Mago da Água e do Gelo
16 Adeus Infância-Sete anos depois final extended version
Notas iniciais
Mestre Shion me soltou finalmente e eu corri ao encontro de Milo. Saga e Aiolos o entregaram desmaiado em meus braços. Meu coração batia dolorosamente... E eu lhe lancei um dos olhares mais tristes até hoje. Depois, fui encarando em esses mesmos olhos todos os presentes na arena. O silêncio sepulcral era mantido, mas eu o quebrei sem dizer uma só palavra quando iniciei uma caminhada em direção à saída do Coliseu. Não me importava se eu deveria permanecer ali para o restante do treino...
“... Maldição! Havia necessidade de tanta violência?!” pensei com raiva.
Aquilo foi totalmente desnecessário! E contra os princípios do amor e compreensão de Atena. Pela primeira e única vez na vida senti ódio e repulsa pelo Santuário e Mestres Shion e Altar.
“Malditos sejam todos eles!” pensei, fechando os olhos, rangendo os dentes e franzindo as sobrancelhas.
Eu andava na direção das Doze Casas, mas resolvi desviar desse caminho.
“Chega desse lugar... Basta... Pelo menos uma vez... Ode ao Santuário...”
Já tive muito mais ódio em outras situações da vida que prefiro não descrever agora, mas aquela foi a primeira vez em que o senti fluir livremente pela minha alma inteira. É muito raro me presenciar em um estado emocional como esse. Normalmente não permito que as emoções, principalmente as negativas, cheguem a esse ponto em mim. Mas não...
... Eu não queria... Sequer fazia a menor questão de controla-las aquele dia. Queria senti-las, vive-las... Talvez assim fossem sanadas de uma vez por todas.
Me direcionei ao Bosque de Rodorio com Milo desacordado em meus braços. Provavelmente, vocês devem estar se perguntando: “Crianças podem sair dos limites do Santuário sozinhas?”
– Camus, pare. – ordenou uma voz logo atrás de mim.
Fiz o que disse sem olhar para trás. Ouvi os passos metálicos do Cavaleiro de Gêmeos até que se adiantou e se pôs na minha frente. O encarei com minha expressão séria e indiferente de costume, que fica ainda mais acentuada naquele estado.
– Calma aí, garoto. – disse, me olhando espantado – Quer me congelar com os olhos? É isso? – tentou ser divertido.
Abaixei os olhos e não respondi. O vi se agachar para ficar na minha altura, acompanhado dos ruídos de metal da Armadura.
– Entendo que está chateado e tal... – falou, e eu o fitei novamente – Mas... Pô... Logo você me vai tentar infringir as regras?
Me mantive em silêncio, mas não deixei de encará-lo. Saga suspirou, parecendo perdido e surpreso ao mesmo tempo.
– Olha... Só porque gosto muito de você, ok? – disse e se levantou – Vou acompanhar vocês até onde quiser. Pode ir em frente. Estarei seguindo de perto. – me piscou um olho.
Calado, continuei a caminhar passando ao lado dele sem sequer olhá-lo. Andei, ouvindo os passos do Cavaleiro de Gêmeos à retaguarda, que deixaram de emitir o tão conhecido som metálico quando adentramos o Bosque e passamos a pisar na grama. As árvores se encontravam quase sem folhas devido ao Outono. Havia muitas caídas no chão, colorindo-o com sua cor amarelo-avermelhada.
Me sentei debaixo de uma das árvores e ajeitei o futuro Cavaleiro de Escorpião em meu colo. Tirei minha camisa e a umedeci com meu poder para limpar o sangue de seu rosto e pescoço. Peguei cuidadosamente uma de suas mãos e vi a grande ferida em sua palma. O mesmo acontecia com a outra... Sorte que ele tem a cicatrização boa os ferimentos sangravam pouco. Limpei-os também, rasguei a camisa ao meio e a fiz de ataduras para suas mãos. Eu podia ouvir as batidas aceleradas de seu coração, apesar de desmaiado.
Saga havia se sentado sob uma outra árvore próxima dali e se espreguiçava despreocupadamente. Minha raiva do acontecido não tinha passado nem um pouco... Mas sua atitude em relação a mim foi digna, no mínimo, de um “obrigado”. Mas eu me mantinha calado. Não conseguia falar. Fico assim quando com ódio: cego, surdo e mudo. Não interajo com nada, nem ninguém que esteja envolvido com o que me causou a raiva... Logo, não o agradeci como merecia. Paciência... Por isso, eu quis me isolar: digerir o que aconteceu. Quando passa, volto ao normal como se nada tivesse acontecido. Só preciso de um tempo.
Olhei para cima e fiquei viajando uns minutos olhando para as folhas da árvore, que balançavam com uma brisa que passava por ali. É... Eu estava cansado... Exausto física e mentalmente, mas tenso pela raiva. Eu dava vários suspiros longos... Meu corpo pedia muito por um sono de mais de doze horas para compensar. Bocejei e espreguicei, esfregando as vistas com violência para me manter acordado...
“Maldição!” praguejei.
Algo havia arranhado meus olhos... Tinha me esquecido daquelas malditas coisas!
“Droga!” não sabia tirá-las direito, nem tentei raciocinar... Não dava. Cansaço + ódio + decepção + preocupação = apertar o botão do fod#-%$ = descontar em alguma coisa irritante = autodestruição = destruir olhos.
Saí metendo os dedos neles com toda a violência... O fiz tão bruscamente que quase os inutilizei.
– Camus! – gritou Saga, vindo na minha direção – Pare com isso! – segurou meus braços, impedindo que eu me mutilasse.
O encarei... Agora meus olhos ardiam bastante e eu sentia um líquido quente escorrer deles para o meu rosto.
– Olha só, por@#!! Quer ficar cego?!! – ralhou, me fitando firmemente.
Fechei os olhos e senti minha respiração acelerar anormalmente.
– É assim que agradece ao Mestre pelo presente tão valioso que fez pra você?! – continuou – Tentando destruí-lo?! E os seus próprios olhos também?!
O ar saía entrecortado pelas narinas. Cerrei os punhos.
– É melhor você ficar na sua, Camus. Na boa... Mestre altar ficou bem irritado com essa do Milo. – disse ele – Não me venha você tentar fazer merd@, valeu? E... Hã?!
Travei a mandíbula. Abri os olhos e o encarei, furioso. O vento nos arredores começou a correr em altíssima velocidade. Ouviu-se o farfalhar alto das folhas e galhos que eram arrancados bruscamente das árvores.
– Pare de elevar seu cosmo, moleque! Já tá todo fudi#@ e... O que?! – espantou-se Saga, agarrando um floco de neve que caía por perto, como muitos outros – Neve...? Mas... Ainda não é tempo de...
Abaixei os olhos, enraivecido.
– C-Camus... – disse, boquiaberto – Você...
Eu não me espantava com nada e me mantinha na mesma posição. Quanto ódio... Desprezo... Revolta...
– Por Atena. – falou o Cavaleiro de Gêmeos, enquanto observava a nevasca que caía sobre nós – Você... Trouxe o Inverno... Uau... Incrível.
As folhas todas caíram e já devia ter mais de um palmo de neve sobre o chão. Flocos e cristais de gelo caíam do céu e abaixavam bruscamente a temperatura. O vento forte exacerbava ainda mais o fenômeno.
– Isso tudo é raiva, garoto? – perguntou Saga, me olhando preocupado – Seu cosmo está tão negro... Nunca o vi assim. O que houve com seu tão admirado autocontrole?
Não respondi nem expressei nada. Não conseguia... Estava estático pelo cansaço, que aumentara bruscamente, e pelo ódio.
– Tente se acalmar, Camus. – falou e pôs a mão no meu ombro – Você já não está nada bem... Mais branco do que um papel.
O encarei... Não sei se meu olhar era tão raivoso mais... Acho que o cansaço estava superando os sentimentos ruins. Eu devo ter feito instintivamente de propósito aquela neve cair... Para elevar meu cosmo perigosamente e me levar à exaustão.
– Ok... – disse ele, me pegando no colo carinhosamente e acomodando Milo em seu outro braço – Bem, eu tenho que voltar para o treino. Vou deixar vocês na Casa de Escorpião, já que o Milo tá pior do que você. Precisam é descansar, vocês dois.
– S-Saga... – falei, finalmente.
– Oóóóoó... Pensei que o gato havia comido sua língua. – brincou.
– P-Pode nos levar para a... – disse eu, fracamente — ... Casa de Aquário, p-por favor...?
– Vai me fazer subir mais, é? – riu e bagunçou meus cabelos – Tudo bem.
Ele correu em velocidade sobrenatural até a minha Casa. Caminhou para o meu quarto nos repousou sobre a cama.
– Bom descanso. – e se virou para ir embora.
Agarrei sua mão. Ele se virou para me olhar.
– Obrigado, meu amigo. – agradeci, mesmo que ainda sério.
Saga sorriu, se ajoelhou ao pé da cama e segurou minha mão.
– Eu entendo que o seu caminho não está sendo e não será nada fácil, Camus. – disse, me encarando – Talvez um dos mais difíceis de nós doze. E só tende a piorar, mas... A Deusa é Suprema e Absoluta... Tão Perfeita que o pôs nele. Só você pode superá-lo. Não poderia ser qualquer outro de nós.
Abaixei os olhos e suspirei.
