudar de assunto.

[FLASHBACK ON]

F: Quinnie?

Após o jantar, Quinn subiu rapidamente para o quarto. Ela esperava uma ligação de Rachel, pelo menos uma mensagem. Nada... Não havia qualquer tentativa de comunicação...

F: Você está chorando? [perguntou preocupada]

Quinn assentiu suavemente com a cabeça, enxugando as lágrimas com uma mão, enquanto segurava o celular com a outra.

F: Quer conversar?

Q: Eu não sou o suficiente pra ela... [disse triste]

F: Do que você está falando?

Q: Eu a abracei na escola. Eu não pensei direito... Eu não podia vê-la tão triste e não abraçá-la...

F: Claro! Você fez certo...

Q: Então eu a levei ao hospital, mas não a abracei lá. Isso a incomodou... Eu estava com ela, mas mesmo assim eu não era suficiente... Se eu não demonstro para que os outros vejam o que sinto então eu não sou suficiente... [constatou triste]

F: Quinnie, eu tenho certeza de que não é bem assim...

Q: Eu... [olhou-a agoniada] Eu pedi ao papai que ajudasse. Eu envolvi o papai nisso. Você tem noção do quanto eu me arrisquei? Você viu a forma como a mamãe odiou tudo isso! Você viu a forma como ela me olhou só por saber que eu sou amiga da filha de pais gays. Você tem noção de como ela me olharia se soubesse que, na verdade, eu namoro a Rachel?

F: Eu sei, mas...

Q: Cinquenta mil dólares é a média dos custos da internação do Leroy. Eu fiz o papai assumir esse custo...

F: Mas não sai do bolso dele. Você sabe que sai do Fundo do Hospital.

Q: Mas é dinheiro que ele já investiu. Queira ou não é dinheiro que já foi dele. Você acha que ele ficaria feliz em saber que eu o fiz autorizar esse gasto para salvar a vida do pai da minha namorada? [levantou-se nervosa] Você acha que ele vai ser tão compreensivo se souber que o que ele tanto abomina está acontecendo dentro da casa dele? Porque é fácil ele ser tão bom quando não atinge a família dele... Eu não pensei direito. Eu só pensava em não vê-la sofrer. Eu não pensei nas consequências...

F: Quinnie... [levantou-se] O que você fez foi lindo! Foi nobre! Não foi apenas instintivo!

Q: Mas ela não vê isso! [choramingou] Não importa o que eu faça, se não torno pública a nossa relação eu continuo não sendo suficiente. Nenhuma mensagem, Frannie! Nenhuma! Eu saí de lá e o Finn tinha chegado. Ele deve ter jogado as asinhas dele sobre ela.

F: Mas ele não pensa que ela namora o Noah?

Q: Pensa...

F: Então pare com esse ciúme! As pessoas sabem que ela é comprometida, mesmo que não saibam que é com você...

Q: Ela não me ligou... [voltou a chorar] Ela não me ligou...

Frannie a puxou para um abraço. O choro de Quinn era suave. Sentia a irmã acariciar suas costas tentando acalmá-la.

F: Foi um dia difícil pra ela... Entenda que o pai dela está hospitalizado. Lembre-se do que vocês viveram nesse fim de semana. Você é suficiente sim!

[FLASHBACK OFF]

Frannie tinha ido levar os pais ao aeroporto. Russel não queria viajar de madrugada, então trocou as passagens por um voo mais cedo. Antes de sair ele procurou por Quinn e foi extremamente atencioso, mesmo sem saber o que passava na cabeça da filha. Judy foi ao quarto dela e se limitou a beijá-la no rosto. Ao contrário de Russel, ela não fez nenhuma recomendação ou disse que sentiria saudade. Mas Quinn percebeu que a frieza em seu olhar tinha um motivo bem específico...

Diante do espelho ela já não via mais sinais do choro de mais cedo, mas ela via em seus olhos toda a insegurança de quem não aguentava pensar em Rachel no hospital perto de Finn...

Ela não sabia, mas Noah não havia saído de perto da morena um segundo sequer. Qualquer pessoa que tentou se aproximar teve que lidar com sua presença constante. Ele sabia que não precisava esperar um pedido de Quinn para isso...

Rachel ficou mais tranquila quando Leroy foi para o quarto. Ela pôde vê-lo e conversar com ele. Saber que ele não precisaria fazer cirurgia foi um alívio. Um cateterismo era o procedimento adequado e, embora ela não entendesse muito bem do que se tratava, ela entendia que era menos grave do que pensava...

Durante todo o tempo em que esteve lá ela pensou em Quinn. Ela pensou no quanto deve ter sido difícil para a loira tê-la ajudado e no quanto ela deveria estar em pânico. Ela queria ligá-la, mas Kurt e Mercedes não saíram de perto por muito tempo. E mesmo que ela tivesse espaço, ela tinha medo de ligar e tornar isso um problema. Como sempre, ela não sabia se os pais da loira poderiam ver e questionar. Tudo bem que Russel pensava que elas eram amigas, mas ela estava tão acostumada a não ligar que preferiu ficar quieta...

