Mago da Água e do Gelo
15 Natal de olhos azuis
Notas iniciais
Santuário de Atena, Grécia, 24 de dezembro
O vento batia violento e resistente contra meu corpo, que respondia deslocando-o com força superior a cada dia que se passava. Já havia perdido a conta de quantos quilômetros por hora eu tinha alcançado daquela vez... Só saberia ao certo quando perguntasse a Aiolos, que firmava os pés no chão para que eu não arrebentasse o Cabo, que se encontrava totalmente tensionado e rangia alto.
É... Como Saga e Aiolos haviam dito, meu treinamento não mais poderia ser realizado no Coliseu, pois eu alcancei tais velocidade e força que me possibilitaram abrir espaço com o Cabo que me faria quebrar a mureta e arquibancada. A partir de então, eles me levavam “para aonde dava espaço” (como diziam) para treinar. Hoje, estávamos em uma colina próxima ao Cemitério dos Cavaleiros, que era bem ampla e se encontrava encoberta pela neblina densa da madrugada fria (para mim, estava ótimo ;). O treino já devia estar quase no fim, mas eu mantinha a velocidade constante, controlando meu cosmo para que ele agisse a meu favor.
– Daqui a pouco ele arrebenta esse negócio, Xerox! – riu o Cavaleiro de Sagitário olhando para Saga, que estava sentado sob uma árvore com uma expressão um tanto triste.
– Hu-hum... – respondeu o Cavaleiro de Gêmeos sem encarar o melhor amigo. Seu olhar se encontrava perdido e distante, o que era um tanto anormal para ele, que sempre teve tão bom humor.
– Qual é, Saga?! – retrucou Aiolos, cruzando os braços e, impressionantemente, chamando-o pelo nome – Que tá pegando?!
– Nada. – disse sem ânimo – Se preocupa comigo não... Concentra ai! – acrescentou, com o tom meio irritado.
– Xiiii... — fez o Cavaleiro de Sagitário, e balançou a cabeça negativamente.
Sem perceber, eu deixei de olhar para frente enquanto corria e fitei Saga, também encucado com seu humor estranho. Ele me retribuiu com um olhar enraivecido e se levantou em velocidade sobrenatural.
– Concentra, Camus! Por@#! Vai passar mais duas horas correndo hoje! — gritou com os punhos cerrados — Já falei para focar...!
Aiolos o olhou de relance, franziu as sobrancelhas e fez que não com a cabeça de novo, sem concordar com a atitude radical e sem sentido do amigo. Porém, eu ainda não havia presenciado qualquer contestação do Cavaleiro de Sagitário em relação às atitudes de Saga.
Duas horas... Por Atena! E eu sendo otimista pensando que já estava acabando... Acho que já devem me conhecer o suficiente para deduzirem que um tempo a mais de treino não seria visto por mim como um problema (bem, talvez mais tarde, quando meu corpo esfriasse e eu tivesse que subir as escadarias até a minha Casa... ¬¬), mas é que eu havia planejado terminar o tão esperado presente do Milo hoje. Imagino que devem estar pensando o porquê de eu não tê-lo dado a ele até hoje se já estava pronto fazia um tempo... Eu sei... Mas é que eu estive inspirado essas semanas, resolvi acrescentar mais umas coisas e deixar para o Natal.
Ok... Me questionem a respeito dessa data cristã tão importante. Teoricamente, nossa religião politeísta não o comemoraria. Não faz sentido... Nossos deuses são muito diferentes do Deus da maioria de vocês. Mas, como eu já disse uma vez, Mestre Shion sempre nos ensinou a respeitar e ver em outras crenças o que há de mais precioso a se aprender... Afinal, os Cavaleiros de Atena são protetores da Terra e dos humanos tão amados pela Deusa. Devemos ser sábios, acima de tudo, e entender o melhor que pudermos o comportamento das pessoas pelas quais lutamos tanto.
Esse ano, o Mestre nos havia anunciado que comemoraríamos o Natal como fazem os cristãos. Acredito que o fez porque a maioria de nós, futuros Cavaleiros de Ouro, partiríamos do Santuário ano que vem e ele desejava nos ensinar mais sobre a religião que possui mais fiéis do mundo.
Logo, meu presente de aniversário/Natal para o Milo deveria ficar pronto até meia-noite de hoje... Será que daria tempo?
– Droga, seu pirralho insolente!! — gritou a voz enraivecida de Saga — Mais uma hora!
Maldição... Eu havia deixado transparecer mais uma distração e diminuí a velocidade. Era melhor fazer o que ele exigia, se não, daqui a pouco, eu passaria 24 horas correndo em círculos.
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Quase quatro horas depois...
O Saga ainda quis que eu corresse mais meia hora porque achou que tinha me distraído de novo... Aff... Não fiz nada. Ele está é cismado e descontou direitinho em mim. Mas, fazer o que...? Como diz o ditado: "manda quem pode, obedece quem tem juízo." Logo... Falo nada, só obedeço.
Segui correndo até o Pátio e comecei a subir as escadas ainda no pique... Se eu parasse para descansar, ia sentir os efeitos das "justas" horas extras do treino... Aproveitei para acelerar ao máximo para não encontrar Milo no caminho... Apesar de que eu sabia que ele estava no treinamento diário com mestre Altar. Já era mais de meio dia! Eu tinha que usar minhas preciosas horas restantes para terminar sua surpresa. Dei graças a Deusa que o Mestre havia suspendido nossas aulas hoje, se não, eu não conseguiria finalizar o presente. Quando cheguei à minha Casa, encontrei dona Tália sorridente e animada.
– Muito cansado, mestre? Vai almoçar agora? — perguntou, vindo ao meu encontro — Demorou à beça... Já passei sua roupa para a noite de hoje e...
É... Eu estava com fome mesmo, mas a pressa e empolgação de terminar a surpresa eram maiores. Eu não poderia perder mais tempo.
– Tá bem... Dona Tália, a senhora pode, por favor, arrumar o meu prato e levar lá na biblioteca? — pedi, dando-lhe um abraço.
Observem o mestre... ;) Normalmente, ela ia contestar e dizer para eu comer na mesa, maaaaass...
– Owwwwnn... — fez e me acariciou os cabelos — Levo sim, mestre.
– Obrigado. — sorri e lhe dei um beijo na mão, sem deixar de encara-la.
– Ahhhh, garoto! — riu e corou — Você é muito pequeno para dar uma de galã assim, hien?!
Me afastei cordialmente e lhe reverenciei.
– Mademoiselle... – falei e segui para os aposentos da Casa.
– É mole isso?! — riu mais e seguiu para a cozinha.