– Ei... No fim, dará certo... Ok? – falou e me faz carinho nos cabelos – Não sei se já te disseram isso, mas... Será um grande Cavaleiro. Tenho fé e certeza em você, garoto bom. E um dia, espero que não demore, eu quero ter a honra de lutar ao seu lado, Camus de Aquário. – me sorriu e deu um beijo na cabeça.
Dei-lhe um sorriso fraco e assenti, agradecido. O Cavaleiro de Gêmeos me deu um último olhar meio emocionado, levantou-se e se virou para seguir seu caminho. Posso jurar que vi o brilho de uma lágrima em seu rosto. Saga... Eu sentia muita angústia e até sofrimento em seu cosmo às vezes durante o treinamento. Mas, naquele momento, quase consegui enxerga-los em sua aura.
Até hoje me pergunto o porquê de eu não tê-lo procurado para conversar naquela época... Acredito que precisava de um alguém para apoiá-lo, apesar de que tinha Aiolos como seu melhor amigo. Mas será que o Cavaleiro de Sagitário lhe cedia atenção quando mais precisava? Me sinto culpado em parte pelo que aconteceu com o Cavaleiro de Gêmeos depois de minha partida, confesso. Por mais que eu só tivesse seis anos... Talvez eu pudesse ter ajudado de alguma forma...
– Mmmm...
Me virei para olhar Milo que, mesmo ainda desacordado, estendia os braços fracamente na minha direção com uma expressão dolorosa. Me aproximei e o abracei.
“QUEM FEZ ISSO, CAMUS?” tais palavras surgiram em uma poça que se formara na parede.
– Mestre Altar... – respondi.
“ALÉM DE TE TREINAR SEM O VIGOR NECESSÁRIO, AINDA PEDE PARA QUE SE ESCONDA?”
– Ahhh... Isso. – abaixei os olhos, a raiva se substituía pela tristeza – Mestre Shion me deu.
“HUMPF... QUE ABSURDO. NÃO É CERTO E...”
– Olha... Eu estou cansado desse assunto. – falei, cortando-o — Sei que você não tem nada a ver com isso, perdoe-me. – dei um suspiro exausto – Mas, pode me emprestar aqueles remédios?
“HUM... É CLARO. ME DÊ ELE AQUI.”
– Hã?! – como assim: “me dê ele aqui.”?
A porta do quarto se escancarou e uma mão enorme adentrou o aposento. Veio em nossa direção e pegou Milo cuidadosamente.
– Não... Pode deixar que eu... – tentei dizer.
“VOCÊ ESTÁ EXAUSTO CRIANÇA. TENTE DORMIR. LOGO, O TRAGO DE VOLTA PARA DESCANSAR AO SEU LADO.”
Dei um sorriso cansado e o soltei para que fosse levado. Pareceu que toda a minha energia restante se esvaiu em um segundo. Caí na cama com um baque e apaguei.
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– Camus... – disse uma voz que eu já estava com saudade.
Sorri levemente e me espreguicei. Quase abri os olhos para fita-lo, mas...
...Me lembrei a tempo que haviam deixado de ser os mesmos. Não era mais eu. Levei as mãos ao rosto rapidamente, temendo que os visse.
– Hã? O que foi? – preocupou-se e o senti aproximar seu rosto do meu – Está triste?
É... Não deixava de ser.
– O que acontece, Camus? – apertou o abraço que já mantinha antes – Hum? – me fez carinho com o rosto – Por que não me olha?
– Não... – murmurei.
– Por que não? – fez carinho nas minhas mãos, tentando tirá-las do meu rosto – O que há com você?
– Para, Milo. – resisti – Para.
– Não! Não até eu descobrir o que tem de errado contigo! – continuou a tentar tirar minhas mãos – Deixa eu ver!
Não era possível... Será que ele não entendia como eu me sentia depois do que tinha acontecido com ele na arena? Por que fazia aquilo?!
– Me deixe em paz! – me alterei, tentando me afastar dele.
– O que?! – pareceu não entender – Por que?! – disse com a voz trêmula — N-Não me q-quer m-mais...?
Ah, não... Isso nunca. Não aguento... Vê-lo desse jeito me mata. Por Atena... Será que ele não... Se lembra...?
Tirei as mãos do rosto, mas me mantive de olhos fechados, e o abracei carinhosamente.
– Não diga isso... Nem ouse pensar... – dei-lhe um beijo na testa e sequei suas lágrimas com o nariz.
Senti suas mãos tocarem o meu rosto e um roçar de pano em minha pele. Ah... Deviam ser ataduras que o Estátua colocou como curativo. Será que Milo o tinha conhecido?
– Seus olhos estão machucados. – disse, preocupado e me dando um beijo em cada vista – Foi no treino? Por que queria esconder isso de mim?
Minha Deusa... O que aconteceu? Eu não conseguia entender... Será que...?
– Não consegue abri-los? – disse, carinhoso, passando os dedos molhados nas minhas pálpebras para limpar o que parecia ser sangue seco – Ou o Shaka está lançando moda agora? – brincou e me deu muitos beijos no rosto.
O que acontecera com ele? Como não se lembrava...?
– Ahhh... Olha pra mim, vai? – falou, manhoso e me fazendo carinho com o rosto – Sabe que eu adoro esses olhos... – encostou a testa na minha.
Não era possível...! Não! Não eram esses... Abri os olhos e o encarei.
– Agora sim. – me fitou com um sorriso lindo – Bem, eles não estão tão machucados... Tá doendo?
O olhei sem entender. Ele não... Estava me reconhecendo como diferente? Como?
– M-Milo... Eles estão muito vermelhos? – perguntei de propósito, temendo pelo que tinha acontecido.
– Um pouco, mas acho que um colírio daquele que o Daros tem lá em Casa resolve. – me piscou um olho.
Por Atena... Não... Não era... Possível que estivesse acontecendo! Devo ter feito uma expressão de extrema tristeza... E fiz uma última pergunta.
– Machucou suas mãos?
– Ahhh... Deve ter sido no treino. – respondeu, me abraçando — Acontece direto, né? Mas o estranho é que eu não me lembro como foi...
... Claro que não se lembra.
Senti uma dor imensa... Não física, mas na alma. Ele não me reconhece mais... Apenas com essa farsa. Mestre Altar fez isso quando lhe lançou aquele golpe tão poderoso... Só pode ter sido. Por que...? Cerrei os punhos, mas não encontrei força direito nem para isso. Tudo aquilo me fazia um mal terrível... Era como se toda aquela energia negativa me enfraquecera totalmente. Eu desisti de lutar contra ela... Deixei que me consumisse até que se esvaísse por completo.
O Milo, aquele que mais me importa nessa vida, se esquecera de mim. Dizem que os olhos são o espelho da alma... Mas os meus estavam cobertos... Acredito que reflitam nada. Ele me via como aquele Camus falso, que eu tanto desprezo... Mas que tive que fazer papel até os vinte anos. Pouco mais de treze anos por trás de um disfarce. Posso não ser perfeito... Mas detesto fingir. Por mais que eu assustasse a todos com minha aparência, seria eu mesmo... E aprenderia a conviver com isso melhor do que com essa máscara.
– Ei, ei... Não fica assim. – disse ele, me acariciando meu rosto — Eu tô aqui. Tô sempre aqui, tá?
Aceitar aquilo era muito penoso. Meu coração batia dolorosa e descontroladamente. Aqueles tempos da minha vida seriam insuportáveis para a maioria... Tirei força e resistência do mais profundo do meu ser para aguentar uma prova mais difícil que a outra em tão curtos intervalos. Eu não conseguia aceitar aquela nova realidade... Isso iria demorar... Minto: nunca aceitei. Apenas sempre consegui me conter para não surtar.
– Hu-hum... – foi o único som que consegui emitir. Olhei para ele o mais profundamente que pude, na esperança que se lembrasse...
Milo franziu a testa e retribuiu o olhar, parecendo confuso e pensativo. Até me animei com a esperança de que pudesse estar dando certo, mas sua expressão mudou em menos de um segundo para a de costume... E me deu uma mordida leve inesperada na bochecha.
– Você é muito... Lindo! – me lambeu em seguida – Dá vontade de morder! – me abraçou apertado e repousou a cabeça no meu ombro – Se me olhar assim de novo, vou fazer mais forte...
Só ele mesmo para me fazer sorrir, mesmo que tristemente e por uns segundos. Lhe acariciei os cabelos, enquanto mantive o olhar fixo num ponto invisível. Ficamos assim uns longos minutos. Eu estava temendo demais a extensão do que tinha acontecido com ele. Será que era só dos meus olhos...? Atena, que fosse só isso... Me dê força, por favor...
– Então... – falei propositalmente, já sentindo meu coração acelerar pelo temor — ... Seus presentes ficaram aqui, né? Vamos leva-los para a sua Casa?
Ele me olhou animado, mas sua expressão mudou rapidamente.
– Hum... – me olhou desentendido e virou a cabeça – Presentes?
Engoli seco e respirei fundo.
– S-Seus... P-Presentes... – eu não consegui me conter... Minha voz saiu trêmula – A-As c-casas... O bos-que... O d-dragão...
Ele continuou a me olhar perdido e confuso, mas...
– Você... – me deu um sorriso carinhoso e fez carinho no meu rosto — ... Deve ter sonhado, né?
