Mago da Água e do Gelo

14 Sucesso, emoções e gelo


Notas iniciais
Pessoas amadaaaass! Me descuuuuuullpeeemm! :,( :,( É que tá muito curto o tempo... Sério mesmo :( Que saudade imensa de todos! CARACA! Fiquei muito alegre-felizmente-feliz em logar aqui depois de mais de dois meses sumida (culpa do Shaka, que me pegou em cheio com Ciclo das Seis Existências... Ai, eu fiz um tour pelos mundos. Só voltei agora). Na moral, gente, eu tô moída de cansaço e fui escrevendo esse capítulo em intervalos (odeio isso). Mas ele finalmente ficou pronto e gigante para compensar :D Tô muito feliz em estar de volta! Muita muita SAUDADEEEEE! Gostaria imensamente de agradecer aos maravilhosos comentários (presentes!!) de Koushirou e Lili Kitsune. Agradeço demais ao prestígio, pessoal! Fico muito lisonjeada! Mas... Vamos ao que interessa, né? Hehehe ;)

Quando cheguei de volta à Casa de Aquário e estava passando pelo saguão de entrada, senti uma agitação cósmica forte e familiar à minha esquerda. Olhei rapidamente para tal direção e a primeira coisa que vi foi ela... A estátua. Não tinha se movido ou trocado de posição, mas um cosmo poderoso e estranhamente familiar emanava dali.

“Estranho...” pensei.

Mas eu tinha certeza de que já havia sentido aquele cosmo de alguma maneira... Talvez tivesse sido quando eu adormeci em sua mão... Ou hoje mais cedo no chuveiro... Sim. Eu acreditava que ambos esses acontecimentos tinham a ver com o mesmo ser/entidade/algo do tipo. Não era possível que eu tivesse surtado em ambas as vezes... Foi real! Não foi?

Eu ia descobrir... Nem que levasse a noite toda. Não que eu tenha esquecido a surpresa do Milo que pretendia começar naquela noite (apesar de eu não saber ao certo como fazê-lo), mas aquela energia cósmica que eu senti naquele momento me dizia algo... Não sei se me entendem... Eu tinha que descobrir...

Franzi a testa, indignado, e andei em sua direção sendo esperto o bastante para verificar o entorno com o cosmo para me certificar que não havia ninguém por ali para me achar louco.

– Ei! Qual é o seu problema?! — falei baixo em tom indignado, já à frente de seu grande pé – Por que me deixou falando sozinho mais cedo?

Ouvi um ruído de pedra e me afastei um pouco instintivamente para olhar melhor para cima. Ela havia mexido a cabeça e me olhava com seus olhos de mármore e as sobrancelhas franzidas... Parecia me repreender. Por Atena... Não eram olhos sem vida de uma estátua qualquer... Tinha algo ou alguém por detrás dela... Alma... E cosmo. Muito cosmo.

Ela se ajoelhou devagar, parecendo ter cuidado para não fazer muito barulho. Repousou seu jarro ao lado no chão e apoiou o braço sobre o joelho, ainda me olhando. Eu a encarava boquiaberto e fascinado. Ah... Por Atena e todos os deuses!

Ouvi um ruído leve e calmo vindo do chão entre nós dois, parecia um riacho ou... Desviei o olhar para lá e me espantei ainda mais: água brotava do chão de pedra da Casa, formando uma poça ali.

– Por... Atena... — eu não tinha mais palavras... Somente pude ler as que se formavam instantaneamente na água:

“O QUE EU LHE DISSE MAIS CEDO SOBRE RESPEITO, CRIANÇA?”

Desviei meus olhos dos dizeres e voltei a olhar para a estátua, que se mantinha me encarando. O que...? O que era aquilo...? Tentei falar, mas não saía nenhum som.

–...

Seus olhos se desviaram para outro lugar do meu corpo que não identifiquei na hora. Mais um ruído de pedra e sua mão se moveu na minha direção. A acompanhei com os olhos, até que seu dedo indicador pegou levemente meu braço direito. Seu olhar mudou de rude para preocupado. Havia uma grande ferida ali, a qual eu não tinha sentido ou visto direito. Estava aberta em carne viva... Deve ter se formado quando caí na arena de manhã.

Doeu quando ela mexeu meu braço de um certo jeito. Fiz uma expressão de dor e vi seu olhar ainda mais preocupado. Ela desviou os olhos para uma outra estátua de Ganímedes do outro canto da entrada da Casa. Arregalei os olhos quando esta outra se moveu, olhando para a uma à sua frente, que também se mexeu! Foi uma sequência até a estátua mais próxima da entrada para os aposentos da Casa de Aquário.

Minha respiração e coração aceleraram ainda mais. Era... Incrível. A minha Casa... Tinha vida. Ouvi alguns ruídos de atrito em pedra do interior dos aposentos, e alguns segundos depois, a estátua mais próxima da entrada deles recebeu em mãos, atirados lá de dentro, um objeto que não identifiquei de início. Ele foi sendo jogado de uma estátua para a outra, até chegar à mão livre da que interagia comigo. Ela o pegou no ar.

– Uau... — dei um sorriso fascinado.

Era um saquinho de pano, o qual ela abriu e retirou gaze, ataduras, algodão e esparadrapo, além de alguns frascos pequenos. Pegou a gaze e derramou algo de um frasquinho sobre ela com a mão livre e, ainda segurando meu braço com a outra, começou a limpar o ferimento devagar e delicadamente...

