Mais Que Um Segredo...
29 Capítulo 29 - Menos um segredo...
Quinn estava de volta à escola ignorando todo e qualquer olhar direcionado a ela. Não queria perceber qualquer sombra de dúvidas sobre sua relação com Rachel. Abraçá-la no meio do corredor foi mesmo um risco, mas ela não se arrependia de ter feito nem por um segundo. Caminhava com a mesma imponência de sempre, sem se deixar abater por qualquer coisa que aparecesse em seu caminho. Sua mente não estava totalmente ali. Pensava em Rachel mais do que gostaria de pensar...
[FLASHBACK ON]
Rachel sentia o carinho de Quinn em seus cabelos. Estava deitada em seu peito, esperando o sono voltar...
R: Obrigada por dormir aqui comigo...
A loira não respondeu. Beijou-lhe suavemente o topo da cabeça em resposta e continuou com o carinho...
R: Eu não tenho...
Rachel se sentou e passou a encará-la:
R: Eu não tenho palavras para agradecer a você e a seu pai. Você foi incrível! Você é incrível! [disse encantada] E seu pai me parece um bom homem...
Q: Ele é um bom homem... [disse calma]
R: Você tem certeza de que ele não seria bom com você se soubesse sobre a gente?
Q: Rachel... [sentou-se também] Eu não queria ter essa conversa agora. Você teve um dia complicado e cheio. Precisa descansar. Focar no seu pai.
R: Ele está bem! E eu gostaria de conversar agora.
Q: Essa não é uma opção. [disse séria]
R: Por que não?
Q: Eu não quero! [disse mais séria]
R: Às vezes parece que é você que não quer que ele saiba. Que você tem vergonha de si mesma.
Rachel se arrependeu do que falou assim que fechou a boca. Quinn a olhou incrédula. De repente, seu olhar se tornou frio... Sentou-se à beira da cama e buscou o par de sapatos.
R: O que você está fazendo?
Q: Eu vou pra minha casa antes que você piore as coisas.
R: Piorar? O que você quer que eu pense? Seu pai não me parece um homofóbico, pois ajudou ao meu pai que ele sabe que é gay.
Quinn a olhou irritada:
Q: Então você nunca ouviu os discursos dele contra o casamento gay? Contra o relacionamento gay em geral?
R: Então ele deve ter mudado, Quinn! Porque ele foi muito legal com meus pais.
Q: O que não quer dizer que ele apoie o estilo de vida deles.
R: Nem o da própria filha?
Q: Pior ainda! [levantou-se rapidamente] Você não vive na minha casa! Não convive com eles. Você não escuta como eles pensam, nem os comentários que são feitos sobre isso. Você não viu a forma como a minha mãe falou quando soube que meu pai ajudaria ao seu. [disse com a voz embargada] Você não imagina a forma como ela me olhou ao saber que eu sou sua amiga. Apenas amiga. Ela parecia estar com nojo de mim apenas por pensar que eu convivo com você. Imagine como ela me olharia se soubesse que você é minha namorada. Que eu te beijo. Que a gente fez amor... [a voz falhou]
R: Mas seu pai...
Q: Ele é educado! [interrompeu] Ele é generoso, mas não aceita que duas pessoas do mesmo sexo se amem. Ele ajudou ao seu pai porque eu pedi. Ele ajudou porque, nessa situação, ele viu um ser humano que precisava de ajuda. Mas se seus pais precisassem de uma ajuda diferente, como alguma coisa burocrática referente ao casamento deles, meu pai jamais ajudaria!
R: Você não sabe disso! Você não pode...
Q: Eu sei! [começava a chorar] Eu sei! Não sei por que você insiste tanto nisso! Por que você acha que eu só te amo o suficiente se eu arriscar o meu pescoço na minha casa?
R: Hey! Calma... [tentava se aproximar dela] Eu nunca disse isso!
Q: Você não diz com palavras, mas faz com que eu me sinta insuficiente... [chorava mais] Eu te abracei diante de todos na escola, eu já te defendi, eu me arrisquei em casa para garantir que seu pai ficasse bem e nada disso parece suficiente para você ficar satisfeita com meus sentimentos. É como se nada fosse o bastante até que meus pais saibam sobre a gente e comecem a me odiar!
R: Não é isso, Quinn! Eu não...
Q: Eu não posso ter o seu amor e o amor deles ao mesmo tempo! Você quer que eu escolha? Eu não posso escolher! [gritou] Eu não posso abrir mão de você nem abrir mão deles. E a única forma de ter todos vocês ao mesmo tempo é deixá-los sem saber sobre a gente. É a única maneira!