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas não deixei que nenhuma escorresse. Uma parte de mim morreu naquele dia... Uma morte agonizante e dolorosa onde, mesmo que sem corpo, a alma continua a sofrer igualmente no Meikai pela eternidade.
– É... – suspirei.
– Mas não fica assim... Por favor... – pediu com a voz trêmula e me abraçou – Você é que é o meu maior presente. Só o que importa... Meu...
Lhe fiz cafuné e carinho até que adormeceu. Estava exausto, mas não deixava de me abraçar com força. Fechei os olhos, deixando as lágrimas correrem livres pelo meu rosto. Por um tempo, só se ouvia o sussurrar da minha respiração falhada, que se cessou quando enxuguei bruscamente o rosto com o braço, novamente descontando em mim mesmo tudo de ruim que sentia...
– Meu... – sussurrou e apertou mais o abraço.
O peguei no colo e segui para a Oitava Casa. O repousei em sua cama e ainda permaneci ao seu lado por uns minutos. Lhe fiz carinho nos cabelos e nuca, até que seu sono se aprofundou mais e ele me deixou ir.
Fiz meu caminho de volta para a Casa de Aquário andando devagar. Não sei se já passaram pelo mesmo... Era como se eu estivesse sem chão... Eu... Não sentia nada. Como se nada importasse. Posso dizer que até desejei a morte naquele momento...
...Tudo aquilo... Era tão pesado. Tão difícil... E doloroso.
“EI, GAROTO!”
Ignorei totalmente as palavras dele no saguão de entrada.
“ESPERE, POR QUE ME IGNORA?”
Não respondi, apenas continuei a caminhar na direção dos aposentos.
“CAMUS! AONDE VAI?”
Obstinado, caminhei ainda mais rápido até a biblioteca.
“...?”
Quando atingi meu destino, me vi de frente às estatuetas de gelo eterno.
“O QUE ESTÁ PENSANDO EM FAZER, CRIANÇA?!”
Uma última lágrima se espatifou no chão de pedra. Cerrei os punhos e elevei o cosmo.
“NÃO!”
Todas se tornaram meros cacos em milésimos de segundo.
“POR QUÊ?!”
Caí de joelhos sobre eles e gritei alto... Até que não restasse mais nada.
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Pouco mais de um mês depois...
– Isso, garoto! – animou-se Aiolos – É esse o espírito de um Cavaleiro! Vai! VAI! – gritava, me olhando encorajador e consultando o velocímetro do Cabo em seu pulso.
– Boa, Camus! – berrou Saga – BOA!
Eu corria assustadora e anormalmente rápido pelas planícies que entornam o Santuário. O Cavaleiro de Sagitário me sobrevoava e o de Gêmeos seguia ao meu lado.
– Quero ver mais hoje! – encorajou-me Saga.
Eu já não precisava mais usar o Cabo, cujo a única parte que servia agora era a que estava no pulso do Cavaleiro de Sagitário. Eu já havia passado por mais uma ou duas fases de treino com os aparatos pesados, mas eu já atingia a velocidade do som facilmente e eles decidiram que não havia mais necessidade de eu usá-lo. Os dois não desgrudavam de mim, acho que temendo que algo de errado acontecesse comigo durante a corrida sem peso, ou seja, nada para me dificultar de acelerar ao máximo.
Me empenhava o máximo que podia para alcançar a tão aclamada e soberana velocidade da luz, como um verdadeiro Cavaleiro de Ouro... Por mais que demorasse, eu não desistia ou desanimava. Pelo mundo... Pela paz na Terra... Por Atena!
– Mantém, Camus! – alertou Saga, fazendo um gesto com a mão – Já tá muito bom pra hoje!
Tudo bem. Mantive a velocidade máxima, como ele disse. Nos últimos dias, eu passava quase 15 horas treinando... Inclusive à noite. Saga me colocava para correr no breu do Bosque de Rodorio a toda velocidade quando passava de meia-noite, querendo provar minha capacidade de Sétimo Sentido que nos permite enxergar mesmo que não haja um feixe de luz sequer. Me fazia desviar de árvores e outros obstáculos, criava ilusões de inimigos para que eu derrotasse... Até me levou para a Casa de Gêmeos ontem para me testar no Labirinto, mas alguma força misteriosa nos impediu de prosseguir com o treino... Enfim, fica para outra noite.
Depois de mais de duas horas correndo pelos arredores do Santuário, os dois resolveram dar uma pausa rápida para que eu descansasse um pouco e me hidratasse. Eu detestava parar... Por mim, podíamos continuar até meio-dia, que fosse.
– Toma aqui, mané. – zuou Aiolos, me dando um chute leve nas costas e me oferecendo um copo de soro caseiro – Tô gostando de ver, hien? Tá sequinho! Quase nem uma gota de suor.
Dei-lhe um sorriso de canto e peguei o copo.
– Valeu. – agradeci e bebi um gole. Já tinha até me acostumado com o gosto ruim daquilo – E ai? Vamos?
Não faziam dois minutos que tínhamos parado.
– Hahahaha! Put# que pariu! – Saga riu, cuspindo o que tinha acabado de beber – Ai, na moral mesmo, Camus... Eu NUNCA ia querer ser seu discípulo! Tá maluco!
– O moleque não respira, Xerox! KKKKKKKKK! – divertiu-se o Cavaleiro de Sagitário, rindo com a cara encostada numa árvore – Atena que nos livre! Calma aê, rapaz! Hahaha!
Ahhh... Fala sério. Quem era para estar morrendo era eu. Eles estavam só me acompanhando. Humpf! Droga... Eu não suportava aquela pausa. A odiava porque minha mente ficava ociosa e isso dava espaço para pensamentos perturbadores... Eu não queria que lhes fosse dado espaço. Não queria pensar em nada. Só em treinar... E em me tornar cada vez melhor. Esse pavor... Me tornou um obcecado por exaustão e extremo. Isso até hoje.
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Dia seguinte...
– Boa tarde, Camus. – cumprimentou mestre Altar.
– Boa tarde, mestre. – respondi.
Estávamos em meio ao Coliseu e todos os outros futuros Cavaleiros de Ouro nos observavam de perto.O irmão mais novo de Shion veio na minha direção com um balde de metal e o repousou no chão à minha frente. Observei o líquido translúcido com cheiro característico que estava contido ali.
– E então? – perguntou, cruzando os braços – Vamos tentar esse?
Assenti e perguntei.
– O que é isso, mestre?
– Isso, meu garoto, é acetona. – respondeu, erguendo as pintas na testa em tom desafiador.
– E o ponto de solidificação? – encarei-o, destemido.
– 94,9 graus negativos. – disse, sentando-se em uma cadeira.
Ouvi murmúrios e cochichos dos meus companheiros por perto:
– Nossa... É muito frio.
– Ele ainda não chegou numa temperatura dessa, chegou?
– Vamos ver se o picolé é capaz...
– Será que ele consegue?
– Ah, calem a boca! – irritou-se Milo – É claro que ele consegue!
Fiquei feliz em ouvi-lo, mas não expressei. Me mostrei concentrado e olhei fixamente para o líquido no interior do balde. Eu já havia conseguido expandir o cosmo para congelar mais quantidade de água do que a da piscina da Casa de Aquário, embora eu tenha quase morrido no dia. Depois dessa, mestre Altar vinha me trazendo substâncias diferentes mais desafiadoras. A última havia sido gasolina, que consegui congelar a 70 graus negativos depois de dois dias tentando.
– Posso começar, mestre?
– Quando quiser, criança.
Me ajoelhei diante do balde e elevei o cosmo ao máximo em poucos segundos. Cheguei aos -70°C rapidamente, mas, a partir dali, eu já devia me esforçar muito mais para abaixar a temperatura... Cada -1°C eram uma pequena conquista, mas eu já não tinha tanta paciência para ir com calma. “Camus! Você, o que sempre preza a calma, está falando de impaciência?” devem estar pensando... É. Eu já a perdi algumas vezes.
Me esforcei muito... Mas conseguia notar uma mudança na consistência da acetona, que se tornara muito viscosa. Eu já devia ter alcançado uns -85°C, mas ainda não era suficiente.
“Só mais 10... Atena... Me dê força... Mais esse milagre...”
Eu tinha que conseguir... Tinha que alcançar o objetivo e superar mais aquele desafio. O dia estava cada vez mais próximo! Faltava menos de uma semana para eu partir do Santuário! Como eu poderia me defender não conseguindo nem chegar a -100°C?! Isso era ridículo!
– Ei... Ei, Camus! – alertou Altar – Vá com calma, garoto! – se aproximou de mim e tocou meu ombro.
Para falar a verdade, nem o senti. Não quis saber... Iria me esforçar ao máximo até conseguir. Nem sequer pensei na possibilidade de parar e deixar para amanhã! Nunca... Era agora. Tinha que ser AGORA! Fechei os olhos...
“ATENA!”
– AAAAAAAAAAHHHHH! – gritei ao explodir o cosmo.
Apoiei as mãos no chão da arena e respirei fundo... Mas... Não... Não era areia. Encostei em algo gelado e... Fofo? Abri os olhos e os arregalei em seguida com a visão que tive dos arredores. O Coliseu estava coberto de... Neve. Muita neve. No mínimo 1 metro de espessura, se não me lembro. Procurei por Milo, Mu, Deba, Aiolia, Shaka e mestre Altar, mas...