“COMO PRETENDE FAZÊ-LO?” escreveu na água aos meus pés.

– Eu... Hã? — não entendi o que ela quis dizer, não sei se porque realmente não compreendi ou se eu estava tão espantado com tudo aquilo que meu raciocínio se encontrava seriamente prejudicado.

“O PRESENTE PARA O PEQUENO ESCORPIÃO.”

O QUE??! Como ela sabia??! Digo “ela” o tempo todo por me referir à estátua, mas é “ele”... (cérebro em curto-circuito) Ah, mas que droga! ¬¬ Sério agora... Como pode?! Uma ESTÁTUA... Uma não... Onze ESTÁTUAS! Escreve na água...? Não poderia ser possível. Por Atena e todos os deuses! Desisto de pensar... A racionalidade não cabe mais. O Mestre estava certo mais cedo sobre me internar... Mas um hospício seria mais adequado.

– De... Gelo? — falei, ainda confuso e olhando para a estátua, que ainda limpava o ferimento no meu braço.

“SIM... MAS COMO?”

– É... Bem... — cocei a cabeça com a mão livre, tentando pensar – Uma escultura...

A estátua assentiu, enquanto cobria meu ferimento com gaze e algodão secos. Me olhou com uma sobrancelha erguida.

“MOSTRE O QUE PODE FAZER COM ELA.” escreveu, apontando com os olhos para a água entre nós.

Hum... Ele queria me testar? Tudo bem... Gosto de desafios. Concentrei meu cosmo nos átomos de água e os ordenei que parassem de se mover. A poça se tornou gelo no melhor tempo que pude fazer naquela idade.

Ele fez que não com a cabeça, parecendo me reprovar. O gelo que havia se formado derreteu em menos de um milésimo de segundo, voltando ao seu estado líquido.

“NÃO.” escreveu na poça reformada.

Aquele momento... Em que você se sente um me#@$! Desculpem o palavreado, mas nada melhor que me#@$ para a definição do que eu tinha feito U.U Franzi a testa, sem entender, enquanto ele enrolava a atadura em torno do meu braço e a prendia com esparadrapo.

– Não? Mas por qu...? — tentei dizer, meio indignado.

“HÁ COMO ESCULPIR UMA POÇA CONGELADA?”

É... Não. Assenti negativamente com a cabeça, um pouco desanimado.

“ABRA A BOCA.” escreveu, pegando um frasco e levando na minha direção.

– O que é isso? — perguntei, curioso.

Ele me olhou impaciente e pôs uma mão na cintura.

– Tá bom... — abaixei os olhos e pus as mãos para trás, aceitando a bronca.

“AAAAAAAAAHHHHH...” escreveu.

– Aaaaaaaaahhhhhh... — fiz enquanto abri a boca e ele pingou algumas gotas do que devia ser um remédio.

Até que não tinha gosto ruim. Engoli e continuei a olhá-lo enquanto ele guardava as coisas no saquinho e jogava para a próxima estátua, que jogava para a outra, fazendo o caminho inverso da vinda.

“DE QUE TAMANHO QUER FAZER?”

Hum... Eu não havia pensado muito bem ainda, mas...

– Hamm... — levei a mão à altura que seria, mais ou menos da minha própria – Desse.

“TUDO BEM. ENTÃO...”

A poça, de repente, tornou-se um bloco de gelo da minha altura.

– Nossa! — olhei, admirado e me adiantei para olhar os quatro cantos do quadrilátero que se formara ali.

Mais água nasceu do chão ao lado do bloco e ele escreveu:

“ASSIM?”

– Aham. — concordei, ainda fascinado com o gelo perfeitamente formado à minha frente – Que... Legal! Como fez?

“LOGO VOCÊ APRENDERÁ.”

Ahh... Eu queria agora.

“TUDO A SEU TEMPO, CAMUS.”

Ele... Disse... Sabe o meu nome?

– Como sabe o meu nome? — perguntei, me aproximando dele e toquei sua mão.

“COMO EU NÃO SABERIA?” escreveu, levando o dedo à minha cabeça e me fazendo cafuné.

– Hum... — dei um sorriso de canto, gostando do carinho – É que... Você fica ai parado o tempo todo. Dona Tália e os outros criados só me chamam de mestre, então...

Acho que o percebi com uma expressão triste. Mas sorriu e me fez cócegas em seguida.

“O PEQUENO ESCORPIÃO O FALA TODO O TEMPO. ATÉ O ÚLTIMO TIJOLO DO SANTUÁRIO SABE O SEU NOME.” me piscou um olho.

Ri com as cócegas e acho que corei um pouco quando ele falou do Milo.

“BEM. BOA SORTE PARA FAZER O PRESENTE.” me pegou carinhosamente com a mão e me pôs ao lado do bloco de gelo. “NÃO DURMA TÃO TARDE. LEMBRE-SE DO TREINO AMANHÃ.”

– Espera! Você vai embora? — falei, abraçando seu dedo.

“HUM...” ele levou a mão ao queixo e pensou “BEM... NUNCA FUI MUITO ALÉM DESTE PEDESTAL... ATÉ QUE SERIA BOM ANDAR POR AI UM POUCO PARA ME TIRAR A POEIRA... MAS, NÃO. NÃO IREI EMBORA.”