A loira caminhou para sair do quarto, mas sentiu a mão de Rachel agarrar seu pulso puxando-a de volta.
R: Não vá! [pediu agoniada] Me desculpe! Me desculpe! Eu não deveria ter insistido em conversar, nem ter dito as coisas que eu falei! Me desculpe!
Q: Não adianta você se desculpar por ter me dito o que disse. O problema é você pensar. É você sentir que eu preciso fazer mais. Eu nunca pensei que me entregaria a alguém da forma como me entrego a você! Eu nunca pensei que baixaria tanto a minha guarda dessa forma. Mas eu me desnudei completamente, de corpo e alma, arriscando a minha própria sanidade... E você faz eu me sentir limitada, egoísta, covarde...
R: Eu não... [aproximou-se cautelosa] Eu não tive a intenção... Me perdoa!
Q: Você precisa descansar e eu também. Eu vou dormir lá na sala, ok?!
R: Não!
Q: Eu não vou pra minha casa, mas também não vou ficar aqui com você. Ficarei lá embaixo... Descanse...
Rachel não foi capaz de impedi-la. Quinn desceu as escadas rapidamente e logo estava deitada no sofá da sala. Ela sabia que precisava descansar, mas não conseguia mais pegar no sono. Em todos os cantos daquela casa havia fotos de uma família unida que realmente era unida. Não eram como as fotos de sua casa, posadas milimetricamente e tiradas por fotógrafos profissionais. Russel era mesmo um bom homem, um bom pai, mas tinha suas limitações sociais. Judy era uma mulher fria, sem muita interação com as filhas, sempre pensando na carreira do marido e na manutenção da reputação da família. Não eram fotos carinhosas, casuais, cheias de felicidade. Eram quase um protocolo... Por que era tão difícil para Rachel entender que ser uma Fabray era completamente diferente de ser uma Berry?
Enquanto a loira estava na sala, Rachel amargurava o arrependimento de ter forçado aquela conversa. Só que era muito difícil para ela entender como alguém tão generoso como Russel havia sido poderia manter uma postura homofóbica. Parecia bastante contraditório. E o pavor que Quinn sentia o tempo inteiro de ser descoberta poderia significar vergonha de ser quem é... Talvez Rachel tivesse ido longe demais...
Desceu as escadas meia hora depois. Ela não conseguiria dormir sem melhorar aquela situação. Surpreendeu-se ao ver que Quinn ainda não tinha dormido. Sentou-se à beira do sofá um pouco constrangida...
R: Eu não penso que você é uma covarde...
Q: Você já deveria estar dormindo, Rachel...
R: Eu não pude... Não sem saber se estamos bem...
Q: Eu não sei... Não sei se estamos... [respondeu triste]
R: Não fala assim... [choramingou]
Quinn se sentou e a encarou:
Q: Tivemos um final de semana perfeito. Infelizmente, depois disso, seu pai sofreu um infarto. Nenhum desses dois assuntos era a pauta da nossa conversa. A pauta era a sua insistência em me ver revelar sobre a gente. E eu vou ser sincera com você: isso não vai acontecer. Se você quiser ficar comigo terá que entender que esse relacionamento não pode ser do conhecimento dos meus pais. Se for impossível aceitar isso, teremos que acabar por aqui.
Ela não conseguiu encarar os olhos castanhos por muito tempo. Os olhos verdes encheram de lágrimas e ela desviou o olhar para um ponto fixo no chão.
Q: Você merece mais do que isso e eu já lhe disse... Não quero te prender nesse relacionamento se o que você quer é mais do que eu posso te dar...
R: Pare! [disse com a voz embargada] Pare, por favor! Você não pode terminar comigo assim!
Q: Não estou terminando. [olhou-a firme] Estou te dando a chance de escolher o que for melhor pra você. Porque eu não vou entrar nessa discussão de novo, Rachel. Eu não posso escolher! Eu só posso ter você e meus pais se eles não souberem sobre a gente. Eu não posso enfrentá-los. Não posso perdê-los... [tentou segurar o choro]
Rachel ficou em silêncio por um tempo. Sentiu-se egoísta. Todo aquele dia tinha sido sobre seu pai. Tinha sido sobre salvar sua família. Durante quase um dia inteiro, tudo o que Quinn fez foi cuidar para que sua família não sofresse um baque, não se desestruturasse, não mudasse... Tudo o que ela fez foi proteger sua família e, ao contrário do que a loira fez, ela parecia pedir para que ela arriscasse a relação com os pais apenas para satisfazê-la... Explodiu num choro repentino que assustou Quinn:
R: Me desculpe! Por favor, me desculpe! Não termine comigo! Não vamos mais brigar! [chorava] Eu fui egoísta e estúpida! Me desculpe! Por favor!