... Avistei cinco montes de neve pequenos e um maior onde estavam antes. O mais alto se desfez e uma gargalhada alta de Altar ecoou pelo lugar.
– Hahahahahaha! Isso foi divertido, garoto! Hahaha! – andou até onde estava enterrado o balde de acetona e desenformou o bloco que eu tinha conseguido fazer, me olhando animado.
Até fiquei satisfeito, mas me levantei e corri até os cinco montinhos. Notei que quatro tinham olhos... Um feliz e outros quatro, divertidos. Alguém ainda não sabe quem era o quinto?
“V-Você c-c-conse-guiu, C-C-Camus! Q-Que b-bom... Hehe... Brrrrrrr...” (Milo)
“P-PUT@ Q-QUE P-PARIU! Que f-frio d-da por-r$! Huahuahuahuahuahua!” (Deba)
“T-Tira a-a g-gente d-daqui, Camus! Brrrrrrrrr!” (Mu)
“Ca-ra-ca! Q-Que m-maneiro... M-Mas tá f-fod#!” (Aiolia)
“I-Isso f-foi, n-no m-mínimo, d-deselegan-te d-da s-sua p-parte, C-Camus!” (Shaka)
Prendi o riso e desfiz a neve que os cobria.
– Vai congelar a p¨$# que te pariu, vi@#$! KKKKKKKKK! Brrrrrrrr... – riu Deba, notando que já conseguia se mexer.
Não deu... Eu, Milo, Mu e Aiolia rimos com ele.
– Não vejo graça! Brrrr... – resmungou o futuro Cavaleiro de Virgem.
– Você não vê é NADA, Shaka. – acrescentou Milo.
– Ora, seu... – o restante de sua fala foi abafado por mais risadas nossas.
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Santuário de Atena, Grécia, 6 de fevereiro de 1973.
– VAI, CAMUS! VAI GAROOOOOTOO! – gritava o Cavaleiro de Sagitário, ansioso e esbaforido enquanto voava sobre mim.
– ISSO! ISSO! – animou-se Saga, olhando fixamente para o velocímetro no pulso de Aiolos.
Eu corria livre e confiante pela colina do Cemitério dos Cavaleiros. Rezava para a Deusa o quanto podia para que Ela me concedesse o poder que precisava para mais aquele milagre. Eu já me fazia invisível durante a corrida há muito tempo, mas eu precisava ainda me tornar um com a luz do mundo... Com o brilho do Astro-Rei, o que traz a vida à Terra... Com o Pingente que reluzia cada dia mais fracamente em meu pescoço... Como a minha Armadura Sagrada... Como um Cavaleiro de Ouro...
... Até que, com um suspiro demorado e um sorriso marcado pela vitória, cheguei aos 300.000 km/s.
– AHHAHA! ELE CONSEGUIU! AHAHA! – comemorou o Cavaleiro de Gêmeos, dando um salto e socando o ar.
– UHUUUUUUULL! – gritou Aiolos, enquanto descia e abraçava o amigo. Os dois gritavam e comemoravam.
Freei, já sabendo que não poderia continuar com ela por muito tempo. Meu coração batia forte, vivo e orgulhoso. Caí de joelhos assim que vi o Cavaleiro de Gêmeos sorridente trazendo a estatueta de Atena e a pôs na minha frente. Me joguei aos Seus pés e A abracei.
“Eu... Consegui, minha Deusa. Muito obrigado... Foi por Ti...”
Senti um abraço forte e inesquecível.
– Conseguiu! Conseguiu! – disse ele, seu cosmo cheio de felicidade e orgulho – Isso! Você é demais, mesmo!
– Obrigado, Milo... – retribui o abraço.
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Mais tarde, no mesmo dia...
Andei até a arena do Coliseu com Milo ao meu lado, e acompanhado dos meus futuros companheiros, que me felicitavam e enchiam de perguntas.
– Pô, freezer, dá umas dicas aê, pô! – animou-se Deba – O meu treino com aqueles dois começou semana passada e já estão descascando comigo! – me deu uns tapas nas costas.
– Ainda bem que eu não preciso desse treino de corrida! Hehehe! – esnobou Mu.
Eu estava animado e feliz. Havia esquecido de que dia era aquele por uns minutos.
– Meus parabéns, pequeno Aquário! – disse mestre Altar, bagunçando meus cabelos – Acho que Saga e Aiolos já deixaram todo o Santuário saber do seu feito hoje. Hahaha!
– Obrigado, mestre. – agradeci, estranhando como me chamou. Não era normal... Mas deixei pra lá.
– Bem, hoje tenho algo diferente para você. – anunciou, misterioso. Seu cosmo estava muito... Diferente. Não parecia mesmo o Altar que eu conhecia...
A arena estava estranha. Ele tinha espalhado madeira por todos os cantos do lugar, deixando somente um pequeno círculo livre no centro. O cheiro que emanava da madeira era característico e forte.
– Vá para o centro, Camus. – ordenou – Garotos, peço que não fiquem por aqui. Saiam do Coliseu imediatamente.
Assenti e fiz o que disse. Olhei em volta e senti minhas narinas queimarem de irritação com o odor da madeira. Não seria fácil respirar ali por tanto tempo.
“Droga... Não vou poder nem te assistir.”
“Te conto tudo depois.” Lhe pisquei um olho.
“Humpf... Tudo bem.” Contentou-se ele, me dando um sorriso “Boa sorte.”
“Valeu...”
Depois que os cinco saíram da arena, mestre Altar me deu um sorriso ameaçador. Era muito estranho... Parecia que...
– FOGO! – gritou, rindo sarcasticamente – FOGO PARA TE DERRETER, PIRRALHO!
– O que...?!
De repente, toda a madeira que me rodeava começou a ser consumida pelas chamas. Eu sabia... Aquele cheiro era de álcool que ele tinha espalhado nela! Coloquei o braço na frente dos olhos, meio cego pelo calor intenso do fogo, e tossi. O que ele pretendia me prendendo em um círculo de fogo?! Por que seu cosmo estava maligno?!
ZZZZZZZZZZZZIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNNN!!!!!!!!!!!
Caí de joelhos e coloquei as mãos na cabeça. Um zunido alto e enlouquecedor ecoava pela minha cabeça.
“Caaaamuuusss...” (Milo)
“Caaaaaaaaaaaaaaammmmmmmmuuuuuuusss...” (Milo)
“Caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaammuuuuuuuuuuuuuuuuuuus...” (Milo)
“Hahahahaha... Hihihihi...” (Aldebaran)
“Você é um fraco...” (Máscara da Morte)
“Hahahaha... Hahaha...Hahaha...” (Saga)
“Caaaamuss... Eiii, Caamuuuss...” (Milo)
“Vai derreter... O geladinho vai... Morrer...” (Afrodite)
“Atena devia se envergonhar... Aquela put#... Hahaha... Hihihihi...” (Aiolos)
Eram as vozes de Milo e meus outros companheiros... Mas estavam sarcásticas, malignas, distorcidas e horríveis.
“Imagina... Que o Aquário nem consegue sair dessa...” (Shaka)
“Vergonha... VERGONHA... Para nós!” (Mu)
“QUE MORRA...!” (Saga)
“Eu nem lembro mais... Quem é Camus?” (Milo)
“Olha... Ele tá com mediiiiinhoooo... (Aldebaran)
“Ih... Ele vai pro cara&%$ agora!” (Saga)
“Cadê o picolé?! Ops! Sumiu... Hehe!” (Aiolia)
Elas cada vez ficavam mais altas e distorcidas. Maldição... Era ele que estava fazendo isso?!
“Nem sequer luta! Fraco! Desgraçado!” (Mu)
“Eu vou cortar a sua cabeça, maldito!” (Shura)
“Tomou no c#, freezer!” (Máscara da Morte)
“Gosto mais de você assim, Camus: morto! Hahahaha!” (Milo)
O suor escorria pela minha pele, e havia encharcado toda a minha roupa. Tentei abrir os olhos mas era quase impossível... As chamas já haviam crescido tanto e estavam com mais de 3 metros de altura... Minha cabeça latejava, as vozes pareciam berrar e ecoar pela minha mente. Tossi mais... Havia muita fumaça ali dentro.
– HIHIHIHIHIHIHEHEHEHEHEHEHAHAHAHA! – alguém riu na direção da arquibancada.
Não era o mestre Altar. O que...? Aquela risada... Parecia que eu já a havia ouvido antes em algum lugar. Espremi os olhos e tentei ver quem era. Uma silhueta alta... Com roupas de treino... O cabelo... A forma do corpo... Parecia muito com o...
– Saga?! – gritei, sem entender.
– Chupa essa, pirralho! – riu, me mandando um “dedo do meio”.
“????!!!!!” não entendi mais nada... Que seja. Não faço ideia se queria me treinar ou matar... Mas eu não iria morrer ali... NUNCA! Se era realmente o Saga, que ajudara a me criar desde bebê e me treinava todos os dias, me conhecia muito bem para saber que, mesmo que eu só tivesse sete anos (tá: 6 anos e 364 dias), não iria me derrotar com aquele fogo.
Elevei o cosmo o máximo que pude, mesmo sem conseguir respirar... Eu deveria já estar intoxicado pela fumaça.
– Ei, Camus! – ouvi uma voz que me desconcentrou totalmente.
“Milo?!”
