Mago da Água e do Gelo
8 A caminho de Atenas
Notas iniciais
A chuva caia sem piedade e as batidas das gotas pesadas sobre as superfícies de pedra ecoavam pelos arredores. Mas nenhum ruído superava a minha respiração acelerada e alta, que soava como um agouro para mim mesmo. Os relâmpagos começaram a cortar o céu enegrecido daquela manhã desgraçada...
Não me lembro quanto tempo fiquei ali... Minha cabeça e costas doíam insuportavelmente... Eu mal sentia o vento que acompanhava a tempestade bater contra a minha pele molhada.
– Camus! – chamou uma voz conhecida, porém abafada por um trovão.
Ergui a cabeça lentamente. Cada movimento que eu ousava fazer com ela me rendia ainda mais dor. Olhei para de onde a voz tinha vindo: a entrada da Casa de Escorpião. Minha visão estava embaçada pela água que escorria pelos meus olhos e pela tontura.
Com minha visão turva, consegui identificar um rapaz alto de cabelos loiros e compridos... Não faltam loiros no Santuário, mas devido ao cosmo poderoso e inconfundível que o acompanhava e pela estatura, só podia ser o Saga.
– Anda! – me chamou novamente da entrada da Casa de Escorpião – Vem logo! – sua voz soava autoritária e impaciente.
Minhas pernas se moveram devagar, sem vontade e automaticamente. Eu andei em sua direção, mas meu corpo estava tão sem firmeza que eu sentia que aqueles ventos fortes podiam me carregar para longe como um papel a qualquer instante.
Forcei meu corpo leve contra as rajadas de vento frio e caminhei o mais rápido que pude até lá. Quando entrei na Casa, me senti ser pego pela camisa e fui erguido do chão.
– Po#@%, Camus! – ralhou Saga, que vestia calça branca, casaco e tênis azuis escuros, me olhando dos pés à cabeça – Tá todo encharcado, cara. Você e o Aiolia vão todos emporcalhados! Tem que saber se comportar! Que desonra para os Cavaleiros! O Mestre vai ficar uma fera e decepcionado... Logo contigo?!
Levei a mão ao rosto e minha expressão de dor se intensificou. Que droga...
Saga, por todas às vezes, me tratou muito bem e eu sempre o admirei muito como Cavaleiro de Ouro. Acho que me vê como o irmão caçula que não teve. Sua opinião pendia para o meu lado na maioria das vezes e sempre me protegia quando os outros exageravam nos apelidos infames, mesmo que eu nunca me sentisse confortável com isso. Ele e Aiolos deviam se sentir sobrecarregados por acabar sendo responsáveis pela educação dos mais novos. Mesmo com a partida de Shura, Afrodite e Máscara da Morte, ainda éramos seis e com personalidades totalmente distintas. Dávamos bastante trabalho...
Chulamente falando: ele me deu um “esporro” merecido e tinha toda a autoridade para tal... Eu podia ter apenas seis anos, mas a educação que me foi dada desde que vim ao mundo não permitia tal comportamento. Eu devia, como futuro Cavaleiro de Ouro, ser um exemplo em honra e disciplina. Senti-me um fracasso ao perceber que havia cedido aos meus sentimentos e agido com um fraco... É, logo eu.
Desde criança, sempre procurei seguir a risca todos os ensinamentos que me eram passados diariamente pelo Mestre Shion, mestre Altar, Saga e Aiolos. Acordava às 5h, comparecia sem atraso aos treinos, às aulas teóricas de batalha e cosmo, Astrologia, Astronomia, Francês... Procurava concentrar e desenvolver o meu cosmo, conversar com a Deusa nos intervalos, fazia todos os deveres de casa (e copiava a matéria inteira 10-15 vezes ¬¬. Créditos ao Milo), fazia treinos extras com os aprendizes e aspirantes a Cavaleiro, sempre era elogiado pelos quatro e usado como exemplo para todos (não que eu gostasse disso, mas fazia por onde... Ao menos era uma maneira de eu saber que estava fazendo tudo certo).
