Mago da Água e do Gelo
17 A queda do Pingente
Notas iniciais
– Aceita algum lanche, senhora? – voz feminina ao longe.
“O... Que...?”
– Não, obrigada. – respondeu secamente uma outra mulher.
“Que... Vozes... São essas...?”
– Tadinho... Cansado, né? Está dormindo...
– Acho que sim.
Eu não sabia se realmente havia acontecido ou se fora um pesadelo... O pior que já tive.
– Será que ele não quer comer? Temos jujubas e outras coisas que as crianças gos...
– Melhor deixa-lo dormir. Obrigada.
Era difícil se mexer... Cada parte do meu corpo doía intensamente. Movi alguns dedos, que latejaram. Respirei fundo e expulsei o ar rapidamente... Minhas costelas trincaram. Franzi as sobrancelhas com a dor. Tentei abrir os olhos, mas a pouca luz que os penetrou me fez sentir ânsia de vômito.
“Atena... Aconteceu de verdade...?”
– Tudo bem. Estamos à disposição. – ouvi o rangido de rodas se afastarem.
Levei as mãos ao rosto e protegi meus olhos. Me encolhi no assento. Senti alguém com cosmo instável se aproximar e tocar meu ombro.
ZZZZZZZZZZZZZZZZZIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNN... (zunido incrivelmente alto e ensurdecedor)
– Nnnnnnnngh...! – gemi de dor e incomodo quase insuportáveis, levando as mãos à cabeça e pressionando-a. Ainda de olhos cerrados, franzi as sobrancelhas.
Aquela deveria ser a Amazona de Prata, Adisa, que logo deixou de me tocar. Minha respiração estava acelerada e eu sentia uma grande falta de ar. Tentei abrir os olhos de novo, tentando lutar contra a grande náusea que coexistia com essa ação. Enxerguei muito mal as coxas e mãos da Amazona de Pavão ao meu lado. Inspirei o quanto podia, tentando buscar oxigênio. Pisquei os olhos até que se adaptassem, o mínimo que fosse, à luz. Meu corpo doía... Cada dedo que eu mexia parecia estalar.
“Mi... Lo...”
Sua voz e gritos ainda ecoavam repetida e dolorosamente pela minha alma. Mantive o olhar fixo e arregalado num ponto invisível. Entreabri a boca para reforçar a respiração... Eu estava sufocando... Era como se duas mãos invisíveis estivessem apertando meu pescoço para me estrangularem.
“Por que...? Por que... Atena...?”
Levei as mãos ao pescoço, mas não havia nada físico me sufocando... Engasguei e ergui o tronco para frente com o reflexo.
– Acordou? – pareceu espantar-se Adisa.
Virei o rosto com dificuldade para encará-la, o que sempre foi impossível em relação a uma Amazona mascarada.
– Hum... Sente-se mal? – perguntou cinicamente e sem conseguir disfarçar sua despreocupação com meu estado.
Fiz levemente que não com a cabeça, mentindo... Mas era inegável que eu não estava bem... Péssimo... Destruído seria uma melhor definição para mim naqueles dias.
A Amazona de Prata, indiferente, virou-se para o outro lado para conversar com o Cavaleiro de Prata, Chioh. Tentei me ajeitar no assento e apoiei meus braços nos descansos, ainda respirando com dificuldade. Olhei ao redor e cravei as unhas no estofado dos apoios de braço quando senti uma pontada forte no peito. Revirei os olhos com a dor lancinante e rangi os dentes, prendendo um grito. Mordi os lábios e minha respiração entrecortou.
“Maldição...” praguejei.
Ao longe, ouvi cochichos dos dois ao meu lado.
– Ainda não caiu a minha ficha que o Mestre nos deu esse prato cheio tão fácil. – disse a voz soberba do Cavaleiro de Cães de Caça.
– Cale-se. Não fale mais sobre isso. Já faz quanto tempo? – impacientou-se ela.
– Quinze minutos. Daqui a pouco, ele está no ponto...
– Por Atena, Chioh... – a voz dela soava trêmula e arrependida — ...Isso... Isso é... Pecado...
– Pare de choramingar, mulher. É a nossa chance... Sua chance... – disse sarcástico.
– M-Mas... É... S-Só um menino... Um... Dourado...
– Hihihihi... Fale sério, Adisa... Acredita que esse fedelho é um Cavaleiro de Ouro?
– Shhhh... Fale baixo.