O fogo ficou ainda mais violento e se aproximava de mim rapidamente. Estava quente demais... Mais de 70°C com certeza. E eu arfava, buscando um resquício que fosse de oxigênio para me manter acordado.
– Camus! – chamou de novo.
Fraco e sem forças, olhei para frente e consegui vê-lo por entre as chamas... Não era o Milo, pelo cosmo, aparência e altura... Nem o Saga, apesar da enorme semelhança de cosmo e corpo...
... O Saga jamais deixaria de vestir a Armadura de Gêmeos estando no Santuário.
– Pensei que fosse me divertir mais com você, Aquário! – a voz... Também era igual à do Saga – Esperava que você fosse mais forte!
“Desgraçado! Quem é você?!” arfei, tentando elevar meu cosmo e oculta-lo propositalmente.
– Vai se curvar diante de mim um dia... Vocês todos! – riu, parecendo louco – Sim... Vocês e essa vadia que chamam de Deusa!
“O que...?!” isso era... Inaceitável... Blasfêmia! Pode insultar a mim, mas nunca Atena!
– AAAAAAAAAHHH! – explodi o cosmo e apaguei o fogo em um milésimo de segundo, conseguindo vê-lo e encará-lo.
Respirei fundo e franzi a testa. Trajava uma túnica azul e era idêntico ao Guardião da Terceira Casa que eu conheço... Não era... Possível! Mas... Ele trazia em seu pescoço o Pingente Sagrado de Gêmeos! Nós o perdemos quando reconhecidos pela Armadura de Ouro... Era realmente impossível ser o Saga. Riu, me deu as costas e correu.
– Covarde! – gritei e o persegui.
– Venha! Venha me pegar, projeto de Cavaleiro! HIHIHIHIHEHEHEHEHAHAHA!
Corri atrás dele até o Bosque de Rodorio, ignorando totalmente o fato de estar infringindo as regras do Santuário. Eu não poderia deixar escapar um traidor como aquele homem! Me explicaria com o Mestre depois. Já havia anoitecido, mas eu havia sido treinado pelo próprio Saga naquele lugar e o conhecia de cor. Por mais que estivesse fraco e sentisse um chiado estranho para respirar, não iria desistir de ao menos tentar impedi-lo, mas...
... Um brilho dourado surgiu a minha frente e me senti ser pego. Fechei os olhos, cego pela luz.
– Camus! – disse uma voz preocupada que me deixou ainda mais confuso – Você está bem?
Abri os olhos e fitei o Cavaleiro de Gêmeos, que me segurava em seus braços e me olhava dos pés à cabeça.
– O que houve com você? – disse, parecendo ansioso – Por que está todo sujo, fedendo a queimado? O que estava fazendo sozinho lá no Bosque?!
Meio tonto e sem entender nada, contei a ele o que tinha acontecido no Coliseu. Saga pareceu enfurecido quando terminei. Cerrou os punhos... Senti uma agressividade assustadora em seu cosmo.
– Camus! – chamou uma outra voz ainda mais preocupada. O senti me abraçar e o encarei – O que aconteceu?!
– Me deem licença, garotos. Tome banho e se troque, Camus. O Mestre quer te ver agora mesmo. – pediu o Cavaleiro de Gêmeos em voz baixa e irritada, e saiu apressado.
Olhei em volta e percebi que estava no Saguão de Entrada da minha Casa.
– Camus...?
O encarei e lhe fiz carinho nos cabelos.
– Está... COF! COF! COF! – tossi – Tudo bem.
– Eu estava descendo correndo quando senti algo estranho em seu cosmo, mas Aiolos me impediu! Não pude fazer nada! – disse, alterado e preocupado.
– Ei... Ei... Eu vou ficar bem. – lhe dei um beijo na testa e tossi mais.
– M-Mas... O que houve lá embaixo?! – me abraçou forte – Eu conseguia ver a fumaça da minha Casa!
Enquanto fomos para o meu quarto para que eu me arrumasse, lhe contei tudo. Tirei a roupa para tomar banho e entrei no chuveiro. Milo se sentou encostado na parede.
– Mas que doido isso... – comentou – Quem será esse homem tão parecido com o Saga?
– Não sei, Milo... Mas ele queria me matar... Mas não só isso: desejava que eu sofresse bastante antes de partir para o outro mundo. – falei enquanto me secava e ele me olhava atentamente.
– Hum... – pronto. Já havia se distraído com outra coisa... ¬¬
Depois que me vesti, o raciocínio voltou a funcionar.
– Temos que falar com o Mestre sobre esse sujeito. – falou, batendo com o punho fechado na outra mão, espalmada.
Terminei de me arrumar e fui em sua direção para me despedir. Uma sensação de desespero e tristeza tentaram se apossar de mim nesse momento... Mas fui forte o bastante para não demonstrar. Pelo Milo... Eu seria até o fim.
– É. Vou falar agora. – me aproximei dele e ia lhe dar um beijo no rosto, mas ele tentou vira-lo para que fosse em outro lugar... Devo ter corado muito e me afastei.
Me olhou com as maçãs do rosto vermelhas e um brilho de malícia nos olhos.
– Você é tão lindo... – suspirou, chegando mais perto, ajoelhando-se e me abraçando pela cintura – Desculpe...
Dei-lhe um sorriso carinhoso e um beijo na testa. Não me soltou do abraço.
– Milo...
– Eu sei... Eu sei. – soltou o abraço e me olhou tristemente – Te espero aqui.
Retribuí o olhar e assenti. Fiz-lhe carinho com o rosto e parti para a Sala do Mestre. Subi as escadarias tão rapidamente quanto as lágrimas escorriam e se espatifavam no chão de pedra. Quando, cheguei, respirei fundo e enxuguei o rosto com o braço. Andei até a Sala do Trono, avistando o Mestre sentado ali, como de costume. Me aproximei e ajoelhei em respeito.
– Boa noite, Camus. – disse, com a voz tristonha.
– Boa noite, Mestre. – respondi, encarando-o.
Se levantou do Trono e veio até mim. Me olhou preocupado, mas carinhoso ao mesmo tempo.
– Vocês crescem tão rápido... – comentou suspirando. Bagunçou meus cabelos – Você... Já vai embora, criança...
Continuei a olhá-lo, meio perdido. Eu não sabia o que dizer.
– Vou sentir muito a sua falta, Camus. – declarou, com uma lágrima solitária percorrendo seu rosto – Me orgulho muito de você, garoto. Será um grande Cavaleiro. É, de fato, um presente dos deuses para Atena.
Me mantive calado, mas o abracei espontaneamente. Mesmo com a história das lentes... Por mais que tenha acontecido aquela situação horrível com o Milo, eu não conseguia nutrir nenhum sentimento negativo pelo Mestre. Ele foi como um pai para mim e todos os meus companheiros.
– Ooohh, criança... Assim você mata esse velho de tanto aperto no coração. – disse, chorando em silêncio e retribuindo o carinho com cafuné.
– Mestre...
– Sim?
– Pro... Promete que cuida do Milo? – pedi, com a voz trêmula.
Ele me encarou e assentiu.
– Prometo, em nome de Atena, Camus. – disse, com um sorriso cumplice.
– O-Obrigado. – cerrei os punhos e abaixei os olhos.
O senti colocar as mãos em meus ombros.
– Ore e vigie todo o tempo, Camus... Todo o tempo. – disse, me encarando seriamente – A qualquer momento, depois que deixar a segurança do Santuário, sua primeira missão e inimigos podem surgir...
Assenti firmemente.
– O mundo é feito de dualidade, criança... Existem muitas pessoas boas por aí... Mas existem as más... E as que achamos que são boas e, na verdade são más... Assim como as que juramos ser más e, na vera, são boas. Todas guiadas pelo livre arbítrio dado à humanidade pelos deuses. – explicou – Mantenha-se sempre atento, eu te peço, pela Deusa.
– Sim. – respondi – M-Mestre?
– Fale, criança.
– Aqui no Santuário só existem humanos bons, não é? – algo que sempre tive dúvida, mas nunca havia perguntado – Estão tão perto da Deusa, que só podem ser bons e a serviço do bem?
Ele abaixou os olhos e pareceu decepcionado.
– Infelizmente, Camus... – fez que não com a cabeça – ... Não é verdade.
– Mas como? – não entendi nem aceitei – Ousam profanar o Solo Sagrado a quebrar a confiança de Atena?
– Sim, meu jovem. – suspirou, também indignado – Entenda de uma vez, garoto, são todos seres humanos capazes de todos os erros e acertos. As pessoas são assim... Você deve aceitar isso e saber lidar com elas.
– Mas... Até Cavaleiros?!
– Bem... É mais difícil encontrar Santos da Deusa corruptos. – disse, pensativo – Mas também é possível.
– Isso é um absurdo! Como podem vestir Armaduras Sagradas? E sujar o chão do Santuário com seus pés imundos? – me indignei.
– Cavaleiros e Amazonas também são humanos, criança... Inclusive você. – falou, me dando um sorriso de canto.
– Havia alguém a serviço do mal aqui hoje. – pronto: falei.
– Quem, Camus? – perguntou, preocupado.
Contei-lhe o caso que acontecera no Coliseu agora há pouco. Vossa Excelência pareceu nervoso e impaciente quando terminei de relatar o ocorrido.
– Atena... – suspirou, irritado – Bem, Camus... Boa noite, criança. Vou buscar vocês amanhã cedo.