Sorri, pensando na cena de uma estátua imensa passeando por ai. É, eu me expressei mal... Mas tenho certeza de que ele se aproveitou disso para me zoar. Fiz que não com a cabeça, sem soltar seu dedo.

– Até você me zoa? — disse eu, olhando para ele – Já não basta o Deba e o Aiolia... Milo, às vezes...

“TISC! ANIMAIS... SÃO MEIO ESTÚPIDOS. PACIÊNCIA. SEMPRE FOI ASSIM.” ergueu as sobrancelhas com ar de cumplicidade.

Eu não aguentei e ri mais.

“BEM... VÁ FAZER O QUE DEVE, VÁ.” me pegou com a outra mão e me pôs no chão de volta.

Ahh, poxa.

– Espera... Fica mais um pouco? — pedi, pulando na palma de sua mão.

“NÃO VOU A LUGAR NENHUM. ESTOU AQUI DESDE ERAS MITOLÓGICAS.”

– Ahhhhh, você entendeu, vai... — falei, me pondo de pé em sua mão e o encarando com uma sobrancelha erguida – Fica?

Ele virou os olhos e fez que não com um sorriso de canto, dando-se por vencido.

“TUDO BEM, TEIMOSO.” me fez carinho no queixo.

Fechei os olhos e sorri com o afago. Ele me aproximou de seu peito e o senti mover seu enorme corpo de mármore, olhei para baixo e vi que deixara de se ajoelhar e se sentou sobre o pedestal com os pés no chão. Movimentou o tronco, produziu um ruído alto e fez uma expressão de desconforto, mas sorriu levemente em seguida.

“MINHAS COSTAS... NÃO ESTÃO ACOSTUMADAS.”

Ri baixo e o abracei, ficando com os braços abertos encostados em seu peito e o olhei. Ele me encarou e aproximou seu rosto de mim, tocando minha testa com a ponta do nariz, me deu um sorriso tenro e assentiu. Não sei ao certo o porquê... Mas meus olhos se encheram de lágrimas. Uma escorreu pelo meu rosto, e ele a secou com o dedo.

“NÃO CHORE, CRIANÇA.” e me fez mais cafuné. Me encostei em seu peito.

– C-Conheceu t-todos e-eles, não f-foi? — falei, com a voz trêmula pelo choro – Os q-que v-vieram a-antes de m-mim?

O olhei com os olhos mareados... Ele assentiu com uma expressão de tristeza profunda, mas não deixava de me sorrir.

“SERÁ UM GRANDE CAVALEIRO, CAMUS.”

Continuei a encará-lo, deixando minhas lágrimas molharem-no.

– C-Como s-sa...? — tentei dizer.

“TENHO TODA A CERTEZA... E ESTOU CADA DIA MAIS ORGULHOSO.”

Dei-lhe um sorriso triste, e ele secou as lágrimas que restaram em meu rosto. Era inexplicável... O impacto tamanho que aquelas palavras e todos os gestos dele tinham em mim. Me aninhei em sua mão.

“PARA A CAMA?” perguntou.

Fiz que não com a cabeça e o abracei.

“MAS É TEIMOSO...”

Assenti e fechei os olhos, me aconchegando mais ali e bocejei. Não demorou muito e o sono veio... Se me lembro bem, adormeci rapidamente.

– Caaaaaaaaamuuuuus!

– AAAAhhh! – ergui o troco, arfando e todo molhado de suor – Hã...?

Senti meu pijama colado em meu corpo... Olhei para frente, com os olhos arregalados e fixos em um ponto invisível. Minha visão estava turva e eu tremia, sem saber ao certo o porquê. Eu respirava descompassadamente... Levei a mão ao peito e senti meu coração bater forte contra minhas costelas.

Me senti em uma superfície macia e agarrei o lençol em que estava em cima para ter certeza. Pisquei os olhos para melhorar minha visão e consegui enxergar melhor ao redor... É, eu estava sentado sobre a minha cama, no meu quarto. Respirei fundo, tentando me acalmar. O pior é que eu não sabia ao certo o motivo de estar daquele jeito. No fundo, eu já esperava que a estátua não me deixaria passar a noite em sua mão.

Talvez... Um sonho? Não... Nenhum que se preze deixaria alguém no estado em que eu me encontrava. Certamente, um pesadelo. Me levantei da cama devagar e tirei a blusa do pijama, encharcada. Olhei mais ao redor, confuso. Sorri com a visão que tive dessa vez: lá estava o bloco de gelo que ele havia feito para mim ontem. Eu não era maluco! Ele estava ali! Por Atena!

Andei até ele o toquei. Era incrível! Como não derretera? Nossa! O admirei por uns minutos e levei a mão ao queixo, pensando em como eu faria a escultura de gelo para o Milo...

... Milo? Meu coração voltou a acelerar... O pesadelo... Era a voz dele...?

Arfei de preocupação e olhei o relógio: eram três e meia da manhã. Eu não podia sair da Casa de Aquário. Mas... Eu queria tanto vê-lo. Tinha certeza de que era ele quem me chamava! Sem perceber, eu já havia saído do meu quarto e corria até o saguão de entrada. Parei diante da entrada da Casa e suspirei, preocupado e indeciso.

Olhei para a direita instintivamente e vi a estátua... Que me olhava atentamente. Dei-lhe um sorriso leve, que se desfez num segundo. Eu estava muito preocupado com Milo... Mas... Deveria arriscar ir até a Casa de Escorpião? Dei um passo à frente em direção à saída, mas recebi um olhar de reprovação e ele assentiu negativamente com a cabeça.