Andei rápido até a biblioteca, e fui diretamente para o salão central dela. Era cercado de muitas estantes imensas de metros de altura, que sustentam uma variedade absurda de livros, pergaminhos, arquivos... Existem várias entradas entre elas que guiam até as muitas sessões e corredores da biblioteca.
Sim... O presente inicial estava no meu quarto... Mas era só um de início. Agora... Bem. Digamos que a surpresa ocupa um salão de 40 metros de diâmetro. Estava quase pronta. Só tenho que terminar umas coisinhas... Ahh... Depois eu tomo banho. Meu cosmo elevado para correr já estava tão gelado que nem suei no treinamento ;)
Me sentei de pernas cruzadas na frente de uma delas e comecei a esculpi-la com cuidado para não errar nada... Não daria tempo de fazer outra até meia-noite. Ouvi o barulho da porta abrindo ecoar pelo salão... E as esculturas de gelo eterno ressonaram com a propagação do som.
– Mestre? — chamou dona Tália. Sua voz também produziu um eco.
Eu não tinha deixado ninguém ver o presente até agora (a não ser o... Ah! O chamo de estátua mesmo)... Mas a dona Tália era tão querida por mim... Eu gostava imensamente dela. Sempre me pedia para mostrar o que eu podia fazer com meu poder, querendo acompanhar meu crescimento de algum jeito. O que será que ela acharia desses presentes?
– Estou aqui no salão. — respondi.
Ouvi seus passos seguirem até onde eu estava. Andei até o corredor por onde ela entraria e dei um sorriso ao vê-la...
...Tive que ser rápido para segurar o prato que ela deixara cair ao levar as mãos a boca.
– Minha... Atena...!
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Mais tarde, às dez e meia...
Com um sorriso satisfeito, admirei minha obra de arte... Acho que eu nunca mais conseguiria fazer uma igual. Revisei cada uma nos mínimos detalhes para que estivesse tudo exatamente do jeito que eu imaginei e queria.
Uma poça de água surgiu aos meus pés...
“O MESTRE REALMENTE DEVE PENSAR NA POSSIBILIDADE DE TE MANDAR PARA A SEXTA CASA.”
Sorri novamente e cruzei os braços, me sentindo orgulhoso.
“VOU ENCARAR COMO UM ELOGIO.”
“FICARAM MUITO BOAS.”
“TAMBÉM ACHEI.” Fechei os olhos e mantive o sorriso.
“AHHH, É?! QUEM ENSINOU, HIEN?!”
Abri um olho e fiz cara de desentendido.
“NINGUÉM. APRENDI SOZINHO. SE QUISER, POSSO TE ENSI...”
A água da poça se disparou como um jato na minha direção na velocidade da luz. Até tentei me defender congelando-a o mais rápido que podia... Mas não deu para solidificar tudo. Caí sentado com a força anormal da água.
– Arrgh! — exclamei, já todo ensopado.
A poça voltou a se formar no chão. Maldição! A quantidade de água era tão pouca ali no chão em comparação com a que me atingiu. Como ele a formava tão rápido?!
“O QUE IA DIZENDO?”
De qualquer forma, foi divertido.
– Você não tem senso de humor!
“E VOCÊ É LENTO DEMAIS.”
Essa doeu. Precisava falar assim?
“VOCÊ NÃO ME SAI DO SANTUÁRIO SEM APRENDER A SE DEFENDER, ENTENDEU? O QUE O VELHO ALTAR ANDA TE ENSINANDO? A FAZER BONECOS DE NEVE?!”
– É... Então... Ele anda testando minha força de congelamento. — respondi, elevando meu cosmo para evaporar toda a água que me encharcava... Mas... O vapor saiu totalmente da minha roupa e pele em velocidade tão rápida que eu mal pude perceber.
– Uau! Como fez iss...? — tentei perguntar.
“GOSTA DE DRAGÕES, NÃO É?!”
– Hã?!
“VEJAMOS O QUE O FUTURO CAVALEIRO DE AQUÁRIO PODE FAZER!”
O vapor me rodeava de forma estranha e... Ameaçadora... Mas o que...?
– Kalitso.* — sussurrou uma voz grave e sobrenatural que me provocou um arrepio doloroso na nuca.
O vapor... Formou vários círculos a minha volta e sua temperatura diminuiu bruscamente em milésimos de segundo. As circunferências exerciam uma grande força sobre o meu corpo como cordas apertadas, mas que começavam a rasgar minha pele.Desde sempre eu possuo muita resistência ao frio, mas aquele gerado pelo vapor que me prendia era forte como eu nunca havia sentido.
Eu não conseguia mover um dedo sequer... Comecei a sentir alguma dor onde minha pele ia sendo cortada. Ouvi um ruído de água se movimentando e desviei meu olhar para a poça, que crescia e tomava uma forma estranha...
– Defenda-se.– disse em tom mais alto, porém calmo e frio, a voz. Fechei os olhos e senti mais uma pontada na nuca.
– Uarrrrrrrrrrgh!! — alguma coisa urrou na minha frente.
Olhei para onde veio o rugido. Por Atena! Mas o que?!
A água... Se transformara em... Um dragão de uns três metros. A besta hídrica caminhava devagar em minha direção. Seu rosnando e passos ecoavam pela biblioteca.
"Droga..." pensei "Preciso sair desses círculos..."
Eu não esperava por uma dessa logo agora... Mas estava pronto para lutar até o fim, como um Cavaleiro de Atena! Ele me chamou de lento?! Vejamos se sou tão devagar quanto pensa...
"Eleve-se, meu cosmo!!"
Concentrei minha energia cósmica para dissipar aquelas moléculas de água que me cercavam. Não consegui controlar todas de início, mas até que eu estava indo bem. Logo, a maioria delas passou a estar sob meu controle em um segundo. Eu já conseguia me mover, mesmo que de maneira restrita.
O dragão de água rosnou alto e armou o bote, furioso. Tinha que ser agora! Elevei ainda mais meu cosmo... Ao máximo que conseguia na época. Me concentrei para congela-lo, mesmo que ainda preso em parte pelo Círculo de Gelo. Congelei a cabeça do monstro... Pescoço... Corpo... Faltava pouco...
"Caaaaaaaamus...!"
"Milo?"
Tudo que se congelara voltara ao líquido... Essa voz... Minha concentração... Força... Cosmo... Todos se negativaram por completo.
– Concentre-se, criança! — ecoou a voz grave.
"Milo..."
A última coisa que senti foi o hálito gélido da besta em meu rosto.
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– Mestre?! — uma voz conhecida me chamava e alguém sacudia meus ombros.