Saga estava com toda a razão. Naquele instante, me dei conta do quanto ridículo era o papel que eu estava fazendo. Todos já deveriam estar prontos e eu ali, como um imbecil retardado. Senti vergonha de mim mesmo e raiva por estar sendo chamado a atenção.
Por Atena... Olhei para baixo e corei de vergonha.
“Tenho que fazer alguma coisa... Qualquer coisa que concerte isso...”. Pensei, com raiva e decepcionado.
Ergui a cabeça com dificuldade e o encarei. Minha roupa e meus cabelos colados ao meu corpo pela água.
– Eu vou... – disse eu, franzindo a testa mais por causa da dor do que pela bronca. Nunca me importei de levar uma merecida -... Me secar, Saga.
Eu já havia tentado me secar dessa maneira algumas vezes, já que eu sempre saía todo molhado do banho, encharcava o chão do quarto e me esquecia da existência de uma toalha pendurada bem à minha frente. Diversas vezes isso tinha me rendido broncas de dona Tália. Da última vez, tinha conseguido até ficar úmido, mas seco... Não.
Ele me olhou impaciente e sem acreditar. Se fosse eu em seu lugar, teria feito o mesmo. Afinal, o que um projeto de Cavaleiro como aquele poderia fazer?
– E como você vai fazer isso? Hien? – disse, balançando a cabeça negativamente – Não dá tempo de voltar à sua Casa. – me encarou, irritado — Os carros já estão nos esperando lá embaixo!
Pelo meu orgulho, tinha que ser possível. Olhei para baixo e me senti indigno de usar aquele Pingente Sagrado ♒ que eu carregava em meu pescoço desde que nasci.
Apesar da minha dor, concentrei meu cosmo em todos aquelas moléculas de água que se abrigavam nas minhas roupas e cabelo.
Bem, vocês devem estar pensando: “Uma criança de seis anos sabe o que é uma molécula?”. Sim, nós temos aula de física e química elementar desde os três anos: sobre moléculas, átomos e como destruí-los. Entendam que somos anormais e superdotados. Não era difícil para mim nem para os meus companheiros entender desse assunto... Nosso poder sempre dependeu desse princípio. É instintivo.
Para os que me conhecem um pouco, sabem que o “do contra” aqui não os destrói, como a maioria. Nunca gostei de eliminar nada, a não ser que seja necessário.
Fechei os olhos e senti a energia percorrer levemente o meu corpo... No início, quando ela ainda estava fraca, isso era fácil. Eu conseguia enxergar todas elas com nitidez... Me concentrei ainda mais, agora sentindo meus ossos trincarem a medida que o meu cosmo percorria todas mas minhas células mais violentamente.
Por Atena, a honra devia ser maior que a dor. Eu tinha que reparar o meu erro.
Minha visão das moléculas se desfez e se amplificou... E agora eu via seus átomos, que se movimentavam em velocidade lenta.
Minha cabeça doía e meus ossos latejavam, mas eu não podia deixar que aquele meu comportamento irresponsável interferisse mais...
... No dia do Milo.
Ao pensar nele, a energia cósmica transpassou a minha pele e atingiu a minha aura, que surgiu ao meu redor como um brilho dourado.
– Camus? Peraí! – espantou-se Saga, me colocando no chão e me sacodindo pela gola da camisa – Você não pode...!
O ignorei. Aquela água tinha que desaparecer dali. Aqueles átomos tinham que se movimentar...
“Mais rápido.” Ordenei.
Ainda concentrado e de olhos fechados, gemi de dor. A cosmo energia que passou a percorrer com três vezes mais força pelo meu corpo parecia me esfolar... Senti minha pele se rasgar em alguns lugares...
– O que?! Mas o que é isso?! Vapor? – a voz desesperada de Saga ecoou pela Oitava Casa – Pare, Camus! Pare já!
Agora que eu comecei? Mesmo que eu morresse ali, teria recuperado um pouco da minha honra (Eu sou inconsequente... Posso parecer (e ser até) certinho, mas a racionalidade se esvai quando penso em alguém...).