– Mas... O Milo... – falei baixo, olhando-o preocupado.

Ouvi o ruído de água e uma poça surgiu no chão à minha frente.

“ELE ESTÁ BEM.”

Andei até ele e o olhei confuso. Como sabia daquilo? Tinha acesso às outras Casas?

– Como sa...? – tentei perguntar.

“VOCÊ O VERÁ EM POUCO TEMPO. VOLTE PARA A CAMA, CRIANÇA.”

E voltou à sua posição de costume, enquanto a água no chão desaparecia.

– Espera... – falei, suspirando. De algum jeito, eu já sabia que não ia adiantar muito.

Abaixei os olhos, dei meia-volta e voltei para o meu quarto, fechando a porta quando passei. Me sentei na cama e fiquei olhando o cubo de gelo à minha frente, sem ter ideia de por onde começar a fazer o presente. Suspirei e rezei para a Deusa, pedindo-a que abençoasse o Milo, já que eu não poderia ao menos vê-lo naquela hora.

Muitos de vocês podem estar me julgando e dizendo “Foi só um pesadelo!” ou “Deixe de ser neurótico!”... Mas entendam que tudo que eu sinto em relação a ele nunca é “só um pressentimento”, neurose ou exagero. Sempre soube disso desde que me conheço. Eu tinha certeza que havia acontecido algo à ele... Mas também que poderia confiar na estátua... Ou quem quer que estivesse por detrás dela. Isso eu ainda iria descobrir...

Finalmente, suspirei aliviado. Meus olhos se mantinham no cubo. Dei um sorriso de canto quando tive uma ideia. Dei um pulo da cama e me postei diante dele. Elevei meu cosmo e pude ver claramente os átomos componentes da água parados em uma linha.

“Mais rápido.”

Eles se moveram, uma ponta do cubo deslizou e se espatifou no chão. Uau! Então era isso! A superfície que havia se formado porque os átomos haviam se movido parecia ter sido perfeitamente cortada.

– Humm... – levei a mão ao queixo e dei uma volta ao redor do ex-cubo – Aqui, talvez.

“Mais rápido, vocês aí!”

Mais uma ponta se derreteu.

“Vocês também.”

Mais uma... E fui derretendo mais pedaços, animado. Fiquei um bom tempo ali, praticando o controle do meu cosmo e tentando fazer aquele cubo parecer alguma coisa próxima do que eu queria. É... Me empolguei. Até que olhei de novo para o... Ué?!

– Putz! – arregalei os olhos e corei com meu próprio erro: eu... Derreti TODO o cubo – Ah... Droga! – cruzei os braços, indignado.

De repente, a luz do dia que amanhecia tocou meus olhos. Levei a mão à frente do rosto para protege-los da claridade. Dei uma olhada para o relógio: eram cinco horas!

O TREINO!! Ah, não! Chegar atrasado não! Isso seria o cúmulo! Mais falhas não... ¬¬

Me apressei, tirei a calça e a cueca ao mesmo tempo em que abria o armário e as gavetas para pegar vestes de treinamento. Me vesti o mais rápido que pude, penteei o cabelo, escovei os dentes e sai correndo para o saguão de entrada.

Passei pelas Casas vazias de Capricórnio e Sagitário, e sorri quando vi Milo na saída de Escorpião com um sorriso leve.

– Estava te esperando. – disse ele, me abraçando – Bom dia!

– Bom dia. – respondi, retribuindo o abraço – Tá tudo bem? – perguntei, me afastando levemente e olhando-o dos pés à cabeça.

– Tô... – respondeu, reticente — ... Humm... Eu acordei todo suado e Daros disse que eu tive febre à noite... Mas já passou. Vamos! Você tá em cima do laço!

Continuam duvidando sobre que eu disse mais cedo? Fomos andando rápido pela Casa. Nem tínhamos tempo para conversarmos direito naquele momento.

– Febre? – falei olhando para ele – Você está doente? – perguntei, preocupado.

– Não sei... Acho que não... AH! Sei lá! – sorriu e coçou a nuca – Vamos correr! Bora!

Assenti e retribuí o sorriso. Corremos o mais rápido possível, passando pelas Casas restantes vazias e Pátio, até o Coliseu. Lá, encontramos Saga e Aiolos ao centro da arena e Mu, Aldebaran, Aiolia e Shaka sentados na arquibancada. Milo me deu um abraço.

“Boa sorte. Vou lá... Se não o Saga e o Aiolos vão “brincar” comigo.”

“Aham... Obrigado, Milo.” Sorri.

Ele se virou e correu para a arquibancada. Andei até os dois.

– Bom dia, Camus. – disseram e me olharam.

– Bom dia. – respondi, pondo as mãos para trás.

Saga já segurava os aparatos do Cabo de Corrida por Tensão e me piscou um olho. Aiolos portava a estatueta de Atena e andou até mim, ajoelhando-se à minha frente com Ela. Me pus de joelhos e levei a mão aos Seus pés, fechei os olhos e orei em silêncio. Quando terminei, tirei a mão Dela, Aiolos se levantou e A levou para o altar. Saga veio até mim e me vestiu com o colete e as botas do Cabo.

Senti o peso, mas não de maneira exorbitante como ontem. Aiolos vestiu o cinto do Cabo.

