Mago da Água e do Gelo
7 9 de Novembro
Notas iniciais
Pouco mais de cinco anos depois...
Santuário de Atena, Grécia, 1972.
– Saí fora, imbecil!
– Hahahaha! Chifrudo! Chifrudo!
– Ora seu... (passos apressados e baques de pancadas em seguida).
Suspirei e me levantei sem paciência de aturar aquelas brigas provocadas de propósito e que se repetiam todos os dias. Peguei meu caderno, encaixei a caneta nas espirais e o pus debaixo do braço enquanto me virava de costas. Comecei a caminhar na direção das Doze Casas.
– Ih, a lá! – disse uma voz conhecida e irritante de Aiolia – Freezer tem pernas, gente? Por que tem um indo embora!
– Ei, picolé, já acabou o dever?! – disse Aldebaran, cinicamente – Me dá cola aê!
Ignorei e continuei andando.
– Geladeira ambulante!
– Pinguim!
Nenhuma novidade. Eu ficava até surpreso quando eles inventavam algum novo. Segui em frente.
– É serio sobre o dever, Chambinho! Ou Danoninho?!
– Ééééé... Nem adianta fugir de nós, sorvete!
Tão criativos...¬¬ Suas vozes já estavam bem longe, mas ouvi passos correndo se aproximando.
– Ahh, empresta o caderno, vai? – disse Aldebaran ao se por na minha frente.
O encarei sem mudar minha expressão de costume.
– E quem disse que eu terminei? – disse eu calmamente.
– Nem vem com essa! – gritou Aiolia, pulando por cima dos meus ombros e caindo ao lado de Deba.
Não, eu não estava mentindo. Só menti uma ou duas vezes na vida, que eu me lembre. E não foi dessa... Era realmente bem difícil se concentrar com esses dois por perto.
– Se vocês não gritassem tanto feito arapongas*, eu teria terminado. – disse eu no mesmo tom calmo, ao mesmo tempo em que passava entre os dois e seguia o meu caminho.
– Ara... O que?!
– Hã?!
– Por que não procuram no dicionário? – disse eu, agora com alguma vontade de rir da ignorância deles.
Deixei os dois com “cara de tacho”, caminhei pelo coliseu e pelo pátio de entrada até a escadaria para a Casa de Áries. Olhei para cima e suspirei... Ia demorar muito se eu fosse subir até a minha Casa. Sentei no canto de um degrau, pus o caderno no colo, peguei a caneta e abri na página do dever (ou lição de casa, para alguns) e continuei a fazê-lo.
Eram umas 10 horas da manhã e o dia estava meio nublado. Para ser bem sincero, eu desconfiava que estava me esquecendo de algo (normal...).
“Hoje é que dia mesmo?” pensei comigo.
Olhei para o caderno, pensando que eu pudesse ter colocado a data no cabeçalho em algum momento de lucidez, mas tinha deixado em branco. Dei de ombros e continuei a escrever uma das respostas.
Não tinha como ignorar um cosmo quente muito conhecido que emanava ao meu redor.
– Te peg...! – um vulto pulou em cima de mim.
Desviei e ele foi parar no último degrau da escada.
– Ah, sem graça! – gritou lá debaixo aquela voz que eu adorava ouvir.
– Bom dia, Milo. – disse eu, dando um meio sorriso e voltando a escrever.
– Para de me ignorar... — ele se aproximou, parou um degrau abaixo do que eu estava sentado e se debruçou no meu colo – Eu ainda acho que um dia você vai deixar de ser tão chato.
– Perai... Ah... – nem tive tempo de tirar o caderno dali. A folha do dever... Ah não... De novo. Po@#$! Eu não tenho costume de xingar, mesmo em pensamento, mas dessa vez foi impossível.
– Tá fazendo o dever, casquinha de morango? – disse ele, rindo.
– Estava... – disse eu, franzindo a testa – Milo, você notou o que acabou de fazer?
– Te atrapalhei, como sempre. Hahahaha! – debochou ele.
– Além disso... – disse eu, me mantendo sério e retirando o caderno todo amassado de debaixo dele e o mostrei, irritado. O dever devia ter umas 10 páginas e eu estava na ÚLTIMA pergunta.