Fechei os olhos, fingindo estar desacordado. Senti que a Amazona de Pavão virou-se no mesmo instante para me olhar e averiguar se eu estava consciente o bastante para prestar atenção no que disseram. Mesmo naquela condição deplorável, eu ainda detinha alguma capacidade de raciocínio, a qual sentia se esvair a cada minuto que se passava. O que eles estavam dizendo?! Não... Não podia ser...
– Acho... Acho que ele caiu... – cochichou ela para Chioh.
“Como assim: “acho que ele caiu...”? Esses dois... Será que...?”
Ouvi a voz da comissária anunciar que pouso do avião seria muito em breve. Olhei de relance discretamente para a janela e só vi nuvens... Muitas nuvens. Eu não fazia ideia do local que estava sendo sobrevoado pela aeronave. Cerrei os olhos o mais rápido que pude quando senti alguém se aproximar...
– Vamos ver. – desconfiou o Cavaleiro de Prata, abrindo meus olhos para verificar se eu realmente dormia. Tratei de relaxar e revira-los para enganá-lo – É... Ele está bem chapado.
“Chapado?!... Droga!”
#Flashback#________________________________________________________
Santuário de Atena, Grécia, não muito tempo atrás...
– IIIIIIihhhhhh, caramba, Deba! – riu Saga, enquanto Aldebaran reclamava de muita dor após um treino puxado – Calma aê, que eu vou dar um negócio para te deixar novo em folha para amanhã! – andou até a porta onde são guardados os equipamentos do Coliseu e retirou um frasco escuro de seu interior.
– Por#@, Saga! – resmungou o futuro Cavaleiro de Touro – Mas funciona de verdade isso? Tem que ser bom mesmo...!
– Ahhh, se funciona! – riu o Cavaleiro de Gêmeos, entregando o frasco para Aldebaran – Mas são só umas gotas, hien?! Se não, vai ficar chapadão até amanhã!
#Fim do Flashback#___________________________________________________
Eu podia ser só uma criança, mas não idiota. Nunca me foi tão útil um termo bobo desse que Saga usava de vez em quando. Eu me sentia mal demais... Nunca havia experimentado uma sensação tão ruim quanto aquela... Era como se eu fosse morrer a qualquer instante! Meu corpo não me obedecia direito e respirar estava cada vez mais difícil.
“O que fizeram comigo...?”
– Chioh, isso é horrível. – disse Adisa com a voz trêmula – Não quero mais fazer parte diss...!
Ouvi o som de uma respiração acelerada e senti o pavor vindo do cosmo da Amazona de Pavão. Por que ela estava com medo? Não quer mais fazer parte do quê...?
– Você... Vai fazer o que combinamos. – disse Chioh por entre os dentes – A deixarei em paz depois disso.
– M-Mas...
Eu estava muito zonzo e sentia tudo girar... Não conseguia mais me mover...
#Flashback#______________________________________________________________
Santuário de Atena, Grécia, ontem...
– M-Mestre?
– Fale, criança.
– Aqui no Santuário só existem humanos bons, não é? – algo que sempre tive dúvida, mas nunca havia perguntado – Estão tão perto da Deusa, que só podem ser bons e a serviço do bem?
Ele abaixou os olhos e pareceu decepcionado.
– Infelizmente, Camus... – fez que não com a cabeça – ... Não é verdade.
– Mas como? – não entendi nem aceitei – Ousam profanar o Solo Sagrado e quebrar a confiança de Atena?
– Sim, meu jovem. – suspirou, também indignado – Entenda de uma vez, garoto, são todos seres humanos capazes de todos os erros e acertos. As pessoas são assim... Você deve aceitar isso e saber lidar com elas.
– Mas... Até Cavaleiros?!
– Bem... É mais difícil encontrar Santos da Deusa corruptos. – disse, pensativo – Mas também é possível.
#Fim do Flashback#___________________________________________________________
Eu... Não conseguia mais mexer um dedo sequer... As ordens que partiam do meu cérebro pareciam não chegar até meus músculos! Eu só me mantinha respirando em intervalos agonizantes, quando o ar parecia faltar o suficiente para que e morresse.
“M-Mestre... O s-senhor... Tinha razão...!”
– Cale a boca e pegue ele. – ordenou o Cavaleiro de Prata para a Amazona.
Agora eu tinha certeza: aqueles malditos... Haviam me drogado enquanto estava desmaiado! Senti Adisa me pegar no colo, ao mesmo tempo em que o avião deu um tranco muito violento. Meu estômago repuxou, como se meu corpo tivesse entrado em um vácuo.