– Já sabe o que fazer, né? – perguntou ele, me piscando um olho.

Assenti e lhe dei as costas. Andamos em direções opostas até que esticamos o Cabo sem tensioná-lo. Aiolos foi para o centro da arena, enquanto eu me postei próximo da mureta da arquibancada.

– Pronto? – perguntou Saga, já sentado na mureta.

Assenti.

– Vai! – gritou Aiolos do centro, girando o braço no alto.

Comecei a correr em círculos pela arena, sentindo uma sensação parecida com a de ontem: dor, tensão muscular e falta de ar, mas em bem menor intensidade. Eu respirava fundo e me concentrava no meu corpo, sentindo cada parte dele latejar e clamar por descanso. Quando eu já estava na quinta volta, senti que ia desfalecer novamente. Diminuí a velocidade e ofeguei. Sim... Aconteceria de novo.

Não. Eu não iria permitir. Não dessa vez. Posso ter tais limitações humanas... Mas eu sou um Cavaleiro de Atena. Posso mais... Muito mais do que ontem. Milagre... Realizarei... Um... MILAGRE!

Usei o que deveria ser meu último suspiro para me concentrar e elevar meu cosmo, mesmo que fosse bem levemente. A dor e falta de ar foram se dissipando enquanto eu voltava a correr com velocidade plausível.

– Boa! – ouvi a voz de Saga ecoar ao longe.

Elevei um pouco mais o cosmo e acelerei mais, sentindo o vento vir contra o meu corpo. Era uma sensação boa, se me entendem. Nós, aquarianos, prezamos a liberdade mais do que qualquer bem. Imaginem correr sem se cansar, sentindo o ar em movimento quase se fundir com seu corpo. É uma sensação de... Ilimitação e quase imortalidade, se não exagero. Dei um sorriso leve, me sentindo feliz de ter feito a decisão certa.

– Mantém! – gritou Aiolos – Mantém! – ao mesmo tempo em que fazia um gesto com a mão espalmada.

Claro que eu queria mais... Mas não. Naquele momento, tudo o que aconteceu ontem devido à minha rebeldia e inconsequência se passou na minha mente... Atena, meu cosmo descontrolado minha quase morte, os sentimentos de Milo, do Mestre, Saga e Aiolos... E, por fim, as palavras da estátua:

“TUDO A SEU TEMPO, CAMUS.”

Estava certo. Eu seguiria os comandos daqueles dois. Não sabia até quando iria me conter em não fazer algo “a mais” (só um pouquinho... Para dizer que não obedeci completamente ;), mas tentaria ao máximo. Mantive o ritmo de corrida e nível de cosmo os mesmos por alguns minutos, aguardando ansiosamente por uma ordem de Aiolos que me deixasse acelerar mais. Olhava para frente nas primeiras voltas, mas o movimento foi ficando tão automático que passei a olhar para os arredores.

– Hehehe! Deixa de ser ruim, cupido! – riu Saga, cruzando os braços e ainda sentado na mureta – Deixa o garoto correr! Ele não vai zoar que nem ontem, NÉ CAMUS?! – disse me olhando sério.

Dei um sorriso de canto e assenti enquanto completava outra volta. Devo ter olhado para Aiolos com olhar pedinte.

O Cavaleiro de Sagitário riu e disse:

– Ok! Bora, Camus! – fez novamente o gesto com o braço, rodando-o no ar – Acelerando!

Acho que dei um sorrisão e franzi a testa, passando a elevar meu cosmo. Simultaneamente, eu deveria controlar meu corpo para que ele respondesse à altura da energia cósmica que percorria minhas células. Quase que tropeço feio, mas consegui ir bem no ritmo mais rápido. Sei lá quantas voltas eu já tinha dado... 30? 40? Deveria ser por ai. Mas tenho mais do que certeza que nenhuma criança de seis anos NO MUNDO faz...

Acelerei até que Aiolos me deu o comando de manter a velocidade, o que fiz com muito custo. Quanto mais o cosmo se eleva, mais fica difícil de controlar e tende a elevar-se ainda mais. Meu corpo esquentou muito. Comecei a suar... Senti as gotas deslizarem pela minha pele e encharcarem a roupa de treino que eu usava por debaixo do colete do Cabo.

– Ô xerox! Acho que assim tá bom por hoje! – gritou Aiolos – O que acha?!

– É! Tá bom! Se não esse picolé derrete todo! – riu Saga – Olha como sua! Hahaha!

Minha concentração era muito exigida naquele nível de cosmo. Não havia mais movimento automático e eu só olhava para frente, sentindo meus olhos arderem pelo sal do suor que os invadia. Eu temia limpá-los com a mão e desequilibrar... Fazer qualquer movimento diferente da sequência que eu já havia memorizado poderia me levar à falha.

– Quanto tempo vai deixa-lo assim?! – gritou o Cavaleiro de Gêmeos.

– Até ele parar de correr igual a um robô! – respondeu Aiolos.

Correndo que nem um robô??! Isso era ridículo. Uma cena digna de chacota de mim correndo como Aiolos disse passou na minha mente. Ah, não... Eu já era zoado demais para isso. Ainda bem que eu não olhava para a arquibancada... Aiolia e Deba deviam estar chorando de rir ¬¬ Eu ia consertar aquilo já!