Abri os olhos devagar e tive a visão turva de dona Tália, que me retribuiu com o olhar preocupado e ansioso.
– Dormiu de tanto trabalhar na linda surpresa do Milo, não é? — disse ela — Melhor se apressar. Já são onze e meia!
“Nossa! O Natal!”
Me levantei bruscamente do chão e esfreguei os olhos. Olhei em seguida para meus braços e pernas... Não vi ou senti nenhuma ferida causada pelos círculos. Tinha sido um sonho... Mas...
– Sua roupa está passada sobre sua cama... — disse dona Tália.
– O-Obrigado... — respondi reticente, ainda pensando no pesadelo.
Saí correndo para o meu quarto. Tomei um banho rápido, catei qualquer cueca na gaveta, me vesti, penteei os cabelos, escovei os dentes e me perfumei. Quando me olhei no espelho, me senti um baita de um mauricinho: camisa social, calça jeans novinha, sapatênis, cabelo molhado... Meio lambido, que fiz questão de bagunçar para parecer mais eu. Já que era para ficar engomadinho, completei com um relógio de pulso que ganhei de dona Tália em algum aniversário.
Passei pelo Saguão de Entrada apressado e ia seguindo na direção para a Sala do Mestre.
– Fiu-fiu!
Sorri levemente e parei e parei ao sentir aquele cosmo. Já sabia de quem tinha vindo aquele assobio. Me virei para trás para olha-lo...
... Mas meu sorriso se desfez no mesmo segundo.
Daros o carregava no colo, mas mesmo assim ele me olhava dos pés à cabeça com um sorriso lindo. Corri até os dois e o olhei preocupado.
– Pode me pôr no chão, Daros. – disse ele, sem deixar de me olhar sorrindo – Eu consigo ir daqui.
O criado da Oitava Casa o olhou desacreditado, mas fez o que lhe foi pedido.
– Bem... Uma boa noite de Natal para vocês. – desejou ele, colocando Milo no chão.
Suas pernas bambearam quando ficou de pé e eu o abracei para que não caísse.
– Obrigado. – agradecemos.
Lançando-nos um último olhar preocupado, Daros assentiu com um sorriso triste e partiu na direção da Décima Casa. Olhei para Milo, que me retribuiu com um sorriso cansado e os olhos injetados. Abraçou-me fracamente.
– O que aconteceu? – perguntei , enquanto me lembrava do sonho onde ouvi sua voz chamar meu nome – Por que est..?
– Não é nada... – respondeu, deixando seu corpo cair em meus braços — ...Só tô um pouco cansado.
Acariciei seus cabelos e o peguei no colo, olhando-o dos pés à cabeça com toda a preocupação que poderia existir.
– Quer deitar um pouco? – perguntei, encarando-o e ainda lhe fazendo cafuné.
– Não... Vamos lá para o tal do Natal... – disse ele, levando a mão trêmula de fraqueza ao meu rosto e acariciando-o – Me leva...?
Engoli seco para segurar as lágrimas que brotavam... Eu não podia... Tinha que ser forte por ele... Por nós dois...
– Claro que levo. – falei pausadamente, ainda tentando me conter – Vamos?
– Aham... – murmurou sonolento, e se ajeitou levemente no meu colo, fechando os olhos.
Adormeceu enquanto eu caminhava até a saída da Casa de Aquário. Estava tão bonito... Também engomado que nem eu... E cheiroso...
“Por que, minha Deusa...? Por que...?”
As lágrimas escorreram dos meus olhos... Chorei em silêncio e subi as escadas com os passos mais apressados, já que estávamos atrasados. Eu não sabia ao certo que horas eram... Podia ser até que já fosse meia-noite... Sei lá... Não me importava... Todos os outros já deviam estar na Sala do Mestre naquela altura.
Quando cheguei aos Aposentos, caminhei até o Salão Dourado, onde Mestre Shion havia dito que realizaria a ceia. Quando adentrei o Salão, não pude deixar de observar a decoração natalina feita com muito capricho: meias coloridas penduradas com doces dentro, guirlandas, bonecos de neve, bengalas doces, festões, papais noéis, estrelas, piscas-piscas... E uma grande árvore de Natal com muitos presentes à raiz. É, eu realmente estava certo em relação ao nosso atraso. Todos os meus futuros companheiros, Saga, Aiolos, Mestre Shion e mestre Altar estavam sentados à grande mesa de jantar... E... Nossa! Há quanto tempo que não os via... Shura, Máscara da Morte e Afrodite!
Retribuí o olhar do Mestre, que veio ao meu encontro e se agachou para ver o futuro Cavaleiro de Escorpião mais de perto. Muitos dos outros também se levantaram de suas cadeiras e vieram ver o que se passava, preocupados ou curiosos.
– O que houve com ele, Camus? – questionou o Mestre.
O encarei e respondi em tom baixo:
– Ele disse estar cansado e...
– Hum... – murmurou Shion, pegando-o dos meus braços com cuidado – Milo? – chamou, fazendo-lhe cócegas na barriga – Vamos acordar, criança de Atena?
– Acorda para cuspir, moleque! Hahaha! – riu Máscara, sempre implicante... Não mudou nada.¬¬
Milo se espreguiçou e esfregou os olhos. Agitou-se, olhando para os lados rapidamente em seguida. Quando me viu, deu um sorriso tímido. O Mestre o colocou no chão ao lado de uma poltrona, na qual ele apoiou o peso do corpo. Suas pernas visivelmente tremeram pela falta de força.
“Por Atena... O que aconteceu?” pensei e rangi os dentes de ansiedade e tensão. Eu queria mais é que aquilo tudo de Natal acabasse de vez e eu pudesse dar-lhe atenção.
Bocejou e me deu mais um sorriso meio sem jeito. Precisava descansar... Seus olhos estavam muito vermelhos e juro que consegui notar olheiras em seu rosto. Rangi novamente os dentes e cerrei os punhos... Uma sensação terrível de impotência e mais ansiedade se apoderavam do meu ser.
“Minha Deusa, por favor... Poupe-o disso... Mesmo que seja inevitável o sofrimento... Por mais que haja dor... Eu Te imploro que tudo de mal que possa afetá-lo passe para mim... Eu em seu lugar... Mas não o deixe assim... Ele não merece... É um ser humano fantástico... Nunca fez mal algum a ninguém e tem tanto orgulho de ser Seu futuro Guardião... Mais do que eu...” rezei em silêncio.
– Ei, ei... Vamos lá para a mesa? – disse, anda escorado na poltrona – Eu tô com uma fome duns dez aspirantes... – me piscou um olho.