“Atenção, senhores passageiros, a aeronave encontra-se em turbulência. Mantenham-se sentados e calmos. O pouso será daqui há 10 minutos.”
– Pare de chorar, sua imbecil! – impacientou-se Chioh.
Eu sentia o corpo de Adisa tremer devido a seu choro silencioso. Meu rosto foi atingido por uma lágrima da Amazona, que me mantinha em seu colo.
– Nós vamos leva-los até a Ilha, entendeu? – disse firmemente o Cavaleiro de Cães de Caça – Vamos roubá-La e entregar ambos! Já se esqueceu da recompensa que nos foi prometida pelo senhor Guilty?
“...? O que esses malditos estão... Tramando...?”
Ela se manteve em silêncio. O avião deu mais uma sacodida repentina. Senti que quase fui lançado ao chão.
“Eu... Preciso me mexer...”
– M-Mas... O Guilty disse que o quer... M-Morto? – sussurrou Adisa, deixando medo e culpa transparecerem em seu cosmo.
– Claro. – respondeu ele, sarcasticamente – Para que ele ia querer esse garoto vivo? Só basta o tesouro que ele carrega consigo. Vai ser moleza acabar com esse pirralho do jeito que o deixamos, mas primeiro, temos que descobrir aonde ela está...
“Maldito...! Covarde!”
– Ela n-não está no meio das bagagens dele... – disse Adisa.
– Sim. Imaginei que não seria tão fácil. Deve estar escondida em algum lugar... Vamos descobrir depois que o fizermos falar... – retrucou Chioh.
Meu estômago repuxou novamente enquanto o avião teve mais um momento de instabilidade. Malditos... Então, queriam me matar...? Em troca de uma recompensa?! Como podem fazer isso!?
“Esses dois... Traidores...”
No fundo, a incapacidade de me mover e a dor forte pelo corpo já não me afetavam tanto... Não com todo o ódio e revolta que tomavam meu ser muito perigosa e rapidamente.
“Desgraçados... Como podem... Ameaçar a vida de um companheiro... Trair o Mestre... TRAIR ATENA?!”
– Chioh...?
“Minha... Vida... Todo e qualquer resquício de felicidade haviam sido arrancados de mim... Tudo... Mas...”
– O que?
“Eu... EU...! Atena... MINHA DEUSA! MILO! Meus... Companheiros... Meus irmãos... São vocês que ainda me dão vontade de viver... A certeza... Que um dia... OS VEREI DE NOVO!”
– O... G-Garoto...
“Traidores... Não vão conseguir... Nem terão sequer a possibilidade de realizar nenhum mal... Não mais... NÃO ENQUANTO EU... TIVER ESPERANÇA... VIDA... E COSMO!”
– Mas... O QUE?!
Eu elevava meu cosmo o quão rapidamente conseguia.
“EU NÃO POSSO MORRER AQUI!”
Raiva essa que gerava motivação e vontade de fazer Justiça e derrotar o Mal incríveis. Deixei que fluísse livremente. Não havia interesse algum de contê-la naquele instante. Não... Era perfeitamente útil para que eu ascendesse todos os Sete Sentidos em poucos segundos.
–Maldição! Minhas mãos! Estão... Congeladas! – gritou Adisa.
Se meu corpo... Meu físico estiver incapaz ou morto, minha alma... Meu cosmo... O trarão de volta à sanidade e vida. Não há nada que a vontade, motivação e a certeza não possam curar. Eles sempre trarão forças para um Cavaleiro superar todo o Mal.
– AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH! – explodi meu cosmo, criando uma onda de energia que os lançou longe.
Abri os olhos e me deparei com a destruição que havia causado. Pus abaixo umas 15 fileiras de assentos. Me pus de pé o mais rápido possível e logo me preocupei com as muitas pessoas inocentes que estavam ali... Mas... O que?!
“M-Mas... Aonde estão as...?”
– Hahahahahaha! – ouvi a risada sarcástica do Cavaleiro de Cães de Caça, que batia palmas – Incrível, moleque!
O encarei e franzi as sobrancelhas. Ele se aproximava de mim, destemido e andando pelo corredor do avião. Não havia ninguém além de nós três ali!
– Hum... Está procurando os... “Passageiros”? – disse, rindo e me encarando com um sorriso ameaçador.
– O que fez com eles?! – falei, indignado.