Me concentrei o máximo que pude e tomei coragem de, ao menos, limpar o suor do meu rosto... E descobri que a única coisa que me impedia de correr com harmonia era o medo de errar. Não desequilibrei, ou perdi o ritmo, ou fui engolido pelo meu cosmo... Simplesmente: deu certo.

– Muito bom, Camus! – elogiou Aiolos – Está indo muito bem!

Depois de mais e mais voltas, acredito que encontrei o equilíbrio entre cosmo, corpo e mente que precisava para alcançar a velocidade máxima permitida pelos dois naquele dia. Não tinha muita noção de quanto tempo eu tinha corrido ou quantas voltas havia dado.

– Desacelera, Camus! – ordenou o Cavaleiro de Sagitário.

Foi outro desafio convencer meu cosmo e corpo de que deveriam diminuir e parar finalmente. Era como se eu possuísse marchas que exigiam ser reduzidas aos poucos para que não desse tudo errado... Até que conseguir voltar aos 0 km/h.

Era muito estranha a sensação de estar parado. Meu corpo não aceitava bem a ideia de não se movimentar e ainda se alavancava para frente, como uma tentativa de impulso... Minhas pernas e pés ainda se flexionavam e estendiam involuntariamente, querendo mais. Eu me concentrava em freá-los e no ritmo da minha respiração acelerada.

Mal senti Aiolos e Saga retirarem os aparatos do Cabo de mim ou meus companheiros se aproximarem.

– Boa, garoto! – parabenizou Saga – Você chegou a 300 km/h hoje e correu duas horas direto!

– Show, hien?! – animou-se Aiolos, tocando meu ombro molhado de suor – Agora só um banho, né? Hahaha! Amanhã tem mais!

Assenti e mantive meu olhar fixo para frente, ainda tentando me voltar ao eixo. Estava bem difícil... Abri a boca e tentei puxar o quanto de oxigênio do ar eu conseguisse e fechei os olhos... Estavam ardendo demais. Eu não tinha mais um pingo de saliva.

– Aeêêêêê! – ouvi as vozes de Milo, Mu, Aiolia e Deba vindo na minha direção e meu tronco ser entrelaçados por um par de braços que logo senti a quem pertenciam.

– Estou orgulhoso... – disse ele em tom baixo no meu ouvido – Você foi muito bem, picolé derretido.

– Mmmm... – foi o que consegui responder, enquanto sentia meu corpo finalmente desistir de tentar avançar – Mmff... – suspirei enquanto minha cabeça pesou e afundei meu rosto em seu ombro.

E a fraqueza física e mental tomou conta do meu ser por completo. Meu corpo quase desfaleceu nos braços dele.

– Te peguei. – disse ele – Pode cair... Te peguei.

– Eeeeeitaaa! – riu-se Aldebaran – Ficou destruído! Hahahahaha!

– Nossa, Camus! – ouvi a voz preocupada de Mu se aproximar – Você chega a molhar o chão! Saga! Aiolos! – chamou.

Ouvi os passos e cosmos dos dois se aproximarem.

– Ele vai acabar doente, não vai? – perguntou Mu.

– É... Tem razão. – concordou Saga – Ele vai...

– ... Vai nada! Já está desidratado! – exclamou Aiolos.

– Hoje não está tão quente para suar tanto. – observou Shaka.

– É... Mas o Camus... – disse Aiolia, surpreendentemente me chamando pelo nome – É o Camus, né?

– Já volto! – disse Saga. Ouvi seus passos se afastando – Vou buscar sal e açúcar!

– Me dá ele aqui, Milo. – pediu Aiolos, ao nosso lado.

– Por que? – questionou.

– Afff! Dá logo! – me senti ser pego e deitado nos braços metálicos do Cavaleiro de Sagitário – Vou dar água a ele.

– Eu podia fazer isso! – indignou-se o futuro Cavaleiro de Escorpião – Era só ter me falado e...

– Sshhhh! Você fala demais! – impacientou-se Aiolos, que eu senti sentar-se e inclinar minha cabeça para frente – Tó, Camus. – Senti uma superfície de vidro úmida tocar meus lábios secos.

Com a pouca força que ainda me restava, bebi a água fresca que ele me oferecia com sofreguidão. O ar saía quente e parecia rasgar minhas narinas por dentro... Minha pele perdera a elasticidade e eu sentia como se pudesse se rasgar a qualquer movimento... Meus olhos ainda ardiam... Parecia que todo e qualquer líquido do meu corpo havia se esvaído, e ele clamava por tê-lo de volta.

Ouvi passos e senti o cosmo de Saga se aproximar.

– Trouxe pra gente fazer soro para ele! – disse o Cavaleiro de Gêmeos – Põe na água ai, cupido.

Barulho de metal se chocando de leve com vidro e o copo tocou novamente minha boca. Que gosto ruim tem aquilo, mas qualquer líquido que viesse era muito bem-vindo. Devo ter feito cara de quem não gostou.

– Bebe, rapá! – brincou Saga – Bora que ainda tem mais... Muito mais!

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Horas depois...

Depois de me reidratar o suficiente para conseguir andar, ainda participei do treino cotidiano e subia as escadarias para a minha Casa com meu estômago roncando. Nunca fui de sentir fome ou comer demais, mas durante aqueles treinos ante partida, passei a comer quase o dobro que antes sem ganhar um grama de peso a mais.

Milo, Aiolia e Shaka caminhavam ao meu lado. Mu e Deba sempre nos deixavam mais cedo nas primeiras Casas.