Retribuí com um sorriso triste e assenti. Fui para seu lado e entrelacei meu braço em sua cintura para que se apoiasse em meu ombro. Andamos até a mesa, e logo Mu e Shaka vieram para o nosso lado, nos oferecendo ajuda. Sorri para os dois em agradecimento.
A mesa estava organizada em lugares de acordo com nossas posições em filas da esquerda e da direita. Shura e Afrodite se levantaram de seus lugares para nos dar passagem. O futuro Cavaleiro de Áries puxou a cadeira e Shaka me ajudou a acomodar Milo nela. Eu não podia me sentar ao seu lado, mas sim na fila oposta, de frente para o Cavaleiro de Peixes. Dei a volta e me pus em meu lugar.
– A gente fica tão isolado aqui, né? – cochichou Afrodite para mim, me estendendo a mão – Quanto tempo, hien, vizinho?
Dei-lhe um sorriso de canto e apertei sua mão.
– Sai fora, Dite, que o vizinho é meu também. – brincou Shura, me dando uns tapinhas no ombro e rindo.
Lhe sorri também, mas logo desviei o olhe para o lado direito, preocupado. Milo bocejava demoradamente com a mão à frente da boca, mas me encarou e ergueu as sobrancelhas, parecendo espantado com a duração do próprio bocejo. Me sorriu divertido em seguida.
– Então, crianças, lhes convoquei hoje para celebrarmos o Natal, data esta... – começou a dizer o Mestre — ... muito importante para as religiões cristãs... – não me lembro direito de tudo o que ele disse, infelizmente. Meus pensamentos estavam avoados demais... Mas, enfim, explicou tudo que sabia sobre o Cristianismo — ... Então, vamos comer!
Muitos criados surgiram da cozinha trazendo muitas travessas com diversos tipos de comida. O cheiro estava ótimo, mas meu estômago encontrava-se bem embrulhado naquele momento.
– Minha Atena! – animou-se Máscara – Fez tempo que não como bem assim!
– Sirvam-se! – riu o Mestre.
– Caraca, Simba! – zuou Deba, pegando uma fatia de abacaxi e uns pedaços de peru assado – Duvido que você me ganhe nessa!
– É ruim, hien! – retrucou o futuro Cavaleiro de Leão – Passei o dia sem comer só pra isso, chifrudo besta! – e serviu-se com arroz à grega e frango.
– Famintos... – resmungou Shaka — ... Pecadores... Impuros... Animais...
– Qual é o problema em ser chifrudo?! – gritou Shura, fingindo se sentir ofendido e socando a mesa – Fica na sua, hien, bichano!!
– Vai tomar banho de língua, mané! — Mu surpreendeu, também entrando na brincadeira.
– E vocês vão todos pastar! – retribuiu Aiolia, e todos rimos.
Todos se serviam e comiam, conversando e rindo alto. Me levantei da cadeira quando vi Milo um pouco mais animado e olhando para as muitas opções de refeição à nossa frente. Percebi que não queria arriscar a tentativa de pegar a comida, devido à sua fraqueza. Pedi licença ao Shura, que me bagunçou os cabelos e me pus ao lado dos dois. Olhei para ele.
“O que quer comer?” perguntei, pegando seu prato e sorrindo-lhe levemente.
Ele levou a mão ao queixo.
“Ammm... Não sei...” olhava indeciso para todos os pratos “Pode ser um pouco de...”
Foi me falando e apontando o que queria, até que lhe servi tudo o que pediu. Coloquei a refeição à sua frente na mesa.
“Obrigado, Camus.” me sorriu, carinhoso.
“De nada. E pra beber?”
– Vai dar na boquinha também, vai?! – zuou Deba, arrancando risadas dos demais.
Milo corou por um segundo e o senti envergonhado, porém mudou sua expressão rapidamente de inofensivo para debochado e cínico. Fitou perigosamente o futuro Cavaleiro de Touro.
– Ahh, Deba... Seu recalque bate no Camus e volta... – disse em tom baixo, com um sorriso sarcástico – Já que gosta de falar demais, diz ai: se estivesse no meu lugar, alguém faria o mínimo que ele fez... Por você?
– IIIIIIIHHHH! Xiiiiiiiiiii! – os mais velhos fizeram, instigando e zoando com a resposta mais do que à altura dada por Milo – Aaaiii! Tomooooooouuu!
Aldebaran calou-se e abaixou os olhos. Realmente percebi que se sentiu mal de verdade com aquelas palavras ferinas. O Milo é mestre nessas... É bem perigoso fazer certas brincadeiras com ele dependendo de seu estado de humor.
Quando terminamos de cear, o Mestre disse para pegarmos nossos presentes. Peguei Milo no colo e corremos rindo com o pessoal até a árvore de Natal e vasculhamos nossos presentes. Achei o meu num canto... Era uma caixinha azul minúscula. Fiquei curioso para abri-la, mas resolvi ler o cartão que a acompanhava antes...
“Te explico depois. Me procure amanhã depois do treino com Saga e Aiolos.”
Feliz Natal, Camus.
Shion
Olhei na mesma hora para o Mestre, que pôs o dedo à frente da boca e me piscou um olho, divertido. Eu iria esperar para abrir amanhã quando o encontrasse. Sorri e olhei de novo para a caixinha, me sentando de pernas cruzadas ao lado de Milo, que rasgava o papel para revelar seu presente: um cavalo selado e de armadura. Ele sorriu animado e me mostrou seu cartão.
“O presente é mais para o seu cavaleiro, mas acredito que ele não irá se importar em te deixar dar umas cavalgadas.”
Feliz Natal, Milo.
Shion
– Legal! – disse, admirando o corcel pronto para a batalha e me encarou – Cadê o seu?
– Aqui... – mostre-lhe a pequena caixa.
Me olhou desentendido.
– Não vai abrir?
– Acho mais legal esperar para abrir amanhã. — lhe mostrei o cartão. Ele leu e ergueu as sobrancelhas, curioso.
– Nossa... O que será?
– Não faço ideia... – respondi, mais animado do que ele mesmo com seu presente de Natal. Combinava ainda mais com minha surpresa ;)
Depois de mostrarmos para os outros nossos presentes (bem, eu só mostrava a caixa ¬¬), todos iniciaram suas partidas para suas Casas... Amanhã seria outro dia comum de treino para nós, futuros Cavaleiros e missões para os jovens Cavaleiros de Ouro. Milo já conseguia andar sozinho e com mais firmeza, e veio descendo as escadas sozinho devagar. Mesmo assim, o pessoal nos acompanhou pacientemente. Nos despedimos de Dite na Décima Segunda Casa e todos os outros, de nós na minha Casa.