– Ah, sim. Esse deve ser o décimo que eu destruo esse ano, né? – riu-se ele enquanto se levantava.
– Não sei. – disse eu, impaciente e me levantando também.
Droga. Não tinha outro jeito de me importunar que não fosse me ferrando dessa forma?!
– Ahh! Depois você passa a limpo... – disse ele, como se fosse fácil copiar mais de 100 páginas na integra – Ficou bravo, né? – falou com a voz dengosa — Desculpa, tá? Aonde vai?
Nem adianta. Não vai me derreter com essa voz (só um pouco...). Duvido que estivesse arrependido. Ele adora me ver irritado.
– Passar a limpo, como você disse. – disse eu, em tom indiferente enquanto voltava a subir a escadaria.
Ele se adiantou e se pôs na minha frente.
– Eu disse “depois”. Não agora. – disse ele, franzindo a testa e cruzando os braços.
Rá! Olhem ele, achando que manda.
– Então, o “agora” já passou a ser “depois”. – disse eu, passando ao seu lado – Basta um segundo.
– Não! – se virou, me pegou pela gola da camisa e me ergueu do chão – Você tinha dito que ia treinar comigo!
Tisc... Imaginem se eu não tivesse paciência?
– Milo, me solta. – falei sem me alterar.
– Me obrigue! – disse ele, alterado.
Isso nunca foi difícil. O encarei profundamente e ele fez o mesmo. Me pôs no chão alguns segundos depois.
– Por que você faz isso?! – me empurrou com força escada abaixo.
– Não fiz nada. – disse eu, travando meus pés no chão para não cair – Agora, por favor, me deixa em paz. – comecei a subir.
– Para! – irritou-se ele, dando uns passos para trás e não me deixando passar – Para de me tratar mal assim!
Parei para encará-lo. Às vezes, eu não entendia o porquê dele achar que eu o tratava mal. Enfim... Entendam: eu estava “na minha”, fazendo o maldito dever, que depois seria copiado por ele, Aiolia e Aldebaran, e o Milo me vem e amassa a droga do caderno. Não é a primeira vez, como ele mesmo disse. Apesar de eu adorá-lo mais que tudo, eu sabia que aquela brincadeira dele me renderia horas de trabalho inútil. Não me altero, mas me irrito.
Esse sempre foi só meu jeito de dizer que não fiquei feliz em ter todo o meu tempo perdido ferrado e jogado fora... Por mais que seja o Milo.
Sem briga. Só um pouco de indiferença. Estou errado?
– Eu não estou te tratan...
– Vem treinar comigo hoje? – disse ele me cortando, ainda na mesma posição.
– Eu já treinei mais cedo com o Shaka e o Mu... – disse eu, me virando de frente para ele.
Ele cerrou os punhos e franziu a testa. Seu cosmo enegreceu e emanou raiva e decepção.
– Ah é?! – disse ele, alterando-se ainda mais – Então dane-se! – disse com a voz trêmula e se virou para ir embora.
– ... Mas isso não quer dizer que eu não possa treinar com vo...
– Cala a boca! – seu grito ecoou pelo pátio. Sumiu da minha vista bem rápido – Vai se ferrar!
Mas que estúpido... Fico impressionado como ele me trata tão bem quanto queria que eu o tratasse. Devo ir atrás dele?
Olhei para o caderno amassado e cheio de folhas destacadas da espiral.
– Tisc... – eu tinha que terminar, ou melhor: começar de novo, a porcaria do dever gigante e da matéria toda.
Perguntam-se por que eu tenho fama de inteligente e nerd? Pensem em copiar as mesmas coisas 10 a 15 vezes por ano todas as vezes que os meus cadernos eram destruídos pelo Milo! Até um neandertal** aprenderia, mesmo que por difusão ou osmose... ¬¬ Para que cadernos de caligrafia?! Eu escrevia e copiava tanto que a minha letra já se definiu aos seis anos de idade...
Passos correndo pelas escadas e aquele cosmo pesado pela raiva voltaram. Me virei de frente para encará-lo. Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa...
– Seu lerdo!!! – gritou ele a menos de 10 centímetros de distância de mim. Meus ouvidos zuniram depois dessa... Argh! Lerdo, bem... Aceito que tenho esse defeito... Mas surdo, nunca (mesmo)! – Você não é meu amigo!!! Mentiroso! Falso!
ZZZZZZZiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnn (meus ouvidos).
– O que disse? – franzi a testa, fiquei sério e lhe lancei um olhar indignado.
Não era justo... Uma acusação dessa eu nunca aceitaria, principalmente vinda dele. Posso ter todos os defeitos, mas mentiroso e falso... Isso nunca. Meu coração acelerou e me senti mal ao ouvir aquilo.
– Amigos não esquecem uns dos outros! – disse ele, com a voz trêmula de decepção e os olhos injetados.
– E quando foi que eu me esqueci de você? – disse eu, pela primeira vez com a voz alterada.
– Hoje! E ano passado! E em todos os anos!
Mas o que ele estava dizendo?! Eu... Nunca... Nunca me esqueci desse ser a minha frente nem por um segundo de toda a minha existência. Apesar da minha fama de racional ao extremo, eu tenho sentimentos. Acreditem. Aquilo doeu bastante.
– Eu não entendo, Milo! – disse eu, alterado e confuso.
– Burro! Não fala mais comigo! – gritou ele, vermelho e com os olhos cheios de...
... Lágrimas.
Ah, não. Isso não. Meu coração bateu dolorosamente.
– Não vão se arrumar, garotos? – disse uma voz grave e suave, acompanhada de um cosmo poderoso e calmo.
Olhei para o Mestre, que descia as escadas e vinha na nossa direção, totalmente estático. Milo cruzou os braços e passou a mão violentamente nos olhos para disfarçar o choro.
Se arrumar? Pra que?
– Mas porque o aniversariante do dia está tão bravo? – disse Shion, pegando Milo no colo e dando-lhe um beijo na testa – Parabéns, Milo!
Mérde!*** (mesmo tendo sido criado na Grécia desde que me conheço, o Mestre, sempre que podia, conversava comigo em francês e me fazia ter aulas particulares. Deu essa oportunidade de falar com fluência a língua materna a todos os que eram estrangeiros. Infelizmente, não tive a chance de pergunta-lo o motivo).
“Por Atena... Por quê? Por que eu nunca consigo lembrar?”
Levei a mão ao rosto e respirei fundo, me sentindo um perfeito idiota que sempre repetia a mesma falha.
O pior é que o Milo não entendia que eu não faço por mal... Afinal, nem do meu eu lembro. Só depois que recebo o primeiro “parabéns”, sempre vindo dele desde que aprendera a falar, é que me toco que estou ficando mais velho.
Mas... Não. Eu não poderia jamais me justificar pelo esquecimento e distração permanentes da qual sempre sofri... Não quando se tratava do Milo. Ele... É especial demais para que eu permitisse esquecer o seu dia. Senti vontade de me destruir... Sumir desse mundo.
O Milo...
... É sagrado... Tudo que me importa... Por mais que eu não demonstrasse da maneira que ele queria. Para ser sincero, eu não conseguia. Tenho muita dificuldade de demonstrar qualquer emoção ou sentimento. Mas o amo profundamente... Desde sempre.
Era inadmissível que eu permitisse que ele ficasse triste e derramasse uma lágrima sequer por algo que eu lhe fizesse. É como se eu pecasse gravemente contra a Deusa.
Meu estômago estava embrulhado e se contorcia.
– Iremos sair daqui à uma hora, está bem? – eu ouvia a voz do Mestre ecoar ao longe, mesmo ele estando ao meu lado – Vão tomar banho e se arrumar.
Senti o cosmo de Milo se afastar rapidamente e passos correndo ecoando ao longe pelas escadas. O único som que eu ouvia com nitidez era a minha respiração acelerada e longa.
– Vamos subir juntos, então? – disse Shion.
Cruzei os braços com muita força, fechei os olhos e caí sentado num degrau.
– Camus? – chamou Shion.
É... Eu tenho nome. Não o escuto há muito tempo. Só ouço freezer, geladeira, picolé...
Uma pequena parte de mim o escutava, mas a maior estava inativa e sem reação. Era como se eu tivesse saído do meu corpo por uns instantes. Apoiei os cotovelos nos joelhos e levei as mãos ao rosto.
“Por quê? Isso foi imperdoável...”. Continuei a me culpar e senti ânsia de vômito.