– Sim. – respondi, percebendo que estava sendo dispensado – Permissão para me retirar.
– Concedida. – respondeu, sério e pensativo – Até amanhã.
– Até! – falei e me retirei, voltando correndo para a minha Casa.
Quando cheguei ao meu quarto, fui recebido com um abraço apertado que nos jogou na cama.
– Já estava com saudade... – falou, manhoso e deitando a cabeça no meu peito.
Senti pontadas dolorosas na alma. Não sei se já perceberam a mudança de comportamento do Milo desde... Aquele dia. Notaram que está bem e feliz, ao contrário de mim? Apesar de me sentir aliviado e ficar contente por não ver seu sofrimento quase constante como antes, amanhã... A minha partida seria inadiável e inevitável. E eu teria que conta-lo... Como se fosse a primeira vez. Sim... A realidade de que eu iria embora do Santuário amanhã havia sido apagada de sua memória e ele viveu esse último mês na inocência de que eu não tinha previsão de deixa-lo.
Desde aquele dia... Eu tenho tentado me convencer de que devo aceitar minha nova aparência... E que ele acredita que sou assim de verdade... E que não houve presente algum... E que eu não tinha data prevista para ir embora. Não que eu tenha engolido... Já disse lá atrás que nunca aceitei. Mas... Não sei se o próprio Milo já disse a vocês algo que jamais mudará, mesmo pela vontade da própria Atena: eu faço tudo por ele. E dou provas e mais provas de todo o amor que sinto por toda a minha vida... Foram só vinte anos, mas incontáveis milagres.
Pelo Milo, eu passei a conviver com o novo Camus. Mesmo que tenha passado treze anos afastado dele, não deixei de representar esse sujeito. Mas... Mesmo não tendo mais como realidade a minha partida, não deixava de ter aquelas febres... Apesar de terem diminuído um pouco.
– Quem faz aniversário amanhã? – disse animado e se aninhando o mais próximo de mim que podia.
Isso dói... Muito... Como se minha alma se despedaçasse. Mas eu me mantinha bem e forte... As últimas horas ao lado dele seriam felizes. Cheguei a adormecer junto a ele, mas acordei um tempo depois e o levei para a Casa de Escorpião.
Desci as escadas, abraçado a ele o mais forte que pude... Seria a última vez que faria aquele percurso tão sagrado para a Oitava Casa. Entendam... Cada gesto, carinho, beijo, toque... Poderiam ser os últimos. Eu queria viver aquilo ao máximo, mesmo que doesse até o mais profundo do meu ser. Ao menos, a dor me mantinha ali... Atento a tudo... E fazia sentir até o último momento junto dele, do Santuário, dos meus companheiros e do Mestre.
Passei por Daros, que parecia nos aguardar na saída da Casa.
– Boa noite, Daros. – cumprimentei-o, como sempre.
O criado da Oitava Casa não respondeu, apenas fez que não com a cabeça, desesperado, e levou as mãos ao rosto. Olhei-o com uma expressão triste, mas segui meu caminho com Milo até seu quarto. O repousei na cama e fiquei bastante tempo ali, fazendo-lhe todos os carinhos que pude... Até que quase adormeci novamente e tive que deixa-lo...
... Observei-o o quanto pude... Para sempre lembrar dessa imagem dele e conseguir dormir com um pouco de paz.
“Milo...” uma lágrima correu pelo meu rosto. A sequei o mais rápido que pude.
Me virei e deixei-o com uma dor lancinante e os punhos cerrados. Quando passei pelo corredor, senti uma mão trêmula encostar meu ombro. Me virei para encarar Daros, que me tocara, e dona Tália, que o segurava pelo braço parecendo repreendê-lo por ter me detido.
– Daros... – falei, olhando para o criado em estado deplorável à minha frente. Havia emagrecido muito e tinha grandes olheiras.
– Deixe-o seguir seu caminho, meu filho. – ralhou dona Tália – Ele tem que descansar. Fará uma viagem cansativa amanhã.
– Espere, dona Tália. – falei, segurando a mão de seu filho – Por favor, Daros, fale.
O homem caiu de joelhos à minha frente, desesperado.
– P-Por favor, p-pequeno Aquário! – chorou, sem deixar de segurar minha mão – N-Não deixe o meu mestre...!
– Daros! – zangou ela.
A olhei e lhe fiz um gesto para que o deixasse em paz.
– O mestre... Vai morrer, pequeno! – falou, alterado – Morrerá de tristeza! Por favor...!
Encarei-o profundamente, e disse:
– Eu nunca o deixarei, Daros... Posso não estar fisicamente ao seu lado, mas minha alma estará aqui sempre. A morte não conseguirá leva-lo... Eu não deixarei... Pelo milagre de Atena. Eu prometo. – segurei forte a sua mão – Mas você precisa ser forte também, Daros. Dê forças a ele... Promete?
O criado pareceu confortado e me deu um sorriso esperançoso.
– Sim, pequeno, eu prometo. Que Atena o guarde!
– Que seja... Que a Deusa os guarde também. – respondi, e me virei para voltar à Décima Primeira Casa.
– Mestre... Espere. – pediu Dona Tália – Vou subir contigo.
Parei e a esperei sem olhar para trás. A ouvi se despedir de Daros e logo se postou ao meu lado. Me abraçou, beijou e seguimos para a Casa de Aquário de braços dados.
– Mestre, peço que perdoe meu filho... – disse, emocionada.
A olhei e dei-lhe um beijo na mão.
– Está tudo bem... – eu não queria mais falar sobre aquilo... Estava tão cansado – Vem. – a puxei levemente pelo braço para que subíssemos mais depressa.
Quando chegamos, Dona Tália me abraçou demoradamente e chorou muito. Eu a olhava com um sorriso leve e compreensivo, secando suas lágrimas com a mão.
– Oh, m-minha Atena... Por que t-tem que t-tirá-lo desta Casa?! – questionava e soluçava.
– Dona Tália... Eu estou pronto. – falei, encarando-a e enxugando uma última lágrima que corria por seu rosto – Enfrentarei meu destino com a honra de um Cavaleiro de Atena.
– S-Sim, querido mestre. A dona Tália promete que será forte também. – me deu um sorriso triste – Vou só te pôr na cama, está bem?
– Tá. – assenti.
Fomos até o meu quarto, vesti o pijama e me deitei. Ela se sentou ao meu lado e me fez cafuné com um sorriso fraterno e maternal que sempre detinha. A olhei bem... Nunca mais esqueci daquela visão, que me acompanhou eternamente. Nunca mais a vi depois daquela noite...
Com um beijo na testa, ela me deixou fechando a porta do quarto. Não consegui dormir aquela noite. Me sentia estranho... E mal demais. Rolei pela cama, com uma intenção que poderia parecer sem sentido e insana de deixar meu cheiro nela... Uma parte de mim ali. Levantei e fiz o mesmo nas paredes do quarto e em todos os objetos possíveis. Abri a porta e saí passando meu corpo nas pilastras e paredes do corredor e do Saguão de Entrada. Segui na direção da biblioteca e fiz o mesmo em tudo o que pude.
“JÁ NÃO ERA SEM TEMPO.”
“O que?” respondi, enquanto passava meu rosto e pescoço nas prateleiras.
“SEU INTERESSE POR NÃO SE DEIXAR ESQUECER SURGIR.”
“Hum...” eu encostava o corpo, rosto e mãos em tudo o que estava ao meu alcance “Então... Isso é normal?”
“É SIM. ESTE É O SEU TEMPLO... DEVE CONTER SUA ENERGIA E COSMO POR TODA A PARTE PARA MANTER-SE COM VIDA.”
Entendi... Aquilo era totalmente instintivo. E eu não parei enquanto não terminei de “me deixar” em todos os locais da Casa que achei necessário. Senti uma mão enorme e gelada me pegar no Saguão de Entrada e me fazer cafuné. Me emocionei e abracei o que podia de seu grande corpo de pedra.
“E-Eu v-vou sentir s-saudade...”
“CRIANÇA... ESTOU CONTIGO PELA ETERNIDADE.” Disse carinhosamente “NÃO SINTA MEDO, CAMUS.”
No fundo... Eu também tinha muito medo.
“M-Mas... E-Eu... E-Estou...”
“NÃO TEMA... CONFIE NA DEUSA... E EU SEMPRE ESTAREI A TE PROTEGER.”
Chorei por mais um tempo encolhido em sua mão, até que minhas lágrimas secassem por completo. Acho que adormeci devido à exaustão e à dor que assolava todo o meu ser.
“Aonde quer que esteja... Irei encontra-lo para vesti-lo. Nos tornarmos um, filho.”
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Santuário de Atena, Grécia. 7 de fevereiro de 1973.
– Acorda, preguiçoso! – ouvi sua voz e levei um grande susto quando acordei. Me deu uma sacodida violenta. Por que ele fez isso? Minha cabeça doía muito...
– Para! Ainda tá cedo! – me irritei um pouco... Meus ouvidos zuniam e eu sentia uma grande ânsia de vômito... Parecia uma ressaca das piores.
– Já são sete horas! – falou.
– Já?! – me espantei e me levantei num pulo. O Mestre tinha dito que vinha me buscar cedo!
– Hahahahahahahahaha! – Milo riu alto.
– Qual é a graça? – perguntei com a voz cansada.
– Mentira, são cinco e meia. – parou de rir e me encarou com um sorriso.