– Aê, ô sorvete! – disse Aiolia, me dando um tapa nas costas – Tô ouvindo daqui! Putz! Hahaha!

– Hoje, vou tirar o atraso de todas as vezes que não repeti que nem você. – lhe pisquei um olho.

– Hahahahahahaha! – riu Milo.

– Vocês deveriam se envergonhar por sentir tanta fome. – ralhou Shaka – Isso é repugnante.

– Ahhh, Shaka! Dá um tempo... Você fica sentado quase o dia todo! – indignou-se Milo – Ai, é muito fácil jejuar ou comer mato!

– Humpf! – fez o futuro Cavaleiro de Virgem, franzindo as sobrancelhas.

Nos despedimos dos dois em suas Casas e seguimos até a Casa de Escorpião.

– Quer almoçar aqui? – perguntou ele, me olhando com um sorriso animado.

Para passar mais uma hora com ele, eu ficaria... Mas me lembrei do presente-surpresa que deveria continuar (ou começar de novo ¬¬).

– Amm... Acho que se eu for comer aqui, não vai te sobrar nada. – retribuí o sorriso – Hehehe...

Milo deu um sorriso triste, mas parecia contentado.

– Ah... Isso é um não, né? – disse com a voz desanimada.

– Eu nunca digo não pra você. – respondi, olhando profundamente em seus olhos.

– Tá dizendo agora... – abaixou os olhos e me deu as costas.

É... Ele é difícil. Viram como fala comigo?

Me aproximei e disse em seu ouvido.

– Sabe porquê? – falei em tom baixo – Por que eu tenho que subir?

Ele virou um pouco a cabeça e me olhou de canto, ainda de costas.

– Porque um certo Escorpião arrancou TODAS as páginas do meu caderno esses dias... – sussurrei, olhando-o.

Milo sorriu e fechou os olhos.

– Perdoado. – disse.

– Obrigado. Permissão para passar pela Casa de Escorpião.

– Concedida.

– A gente se vê. – lhe pisquei um olho e sorri, passando por ele.

– Espera. – disse.

– Hum? – me virei e o encarei.

– Só isso? – cruzou os braços e me olhou, indignado.

Realmente... Foi pouco. Mas eu pensava em como fazer o presente e agora, no CADERNO (que eu, obviamente, havia esquecido¬¬) também! O dever era para amanhã!

Me aproximei dele e lhe dei um beijo na testa.

– Tá... Pode ir. – me deu um sorriso – Vou te ver mais tarde.

– Tá. – sorri e me virei para correr para a Casa de Aquário – Até mais tarde!

– Até!

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Um mês e pouco depois...

O tempo passava rápido demais... Já era quase Natal. Desespero e angústia cresciam em progressão geométrica dentro de mim, apesar de que eu tentava contê-los, amenizá-los e escondê-los o quanto podia. Eu não me permitia passar o pouco tempo que me restava no Santuário lamentando ou me entristecendo. Qualquer segundo que eu passasse ocioso me trazia esses sentimentos à tona... Logo, não deixava que acontecessem.

Passei essas semanas me dedicando rigorosamente aos treinos com ajuda de Saga e Aiolos, inclusive em horários extras à noite, além dos estudos e aulas de Francês e Russo intensivas. No treino de corrida, já havia alcançado mais de 100.000 km/h e causava a tão difícil tensão do Cabo, que ocorria devido a velocidade centrífuga alta que eu causava. Saga me disse, no treino de hoje, que logo as sessões não poderiam mais ocorrer no Coliseu pois daqui a pouco eu arrebentaria a mureta toda.

Mestre Altar tinha começado a me testar em habilidade específica há umas duas semanas. Me veio primeiro com um balde de água e me encarou com olhar desafiador. Achei muito fácil e a congelei em menos de um milésimo de segundo, assim como a retornei ao estado líquido e evaporei. Ele ficou satisfeito, mas é incansável! Foi aumentando o nível de dificuldade até que hoje me levou até a piscina de profundidade abissal da Casa de Aquário e me fez a mesma pergunta e expressão sarcásticas de sempre:

“E então?” ou “E ai?”.

Eu, particularmente, entendo como:

“Toooomaaaaaaa!” ou “Agora te ferrei, né?!”.

Então, uma piscina como essa era responsabilidade demais naquela idade... U.U

Maaaasss, no momento, digo a vocês que, é com muito orgulho que terminei O PRESENTE do Milo. Acertei o último detalhe nesse exato momento. Bem... Digo agora, olhando para ele das asas até a cauda, que acho que ficou bom. ;) Mas queria uma segunda opinião.

Elevei meu cosmo e tornei líquido o vapor do ar, produzindo uma poça no chão à minha frente.

“OLHA. O QUE ACHA?”

Minhas palavras sumiram e foram substituídas pelas dele.

“HUMM... SE SUPEROU HOJE, CRIANÇA. É O MELHOR DE TODOS.”

“VOCÊ DIZ ISSO TODOS OS DIAS.”

“SIM. MAS ESSE É O MELHOR. NÃO HÁ COMO MELHORAR MAIS.”

“SERÁ?”

“VOU ATÉ O MESTRE PEDIR SUA TRANSFERÊNCIA PARA A CASA DE VIRGEM.”

Não! Tá doido?! O.o

“AHN? POR QUÊ?!”

“ESSE PERFECCIONISMO EXAGERADO NÃO NOS PERTENCE, CAMUS.”