Quando iam nos deixando, dei um tapinha nas costas de Deba, notando que ainda estava sentido. Me retribuiu um olhar triste, mas sorriu, enfim.
– Vocês são é sortudos... – murmurou e me deu as costas para partir – Valeu, picolé.
– Tchau, Deba. – me despedi.
Suspirei e olhei para Milo, que jazia sentado de pernas cruzadas no chão encostado em uma pilastra admirando seu presente. Fui até ele e me sentei ao seu lado.
– Será que o meu cavaleiro encaixa na cela desse bicho? – questionou-se, olhando encucado para o cavalo de guerra.
– Vou pegá-lo para você. – anunciei e me levantei.
– Não... Não precisa. – disse ele, me pegando pelo braço – Fica aqui...
– Vou e volto mais rápido do que imagina. – lhe pisquei um olho.
Ele relutou ainda mais, mas consegui convencê-lo enfim. Agora, alcançava uma velocidade absurda de 200.000 Km/h (isso com o peso do Cabo, imaginem sem...). Fui num pé e voltei no outro com seu presente de aniversário. Milo sorriu e sentou o cavaleiro medieval em sua montaria. Ficou perfeitamente alocado na sela.
– Que maneiro! – fez ele, apontando a lança do boneco para mim – Iaaaahhhhhh! Pocotó... Pocotó! – avançou com um ataque a galope.
Entrei na brincadeira e fingi ser atingido fatalmente no coração pelo cavaleiro. Fiz uma cena tosca de morte: pus a língua para fora, tossi, revirei os olhos, fiz cara de dor...
– Adeus, mundo cruel! – e cai no chão com a mão sobre o peito, “morto”.
Ouvi suas risadas... Depois o senti se aproximar de mim e deitar a cabeça sobre minha mão repousada sobre o coração e suspirar. Abri os olhos e lhe fiz carinho nos cabelos.
– Esse cavaleiro merece ser punido pelos deuses. – disse ele, me olhando – Mas seria por mim antes.
– Hum... Talvez ele mereça uma chance de provar sua real lealdade ao bem... – lhe pisquei um olho.
– Ah, é?! – ergueu uma sobrancelha – Eu não daria. O que fez foi imperdoável.
Lhe encarei profundamente e sorri.
– Todos merecemos uma segunda chance. – falei.
Ele abaixou os olhos, pensativo.
– Então, vamos dá-la a ele? – falei animado.
Me encarou e sorriu de canto.
– Ammm... Tá bom.
Ergui o tronco e peguei sua mão.
– Então vem comigo. – chamei.
– Tá falando sério? – sorriu animado.
– Eu sempre falo sério... – me levantei e o ajudei a fazer o mesmo, e ri quando me olhou desmentindo — ... Bem... Às vezes.
Fomos até a biblioteca... No caminho, ele vinha me perguntando um monte de coisas que eu não respondia para manter a surpresa, tipo “o que é?” ou “por que o suspense?”. Antes de chegarmos ao salão, parei e pedi.
– Feche os olhos. – sorri e ele também, enquanto colocava as mãos na frente dos olhos e eu pegava o cavaleiro montado.
O guiei até o lugar certo e pisquei um olho para uma pequena estatueta de Ganímedes em uma das prateleiras. Estava muito escuro ali, mas a luz da Lua penetrava pela vidraçaria no teto do salão, dando uma iluminação azul muito bonita ao ambiente.
– Posso abrir? – perguntou ansioso.
A estatueta me retribuiu a piscada de olho. Era o sinal!
– Pode. – sorri.
Ele destampou os olhos e vários grandes lençóis brancos que cobriam os presentes foram puxados ao mesmo tempo por uma força sobrenatural.
– Ahhh...! – deu um imenso sorriso surpreso e as lágrimas emocionadas escorreram por seu rosto.
Em miniatura, havia um bosque com mais de duzentas árvores e animais de espécies variadas, um vilarejo com casas, parquinho, praça, carros, pessoas, fazenda... Ao lado, tinha um grande lago com barcos, navios, pescadores... E ao centro, ameaçando toda aquela vida harmoniosa congelada, estava ele: um dragão de mais de um metro (réplica quaaaase igual ao que vimos na loja em Atenas no dia 9 de novembro). A luz do luar fazia com que as esculturas de gelo parecessem ter um pouco de vida e as deixava mais bonitas e azuladas.
Peguei sua mão e o levei até a frente do monstro. Dei-lhe o cavaleiro e apontei com os olhos qual seria a segunda chance do condenado de fazer o bem. Sem parar de chorar, ele pegou o boneco da minha mão, se abaixou e o colocou à frente de sua missão: derrotar o mal e trazer a paz à Terra.
– O-Obri-gado... – tentou dizer, emocionado e cobrindo o rosto com as mãos – E-Eu... – não conseguia falar – P-Por... A-Atena... — o abracei — N-Não com-si-go... Vo-cê... N-Não existe...
– Shhhh... – fiz e lhe dei um beijo na testa.
Nos sentamos encostados em uma estante e eu repousei meu queixo em sua cabeça, ele a deitou em meu peito e me abraçou forte, ainda chorando. Não sei ao certo quanto tempo ficamos ali... Lhe fiz carinho nos cabelos e nuca, dei-lhe beijos na cabeça, o acariciei com o rosto... Sua respiração e batidas do coração estavam muito aceleradas e seu corpo tremia... Até que me encarou profundamente... Não havia mais uma cor branca sequer em seus olhos, mais injetados do que nunca... Retribuí o olhar.
– Eu... Amo... Esses... Olhos... – soluçou e acariciou meu rosto com a mão trêmula – Amo... Você...
Foi a vez do meu coração disparar e respiração entrecortar, e as lágrimas caíram até se desmancharem em seu rosto. Talvez não entendam bem agora... Mas todas as vezes em que estive só e quase sem forças para continuar, sua voz e esses dizeres me faziam levantar e seguir em frente. Sempre.
Ele fez um esforço e se aproximou do meu rosto corado, encostou sua testa na minha, voltou a fechar os olhos e segurou minha mão. Uma última lágrima escorreu por seu rosto.
– Eu não tenho palavras para dizer... O quanto... – disse baixinho, com a voz trêmula de emoção e cansaço — ... Adorei... O presente...
Dei-lhe um sorriso triste e um beijo na ponta do nariz. Ele corou muito e me acariciou o rosto. Todos os erros, noites em claro, explosões de gelo e broncas “do estátua” não poderiam nunca ter valido mais à pena.
Dessa vez, ele se levantou e me puxou pela mão. Fomos indo a cada lugar das miniaturas, pois ele queria “vê-las com a mão”... Mas bocejava e lutava contra o sono. Sei que desejava me prestigiar, mas seu estado me deixava preocupado.