– Ei, Camus... – Shion pôs a mão no meu ombro – Não se sente bem, criança?
O respeito e o dever de responder o Mestre me trouxeram de volta o suficiente para que eu o encarasse.
– Por Atena, Camus! – o Mestre me pegou no colo começou a subir as escadas correndo.
“Por que ele está tão apressado?” pensei comigo, apesar de não me importar.
– Fique comigo! – gritou o Mestre.
A imagem de Shion começou a se distorcer e a girar.
“Hã... Eeeeeeeeeeeeee... Tá tuuuuuddoooo rooodaaaaaaanndoooooooooo...” (cérebro pifando e ficando retardado).
– Não... pre... cisa... cor... rer... Mes... tre... – falei com a voz enrolada – Mi... nha... Ca...sa... É... bem... per... to... Por... que... a... pres...sa...?
– Como? – disse Shion, enquanto corria – Sua Casa é longe à beça! Ficou louco?!
– Na... da... É... aqui... do... la...do...
– Tisc... – resmungou ele – Está delirando? O que deu em você, criança?
Tudo escureceu.
_____________________20 minutos depois_____________________________
– Camus, ô Camus! – chamou uma voz conhecida e grave ao longe.
– Ih, caramba... Acorda, Camus! – disse outra voz jovial e familiar.
Abri os olhos, mas os fechei rapidamente quando um brilho intenso os tocou.
Ouvidos: ZZZZZZZIIIIIIIIIINNNN...
– Ah, que bom. – disse Aiolos, aliviado – Ele acordou, Mestre!
ZIIIIZZZZZZZIIIIIIIIIIIIIIIZZZZZZZZZIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNNNNNNNNN!
“Não grita, droga...” Levei a mão à testa e, ainda com os olhos fechados, senti uma dor de cabeça latejante.
Logo depois, senti um toque frio e metálico e alguém ergueu meu tronco devagar.
– Bora, garoto... – disse Saga, me pondo de pé – Se não, não vai sair com a gente.
– Não o force tanto. – disse Shion.
Dei uma cambaleada para frente, mas me mantive firme em seguida. Abri os olhos lentamente e me deparei com o Mestre.
– Você está bem? – disse ele, preocupado enquanto limpava meu rosto com um pano úmido.
– Minha cabeça... Dói. – disse eu, meio sem voz.
– Já teve isso alguma outra vez? – perguntou ele.
– Não... – murmurei. Não desse jeito. No máximo, uma dor de cabeça mais fraca que essa. Desmaiar e delirar... Foi a primeira vez.
– Hum... Você sangrou bastante, garoto. – disse o Mestre.
E sangrar também... O que?! Sangrei?? Seria isso que o Mestre estava...?
O vi retirar o pano do meu rosto... Estava totalmente tingido de vermelho.
Não entendi nada do que havia acontecido. Nem me importei muito. Só me lembrava de ter esquecido...
... Milo.
Procurei ao redor da Sala do Mestre com os olhos. Sem sinal dele, nem de seu cosmo.
Me ajoelhei diante de Shion.
– Permissão para me retirar, Mestre.
– Tem certeza que está bem para ir? – disse Shion, preocupado – Iremos à cidade em meia hora.
– Sim. Estarei pronto antes desse tempo. – disse eu, tentando passar uma imagem de que estava normal.
– Permissão concedida. – disse Shion, desconfiado — Cuide-se, por Atena.
Me levantei, cumprimentei com a cabeça Saga e Aiolos e me virei para sair. Desci as escadas rapidamente até Peixes, que estava vazia desde que Afrodite se tornara Cavaleiro de Ouro e havia partido para seu treinamento fora do Santuário.
Cheguei à minha Casa encontrei com uma dona Tália preocupada à entrada.
– Mestre, o senhor vai à cidade comemorar o aniversário do...?
– Vou sim. – disse eu, antes que ela completasse a frase que me trouxe mais tristeza.
– Sua roupa já está pronta. – disse ela, me olhando atentamente dos pés à cabeça – O Mestre passou correndo contigo nos braços, desmaiado. Está bem? Foi algo no treino?
Dona Tália era a mais antiga criada da Casa de Aquário. Cuidava de mim como se eu fosse seu neto mais querido. Eu a adorava e a tratava muito bem normalmente, mas...