É... Ele tem razão. Sai fora! Tá muito bom.

“OK.”

“ALGO MAIS?”

“NÃO...”

“BOA NOITE.”

“BOA NOITE.”

O presente era de gelo eterno, me dado de presente pela estátua (como muitos e muitos cubos que não deram certo antes) e acabaria mais sendo uma surpresa de Natal do que de aniversário... Mas ok. O cobri rapidamente com um lençol quando escutei os passos dele na direção do meu quarto. A porta se escancarou.

– Boa noiteeeee! – disse Milo com um sorrisão enquanto segurava a maçaneta.

Qual seria a sua opinião se visse uma criança de seis anos em uma atitude como essa? No mínimo, que está feliz. Mas não... Me olhando com os olhos mareados e vermelhos e seu cosmo instável e escurecido, continuou parado na mesma posição, sorrindo. O sorriso era apenas uma máscara que ele tentava usar cada vez mais quando perto de mim. Mesmo que falso, era lindo de alguma forma. Mas vê-lo e senti-lo naquele estado... Doía muito.

Andei até ele e o abracei forte.

“Não precisa... Não precisa...” disse eu.

Senti algumas lágrimas quentes molharem minha camisa, enquanto ele afundava o rosto no meu peito. Nos sentamos na minha cama, ainda abraçados, enquanto eu lhe afagava os cabelos. Ele me encarou profundamente.

“Não me dê mais aquele sorriso... Por favor.”

“D-Desculpe... Eu... Tô t-tentando s-ser forte...”

Lhe dei um beijo na testa e acariciei seu rosto.

“Ei... Tá tudo bem.”

Ele me sorriu. Esse sim... É motivo de um sonho.

“N-Não é f-falso quando tô com v-você...”

Nesses momentos com o Milo é que eu mais me tornava abstinente de sentimentos ruins... Eu tinha que lhe dar felicidade... Amor. Tinha que ser forte para ele. Tinha que tentar ver um lado bom onde este sequer existia. Aprendi a renegar... Congelar... Todas essas emoções más por ele. Podiam até vir à tona quando ele se fosse para sua Casa, ou em meio a um pesadelo, ou talvez em um segundo de ócio... Mas não com ele.

Todas as noites, eu ou ele dávamos uma fugida de nossas Casas para ficarmos mais uma ou duas horas juntos. Não combinávamos quem seria o fugitivo do dia (ou melhor, da noite), mas sempre dava certo. Depois que ele adormecia, ou eu o levava para a Oitava Casa, ou voltava para a minha.

Pensei se eu deveria dar-lhe o presente naquele momento... Mas não. Guardaria para um momento mais... Ahmmm... Especial não é a palavra. Todos os momentos com o Milo são especiais, mas eu queria fazer algo ainda mais especial para ele. Especialíssimo! É... É isso.

Depois do tempo juntos aquela noite, ele caiu no sono como um anjo nos meus braços. Sorri tristemente, me levantei devagar da cama e caminhei até a Casa de Escorpião. Daros já me aguardava na saída da Casa.

– Boa noite, Camus. – cumprimentou ele. Pela primeira vez o vi com ar tristonho e preocupado.

– Boa noite, Daros. – o cumprimentei com um aceno de cabeça.

Levei Milo até seu quarto, o repousei em sua cama, o cobri e lhe beijei a mão. Rezei um pouco para Atena e o deixei. Quando passei pelo corredor em direção à saída, ouvi vozes agitadas que pareciam ser de Daros e dona Tália.

– ... mãe, eu não sei mais o que fazer ou esperar! – disse o criado com a voz trêmula.

– Mas, meu filho, isso é assim mesmo! Eles dois se gostam muito... – retrucou dona Tália, tristonha.

– Mas, por Atena, mãe, isso é absurdo! Meu pequeno mestre está com depressão! Depressão profunda! – o homem pareceu chorar – Uma criança que foi presente dos deuses para a Deusa! Que pecado! Por que o Mestre tem que fazer isso?

– Daros, meu filho, isso chama-se destino. – disse ela, parecendo consolá-lo – Meu mestre deve partir para a Sibéria em fevereiro.

– Mas... Será que a Deusa quer isso?! – desesperou-se ele – Isso... É terrível. Esse menino chora horas por dia, anda por demais triste! E tem febre alta à noite! Antes, eram algumas noites... Agora, são todas! – desabafou – Ele era alegre e vivo! Sorria e era cheio de orgulho de si!

Filho, por favor... A mãe está já muito velha para tanta dor...

A senhora fala assim porque não vive isso lá em cima, né? – disse ele – O pequeno Aquário nem sequer sofre por sua partida não é?! Não se importa com a dor do meu mest...

Ouvi o som de um tapa.

– Nunca... Ouse... Falar assim... Do mestre. – disse ela entre os dentes – Não julgue... Nem fale... Do que não entende.

Corri em direção à minha Casa antes que ela me visse e me tranquei no quarto... Eram em uns desses momentos em que eu já não tinha mais forças para manter as emoções aprisionadas em gelo. Me encolhi na cama e afundei o rosto no travesseiro...

... Chorei até adormecer.

Notas finais
Pessoas amadas, prometo um presentão de Natal e Ano Novo, ok? Vou estar de recesso na pós-graduação e escreverei MUUUUIITO! XD! Espero que tenham gostado :) Que Atena esteja com todos :,)