– Tisc! Pô, Milo, não dá pra você ser menos chato não? – falei chateado. Hoje ele estava animado demais para implicar comigo.
– Não dá! Eu nasci pra te irritar, picolé. – zuou, rindo da minha cara. Voltei a me deitar me cobri todo... A luz estava me incomodando muito.
– Ah, vai importunar outro! Me deixa dormir. – falei com a voz abafada pelo cobertor.
– Não! Acorda! Sabe que dia é hoje? – continuou.
Ah, não... Por Atena.
– Quarta. – respondi com um bocejo e segurando a cabeça com força para ver se a dor de cabeça melhorava um pouco.
– Ahnn... Tá! É quarta, mas que dia do mês? – insistiu.
– Sei lá, Milo! – tentei dar-lhe um fora. Me deixe pensar, Milo, só um pouco – Posso dormir agora?!
– Nã-ão! Nã-ão! Nã-ão! – começou a cantar e pular em cima da cama – Se eu não durmo ninguém dorme! (Berro muito alto)
Ele estava demais mesmo!
– Shhhhhh! Milo, tá muito cedo. Vai acordar todo mundo. – disse eu me descobrindo, ao mesmo tempo que quicava por causa dos pulos dele.
Caiu de bunda na cama e disse:
– Eu só paro se você acordar. – falou, fazendo muxoxo. Mesmo naquele estado em que me encontrava, eu tinha pouca resistência a essa cara...
– Ahhhh... Tá. Mas vou ficar deitado. – concordei, tentando me manter sério.
Eu estava profundamente triste... Não sabia até quando aguentaria me manter forte para ele. Sua inocência seria destruída... Eu teria que conta-lo mais cedo ou mais tarde. Doía muito...
– Trato feito. – falou e se deitou ao meu lado – Mas é sério que você não sabe que dia é hoje?
– Já disse. É quarta... – falei, não suportando mais e deixei transparecer uma voz triste.
– Mas é seu dia, Camus! É seu aniversário! – falou, indignado e sem entender o meu comportamento.
– Ah é. – suspirei e coloquei o braço sobre o rosto para que ele não visse minha expressão.
– Você tá triste? – perguntou, preocupado e me abraçando forte.
– Não. Tô é com sono. Humpf... – mentira. Respirei fundo, rezando para Atena.
Senti que ficou me olhando, perdido. Sei que nunca havia me visto naquele estado tão pra baixo. Suspirei e sequei uma lágrima que se formou antes que ele percebesse.
– Mestre Shion falou que vai nos levar pra passear na cidade depois da ronda por Rodório. Vamos comprar o seu presente e ir ao cinema! – disse ele, tentando me animar – Não é demais?! A gente só foi lá uma vez há um tempão. O que você vai pedir pra ele, hien?!
Um gosto metálico inundou minha boca e eu senti o sangue quente escorrer por meu nariz e olhos. Eu estava tão fraco e desorientado que nem vi para onde iria. Me levantei e saí correndo em direção aleatória, sentindo meu estômago queimar e minha cabeça quase explodir.
– Aonde você vai?! – disse ele, preocupado – Peraí!
Corri pelo corredor... Não sabia para onde estava indo... Quando não deu mais, me ajoelhei e comecei a vomitar descontroladamente.
– Nossa! Você tá passando mal! – disse ele, nervoso – Vou chamar o Mestre!
– Não... – tentei dizer com a voz enrolada.
– Mas você tá doente! – gritou com a voz de choro.
– Eu tô bem... Não – expeli ainda mais sangue – chama o Mestre...
Parei, fiquei de cabeça baixa e com a respiração ofegante.
– Milo... – falei baixo e com a voz entrecortada – Me ajuda a voltar pra cama, por favor...
– Tá! – se apressou para me pegar no colo... Não me lembrava se já o havia feito alguma vez antes... Ao menos pude ter a sensação de estar em seus braços.
Minha visão estava turva, mas o senti voltar comigo para o quarto e me colocar na cama o mais cuidadosamente possível. Seus lábios estavam molhados de sangue e eu respirava com dificuldade. Ele limpou meu rosto com papel e se ajoelhou ao pé da cama. Ficou me olhando atento e preocupado.
– Ei. – me chamou baixinho – Tá me ouvindo?
Abri os olhos e o encarei tristemente. Seus olhos se encheram de lágrimas. Uma delas correu por seu rosto. Mesmo fraco, levei a mão até ele e a enxuguei.
– Não chore, meu amigo. – falei com um sorriso enfraquecido – Não quero ninguém triste no meu aniversário – acariciei seu rosto.
Milo retribuiu o sorriso, subiu na cama e se deitou ao meu lado. Pegou minha mão que o havia acariciado, a ficou segurando e me fazendo carinho com os dedos. Ficamos nos olhando. Nos adorando, na verdade. Atena ouviu as minhas preces e me deu mais forças... Mesmo que não me sentisse nada bem, pude transmitir a ele com o olhar toda o amor que sinto. Meu coração batia feliz naqueles minutos.
– Bom dia, crianças. – disse uma voz grave, porém, suave.
Por Atena... Já era a hora...?
– Bom dia, mestre. – respondemos juntos.
Milo se levantou e me ajudou a fazer o mesmo. Em seguida, nos ajoelhamos perante Shion.
– O que aconteceu contigo, Camus? – se aproximar me pegou no colo – Por que precisou de ajuda para se levantar? E que manchas são essas na sua roupa e na do Milo? Você está cheirando à... Isso é sangue? – questionou ele enquanto me segurava por debaixo dos braços.
Baixei os olhos, não querendo contar o que aconteceu para o Mestre. Sua Excelência franziu a testa com as inconfundíveis pintinhas e olhou para o chão. Arregalou os olhos em seguida e disse:
– Mas o que houve aqui? – e seguiu para o corredor sem me soltar ou tirar os olhos do chão – Camus, esse sangue todo é seu?! Você está ferido? – disse Shion com a voz trêmula, me erguendo e tentando me encarar.
– É sim, Mestre. – respondi baixinho, sem olhar para o Mestre – Não estou ferido. Eu vomitei esse sangue.
– Por Atena! – clamou o mestre, seu cosmo preocupado tentando se manter calmo – Perdão, criança... Perdão. – e me abraçou intensa e carinhosamente.
O Mestre sabia bem o que tinha acontecido... Ainda agarrado a mim, voltou para o quarto. Milo nos seguia de perto, com uma expressão desconfiada e irritada. Shion me colocou de volta na cama e me cobriu.
– Quero que seja sincero comigo. Sabe que é seu dever como Cavaleiro saber de sua própria força. – disse Shion, em tom um pouco mais firme e me encarando – Está fraco para ir hoje?
– Não, Mestre. Já passou. – respondi – Podemos ir hoje.
– Tem certeza, Camus? – perguntou franzindo as pintas na testa.
– Sim, Mestre. – falei em tom firme – Tem minha palavra como Cavaleiro.
Sua Excelência suspirou, preocupado e disse:
– Tudo bem. Então vamos um pouco mais tarde, daqui a umas duas horas, para que você se recomponha. Os dois tomem um banho e se vistam. — e virou-se para deixar minha Casa – Milo, você fica com ele?
– Sim, Mestre. – respondeu firmemente.
– Agradeço. A propósito, feliz aniversário, Camus.
– Obrigado, Mestre.
Depois que Shion se retirou, Milo voltou a se deitar ao meu lado.
– Por que o mestre te pediu perdão? – perguntou, chateado.
– Acho que ele se sentiu culpado de eu ter passado mal. – respondi, temendo pelo momento que se aproximava...
– Mas por que ele se sentiria assim? – perguntou de novo, me encarando e inconformado.
– ... – eu não conseguia falar. Me sentia péssimo... Não era possível que aquele dia havia chegado! Não! O olhei... Estava sem chão e me sentindo desesperado.
– O que você tá escondendo? – alterou-se.
– Milo...
– NÓS PROMETEMOS QUE SEMPRE ÍAMOS CONTAR UM PRO OUTRO NOSSOS SEGREDOS! – gritou. Senti que se desesperou...
... Não havia mais como esconder.
– Eu... Vou embora. – falei baixo e com a voz trêmula.
Sua expressão mudou em milésimos de segundo... As pupilas se contraíram... Seu cosmo oscilou e enegreceu...
– O que? Vai... Embora? Hoje? – sua voz saiu entrecortada e ainda mais trêmula.
– Vou... – perdi a voz... Ergui o corpo, preocupado.
– Ai... – gemeu de dor, apertando o peito – Meu... Coração...
Me aproximei, o abracei forte e lhe dei um beijo na testa. Senti que seu coração deu um último pulo e começou a desacelerar. Pus a mão embaixo da dele que estava sobre o peito e comecei a acaricia-lo, rezando para a Deusa...
– Eu tô aqui. – sussurrei.
Deitou a cabeça no meu braço e retribuiu o abraço. Lhe dei mais carinho... Graças à Deusa... Ele adormeceu antes de mim. Me neguei a chorar. Somente o olhava... O admirava... Mais uma visão que jamais esqueceria. Acabei adormecendo depois de tanto orar...
“Minha Deusa... Por favor... Olhe sempre por ele... Abençoe-o...”