O meu estado ainda não tinha se normalizado. As perguntas dela entraram por um ouvido e saíram por outro, como ela mesma diria.
Assenti e passei por ela, caminhando rápido até a porta que dava para os cômodos da Casa. Entrei e corri até o banheiro. Despi as vestes de treinamento e entrei no chuveiro. Foi um banho rápido. Saí do banheiro para o quarto todo molhado (sempre fiz isso por distração), me toquei e voltei para me secar com uma toalha. A roupa já estava passada sobre a minha cama: calça cargo verde escura, camisa sem manga e sapatênis brancos.
– Quer ajuda, mestre? – disse dona Tália do corredor.
– Não precisa. – disse eu, me vestindo apressado – Obrigado.
Terminei e saí pela porta do quarto.
– Mas que pressa é essa? – disse ela, espantada – Olha só esse cabelo! Ah não... – foi ao meu quarto e voltou com uma escova – Vem cá pentear! Não vai sair de qualquer jeito não.
Suspirei e cedi. Não adiantava contraria-la. Eu sabia muito bem que se o fizesse, ia ouvir um discurso de “O que o Mestre vai pensar de mim?”, “Ele vai falar que não cuido de você.” “Aposto que os outros meninos vão todos arrumadinhos e você, assim: todo desgrenhado.”.
Ela penteava meus cabelos e falava:
– Fique calmo que ainda faltam 15 minutos. Ainda falta passar um perfume, sim?
– Tá...¬¬ – falei automaticamente.
Ela acabou de me pentear e me perfumou. O cheiro era amadeirado e bem forte.
– Vou descer. Obrigado, dona Tália. – agradeci já correndo para a entrada da Casa de Aquário.
– Ao seu dispor, mestre. – disse ela, sorridente.
Desci apressado, mas mantendo a minha pose. A Casa de Capricórnio estava vazia, já que Shura também havia partido do Santuário após ter se tornado Cavaleiro de Ouro. Passei pela Casa de Sagitário, mas não vi ou senti o cosmo de Aiolos.
– Opa! – aquela voz... Se não tinha o mais velho, tinha o mais novo. ¬¬
“Tisc...”
– Ei, picolé! Me espera aê! – disse Aiolia de dentro dos aposentos da Casa – Já tô quase pronto!
Me espreguicei e esperei de braços cruzados, prestando atenção à minha respiração e me acalmando o quanto podia. Meu objetivo era a Casa seguinte, ou melhor, o futuro guardião dela. Ele tinha que me ouvir... Mas, para falar a verdade, eu nem sabia ao certo o que dizer... Ele nunca tinha ficado tão magoado com o meu esquecimento. A culpa era minha... Isso sempre me matou aos poucos.
Eu sentia seu cosmo próximo. Não sei se estou exagerando, mas até que estava bem mais leve do que meia hora atrás. Sorri ao pensar que ele se sentia melhor.
A porta se abriu e Aiolia saiu sorrindo e veio na minha direção. Trajava calça jeans azul, camisa verde clara, casaco verde escuro, tênis e boné preto.
– Tô bonito, freezer? – riu ele, e me olhou dos pés à cabeça – Tá com frio não, né? – me deu um tapa nas costas.
Tentei desviar um pouco os meus pensamentos (para ser mais específico, meu ser inteiro) do Milo. Talvez seria eu que o estivesse sobrecarregando com meus pensamentos e cosmo cheios de anseio por me desculpar. Decidi deixa-lo em paz o tempo que precisasse.
Sorri de canto e resolvi entrar na do Aiolia. A vontade que eu tinha de espera-lo era nula. Mas, apesar de implicar comigo o tempo inteiro, eu gosto do Leão. Ele sabe ser muito divertido, às vezes.
– Vocês é que andam “mamãe me vestiu”. – disse eu, já caminhando em direção às escadas – Sou normal... – e lhe pisquei um olho.
– Só que não! – riu ele, andando ao meu lado — Sempre tirando onda... Hahahaha!
A chuva começou a cair rápida e violentamente lá fora.
– Putz! – exclamou Aiolia, e voltou-se para a entrada da Casa de Sagitário – Calma aê...
Ah... Eu não ia perder essa oportunidade rara.