– Eles...? Hummm...
Muitas vozes, lamentos e risadas fantasmagóricas ecoaram pela minha mente.
“ZZZZZZZZZZZIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNNNNNNNN!!!!!!”
– Argh! – levei as mãos aos ouvidos e senti a dor voltar a arrebentar meus ossos.
De repente, as pessoas que antes estavam sentadas nos assentos surgiram novamente em seus lugares e todas se viraram para me encarar ao mesmo tempo. Era como um pesadelo dos mais entorpecedores... Estavam desfiguradas e pareciam agonizar em dor e ódio. Algumas cerravam os dentes, outras gritavam e me apontavam dedos como se me acusassem de algo terrível... Falavam algo em uma língua estranha e enrolada.
– Hahaha! Está com medo?! – disse ele, me zombando – Esses são meus amigos... E parecem não gostar de você, pirralho...
Consegui enxergar Adisa em um canto, encolhida e me olhando assustada. Os “passageiros” aumentaram a intensidade de seus lamentos e urros... Ouvi vários barulhos metálicos de gatilhos e lâminas... Em uma questão de segundo, todos me apontavam armas brancas e de fogo.
Chioh vestiu sua Armadura e continuou a se aproximar lentamente de mim com um sorriso doente e vitorioso nos lábios.
“UM CAVALEIRO DE ATENA NADA TEME.” As palavras escritas na água pareceram ressonar na minha mente.
– Onde está a Armadura de Aquário?! – perguntou, parando a um metro de distância de mim.
Então... Era à ela que eles se referiam. Apesar de estar cara à cara com o inimigo, não resisti e dei um sorriso de canto ainda mais sarcástico que o dele.
– Eu não sei. – nunca foi tão divertido responder isso.
– Você é louco?! – enfureceu-se e me pegou pela gola da camisa – Eu te matarei lentamente... Até que diga aonde ela está!
Não sei o que deu em mim, mas...
– Pffffffffffffff... Hehehehe! HAHAHAHAHA!
Comecei a RIR sem deixar de encará-lo fixamente. Eu sentia somente desprezo por aquele homem à minha frente. Era patético... Seu cosmo era fraco e puramente agressivo... Nem sequer sabia controla-lo ao mínimo... Até o menos experiente dos Cavaleiros de Bronze faria melhor.
– Me desculpe... Hahahaahaha! – gargalhei e o olhei com a melhor cara de deboche que já fiz até hoje – Perderá seu tempo...
– Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...! S-Seu...! MALDITO! – bufou e me deu um soco no rosto.
Ainda erguido pela gola da camisa, cuspi sangue no chão... Podem me chamar de presunçoso, mas continuei a sorrir. Não doeu... Acreditem.
– É só isso, Cavaleiro de Prata? – desdenhei – Estou decepcionado. Pensei que, ao menos, fosse arrancar minha cabeça...
– O que disse??!
Eu já estava destruído... Não me restava nada. Pelo jeito, nem medo, dor... Ou melhor: sanidade mental.
– Maldito... MALDITO!! – gritou, enfurecido, e me arremessou na parede.
Bati as costas com um baque surdo e caí sentado, sem mudar minha expressão. Juro que não senti nada além de mais vontade de acabar com a vontade de existir daquele homem.
– ONDE... ESTÁ... A... ARMADURA...?! – urrou, ensandecido.
Ergui lentamente meu corpo e me pus de pé, ainda olhando-o fixamente.
– Não sei. – respondi novamente.
– NÃO TEME A MORTE?! – cerrou os punhos e gritou ainda mais alto.
– Chioh... Ouvi dizer que os Santos da sua Constelação conseguem ler pensamentos... Devia saber tudo o que se passa na minha mente, não? – falei, desprezando-o.
– O... O QUÊ?!
– Bem, já que não é capaz de fazê-lo, te conto: ahhh... A morte... – cruzei os braços e deixei de encará-lo por uns segundos, fingindo estar pensativo — ... É um mistério, não? Todos os humanos temem o desconhecido... Acredito que não sou diferente.
– DESGRAÇADO! – o senti elevar seu cosmo e os “passageiros” me direcionaram ainda mais fúria.
– Só que não vou cruzar o Aqueronte agora... Me afogaria em suas águas, certamente. Minha vida não teria sentido...
– AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHRGGGGGGHH!
– ... Se eu fosse derrotado por alguém tão fraco como você, Cães de Caça. – voltei a encará-lo com o mesmo sorriso debochado.