Fomos despertados por um feixe de luz que atravessava a janela no quarto. Percebi que ele tentava ser forte por mim... Acordou sorrindo e me deu um beijo na testa. Retribuí o sorriso e me levantei... Inconscientemente, nos unimos para tentar ficar bem e felizes nos últimos momentos. Aquilo me fez sentir vivo de novo... Encararíamos juntos.
Nos revezamos para tomar banho e começamos a nos trocar, quando o Mestre chegou. Estava de calça jeans bem clara e sapatos pretos, camisa social branca, e havia prendido seus cabelos em rabo de cavalo. Nossa, era muito estranho vê-lo vestido assim. Também carregava várias sacolas em um braço.
– Olá, crianças. – disse ele – Não vistam essas túnicas. Trouxe essas roupas aqui pra vocês. – e deu as bolsas para Milo.
Ele as abriu e pegou uns pacotes embrulhados para presente, cada um deles identificado com o nome de seu dono.
– Esses são seus, Camus. – entreguei os pacotes empilhados nas minhas mãos.
– Obrigado, Mestre. – agradecemos.
– De nada. Tomara que sirvam. – disse e sorriu o Mestre.
Trocamos nossas roupas novas. Milo de camiseta vermelha, calça jeans e sandália e eu, de camisa de manga comprida preta, calça comprida branca e tênis. Ficamos nos olhando e pensando o quanto ficávamos diferentes daquele jeito. Dava até para enganar que éramos meninos normais.
– Ficaram muito bem. Devem estar se sentindo tão estranhos quanto eu. – disse o Mestre rindo – Ah, ganhei isto de presente e vou testar com vocês. – se levantou, tirou algo do bolso e se virou para sair do quarto. – Vamos lá fora.
O Mestre tentava ser divertido e leve conosco para ver ser amenizava aquele momento doloroso. Dava para sentir a tristeza emanando de seu cosmo. O seguimos até a entrada da Casa, até que ele se virou e nos mostrou o que testaria conosco: uma câmera fotográfica instantânea Polaroid.
– Façam pose para a foto, garotos. – disse ele, tentando posicionar a câmera no rosto e se ajoelhando para ficar perto da nossa altura. – Vamos ver se esse negócio funciona.
Milo segurou meu braço e tentei sorrir. A câmera expulsou a foto, o mestre olhou e sorriu.
– Ficou boa, eu acho. – disse ele.
Tive um desejo na hora que não pude deixar de externar para o Mestre.
– Mestre, posso... – falei, meio sem jeito — ...Ficar com ela?
– Claro, Camus. – me estendeu a mão com a foto – É sua.
– Obrigado, Mestre. – agradeci e sorri com a ideia que poderia realizar o desejo – Posso ir ao meu quarto?
– Sim, mas não demore. – respondeu – Vamos partir logo.
Me virei e corri para o interior da Décima Primeira Casa. Cheguei ao quarto e o olhei pela última vez... Suspirei e peguei uma caneta na gaveta, apoiando a foto no criado-mudo para escrever no verso:
“Ao meu melhor amigo, Milo.
7 de fevereiro de 1973.”
Sorri e passei o rosto na foto instintivamente... Voltei correndo com ela para a entrada da Casa. Vi o Mestre com uma expressão séria e Milo... Não... Ele... Voltava a se entristecer.
– Vamos indo. – disse Shion.
– Sim. – respondemos.
Descemos as Casas, e saímos do Santuário sem que ninguém nos visse e entramos em um carro que já nos esperava. Lá dentro estava Mu, e fomos conversando até o aeroporto. Milo se deitou no meu colo e eu lhe fazia cafuné... Quando descemos no aeroporto de Atenas, fomos recebidos no estacionamento por um casal que carregava suas malas e suas Pandora Box nas costas, envolvidas por mantos para não chamarem tanta atenção, como havia me sido dito ser hábito da maioria dos Cavaleiros ao realizarem suas missões.
Os olhei dos pés à cabeça... A Amazona vestia sua máscara prateada, tinha cabelos negros curtos e pele muito alva. O Cavaleiro era negro e alto... E tinha um olhar estranhamente soberbo. Ambos trajavam conjuntos de moletom e reverenciaram o Mestre, que retribuiu com um aceno de cabeça.
– Crianças, estes são Adisa de Pavão e Chioh de Cães de Caça. – disse o Mestre, apresentando-os para nós — Camus, eles são os Cavaleiros de Prata que irão te acompanhar até a Sibéria.
– É um prazer conhece-lo, Camus de Aquário. – disse Chioh, me estendendo a mão. Fiz o mesmo e demos um aperto de mão.
Quando o toquei, não pude deixar de sentir seu cosmo misterioso que parecia tentar ocultar. O encarei... Aquele sujeito... Fiquei confuso de início, mas tive uma péssima primeira impressão dele. Podia ser cisma minha, afinal, eu não estava acostumado a lidar com outros Cavaleiros... Até aquele dia, eu vivia preso e protegido no mundinho do Santuário.
– Mestre, o voo já foi anunciado para daqui a vinte minutos. – anunciou Adisa. Sua voz era irritante como a de uma gralha.
O Mestre foi até a traseira do carro, abriu o porta-malas e retirou minhas malas.
– Vamos. – disse ele, enquanto Chioh pegava as malas.
Fomos todos para o interior do aeroporto, passamos por todos aqueles procedimentos chatos sem problemas (graças ao Mestre, que iludia a todos os funcionários e aparelhos. O detector de metais e os guardas nunca iam deixar passar as Pandora Box).
Estava tudo passando tão rápido... O tempo estava curto demais. Eu sequer conseguia raciocinar direito... Por Atena... Eu olhava para Milo, cujo cosmo emanava intensa tristeza e ansiedade... Acredito que o meu não estivesse diferente, mas eu segurava sua mão e a acariciava o quanto podia... Sentir seu toque... Pela última vez.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Encontramos umas cadeiras. Me sentei ao seu lado... Como podia ser verdade?! EU PODERIA NUNCA MAIS VÊ-LO...! Era como se eu quisesse gravar cada detalhe dele, com medo de esquecer como era. Rezei um pouco junto a ele e o encarei com um sorriso leve, tentei ser forte... Levei a mão ao bolso e disse:
– Milo, tem uma coisa que eu quero te dar. – falei, encarando-o profundamente... Tentando transparecer tudo que guardo em meu ser por ele. Entreguei-lhe nossa foto – Por favor, nunca se esqueça do quanto eu te amo.
“Voo 1-1-8 para Vladivostok. Embarque: portal 12.”
– Venha, Camus. – chamou o Mestre, me pegando pelo braço.
– Não! – gritou Milo, me abraçando forte – Mestre, por favor...!
– Milo, por favor digo eu. – disse firmemente e lançando um olhar repreendedor – Todos passamos por despedidas. Já conversamos a respeito.
O futuro Cavaleiro de Escorpião chorou muito em silêncio, mas não me soltou. Não sei se nos entendem... É uma das situações mais dolorosas que já passamos juntos. Retribui o abraço, também me mantendo em silêncio, enquanto caminhávamos na direção do portão 12. Lhe dei um beijo na cabeça. Não havia o que dizer... Só senti-lo mais ao meu lado pelos últimos segundos...
... Ao chegarmos ao meu ponto de partida, olhei para ele enquanto o Mestre o tirava de mim e Milo quase rasgava a minha blusa. Segurei sua mão e a beijei, mas Adisa me pegou pela outra e fez um gesto para seguirmos adiante. Separamos nossas mãos...
... Tonteei. Era como se tudo fosse em câmera lenta. Milo gritava e as lágrimas caiam descontroladamente por seu rosto, estendendo os braços na minha direção. Meus ouvidos zuniam... Minha boca, cheia de sangue... Meu corpo quase desfalecia, e meu coração... Parou por um tempo anormal.
Eu o ouvia me chamar quando entrei pelo corredor na direção da aeronave. Sua voz ecoava pela minha mente... Eu andava como um morto-vivo sem emoções. Sequer sentia meus pés no chão. Se os dois Cavaleiros de Prata falaram algo comigo... Não sei. Subi a pequena escada para entrar no avião e quando lá dentro, fui guiado pela Amazona de Pavão para o meu lugar marcado. Me sentei ao lado de uma janela e olhei perdidamente lá pra fora...
... E o avistei no terminal de mãos dadas com o Mestre. Nossos olhares se encontraram instantaneamente. Dei-lhe um sorriso triste e derramei uma última lágrima... Lhe ergui a mão em um gesto de adeus. O avião começou a andar depois de ligar as turbinas. Por Atena... Eu o amo tanto.
Arregalei os olhos quando o vi se desvencilhar da mão do Mestre e correr em velocidade sobrenatural ao lado da aeronave e dar o salto mais alto que já vi. Eu fazia que não com a cabeça e me desesperei! Se agarrou na janela e me encarou, desesperado. Levantei, nervoso e preocupado... Ele não conseguiria se manter ali! A queda seria muito alta! Fiz gestos para que ele descesse, mas ele não soltava. Toquei a janela... Nossas mãos somente ficaram separadas pelo vidro... E ele me deu um sorriso lindo... Eu retribuí, mas...
... O vi ser arrastado pela força do vento.
– MILOOOOO! – gritei, desesperado e me jogando contra a janela.
Eu não conseguia vê-lo... O avião havia decolado e a névoa encobria o chão.
– Por Atena!! – gritei – MILOO!
– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOO! – sua voz ecoou em minha mente...
... A dor era insuportável...
... Tudo escureceu.
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