Mai Hime: Summer Vacation
9 9. Manhã agitada com café-da-manhã especial
Natsuki abriu os olhos abruptamente e percebeu que a chuva ainda caía fora da barraca. Estava amanhecendo e ela puxou o zíper da lona para olhar lá fora.
O vento havia parado e a clareira estava silenciosa. Rinji-san já havia se levantado e desmontado sua barraca. Ele não estava à vista. Natsuki vestiu um casaco e jogou o capuz por cima dos cabelos. Em dois minutos tudo estava de volta à mochila que ela jogou por sobre o ombro e saiu caminhando na chuva.
Eles haviam parado perto do rio que Rinji-san mencionara na tarde anterior. Assim que Natsuki alcançou-o, a chuva parou. Ela viu Rinji-san sem camisa na beira da água, observando atentamente os peixes. Um brilho passou por seus óculos e num movimento rápido, ele lançou sua faca contra uma sombra. Infelizmente, o peixe foi mais esperto e fugiu seguindo a correnteza. Antes que Rinji-san se recuperasse da falha, uma segunda faca foi lançada por sobre seu ombro e atingiu um segundo peixe, bem maior que o outro.
Ele se voltou e viu Natsuki de cara fechada, com as mãos nos bolsos do casaco.
- Vai pegar um resfriado, seu idiota. – ela jogou uma toalha para ele.
Rinji-san a encarou firmemente, em seguida tirou os óculos para limpá-los. Natsuki se aproximou e capturou sua presa. Enquanto ela limpava sua faca, Rinji-san perguntou:
- Você sempre fala assim com as pessoas?
- Só quando elas merecem.
Ele não respondeu. Apenas se sentou na grama e começou a fazer uma fogueira.
- Não precisamos comer isso. – disse Natsuki apontando para o peixe no chão. – Temos comida suficiente para uma semana.
Rinji-san pigarreou e se voltou para ela. Natsuki ficou surpresa com a cara de menino envergonhado que ele fez.
- Tokiha-san cozinha muito bem. – respondeu ele.
Natsuki arregalou os olhos.
- Você comeu TUDO ontem????
- Bem... aquele prato especial de Kyoto estava ótimo.
- Não acredito! A Mai cozinhou aquela coisa que a Shizuru diz que é boa? – indagou Natsuki horrorizada.
- Prove. É bom. – ele a encarou daquele jeito meio inexpressivo mas sensível.
Natsuki revirou sua mochila em busca das comidas. Foi tirando tudo; roupas, potes, corda, rede...
- Midori idiota. – murmurou arremessando o mapa longe. – Takeda idiota! – exclamou jogando a espada para o lado. Quando encontrou uma tupware em forma de coração, soube que era o que procurava.
Natsuki experimentou seu conteúdo. Era bom mesmo.
- Quer um pouco? – ela ofereceu a Rinji-san.
- Ah, sim. E ponha um pouco de sakê.
- Está louco?! – Natsuki deu uma risada. – Deve ser horríff... – Antes que ela terminasse a frase, Rinji-san enfiou um bolinho de arroz com sakê em sua boca. Ele com certeza já tinha bebido um pouco de manhã. Estava ficando alegrinho.
Terminado este maravilhoso café-da-manhã, os dois mal conseguiam se levantar.
- Tinha alguma coisa nesse sakê. – disse ela com a voz embargada ao cair pela terceira vez na grama.
- É bebiba alcoólica, dã. – replicou Rinji-san rindo bobamente, com os óculos tortos na cara. Ele deu um soco no ombro de Natsuki e caiu de cara na grama.
- Sabe, eu acho que devíamos ir andando... não tínhamos alguma coisa importante para fazer? – disse Natsuki finalmente conseguindo se erguer, com a ajuda da espada de kendô, toda torta.
Rinji-san murmurou umas palavras ininteligíveis.
- Quê? – Natsuki o empurrou com o pé e ele virou de barriga pra cima na grama.
- Eu disse que seja lá o que for... – ele parou para ver Natsuki rir de sua cara cheia de tufos de grama.
Ele a puxou para baixo pelo braço, resmungando. Natsuki, desequilibrada, caiu ao seu lado com a espada. Ela nem se mexeu ao se estatelar na grama, simplesmente começou a rir descontroladamente.