– CALE A BOCA, INSOLENTE! SUA ALMA SERÁ EXTINTA AGORA! NUNCA VERÁ A LUZ NOVAMENTE! MATEM-NO! – me apontou o dedo com os olhos injetados de fúria – ATAQUE DE UM MILHÃO DE FANTASMAS*!
Os fantasmas vieram em minha direção em velocidade sobrenatural. Elevei meu cosmo para me defender e desviar de seus inúmeros ataques, mas...
– Pare com isso, Chioh!
A Amazona de Pavão havia se colocado na minha frente, trajando sua Armadura e de braços abertos, parecendo... Me defender?
– ADISA! Saia da frente!
– Não! Chega! – fez que não com a cabeça, seu cosmo emanando certeza e força – Não deixarei que faça mal ao garoto. Eu serei sua adversária!
O Cavaleiro de Prata indignou-se, mas sorriu, parecendo menosprezá-la.
– Há! Quer dizer que pretende me enfrentar para defende-lo, Adisa? – riu maldosamente – Esqueceu-se do nosso trato?!
– Cale-se! – irritou-se ela, elevando seu cosmo em ameaça – Você... Não encostará... Um dedo nele... Porque... NUNCA SAIRÁ COM VIDA DESTE LUGAR!
– É o que vamos ver... – subestimou-a.
– Camus, fuja daqui! Agora! – gritou Adisa, me olhando – Vá!
Não... Eu não a deixaria só. Era nosso inimigo e um traidor.
– Mas...! – tentei dizer.
– O embate entre Cavaleiros é sempre um contra um... Então, eu acabarei com ele! – disse, incisiva – Essa luta é pelo que resta da minha honra... E por Atena! Fuja, por favor!
Aquela mulher... Seu cosmo emanava muita coragem e decisão. Eu sentia que nunca fora alguém a serviço do Mal... Apenas... Algo a levara a isso por pouco tempo. Consegui perceber que derrotar aquele homem à sua frente seria mais do que decisivo para que pudesse espiar um pouco de sua culpa pelo crime que cometera contra a Deusa. Relutei em deixa-la por mais uns segundos, até que finalmente assenti. Aquele combate era seu por direito.
– Volte aqui, seu moleque! – gritou ele, furioso.
– PLUMAS DO PAVÃO**! – Adisa atacou repentinamente.
Me virei e corri sem olhar para trás na direção da cauda do avião... A saída mais próxima era por ali. A aeronave planava sem rumo no piloto automático. Eu não fazia a menor ideia de onde estava sobrevoando, nem sequer pensei direito como sobreviveria a tamanha queda. Olhei para a porta cerrada... E concentrei meu cosmo para tentar abri-la pela válvula...
... Mas antes que eu pudesse fazê-lo...
... Uma onda de explosão me arremessou com força descomunal contra a porta, que se abriu juntamente com a parede e qualquer outra estrutura do avião que, com certeza, havia sido totalmente destruído. Protegi meu rosto e cabeça com os braços... E iniciei uma queda em altíssima velocidade, que se multiplicava a cada segundo. Não conseguia enxergar direito aonde estava caindo de imediato...
“Pense, Camus... Pense rápido...”
Senti minha roupa ficar úmida, mesmo com o ar muito gelado quase rasgando minha pele com a queda. A umidade ali era bem alta... Tão alta que eu só poderia estar caindo sobre...
“Mar?!”
Sim... Só poderia ser isso! Aquele monte de água no ar congelante poderia me ajudar! Reuni forças para elevar meu cosmo e me concentrei nas moléculas de água imediatamente abaixo de mim.
“Unam-se! Rápido!”
Senti que a velocidade do meu corpo diminuiu... Mas ainda não era o bastante.
“Mais! MAIS!”
Uma nuvem bem “fofa” se formou abaixo de mim e amorteceu a queda... Caí sobre ela, mas acabou ficando tão densa que eu quiquei ao invés de parar ¬¬. Até tentei me segurar em sua borda, mas vapor não é tão consistente, então... Caí mesmo assim.
– Aaaaaaaaaahhmmmmmmmffffffff! – afundei o rosto, mas...
... Não era o mar...
– Ahhhhhrgh! – ergui o nariz para superfície, inspirando fundo.
... Era neve.
Sacodi a cabeça e esfreguei os olhos.
... Muita neve.
– Uau... – nunca tinha visto tanta.
...Uma imensidão... De NEVE.