– Milo, por que está tão fraco? – perguntai, encarando-o enquanto ele pegava uma casinha de gelo e a via mais de perto. Seu sorriso se desfez por uns segundos.
– Não sei... – respondeu, voltando a sorrir tristemente – Daros diz que tenho aquelas febres à noite.
– De novo? – me preocupei ainda mais – Por Atena... O Mestre tem que te levar ao médico e...
– Não... – disse, colocando a casinha no chão e me estendendo os braços – Vem cá...
O peguei no colo e fiz carinho em sua cabeça com o rosto. Estava tão exausto que adormeceu antes de chegarmos ao meu quarto. Suspirei, olhando-o tristemente, desviei o caminho e desci rumo à Oitava Casa.
Chegando lá, não encontrei Daros à entrada e passei direto na direção dos aposentos. Entrei em seu quarto e o repousei cuidadosamente na cama. Fiquei mais um pouco, rezando e pedindo à Deusa que o guardasse. Dei-lhe um beijo na testa e parti de volta para a Casa de Aquário. Chegando lá, fui direto para o meu quarto, me ajoelhei ao pé da cama e continuei fazendo preces e mais preces para Atena...
“Por favor, minha Deusa... Eu... Eu no lugar dele.”
...Até adormecer naquela mesma posição sem sequer trocar de roupa.
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Na manhã seguinte, acordei suado e me sentindo mal. Fui até o banheiro e tomei um banho, olhando para a janela, na qual não passava uma luz sequer. Eu não sabia ao certo as horas, mas supus que deveriam ser umas quatro. Se eu estivesse certo, ainda levaria um tempo para o início do treino com Saga e Aiolos. Resolvi me encostar na parede e sentar embaixo do chuveiro... Talvez a massagem feita pela água que caía em minhas costas e cabeça me fizessem sentir um pouco melhor... O mínimo que fosse, para o treinamento.
Suspirei demoradamente, deixando as lágrimas caírem para se unir ao restante da água que banhava o meu corpo. Chorei em silêncio por um bom tempo... Parecia uma eternidade... Até que senti algo quente escorrer por minhas narinas... Eu nunca tinha ficado resfriado ou gripado (até hoje para ser sincero). Não era meleca... O.o
... Passei a mão na frente do rosto e me espantei quando a vi tingida de vermelho, que foi lavado em seguida pela água do chuveiro. Me levantei sem reação ou saber o que fazer. Nunca tinha acontecido antes.
Comecei a perceber mais líquido viscoso escorrer por meus olhos e boca, e novamente pelo nariz. O cheiro e gosto metálicos me deram náusea logo de imediato. Caí de joelhos e vo,itei muito sangue, que foi sendo lavado aos poucos. Arregalei os olhos e arfei, me sentindo sufocar por mais sangue, e o expeli de novo.
Minha visão ficou turva, mas consegui notar e ler as palavras que apareciam na água com sangue no chão:
“PARECE QUE A DEUSA OUVIU SUAS PRECES, CRIANÇA.”
– O... O que? – arfei, sentindo todos os músculos do meu corpo fibrilarem.
“É UM BOM GAROTO. O AMOR É ALGO QUE TUDO TRANSCENDE. ME ORGULHO DE VOCÊ.”
– Arrrrrgh! – vomitei mais.
“ELE ESTARÁ MELHOR HOJE, CAMUS. AGUENTE FIRME.”
Caí sobre a água e fiquei estirado no chão sentindo meu coração bater desesperada e violentamente contra minhas costelas. Eu ofegava devido à agonizante falta de ar... Não conseguia raciocinar... O último estímulo que restou foi o de respirar. Fiquei ali por um tempo o qual não tenho noção até hoje com os olhos arregalados e a boca aberta, unida às narinas na tentativa de puxar um volume de ar que meus pulmões jamais suportariam. Minhas pálpebras pesavam, tentando se fechar, e um sono estranho e imbatível tomou conta de mim. A resposta do meu cérebro à falta absurda de oxigênio seria a de me apagar para gastar o mínimo de energia possível. Hoje, entendo que estava entrando em choque e morreria muito rápido...
... Se não fosse por uns dizeres e uma voz que se passaram rapidamente:
“Camus...”
“Camus...”
“... Eu... Amo... Você...”
Consegui abrir os olhos e mover os braços com a força do meu cosmo que, por um milagre, consegui elevar antes de dar o último suspiro. Me ajoelhei e abracei meu abdômen, inclinando meu tronco para frente. Que dificuldade... Para respirar. Eu tremia descontroladamente e ofegava alto... Senti frio... EU senti FRIO... E uma mão enorme me pegar com cuidado, enxugar-me e enrolar meu corpo em um manto.
A senti se mover... Só podia ser ele... A estátua do saguão de entrada. Me colocou junto ao peito, me cobriu com mais alguma coberta até a cabeça, deixando somente meu rosto descoberto para que eu pudesse respirar, e me embalou. Eu ainda tremia muito e o ar entrava e saía com dificuldade dos pulmões. Minha cabeça e corpo começaram a ser acarinhadas delicadamente por sua outra mão. Aos poucos, o frio absurdo foi passando e eu abri os olhos devagar para fita-lo. Encarei seus olhos de pedra, mas que eram impressionantemente expressivos.
– O... Obrig... – tentei agradecer, mais fui calado carinhosamente por seu dedo e recebi mais carinho no rosto.
Mas... Como era possível? Ele é todo de mármore e o senti... Quente. O mesmo calor da mão de um ser humano passou para a minha pele quando tocou minha face.
Ouvi passos pesados e mais ruídos de pedra... Olhei para o lado e vi que uma outra estátua do saguão descera de seu pedestal e vinha na nossa direção com uma expressão carinhosa, com um pequeno copo e uma bacia. Chegou à minha frente... Tive minha cabeça levemente inclinada pela estátua que me segurava, o copo foi levado à minha boca e bebi o quanto podia. Um pano úmido com água quente foi colocado na testa, axilas e virilha.
Bebi ainda mais quatro copos do que parecia ser soro caseiro com algumas ervas, recebi muito carinho e cafuné de três mãos que disputavam por espaço. Dei um suspiro longo e enfim, um sorriso de alívio junto a uma espreguiçada.
Eu conseguia pensar melhor depois daquela atenção e cuidados que nunca me esqueci. Fechei os olhos... Pensei no Milo e nas palavras que li na água mais cedo.
“Muito obrigado, minha Deusa. Muito obrigado.”
Suspirei de novo... Nem percebi quando adormeci por uns minutos.