O cosmo percorria todo o meu ser com ainda mais força, mas ainda sentia minha pele úmida. Senti meus cabelos desencostarem das minhas costas e meus pés foram erguidos do chão.
“MAIS RÁPIDO! TODOS VOCÊS!”
Eles se agitaram ao máximo... Sumiram...
– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh! – gritei, ao sentir meu cosmo explodir.
E se esvaiu. Meu corpo desfaleceu... Me senti ser pego no colo.
– Você é louco ou o que?!! – disse Saga, parecendo desesperado – Quer se matar?!
– Hummm... – foi o único som que eu consegui emitir.
Ele começou a andar devagar comigo nos braços. Senti seu cosmo preocupado.
– Não faz mais isso, tá?!
Abri os olhos e o encarei.
– Estou... – disse eu com dificuldade -... Seco?
– E-Está. – disse ele, tocando minhas roupas e cabelo – E gelado pra ca$#@%...
Consegui. Em meio a toda aquela situação e dor por todo o corpo, pude me sentir aliviado por uns instantes. Ao menos eu não atrasaria tudo ou levaria uma bronca do Mestre, ou chamaria atenção... Ou entristeceria ainda mais o...
... Milo.
Isso nunca seria perdoado. Minha expressão deve ter sido de tristeza quando pensei nele.
– Isso é só dor mesmo? – perguntou ele, bagunçando meus cabelos – Ou tem mais alguma coisa?
– É só dor... – omiti com a voz rouca – Tá tudo bem, Saga.
– Nem adianta disfarçar... – disse ele, parando de andar e me encarando – O que o Milo fez?
O encarei e ele fez o mesmo. Seu cosmo emanava agora, além da preocupação, bastante indignação.
– Nada... – disse eu, e olhei para baixo. Afinal, não adiantava esconder se era tão óbvio – A culpa foi minha.
Ele suspirou e disse, irritado:
– Ok. Aposto que o babaquinha ficou putinho porque você se esqueceu do aniversário dele. – disse com a voz sarcástica, sem deixar de seguir o caminho em direção à Casa de Libra – Ele sabe muito bem que você não faz por mal. Parece que gosta de te torturar, eu hien! – franziu a testa, indignado – É assim todos os anos. Não gosto dessa atitude idiota dele.
É... Eu entendia sua indignação. Mas não conseguia me perdoar por mais esse ano ter magoado Milo... Nunca.
– É que... – tentei dizer algo que o defendesse, mas...
– Ah, fala sério. – continuou ele, irritado – Pô, eu só observo ele te importunando, implicando contigo, te botando apelidos, se aproveitando da sua inteligência e copiando o seu dever... Só não me intrometo porque sei que vocês se gostam e tal... – me encarou e parou de andar – Mas não me entra na cabeça como um “amigo” sacaneia tanto o outro.
Me senti ainda mais mal ao ouvir aquelas palavras. O pior: tudo era verdade.
– Shaka me disse esses dias que esse filho da pu#@ anda rasgando os seus cadernos de propósito. Isso é verdade? – perguntou ele, incisivo.
Eu nem podia sequer discordar e defende-lo. Mas o que ele faria ao Milo se eu confirmasse? Não duvidava nada do Saga, ainda mais que eu sabia muito bem que ele me defendia... Fiquei estático e o encarei.
– Hien, Camus? – disse ele, impaciente – Fala!
Continuei a encará-lo em silêncio. Até que desviei o olhar e devo ter corado. Como diz o velho ditado: “Quem cala, consente. ”.
– É, né... Pode deixar ele comigo. – disse o Cavaleiro de Gêmeos, já me desvendando – Como você pode ser trouxa de gostar de alguém que te trata assim, Camus? Você é um garoto muito legal. – disse ele, me olhando com um sorriso de canto – Merece amigos que te valorizem mais... Fico triste quando vejo que não tem escolha e acaba sendo obrigado a chamar de “amigo” esse moleque...
– Saga... – sussurrei eu, pedindo implicitamente que ele parasse.
Não... Eu não suportava mais aquela conversa.
Voltei a encará-lo, suspirei e desviei o olhar novamente para baixo. Não tinha a menor força para tentar argumentar com ele naquelas condições.