A noite estava fria e Quinn estava bem agasalhada. No banco ao lado havia um casaco grosso que ela não usaria. Ao passar pela frente da casa de Rachel e vê-la completamente escura, entendeu que ela continuava no hospital. Pensou em ligá-la, mas desistiu... Olhou para o casaco que repousava ao lado e concluiu que tinha sido mesmo uma boa ideia...

Hiram estava ao telefone diante da porta do quarto de Leroy. Sorriu suavemente ao ver Quinn caminhando pelo corredor. O casaco que antes estava no banco, agora estava em sua mão...

Q: Hey... [aproximou-se tímida]

Hiram desligou o telefone e a puxou para um abraço:

H: Vou mandar fazer um pedestal pra você! [disse sorrindo]

Quinn sorriu também...

Q: Está tudo bem? [separou-se do abraço]

H: Sim! Graças a Deus, a você e a seu pai!

Q: Graças a Deus! [sorriu encabulada] A Rachel...

H: Está dormindo aí dentro. [apontou para o quarto]

Q: Oh... [exclamou um pouco desanimada] Você poderia dizer que estive aqui quando ela acordar?

H: Não... [disse tranquilo] Eu gostaria de te pedir, se não for pedir demais, que a leve pra casa. Ela precisa descansar e não tem lugar para nós dois como acompanhantes do Leroy... [sorriu suavemente]

Q: Claro! [sorriu suavemente] Claro que posso levá-la!

H: Eu tenho mais uma ligação a fazer. Você pode acordá-la e levá-la? Ela não comeu nada o dia todo...

Q: Claro... Claro!

A loira abriu a porta com cuidado. Rachel estava deitada no sofá do quarto, enquanto Leroy dormia. Quinn se abaixou diante dela e a admirou por alguns segundos. Havia apenas um abajur aceso e a iluminação parecia perfeita para deixar a morena ainda mais linda. Quinn deslizou os olhos por ela inteira e sentiu seu coração bater mais forte. Ela a amava tanto! Tanto... Com o dedo indicador esquerdo tocou o rosto da namorada e acariciou suavemente, enquanto a chamava bem baixinho com a voz rouca e doce:

Q: Rach... Acorda...

A morena não demorou a sentir o carinho e acordou. Ao perceber a presença de Quinn ela esboçou um sorriso tão lindo que quase fez a loira esquecer que estava triste antes de chegar ali. Quase...

Rachel se moveu para sentar. Ela se espreguiçou e Quinn achou aquele gesto lindo...

R: Que horas são?

Q: São... [puxou um pouco a manga do casaco] dez da noite...

R: Estou com fome...

Rachel fez uma careta divertida. Quinn amou aquilo. Ela pegou o casaco que levou e colocou sobre os ombros da morena:

Q: Está bastante frio lá fora... Eu vou te levar pra casa.

A morena assentiu e a acompanhou. Hiram não precisou dizer nada para que Quinn entendesse que ela tinha autorização para dormir na casa dos Berry. Rachel se aconchegou no banco do carro e encostou a cabeça na janela. Ela ainda estava com muito sono... Quinn manteve-se em silêncio por todo o caminho... Quando chegaram à casa, Rachel acendeu a luz da escada:

R: Preciso de um banho... [murmurou cansada]

Q: Eu vou preparar algo para você comer. Você toma um banho enquanto isso.

A voz de Quinn era calma e carinhosa. Ela estava passando por cima da própria tristeza para fazer Rachel se sentir bem... A morena assentiu suavemente com a cabeça e subiu as escadas em direção ao quarto. A cada degrau subido, Quinn se sentia ainda mais triste. Rachel não tinha sequer demonstrado vontade em beijá-la. Ela suspirou pesadamente...

Pão integral, alface, tomate, ricota, algumas frutas para um suco... Quinn separava os ingredientes tentando não pensar na ausência de beijo, de atenção. Elas estavam no lugar mais seguro e Rachel não a havia beijado, nem dado qualquer sinal de que ela deveria beijá-la... Frustrou-se! Elas eram namoradas, afinal! Ela não tinha que esperar qualquer sinal para beijá-la. Sentiu as mãos de Rachel em sua cintura e o cheiro de sabonete invadir seu olfato... A morena apoiou a testa nas costas da loira que começou a amolecer com o contato repentino...

R: Ter você aqui depois do dia de hoje era tudo o que eu precisava...

Quinn se virou e a beijou na testa. Sentiu as mãos de Rachel tocarem seu rosto e a puxar delicadamente para um beijo. Ela tinha esperado, desejado, precisado daquele beijo da morena... Ela sentia como se os lábios carnudos estivessem tentando apagar todo medo e insegurança que ela sentiu naquele dia, mesmo sem saber ao certo... Naquele dia Rachel enfrentou o medo de perder o pai e estava terminando a noite com a certeza de que ele estava bem. Naquele mesmo dia Quinn sentiu o medo avassalador de ser descoberta pelos pais e ela não estava nem um pouco tranquila...

Sentiu o beijo ser cortado e o rosto de Rachel se encaixar em seu pescoço. Quinn a abraçou carinhosamente.

R: Eu te amo...

Quinn a apertou um pouco mais no abraço. Por enquanto, era o suficiente...

[CONTINUA...]

Notas finais
Espero que gostem! Comentem! Beijos!