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Abri os olhos... Ainda estava na mão da estátua, que me fazia um cafuné mais vigoroso parecendo querer me acordar.
“O treino!” me lembrei.
Ergui o tronco com a rapidez que podia. Me espantei quando vestes de treinamento me foram oferecidas pela grande mão da outra estátua. Eu me sentia fraco e muito sonolento, mas não ia faltar o treino por nada. Era meu compromisso com a Deusa. A estátua me vestiu, penteou meus cabelos e... Até escovou meus dentes com a água limpa que trouxe em uma travessa.
A mão que me segurava me pôs no chão. Minhas pernas tremeram e eu ofeguei de cansaço. Milo... Então deveria ser assim que se sentia ontem e todos esses dias que vinham se passando. Mesmo assim, estava aguentando firme... E eu também o faria.
Olhei para as estátuas com um sorriso cansado, tentando expressar minha gratidão. Elas me retribuíram com um olhar encorajador.
“BOM TREINO. TE DOU BANHO E PONHO PARA DORMIR DEPOIS.” Escreveu em uma poça.
Ri um pouco. Até que gostei bastante do colo e carinho.
“QUE ATENA O GUARDE.”
“Que seja.” Pensei e percebi que pode me ouvir.
Desci devagar as escadarias até encontrar com Saga, que me aguardava no Pátio.
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Algumas horas mais tarde...
Obviamente que meu rendimento não foi o mesmo e os dois perceberam na hora, e logo me questionaram... Eu não pude mentir a respeito do que havia acontecido mais cedo. Pareceram preocupados e pegaram bem leve na velocidade hoje. Tudo bem... Eu não iria me autodestruir inconsequentemente como no primeiro treino. Aprendi bem a lição. Mas... Ainda vou compensar a moleza um dia desses... Amanhã, quem sabe?
Subi as escadarias, passei na minha Casa, peguei a caixinha azul e segui para a Sala do Mestre como ele pediu no cartão. Eu me sentia uma lesma subindo tão devagar aquele percurso que vinha fazendo em segundos todos os dias. ¬¬
Quando entrei, logo o vi sentado no Trono. Me viu e deu um sorriso leve. Me ajoelhei em respeito.
– Bom dia, Camus. – cumprimentou.
– Bom dia, Mestre. – respondi, levantando a cabeça para olhá-lo.
– Hum... Abriu o presente? – perguntou, ainda sorrindo.
– Não... Esperei para vê-lo com o senhor. – falei, mostrando-lhe a caixinha fechada.
– Então... Pode abri-la.
Eu estava muito curioso, mas abri com cuidado. Era pequena e talvez o presente fosse algo frágil... Ou sei lá. Quando desfiz o laço e retirei a tampa, vi algo que não consegui entender direito o que realmente era. Parecia um... Não sei... Eram dois círculos dourados colados um no outro.
– Camus... Eu quero que entenda algo. – disse o Mestre, fazendo uma expressão a qual o nunca tinha visto antes... Parecia sem jeito – As pessoas... As pessoas normais diferentes de nós... Muito diferentes...
Isso eu já tinha percebido muito bem todas as vezes que tínhamos contato com elas quando saíamos dos limites do Santuário. Mas... Por que ele estava sendo tão cuidadoso para me dizer isso? O que tinha a ver com aquele presente tão... Misterioso.
–... E preconceituosas... – disse, continuando — ... Tudo que foge de seus parâmetros rotineiros de hábitos, características físicas e de personalidade lhes assusta. O medo gera raiva e repulsa... E o preconceito.
Abaixei os olhos, já presumindo aonde o Mestre queria chegar...
... Será que se referia a mim e Milo...? Era óbvio que todos que nos conheciam já haviam percebido. Não escondíamos nada porque...
... Acontece que, aqui no nosso mundo, neste Santuário, não existem preconceitos... Contra absolutamente nada. Afinal, já somos anormais e fugimos dos padrões dos humanos desde que viemos ao mundo. Fomos acostumados a ver coisas absurdas e tão diferentes desde que nos entendemos por gente, logo... Quase nada do comportamento humano nos espanta. Então, o fato de dois homens (ou duas mulheres, tanto faz) se gostarem mais do que como amigos é algo muito comum aqui... E todos os Cavaleiros, Amazonas e Santias, acho que quase sem exceção, não fazem piadas ou objeções a respeito.
Respeito... Algo que nos está enraizado à risca desde bebês. Os Guardiões do Universo respeitam até (claro que há um limite) seus inimigos durante batalhas mortais. Normalmente, a vida dos Cavaleiros de Atena não é tão longa quanto as das pessoas comuns. Não é raro nos ver partindo desse mundo tão jovens... Com sete, doze, vinte ou trinta anos... Logo, acho que respeitamos tantos as escolhas pessoais de nossos companheiros por sentirmos na pele que nossas vidas podem se extinguir na próxima missão, luta ou guerra... Temos o direito de ser felizes fora do campo de batalha e aproveitar nosso tempo tão curto de vida, não acham?
Tá... Por que fiz esse discurso todo? Melhor deixar o Mestre falar. Até me perdi de tanta lição de moral... Perdão. Coisa de quem pensa demais. Devo ter feito cara de quem viajou legal...
– Bem, criança, logo irá partir para longe do Santuário. – acrescentou, se levantando do Trono e vindo em minha direção – E terá que se relacionar com todo tipo de gente. Por isso, lhe dei... – se ajoelhou ao meu lado e pegou o conteúdo da caixinha.
O Mestre retirou os círculos dourados e os retirou de uma parte embaixo. Eles abriam... Eram uma espécie de caixa ou... Estojo?
– Fui eu mesmo que fiz para você. – declarou, e eu me inclinei para frente para ver o que tinha ali dentro – Feitas de Oricalco, como as sagradas Armaduras de Ouro. Logo, são eternas e poderá usá-las sem se preocupar em tirar ou limpar.
Franzi a testa sem entender o que eram aquelas duas esferas azuis flutuando em um líquido, cada uma dentro de um círculo dourado. Olhei para o Mestre, meio envergonhado pela minha ignorância, mas sorrindo e honrado por ter sido presenteado com algo tão precioso e feito pelo próprio Shion.
– De... Desculpe, Mestre... – pedi, mas lhe dei um abraço — ... Mas o que são?
Ele retribuiu o abraço, parecendo emocionado.
– Oh... Pequeno, me perdoe. Eu te adoro do jeito que é... Só quero proteger-te. – disse com a voz trêmula – Nunca quis te ofender ou menosprezar. – me pegou no colo e andou para o interior dos Aposentos.