– Ah, deixa... – disse ele, dando de ombros e continuando a seguir em frente – Fique você com esse masoquismo enquanto ele se aproveita. – percebeu que eu me sentia mal ao ouvir aquelas verdades.
Levei a mão à testa e a massageei, tentando amenizar a dor ali. Senti inúmeras pontadas violentas e doloridas pelo corpo...
– Hum... – gemi de dor e fechei os olhos.
Pensei por uns instantes no que ele havia dito. Doía muito... Subitamente, meus pensamentos se desviaram para uma só frase:
“Pode deixar ele comigo. ”
Rangi os dentes e travei a mandíbula. Não... Atena... Tentei rezar um pouco para me acalmar. Fiquei quieto, levei uma mão ao rosto e forcei o outro braço contra o tórax.
Tossi e levei a mão à boca... A senti úmida e a afastei para olhá-la... Por Atena. Era sangue vivo que a tingia. Não era possível. Eu devia estar muito doente! Nunca tinha acontecido isso comigo. Parecia até um tuberculoso...
Mas aquilo não importava... Não naquele momento.
Pensei em todas as vezes que Saga havia se metido nas confusões e zuações que Milo, Aiolia, Aldebaran, Afrodite e Máscara da Morte aprontavam comigo. É, ele apenas dava umas broncas e lições de moral... Nada mais.
Me acalmei e minha dor no corpo diminuiu um pouco. O Saga só devia ter querido dizer que daria uma bronca no Milo. Mesmo assim, eu me importava e preocupava... Não só por eu ser o motivo do sermão que ele ia levar, mas também com o estado que ele ficaria depois...
Fechei a mão suja de sangue para que Saga nem ninguém a visse. Não queria chamar a atenção... Sempre detestei ser alvo dela, mesmo para algo positivo. Orgulhoso? Sou muito. E assumo. U.U
E também não queria que me vissem sendo carregado no colo como um fraco incapaz U.U.
– Saga, obrigado, mas... – disse eu, tentando me recompor da dor e fingindo estar bem melhor — ... Eu posso ir andando.
– Até parece, moleque orgulhoso! Só você mesmo! – ironizou Saga, e riu alto – Cheio de pose... Hahahaha! Pode estar morrendo, que fica de pé e anda por ai com essa cara de “Sou fo#@”. Hahahaha! – riu e me pôs no chão.
Minhas pernas bambearam, mas respirei fundo e andei ao seu lado.
– É sério. – afirmei, tentando acompanha-lo – Eu tô bem.
Ele ria mais.
– ÔÔôooo... – fez, sarcástico – Bem pra ca$%#$@! – me deu um tapa nas costas que me fez descer uns cinco degraus de uma vez – Hahaha! Bem pra catar cavaco, né? KKKKKKKKK!
Ele veio me sacaneando até chegarmos ao pátio de entrada do Santuário.
Lá estávamos, agora, todos reunidos: Mestre Shion (de camisa social listrada, calça jeans escura e sapatos pretos), Saga, Aiolos (jeans preto, casaco amarelo com estampa que não consegui identificar, e tênis vermelho e branco), eu, Mu (calça e jaqueta jeans e tênis verde), Aldebaran (jeans claro, casaco laranja e tênis preto), Aiolia (que havia trocado de roupa, e agora vestia calça jeans preta, blusa amarela estampada e casaco de couro preto), Shaka (calça preta, sapatos azuis claros e casaco branco) e...
Milo (calça jeans azul escura, tênis vermelho e jaqueta preta)... Evitei encará-lo quando percebi que me viu.
– Bem, já que agora estamos todos juntos, podemos ir. – disse o Mestre, parecendo contente.
Parecíamos uma procissão de guarda-chuvas indo em direção ao bosque de Rodório. Eu andava ao lado do Mestre e de Saga, evitando ficar perto dele... Eu sentia que seu olhar procurava o meu, mas decidi não retribuir, já que ainda sentia seu cosmo ressentido e com raiva, embora mais leve. O que me doía muito era a tristeza que só aumentava ali...