Quinn a puxou para um abraço e apertou de modo a fazê-la entender que elas não terminariam:
Q: Eu te amo! [disse em seu ouvido] Tenta considerar meu amor suficiente...
Era de manhã quando a loira acordou. Ainda era cedo, mas ela precisava passar em casa e se arrumar para ir à escola. Deixaria Rachel no hospital e seguiria seu caminho.
Havia um silêncio confortável no carro. Tão confortável quanto o silêncio durante o café da manhã que Quinn havia preparado. O banho da morena foi rápido e logo estavam fora de casa...
Ao parar diante do hospital, Rachel a olhou um pouco temerosa:
R: Estamos bem?
Quinn se aproximou dela e segurou seu rosto delicadamente, depositando um beijo suave nos lábios carnudos.
Q: Ficaremos... [apoiou a testa na dela] Tenha um bom dia! Nos veremos mais tarde...
Ao ver o carro indo embora o coração de Rachel pareceu se despedaçar. Ela havia magoado Quinn injustamente. E aquilo doía demais!
[FLASHBACK OFF]
Foi direto ao vestiário deixar sua bolsa para o treino de mais tarde. Parecia sozinha no local e aquilo lhe deu uma falsa sensação de paz. Por pouco tempo... Ouviu a porta bater e passos se aproximando de onde estava. Não teve curiosidade de saber quem era até que Santana apareceu em seu campo de visão.
Q: Hey... [cumprimentou]
S: Hey, Fabray!
A latina se sentou no grande banco atrás delas e permaneceu em silêncio por um tempo. Aquilo começou a irritar a loira...
Q: Perdeu alguma coisa aqui, Santana? [perguntou sem olhá-la]
Havia um chaveiro na mão da latina e ela parecia brincar com ele. Deslizava as chaves pelos dedos numa aparente reflexão sobre alguma coisa. Quinn não precisou perguntar mais uma vez...
S: Só queria entender desde quando você está com a Berry...
O corpo de Quinn enrijeceu. Sentiu um frio atravessar sua espinha. Ela não podia ter ouvido aquilo. Respirou fundo e tentou se manter calma...
Q: Do que... [virou-se para ela] Do que você está falando?
S: A gente se conhece desde criança e eu te conheço melhor do que você é capaz de imaginar. [disse calma]
Q: Eu não sei do que você está falando. [virou-se novamente para o armário]
S: Você acha que consegue mentir pra mim?
Q: Onde você quer chegar? [virou-se ríspida]
Santana se levantou e ficou diante dela. Tão perto que quase dava para sentir o calor de sua respiração.
S: Eu confiei em você. Você sabe sobre mim e Britt. Você foi minha confidente quando eu não sabia o que fazer. Quando eu tinha medo do que fazer...
Q: Eu não sei onde você quer chegar com esse assunto, Santana! [tentava desconversar]
S: Por que você pensa que precisa esconder de mim o que existe entre você e a Berry?
Q: Não existe nada entre mim e ela. Não sei de onde você tirou isso!
Quinn tentou sair dali, mas Santana a segurou pelo braço:
S: Nossa conversa não acabou.
Q: Para mim sim!
S: Então eu não vejo razão para não voltar a mexer com a Berry. [soltou-a] É isso! Já que vocês não são nada uma da outra, eu posso voltar a infernizá-la como antes.
Q: Faça o que quiser...
S: Tem certeza? [perguntou desafiante]
Q: Absoluta!
S: Ok... Vou acabar com o Glee Club e destruir a única coisa que a faz feliz nessa escola...
Q: Vá em frente!
Santana a olhou fixamente e balançou a cabeça negativamente...
S: Não se preocupe, Q... Vou deixar sua garota em paz... [passou a caminhar para sair dali]
Q: Ela não...
S: Quando você estiver pronta... [interrompeu] Eu posso ser terrível com todo mundo dessa escola, mas não com você! E principalmente se o assunto é algo que eu também vivi... Quando você estiver pronta, pode me procurar...
Quinn a viu saindo do vestiário e percebeu que o frio em sua espinha não havia passado. Suas mãos continuavam frias e trêmulas, e seu estômago embrulhado. Ela não poderia imaginar uma conversa daquela. Ela não queria que tivesse acontecido. Como Santana havia descoberto seu segredo? Por que logo ela? O que aconteceria a partir dali?
O medo a dominou mais uma vez...
[CONTINUA...]
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