– Uii! Ele é de açúcar! – ri, já debaixo da chuva e todo encharcado– Vai pegar guarda-chuvinha, vai neném?
Ao contrário de mim, que 99,99% das vezes não me importo com zuações (se eu fosse me importar: 10 ou mais anos de terapia), esse Leão se irrita rápido.
– Ahh, vai cagar no mato, pinguim! – disse ele, irritado e voltando para o interior da Casa.
Continuei... Hehehe.
– É, né?! Pode ficar dodói!
– Não ferra, Camus! – berrou ele lá de dentro.
Ficou tão irritado que até me chamou pelo nome. Hahahahaha!
– Ou zuar o cabelo! Passou quanto tempo no salão?
– Vai tomar no c#!
Desbocado, não? KKKKKKKK! Eu vou à forra.
– Ihhhh, ficou brava! Esse Leão é gata!
Ele saiu pu%$ da Casa e veio pra cima de mim, que sai correndo e rindo escada abaixo.
Corri, saltando os lances de cinco em cinco degraus.
– GRRRRRRRR!! Volta aqui que eu vou te mostrar a “gata”!!
– Hahahahaha! — confesso que eu me diverti muito à custa do Leão pavio curto.
Ao chegar à entrada dos fundos da Casa de Escorpião, senti aquele cosmo pesado quase cessar a minha respiração...
O tempo parou.
... Meu olhar se encontrou com um par de azuis e repreendedores olhos carregados de um sentimento... Ruim.
Freei e parei repentinamente uns 20 degraus acima da Casa. Naquela idade, eu não faço ideia de como consegui controlar a água do chão de modo que eu não escorregasse.
Com certeza o Milo não conseguia usar nenhum golpe especial aos seis anos, mas aquele olhar funcionou muito tão bem comigo como se tivesse me atingido com o RESTRIÇÃO**** em cheio. Fiquei parado, meio hipnotizado.
Juro que não esqueci por nem um segundo do quão mal eu o fiz sentir hoje, mas nem sequer tive chance de me desculpar... Voltei a ficar tonto.
Não tive reação... Fiquei tão envolvido naquele olhar... Que não lembrei de que Aiolia estava a poucos metros de mim enquanto corríamos. Bem... Ele não esperava que eu fosse parar e deslizou escadas abaixo ao tentar fazer o mesmo. Imaginem o desastre...
Nem senti direito quando o corpo de Aiolia se chocou contra o meu. Só sei que rolamos violentamente pelo restante da escada e pelo chão que antecede a Oitava Casa. Bati de costas na parede e Aiolia caiu de frente em cima de mim, se apoiando na parede com as mãos.
– Caraca... Que louco! – riu Aiolia, sem noção do que tinha realmente acontecido e esquecendo que queria me socar alguns minutos antes – Tu parou de propósito, né maluco? Hahahaha! Me divirto contigo, sorvete.
Sabe de nada, inocente...
Além das costas, também bati a cabeça, que voltou a doer com toda a força... Ainda mais depois que eu a virei pro lado e meus olhos voltaram a se encontrar com os dele.
Esse foi um dos olhares mais carregados negativamente que ele já me lançou. Era aquele de antes da queda, mas com ainda mais ódio, ou... Ciúme?... Não sei explicar. Aliás, existem muitas coisas inexplicáveis entre nós.
– Tu viu essa, peçonha?! Radical! – disse Aiolia ainda rindo e se levantando meio sem jeito – Putz! Agora que vai dar ruim quando o Mestre ver o estado das nossas roupas, hien, picolé?
Milo emanava um cosmo negro e pesado. Tinha os punhos cerrados e o olhar injetado fixo no meu.
– O que houve, parceiro? – disse Aiolia sem entender, ficando sério e indo na direção de Milo enquanto eu me levantava com a mão na nuca por causa da dor – Deixa de ser estraga-prazeres!
Desviei o olhar por uns segundos. Ele fechou os olhos, se virou bruscamente e voltou para o interior da Casa de Escorpião.
– Ihh, caraca. Calma, peçonha! Pô! No dia do aniversário, fica bravo! – disse Aiolia, me olhando sem entender nada – Ô Milo! – e foi atrás dele.
Fiquei no mesmo lugar, estático. A chuva caía pesadamente, mas eu não sentia uma gota sequer tocar o meu corpo.
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