Mai Hime: Summer Vacation

8 8. Aqueles que contam a história


- Suzushiro! – exclamou Nao-chan segurando o braço da outra. – Eu... não aguento mais...!

As duas estavam andando sem rumo a umas três horas. O sol já ia alto e as árvores o encobriam com suas folhas verdes e úmidas. O calor não era tão insuportável assim, mas Nao-san nunca fora fisicamente preparada para uma viagem daquelas.

- O que é isso, Yuuki! Estamos bem perto agora, eu sei disso.

- Você diz isso desde o dia em que entramos neste maldito lugar. – replicou Nao-chan entredentes.

- Bobagem! – exclamou Suzushiro-san abanando a mão. – Você só tem que me seguir par...

E ela não continuou a frase porque um buraco se apresentou à sua frente. Suzushiro-san caiu de forma espetacular e histérica.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

E como Nao-chan estivesse cansada e agarrada ao seu braço, também foi puxada para baixo.

As duas se embolaram numa confusão de terra, membros, um bumerangue e folhas. Muitas folhas. Aliás, pouca terra, porque elas haviam sido içadas para cima a uma boa altura por uma rede que as envolvia e comprimia uma contra a outra.

Nao-chan e Suzushiro-san caíram na armadilha mais velha do mundo. A rede coberta por folhas que pega animais distraídos.

- Nnaldiff-fão! – Suzushiro-san cuspiu uma folha tentando dizer “maldição”. – Agora somos isca para caçadores!

- Por que tenho a impressão de que não é a primeira vez que isso acontece? – comentou Nao-chan sem ânimo. (*)

Suzushiro-san começou a morder a rede. Cinco minutos depois, seus dentes doíam e ela obviamente não rompera um milímetro da armadilha.

- Yuuki, comece a balançar essa coisa. Nosso peso e pressão devem derrubá-la.

- Só se for o peso dos seus seios. – murmurou Nao-chan que não estava numa posição muito confortável com relação ao busto da outra.

Fora o fato de que cada uma virou para um lado e a rede nem se mexeu, elas quase conseguiram seu intento. Após um brilhante trabalho de equipe, Suzushiro-san tinha a testa suada e marcada do náilon. Nao-chan nem respirava mais.

- Ai! Tira esse brinquedo daqui, Suzushiro! – gritou ela após sentir uma picada nas costas.

O bumerangue verde escorregou por um dos buracos do outro lado da rede e Nao-chan percebeu que não era ele o problema.

- Mas olha só o que nós pegamos, Hiroto!

- Ara! Não é bem o que esperávamos, é?

Suzushiro-san podia ver os homens que as olhavam de baixo. Nao-chan não conseguia nem se mexer. Eram dois magrelos de chapéu de palha com lanças de pesca nas mãos.

O mais alto tirou o chapéu e olhou curioso para as duas. O outro, que se chamava Hiroto, deu um sorriso misterioso e faiscou os olhos, mas de cima só se via o chapéu.

- Quem está aí, Suzushiro? – sussurrou Nao-chan. Mas ela não estava ouvindo. Suzushiro-san fez uma cara de pavor e começou a rir, tresloucada.

- A-acho que estou com febre, Yuuki. Sabe, acabo de ouvir um dialeto que não me é estranho...

- Ara, a moça conhece Kyoto? – perguntou o homem chamado Hiroto.

- AI MEU DEUS! ESTOU LOUCA! – berrou Suzushiro-san totalmente em pânico balançando freneticamente a rede. – ESTOU OUVINDO AQUELA MULHER BUBUZUKE COM VOZ DE HOMEM!

- CALA A BOCA, SUZUSHIRO! – berrou mais alto ainda Nao-chan.

Os dois homens lá embaixo se entreolharam.

- Talvez devêssemos simplesmente soltá-las. – disse o mais alto.

- Não, não. – respondeu Hiroto, observando o escândalo das duas lá em cima. – Podem ser úteis.

- M-mas... isso pode espantá-lo. Ou pior, fazer com que fique com raiva de nós. – disse o outro com a voz tremendo.

- Não se preocupe, Yaki. Devolveremos à floresta o que pertencer a ela. – replicou Hiroto, tirando o chapéu e sorrindo mais uma vez.