– MALDITA! Sua pu$@!
Era a voz enfurecida de Chioh. Então... Ainda estava vivo. E não era só ele! Também senti o cosmo de Adisa. Me levantei com a força que me ainda me restava, sentindo minhas pernas relutando para se moverem. Andei na direção de seus cosmos. Os encontrei a alguns metros de distância entre os escombros do avião... Ainda continuavam a lutar, mas Chioh a havia pego pelo pescoço e lhe desferia muitos golpes.
– Você... Vai... Me... Pagar... Desgraçada! – gritava enquanto a golpeava sem parar – Morra!
O sangue da Amazona de Pavão respingava pela neve, mas ela não emitia sequer um gemido de dor. Deveria estar inconsciente.
– Chioh! – gritei para chamar a atenção dele.
– Ainda está vivo?! — o Cavaleiro de Prata me encarou com os olhos injetados de ódio.
– Deixe-a em paz! Não é a mim que você quer?!
Ele deixou Adisa cair no chão bruscamente e chutou seu corpo para longe. Veio ao meu encontro em velocidade sobre-humana e tentou me acertar vários golpes, os quais desviei na velocidade da luz. Eu havia treinado muito com Saga e Aiolos... Cavaleiros de Ouro... Cavaleiros honrados e leais à Deusa. A força desse que me enfrentava não valia 1/20 dos que me treinaram no Santuário.
– AHHHHHHHH! – gritou, enraivecido e frustrado por não conseguir me acertar.
Me afastei dele com um salto e o observei. Estava ofegante e me encarava fixamente... Seu cosmo enegrecido e envolto por ódio. Sua Armadura já danificada em alguns pontos. Era deprimente... Àquela altura, eu já não conseguia mais humilhá-lo como fiz antes. Minha expressão era a inexpressiva e fria de costume. Deixei bem claro em meu cosmo e olhar o desprezo que sentia por ele e pelo como agia.
– EU TE MANDAREI PARA O INFERNO! – elevou seu cosmo. Os fantasmas que agora surgiram ao meu redor eram réplicas idênticas de Chioh – SEU MOLEQUE... SEU... GRRRRRR!
Adisa... Ela foi corajosa o suficiente para voltar atrás de seus atos contra Atena, enfrentando seu próprio parceiro e tentando recuperar sua honra e o perdão da Deusa. Nós, humanos, erramos sim... E muito. Atena é o amor encarnado e nos adora incondicionalmente com toda essa imperfeição, justamente por acreditar que temos o poder de recomeçar nossas vidas. Mas não compreendo como esse maldito...
...Sequer pensa no mal que está cometendo. Pretende ir até o fim com isso... Matar um companheiro covardemente... Roubar uma Armadura Sagrada por recompensa... Unir-se às forças do Mal depois de ganhar a fidelidade de uma Armadura e jurar lealdade ao Santuário, ao Amor e à Justiça... À Deusa?! Isso é... IMPERDOÁVEL!
– ATAQUE DE UM MILHÃO DE FANTASMAS!
Ninguém... Com sentimentos tão podres... Superficiais... Mundanos... E cosmo tão fraco... Jamais poderá derrotar o Cavaleiro de Aquário... JAMAIS! Nem um milhão deles juntos.
“CRIANÇA... ESTOU CONTIGO PELA ETERNIDADE.”
“NÃO SINTA MEDO, CAMUS.”
“NÃO TEMA... CONFIE NA DEUSA... E EU SEMPRE ESTAREI A TE PROTEGER.”
Um leve ruído metálico ecoou pelo deserto de neve. Levei a mão ao pescoço... Meu... Pingente Sagrado...? E-Eu... O perdi...?
“Chame por ela... Chame por ela, Camus...”
“E-Essa Voz... A-Atena...!”
Elevei o cosmo até o Sétimo Sentido... O chamado foi instintivo.
“Armadura de Aquário!”
Um brilho dourado me envolveu... Ela apareceu e me vestiu na velocidade da luz. Os fantasmas que me atacavam sumiram. Olhei por uns segundos para ela em meu corpo... Não pude deixar de sorrir rapidamente com aquele momento. Eu... Eu era um Cavaleiro de Ouro. A... Armadura... Havia me reconhecido com seu mestre.
– Muito obrigado, pirralho! – riu Chioh – Hahahahaha! Diminuiu muito o meu trabalho de procura-La! Agora, passe essa Armadura pra cá!