Minha atenção foi desviada dele quando senti uma cotovelada nas costelas. Levei a mão ali e tirei o braço do...
... Aiolia, que me olhava com espanto. O olhei sem entender.
– Pô, picolé, — sussurrou ele no meu ouvido – como que você tá sequinho assim?
– Me sequei, oras. – respondi em tom baixo, encarando-o e friccionando o lugar onde ele tinha me acertado para aliviar a dor.
– Mas como? – disse ele, espantado e me olhando dos pés à cabeça.
– Com meu cosmo... – respondi, me espreguiçando e sentindo várias estalos. Percebi o quanto estava cansado. Felizmente, a dor imensa do meu corpo se esvaia aos poucos.
– Hã? Que show. – sussurrou com uma cara de animação. Esse Leão é uma figura... – Poxa, freezer, podia ter me secado também, né? Pô, levei o maior esporro.
Dei um sorriso de canto e fiz que não com a cabeça.
– Só se você me quisesse morto, cheio de pulga. – lhe pisquei um olho.
Ele riu e disse:
– Ai não, né? Quem eu ia zoar e copiar o dever?
– É... – respondi. As palavras dele desviaram meus pensamentos para o que Saga havia dito há uns minutos...
Seria por interesse...?
Senti o cosmo de Milo se carregar de ainda mais tristeza e raiva. Me virei para olhá-lo finalmente, mas não o vi no meio do pessoal.
Nem percebi quando chegamos até perto do Bosque de Rodório, onde havia uma estrada e dois carros nos esperando. O Mestre parou em frente a eles e fizemos o mesmo.
– Bem, deixemos que o aniversariante do dia escolha o carro e quem vai com ele na viagem até a cidade. – disse ele, com um sorriso leve para Milo.
Ele abaixou a cabeça e entrou no último carro da fila sem escolher ninguém. Todos, menos Saga, olhavam sem entender para mim e faziam gestos de “estão brigados? ” ou “aconteceu alguma coisa?”. Afinal, o Mestre e eles viviam nos chamando de “grudes” pelo fato de estarmos quase sempre juntos...
O Mestre, Mu, Shaka e Aiolos entraram no carro da frente, conversando e rindo. Aiolia e Deba entraram no carro junto com Milo. Saga me pegou e fez cócegas, entrando correndo no último carro. Se sentou no carona e me jogou lá atrás, ao lado de Aiolia.
O carro começou a andar... Fiquei olhando pela janela o Santuário e o Bosque se afastarem.
– Ei, sorvete, o Aiolos bem me falou que lá tem pista de patinação no gelo! – disse Aldebaran, animado e me cutucando.
– Caraca, é mesmo! – animou-se Aiolia, como sempre – Você ensina a gente, picolé? – riu e me abraçou com força de sacanagem.
RRRRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNNGGGGGGGGGGGGHH... (rangido alto e ensurdecedor).
– Que foi isso?! – assustou-se o motorista.
Senti o cosmo de Saga se elevar levemente.
– Nada... – disse ele, olhando para o homem ao volante – Continue a dirigir.
– Ah, sim. – disse o motorista, anormalmente calmo.
Saga se ajoelhou no banco da frente e se virou para nós. Estava irritado e olhava para Milo, repreendendo-o.
Acompanhei seu olhar e o vi. Estava com a respiração alterada... E um arranhão imenso, que ia do topo da janela até o estofamento do carro, terminava-se em sua mão direita cujo indicador ainda estava cravado no banco. Seu cosmo em caos...
Saga deu um sorriso sarcástico de canto:
– Então, Caminho, já sabe aonde será seu treinamento? – perguntou ele, virando a cabeça e me olhando.
Digamos que, naquela época, eu ainda nem havia pensado nisso. O encarei.
– Não sei, Saga. – disse eu, com a voz desanimada e muito preocupado com Milo, que retirava bruscamente o dedo do estofamento e arrancava um bloco de espuma junto. Me encarou por um milésimo de segundo... Vi seus olhos mareados e injetados... E olhou para baixo...