Yaki fez uma cara de dúvida e Hiroto emendou:

- Ara, confie em mim, homem. Ele já está nas nossas mãos!

O outro sacudiu os ombros e eles se voltaram para o pequeno problema. Sem aviso, Yaki arremessou sua lança habilidosamente e rompeu a corda que prendia a rede à árvore. Ela caiu com um baque e as duas lá dentro se calaram.

Eles arrebentaram a rede e amarraram as duas com cordas grossas e uma às costas da outra com outra corda.

- V-vocês vão nos matar? – indagou Suzushiro-san de olhos arregalados, a franja curta totalmente dispersa, as roupas escuras de terra. Yaki franziu a testa para Hiroto que não respondeu, mas lançou um olhar falsamente amigável para Nao-chan.

- Andando, garotas. – disse ele por fim, espetando a lança no estômago de Suzushiro-san.

Desajeitado, o grupo começou a caminhar, Yaki à frente, Nao-chan guiando as duas, Suzushiro-san andando de costas com Hiroto sorrindo estranhamente e fechando a fila.

- O que está acontecendo aqui? Vocês vão nos matar? – repetiu Suzushiro-san.

- Não seja idiota, Suzushiro! – sussurrou Nao-chan. – Eles não vão nos matar tão cedo.

- Como você pode saber?

- Olhe bem para eles. – respondeu Nao-chan virando a cabeça para trás.

- São feios, e daí? – replicou Suzushiro-san sem se preocupar em abaixar a voz.

- Não é isso! Eles... – Nao-chan começou a suar e fez uma pausa. – T-têm cara de tarados. – terminou ela sussurrando.

Suzushiro-san pareceu espantada por um instante e depois, entendendo o comentário da outra, montou uma expressão valente de quem atacaria qualquer um que chegasse perto.

Infelizmente ou não para elas, Hiroto ouvira toda a conversa. Ele começou a rir e respondeu:

- Estão muito nervosas, garotas. Ara, acalmem-se, que nada de ruim vai lhes acontecer.

- Engraçado, não parece. – disse Nao-chan mal-humorada, mostrando as cordas.

Hiroto deu mais uma risada inexpressiva (como Fujino-san costumava fazer) e nada disse.

Andaram bastante até um trecho que continha uma cabana improvisada, como que armada para uma curta temporada de caça. Os homens amarram-nas a um dos paus que sustentavam a estrutura, firmemente cravada no chão.

- Yaki, vá pegar um pouco de água enquanto eu preparo uma nova rede. – disse Hiroto, sumindo pelo pano da barraca. O outro saiu imediatamente.

Como Nao-chan estivesse muito cansada, adormeceu rapidamente naquela posição desconfortável. Suzushiro-san forçou por bastante tempo a expressão fechada, mas acabou cedendo ao silêncio.

- Vocês são caçadores de ursos? – indagou curiosa, enquanto Hiroto trabalhava numa nova rede, sentado de pernas cruzadas encostado a uma árvore próxima.

- Não, moça. Somos apenas pescadores. – respondeu ele sem tirar os olhos da trama de náilon.

- Pescadores? – Suzushiro-san franziu a testa. – Então realmente aquele riozinho de nada continua em algum lugar?

- Se você se refere ao riacho que atravessa uma propriedade do outro lado da floresta, não pescamos lá. Tem um rio maior perto daqui.

- Tanto faz, seu pescador bubuzuke. – Suzushiro-san sacudiu os ombros. Ela preferiu não comentar que elas estavam naquela propriedade, pensando que os dois poderiam ameaçá-las pedindo resgate. Ela sempre resolvia tudo por si mesma. – O que eu quero saber é por que estamos sendo sequestradas.

O homem parou de trançar a rede e olhou para os galhos acima de si.

- Foi uma ideia que me ocorreu. – murmurou ele, pensativo.

- Como assim?! Eu exijo saber o porquê dessa palhaçada toda! – Suzushiro-san se mexeu inquieta.

- Bem, moça. É meio complicado.

Nesse momento, Yaki voltou com três garrafas cheia d’água. Ele as deixou no chão e disse:

- Explique a ela, Hiroto.