Eu nem o escutava direito. Hoje, já estou mais do que acostumado com ela... Faz parte do meu corpo. Mas as primeiras vezes, principalmente aquela primeira (tá... Falem: “A primeira vez a gente nunca esquece... Blá... Blá... Blá...”) vez em que vesti a Armadura de Aquário... Era como se eu não estivesse mais só. Entendam... Eu não estava mais controlando meus movimentos por mim mesmo. Essas obras eternas e divinas lemurianas de Oricalco tem personalidade... Hum... Forte. A minha então...
– Tá legal, garoto... Prometo que não te matarei. Só quero ela. Vamos resolver na paz. – acho que foi isso que ele falou – Só tirar e me passar, ok? Te deixo ir.
Estava meio difícil me entender com ela, mas até que pegou leve comigo naquela situação. Consegui me mover bem... É... Mais ou menos.
– Está precisando de ajuda, Cães de Caça?! – disse uma voz ainda mais sarcástica e presunçosa – Não sabia que um Cavaleiro de Prata não era páreo para uma criança.
– O... O que?! – espantou-se o Chioh – V-Você é...?
Olhei para o recém-chegado e franzi a testa, não reconhecendo sua Armadura. Totalmente negra... Nunca havia visto ou ouvido falar em uma como aquela. Seu cosmo era ainda mais maligno que o de Chioh.
– Sou o Cisne Negro, enviado pelo senhor Guilty da Ilha da Rainha da Morte. – apresentou-se, cruzando os braços e olhando desdém para o Cavaleiro de Prata – Vejo que está tendo dificuldades com o pequeno Aquário, Cães de Caça.
– Não se intrometa, Cavaleiro Negro! – rosnou ele, humilhado – Sou eu quem irei levar a Armadura de Ouro para o Guilty, como prometido!
– Hum... Só estou aqui para observar. – disse o Cisne Negro – Pode continuar...
Chioh virou-se para mim, e continuei a encará-lo com minha expressão de costume.
– PREPARE-SE! – ameaçou, e elevou seu cosmo, que agora oscilava – AGORA TE MATAREI DE UMA VEZ POR TODAS!
– Chioh... – falei calmamente e fechei os olhos – Você nunca poderia nem me arranhar com esse poder.
– CALE A BOCA!! ATAQUE DE UM MILHÃO DE FANTASMAS!!
Elevei meu cosmo. Vozes muito familiares me diziam tudo... Os fantasmas sumiram novamente. Criei uma esfera de ar congelante com o frio máximo que conseguia naquela idade na palma da mão direita.
– Cães de Caça... Você me subestimou tanto para não admitir que tão mais fraco do que esse pirralho de Armadura. – não me movi, mas o encarei com os olhos congelantes – Você desonra os Cavaleiros de Atena... É decepcionante. – minha aura cresceu rapidamente.
Ensandecido, ele partiu em minha direção com os punhos cerrados. A Armadura de Cães de Caça deixou seu corpo sem mais suportar sua alma corrupta.
– Vá para o Meikai! – inverti a mão e a fechei sobre a esfera, que se transformou em infinitos cristais de gelo.
– Cuidado! – ecoou ao longe a voz do Cisne Negro.
– PÓ DE DIAMANTE***!
Se transformou em uma estátua de gelo instantaneamente... Rachou-se em mil pedaços segundos depois. Me lembro bem até hoje de sua expressão de pavor partindo-se ao meio. Acompanhei os cacos de gelo rolando pelo chão de neve...
“Por Atena... E-Eu... O... Matei...”
Ofeguei, tentando suportar aquela onda enorme de cosmo e gelo que eu mesmo havia emitido.
– Muito bom. – disse cinicamente o Cisne Negro – Ótimo que os Cavaleiros de Atena matem-se entre si! Hahahahaha!
– Maldito... – olhei para ele, tentando ameaça-lo com meu cosmo, mas...
... A Armadura... Estava ficando pesada. O meu cosmo... Parecia não ser mais suficiente para me manter de pé...
– Ahhhrgh... – gemi com a dor lancinante pelo corpo e caí de joelhos.
Olhei, mesmo que com dificuldade, para os lados o quanto pude... Mas não sentia mais o cosmo daquele inimigo.
– Camus! – chamou uma voz feminina que eu não esperava mais ouvir – Por Atena!