Eu não estava entendendo nada. Resolvi esperar e deitei minha cabeça em seu ombro... O cansaço e a fraqueza estavam demais mesmo. Quase que cochilo antes dele chegar comigo no seu quarto e me por de pé em frente a um espelho. Nossa... Eu estava bem destruído e cheio de olheiras... Tisc...
– Olhe para mim e fique quieto, está bem? – pediu, pegando uma das esferas com o dedo. O fitei, obedecendo – Não pisque até eu coloca-la. – e levou-a na direção do meu olho direito.
A esfera tocou minha córnea e irritou-a. Pisquei e lacrimejei um pouco... E olhei para o espelho. Quando me vi, tudo que o Mestre havia dito sobre preconceito e querer me proteger se encaixou. Suspirei e abaixei os olhos.
– Me desculpe, Camus. – pediu novamente – Não precisa usá-las enquanto ainda estiver no Santuário. Eu também sei como é isso, entende? – e apontou para suas pintas na testa, tão diferentes de sobrancelhas – Você queria outra cor? Posso mudar e...
Calou-se quando lhe fiz que não com a cabeça e dei-lhe um sorriso de canto com ar cúmplice. Eu o entendi. Não me senti ofendido ou menosprezado... Como o Milo mesmo brincou uma vez, eu poderia assustar as pessoas com meus olhos de... Monstro, vampiro, coelho... Entre outras comparações “super legais” que fez. Mas sempre tive uma relutância aquariana em me disfarçar ou não ser eu mesmo. Logo este que vos fala... Sei que sou muito “difícil” de notar em uma multidão de ordinários...
– Deixe eu pôr a outra. – pediu. O fitei de novo e a lente foi encaixada em meu olho esquerdo. Me olhei no espelho e não me reconheci, franzindo a testa – Sei que pode parecer “clichê”, mas não ficou nada mal. – brincou.
O olhei e fingi concordar para não deixa-lo ainda mais sem jeito. O abracei de novo e agradeci pelo presente que, sem sombra de dúvida, lhe custara bastante tempo e trabalho para fazer. Eu queria tirá-las, mas não quis magoá-lo parecendo que rejeitei as lentes de Oricalco.
Caminhávamos de volta até a Sala do Trono e ele me perguntou o porquê de eu estar tão pálido e com cara de acabado. Respondi, dizendo o que havia acontecido. Ele se abaixou, pôs a mão na minha testa e me deu um beijo na cabeça. Vi seus olhos ficarem mareados, pegou minha mão, começou uma prece em voz alta e eu o acompanhei.
– ... Que Atena esteja ao seu lado pela eternidade, criança. – finalizou, pôs uma mão em minha testa e outra sobre meu coração, como sempre fazia para guiar a Deusa ao nosso ser.
– Que seja. – respondi, tocando suas mãos.
Sua Excelência me pegou no colo e terminou o percurso até o Trono comigo nos braços. De novo, quase caí no sono. Eu ainda tinha o treino da tarde com meus companheiros para comparecer.
– Saga e Aiolos pegaram leve contigo hoje? – perguntou com um sorriso leve.
– Aham... – respondi, me espreguiçando e levando a mão à boca para disfarçar um bocejo.
– Por Atena... Hahahaha! Se não é a sua mão, acho que tinha me engolido, garoto. – riu – Vamos fazer o seguinte: te levo até o Coliseu, está bem? Se não, as escadas vão te servir de cama.
Que mordomia, não? U.U Eu estava tão sonolento que somente assenti e deitei minha cabeça em seu ombro. Nem deu para fechar os olhos direito. Já estávamos no Coliseu em menos de um segundo! O Mestre era muito bom na velocidade da luz... Um dia, chego lá.
Eu estava de olhos fechados e quase dormindo, mas ouvia as vozes de Mu, Deba, Aiolia e Shaka, além de Saga, Aiolos e mestre Altar enquanto treinavam. Só não reconheci uma...
– Ele está dormindo, Mestre? – me equivoquei. Ai está ele... O senti me fazer carinho no braço.
– Quase, Milo. Ei, Camus... – disse Sua Excelência, rindo da minha preguiça – Já chegamos, criança. – me pôs no chão.
Me espreguicei e abri os olhos, dando um sorriso cansado quando o vi...
... Mas nunca... Jamais me esquecerei de sua expressão de pavor e espanto iminente quando me encarou.
– O que... – disse com a voz trêmula e os olhos arregalados, aterrorizado – O QUE FIZERAM COM VOCÊ?!!!! – alterou-se e cerrou os punhos.
– ... – não consegui responder... Não me deu tempo.
– NÃÃO! NÃO! – gritava tão alto que sua voz ecoava repetida e demoradamente pelos arredores – POR QUE, MESTRE?! POR QUE FEZ ISSO COM ELE?!! – e deu um passo ameaçador na direção de Sua Excelência.
Tentei ir ao seu encontro para acalmá-lo, mas antes que eu pudesse dar um passo, Saga e Aiolos o pegaram pelos punhos e tronco com violência. Não sei o que acharam que seria capaz, mas ele NUNCA faria nada contra o Mestre. NUNCA!
– Seu moleque insolente! – gritou Aiolos.
– Desculpe-se agora! – ralhou Saga – Agora!
Todos os nossos futuros companheiros e mestre Altar pararam o treino e vieram ver o que se passava.
– NÃO! NÃO PODEM FAZER ISSO! DEIXEM-NO EM PAZ! – berrava e se sacodia contra a força dos dois – TIRA ESSA ME@#$ DOS OLHOS DELE! TIRAAAAAAAAA! AAAAAAAAAAAAAHHHHHH! – cerrava tanto os punhos que os perfurou com os dedos... O sangue escorria de suas mãos e pingava no chão de areia – AAAAAAAHHHHHRR!
– Por Atena, Milo! – preocupou-se o Mestre, enquanto me continha para que eu não fosse até ele – Pare já!
– AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHRRR!!!!!!! – se debatia e feria – EU ODEIO VOCÊS!!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRR! – o sangue agora escorria de seus olhos, que se tornaram avermelhados.
– MIL...! – eu ia tentar dizer qualquer coisa que o acalmasse ou fizesse parar, mas tive minha boca calada pela mão do Mestre.
– Altar! – gritou Shion para que o irmão fizesse algo.
Mestre Altar imediatamente lhe lançou um golpe violento que só não o arremessou longe porque Saga e Aiolos não o soltaram. Cuspiu muito sangue... Me deu um último olhar desesperado com os olhos injetados e me estendeu a mão.
– Ca... Mus... – e desmaiou.
Um grito meu, mesmo que abafado pela mão do Mestre, ecoou pela arena.
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