E de repente os dois adquiriram um ar sonhador e meio lunático. Emanavam uma atmosfera tão excitante que Nao-chan acordou a tempo de ouvir a grande explicação.

- Sabe... – começou Hiroto – Há muitos anos que os pescadores daqui vivem isolados do mundo. Ara, é muito difícil sair daqui sem recursos!

- Sim. A maioria de nós tem família e é muito pobre. – continuou Yaki. – Mas todos sonhamos em conhecer a civilização e, principalmente, dar melhores condições vida aos nossos filhos.

- Graças a isso, há muito tempo surgiu uma lenda na região que fala sobre um peixe... – disse Hiroto, animado.

- Mas não é só um peixe! – emendou Yaki com os olhos brilhando. – Seria o espírito de um pescador recluso que viveu muito tempo abandonado na floresta. Quando seu grande amor surgiu, ele ficou num imenso estado de felicidade e aproveitou cada momento ao seu lado.

- Entretanto, a natureza viria separá-los. Ela se perdeu na mata e ele nada pôde fazer, pois a moça se afogou no grande rio e foi embora para sempre. Desesperado, o pobre homem se atirou na água, nadando às cegas.

- E aí... – sussurrou Yaki dramaticamente – diz a lenda que ele se transformou no peixe guardião da floresta.

- E quem conseguir capturá-lo...! – exclamou Hiroto com emoção – Ara, esse será um homem feliz! Terá direito a três desejos e garantia de felicidade eterna!

Os dois encerraram dramaticamente e ficaram à espera de uma reação. Suzushiro-san chorava abertamente. Ela havia achado a história muito emocionante e tocante. Já chamava-os corajosos, bravos e certamente vitoriosos. Nao-chan ergueu uma sobrancelha.

- E o que nós temos a ver com isso?

- Bem... faz uma semana que estamos tentando pegá-lo sem sucesso. – respondeu Yaki.

- Duas belas moças, um atrativo perfeito, ara?

- Peraí, nós somos as ISCAS? – berrou Nao-chan.

Os dois se entreolharam.

- É.

- Pode ser.

- Ah, meus caros! Faremos de tudo para ajudá-los! Que história maravilhosa... ei! Parou, parou! Vamos ser sacrificadas??! – Suzushiro-san finalmente entendeu a situação.

- Bem...

- Pode ser também.

- Mas você disse que não iríamos nos machucar!!! – exclamou Suzushiro-san desesperada, olhando para Hiroto.

- Tudo depende do que a situação exigir. – respondeu Hiroto sem muita preocupação.

- Rezem para o deus-peixe, moças. Ele vai nos dar fortuna! – Yaki e Hiroto bateram as mãos em cumprimento e entraram na barraca.

- Precisamos sair daqui. – disse Suzushiro-san em voz baixa, cansada de berrar.

- Eu não quero ser um maldito sacrifício de novo. (**) – murmurou Nao-chan exausta.

Passadas algumas horas, Yaki veio dar-lhes alguma comida. Não as deixou com as mãos livres nenhum instante, como se adivinhasse que Suzushiro-san estava doida de vontade de lhe dar uma cabeçada e um chute maldoso.

Mais tarde, os dois montaram uma fogueira sutil na clareira e permaneceram sentados, vendo o que era possível do pôr-do-sol por entre as árvores e admirando o vôo dos pássaros. Suzushiro-san acabara de acordar e olhou em volta, sonolenta.

- Ah! – exclamou ela de repente.

- O que foi? – perguntou Yaki.

- Não... nada não.

Suzushiro-san mordeu o lábio inferior. Nao-chan dormia profundamente. Olhando ao redor, ela percebera algo faltando.

O bumerangue fora esquecido no coração da mata.

Começou a chover e a fogueira apagou-se.

Notas finais
Duas passagens a serem comentadas:
(*) Referência a Mai Otome, onde Nao e Natsuki ficam presas em uma armadilha numa situação semelhante. No caso, Nao estaria sofrendo de trauma de outra vida, já que a história aqui é ligada a Mai Hime XD Coisa de escritora doida.

(**)Já que as himes perdedoras morreriam para fazer ressurgir o lorde no festival de Ikusahime, poderiam ser consideradas sacrifícios. É como Nao se sente novamente nesse momento.