– Então, daqui a pouco ficará sabendo. – ele me piscou um olho e olhou de relance para Milo – Daqui a três meses você completa sete anos.
Eu... Logo entendi o que ele queria fazer. Não seria só uma bronca... Maldição...
– Aham. – respondi rapidamente – Mas nem todos nós nos tornaremos Cavaleiros de Ouro aos sete anos, não é? – tentei transformar o assunto.
Ele continuou, acredito que mesmo tendo percebido que eu pedi indiretamente para que parasse.
– Mas vocês seis eu tenho certeza que irão. – disse ele, franzindo a testa e me lançando um olhar malicioso.
– Ihhh, iceberg! – disse Deba, sem noção e animado – Então tá perto de você meter o pé! Pra onde será que você vai? Deve ser frio, né?
– Para... – pediu Milo em tom alterado, porém baixo. Seu olhar se mantinha fixo.
Olhei de relance para ele, preocupado com seu cosmo, que piorava e perdia o controle. Fiz que não com a cabeça para Saga, tentando convencê-lo a ficar quieto ou mudar de assunto.
– Vocês têm um potencial muito alto. O Mestre mesmo disse. – continuou Saga, sem se importar.
– Uau! – Aiolia sorriu, satisfeito.
– Prepare-se para deixar o Santuário no seu aniversário. – disse Saga, sarcástico.
– Paraaaaaa... – pediu Milo, com voz tremula de choro.
Aiolia e Deba se calaram e o olharam sem entender.
“Saga, por favor, para. ”
Ele me encarou, sério.
“Não. Ele tem que aprender...”
Fiz que não com a cabeça.
“Assim não. ”
“Assim sim. ”
– Falta pouco, hien? – disse ele, sem se importar.
– AAAAAAAAAAhaaaaahhhhhhhhhh... – ele chorava sem controle, enquanto Deba lhe dava uns tapas nas costas e Aiolia me olhava sem entender.
“Por que?!” me irritei.
“Não enche.”
– Vai ficar uns muitos anos foraaaaa... – cantou Saga, ainda mais sarcástico.
– PAAAAAA-AAARAAAAAA-AAAA! PAAAA-AAAAAARAAAAAA-AAAAAA! – gritou ele, com a voz entrecortada pelo choro...
... E me encarou, desesperado, estendendo os braços na minha direção. Fiz o mesmo, e ele passou por cima do colo de Deba e Aiolia, que chegaram para o lado, e me abraçou forte. Levei a mão aos seus cabelos e os acariciei.
Saga deu um sorriso vitorioso, se virou e sentou no banco. Aiolia e Deba se entreolharam e me encararam em seguida.
Desviei o olhar e o encarei. Ele encostou a cabeça no meu peito e aproximou seu corpo do meu o máximo que pode... Ainda soluçava, descontrolado. Seu coração batia acelerado e descompassado. Beijei sua testa e encostei meu queixo em sua cabeça.
“D-Desculpa...”
“Shhh... Sou eu quem devo desculpas aqui. ”
“M-Mas eu...”
“Tá tudo bem. ”
Ele acariciou meu peito com o rosto e segurou minha mão, enquanto eu continuava a lhe fazer carinho nos cabelos. O senti relaxar o corpo aos poucos...
“Camus...”
“Hum? ”
“V-Você v-vai e-embora?”
Ele voltou a ficar tenso. Lágrimas rolaram por seu rosto... As senti quentes ao molharem a minha camisa...
“Não sei...”
Ele chorou mais e gemeu, me abraçando com mais força.
“Mas, olha... Não pensa nisso...”
Me abraçou ainda mais e ofegou.
“N-Não... V-Vai...”
Levei a mão ao seu queixo. Ele abriu os olhos e eu o encarei profundamente.
“Não importa, tá? Eu tô aqui... Tô aqui com você. ”
Ele sorriu enquanto me olhava e eu fiz o mesmo. Lhe fiz carinho na nuca e o senti relaxar por completo... Seu cosmo emanou felicidade e alivio. Voltou a deitar a cabeça no meu peito, repousou a perna sobre a minha, suspirou...
E adormeceu, ainda sorrindo.
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