Meu corpo caiu pesadamente no chão. Ela se ajoelhou ao meu lado e me virou para que não me sufocasse com a neve. Eu ofegava e arfava, buscando por oxigênio desesperadamente. Adisa me pegou nos braços e envolveu meu rosto com o pescoço, buscando me aquecer de alguma maneira. Também estava muito ferida e fraca, mas me carregava e se mantinha de pé com a força de seu cosmo.
– Não morra, por favor! – pedia e caminhava – Minha Deusa, leve a mim, mas ele não!
Relutei o quanto pude contra a escuridão que tentava tomar minha visão, mas... Eu já não tinha mais forças.
______________________________________
– Ei... Garoto, acorde... Por Atena. – senti alguns tapas leves no rosto – Por favor, você precisa ficar de pé...!
Abri os olhos. Parecia ser a única coisa que eu conseguia fazer. Olhei para a Amazona de Prata que me acordava... Consegui sentir ansiedade emanar de seu cosmo enfraquecido.
– Camus...! – disse ela mais alto.
Tentei erguer meu tronco, mas senti uma terrível dor. Minha respiração entrecortou e meu corpo caiu novamente. Ouvi o baque metálico da Armadura com o chão, que parecia ser de pedra.
– Vamos... Vamos! – insistiu, me erguendo de pé e encostando na parede – Eles... Estão vindo! Por Atena... Força! Vamos!
Tentei travar minhas pernas para me manter... A olhei, não precisando ver seu rosto para perceber o quanto se preocupava e ansiava pela minha reação.
– E-Eles...? – perguntei com a voz fraca.
Olhei como pude ao arredor... Devíamos estar em uma caverna.
– Comece a seguir seu caminho para mais profundo da caverna. – pediu, me empurrando na direção que falava – Há uma saída do outro lado.
– M-Mas... E você? – perguntei, olhando para trás.
– Eu os atrasarei. Agora vá! – apressou-me – O Cisne Negro voltou... E com reforços!
– Eu lutarei. – falei com a voz arrastada de cansaço, mas não a deixaria só. Estava fraca também e era uma companheira de batalha – Estou aqui... Pra isso...
Ela me pegou pelos ombros. Se não estivesse mascarada, com certeza eu poderia ver seus olhos me encarando fundo.
– Camus de Aquário, eu, Adisa de Pavão, ainda não terminei de cumprir minha missão! – disse alto e incisivamente.
– ... Mas...!
– Nem mais, nem menos! A trate de sobreviver, entendeu bem?! – me sacodiu levemente – E eu me encarregarei de garantir que o faça!
Abaixei os olhos... Por Atena... O que poderia ter feito uma mulher tão honrada trair Atena e o Santuário?
– Não a deixarei... Lutar sozinha novamente. – insisti.
Ela levou as mãos geladas com o metal da Armadura ao meu rosto e me olhou mais de perto.
– É tão pequeno e já um grande guerreiro... – suspirou – Já ganhou respeito da Armadura de Ouro e derrotou brilhantemente seu primeiro inimigo em tão poucas horas longe da segurança do Solo Sagrado. Mas...
Devo ter corado e desviei o olhar. Eram... Hum... Muitos elogios ao mesmo tempo U.U
– ... Não se esqueça que Chioh era meu adversário, entendeu?! – ralhou – Te disse lá em cima que é UM contra UM! Nunca se meta em um combate iniciado por um companheiro! Não te ensinaram isso no Santuário?!
Abaixei os olhos e corei ainda mais.
– Várias vezes... – falei baixo – É que eu...
– Então, você me deve uma batalha digna e sem interrupções. Os Cavaleiros Negros são meus. – me cortou e disse finalmente, voltando a seu tom de voz calmo — Agora, siga seu caminho. Não deixe que te vejam. Oculte seu cosmo. – me virou na direção para fundo da caverna de novo – Salve sua vida.
Eles estão por aqui!
Sim! Ele está acompanhado de uma Amazona de Prata quase morta!
Será muito fácil conseguir a Armadura de Ouro!
Ouvi as vozes do Cisne Negro e mais dois Cavaleiros Negros nos arredores. Ainda relutei em deixa-la por mais uns segundos... Mas estava certa e eu... Não tinha o direito de impedi-la de honrar sua missão até o fim.
– Adisa...
Ela me olhou, certamente me recriminando por ainda não ter corrido para longe dali.
– Que Atena esteja contigo. – desejei e sorri timidamente.
– Que seja! – respondeu e assentiu – Proteja Atena, Camus de Aquário!
Assenti, elevei fracamente o cosmo e corri o quanto pude sem olhar para trás.
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