Rinji-san estava com a visão embaçada, porque além de estar bêbado, os óculos haviam escorregado para o chão. Entretanto, assim que Natsuki despencou, uma coisa amarela apareceu a uns vinte metros de distância, aparentemente bebendo água do rio. Apertando os olhos, ele percebeu que era grande e não os havia notado ainda.
- Ei, Kuga...
- Só Natsuki, Rinji-kuuun. – disse ela rindo.
- Natsuki... olha aquilo. – ele a ajudou a se sentar e apontou para a água.
- É só o ri... – ela estacou e arregalou os olhos.
A coisa se voltou para ver que barulho era aquele que atrapalhava seu passeio.
- R-Rinji...
- O que foi? Não consigo achar meus óculos... — murmurou para si mesmo tateando a grama.
Os dois haviam se levantado. A espada apoiou Rinji-san, que apoiou uma Natsuki nervosa que apertava seu braço com força.
- Rinji... tem... tem um...
- Achei! Aqui estão! – ele começou a limpar os óculos.
- RINJI! TEM UM TIGRE ALI!
- Hã? – Natsuki tomou os óculos e os enfiou por trás das orelhas de Rinji-san. – Aaah. É só um tigre...!
Como que respondendo ao óbvio menosprezo, o animal rosnou mostrando os dentes.
- SÓ um tigre? POR QUE DIABOS tem um TIGRE aqui???? – Natsuki estava visivelmente desesperada (e ainda apertava o braço de seu acompanhante).
- É comum criarem tigres em cativeiro nas propriedades daqui.
- Que propriedades?
- Muitas famílias ricas têm casas nessa região. É um ótimo lar de verão.
- Não vi nada disso na viagem. – comentou Natsuki.
Rinji-san ajeitou os óculos.
- Pelo que me consta, você estava no porta-malas.
- Ah é. – respondeu Natsuki bobamente.
- Este aí deve ter se perdido dos outros enquanto passeavam. – disse Rinji-san apontando para o felino, que se aproximava lentamente.
Natsuki olhou no fundo dos olhos dele.
- Outros? Estamos falando de tigres ou de bois?
- Olha... – Antes que ele continuasse, o tigre rosnou de novo. Estava bem perto agora.
- Ah, não importa! – exclamou Natsuki se colocando à frente de Rinji-san em pose de batalha. – Duran!
Só o vento lhe respondeu. O tigre parou, intrigado.
- O que você está fazendo? – sussurrou Rinji-san puxando-a pelo cotovelo.
- Droga! – exclamou Natsuki. – Esqueci!
- Hã?
- Não, nada não. – Eles se olharam por um instante. O bicho voltou a andar. – É esse o seu melhor plano?
- Sim. – replicou Rinji-san. Seu olhar dizia tudo que era necessário. Ele a soltou. – É... hora... de... CORRER!
Suas mochilas, a espada, o mapa, a toalha, o peixe. Tudo ficou para trás quando eles dispararam desajeitados paralelamente ao rio, em direção ao campo aberto que se estendia depois de algumas árvores. O tigre foi atrás, acostumado a caçar, perseguir e alcançar suas presas.
Rinji-san estava descalço e corria muito rápido. Natsuki tropeçou uma, duas, três vezes. Na quarta, ele diminuiu o ritmo e a pegou no colo.
- Uau! Obrigada! – disse ela arfando.
- Sem problemas, donzela. – respondeu ele atlético, dando um grande sorriso, o que não lhe era característico.
Entretanto, havia chovido, a grama estava molhada, ambos estavam tontos, embebedados e em pânico. Rinji-san diminuiu a corrida e o tigre saltou sobre eles.
Mas, os fatores acima mencionados foram decisivos. Quando Rinji-san tentou se desviar das garras do animal, ele trançou as pernas e escorregou na direção do rio. Ele e Natsuki, agarrrada a ele e gritando, caíram no rio com um grande “TCHIBUM!” e, completamente sem força para resistir, foram arrastados pela correnteza.
O tigre parou e, como se desse de ombros, se virou na direção oposta e foi caminhando. Havia carne seca e bem mais segura o esperando em casa.
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