Notas iniciais
Olá, pessoas queridas! Quanto tempo! Me desculpem por não ter aparecido por aqui com essa fic prometida no mês de novembro do ano passado, como eu havia dito. Aconteceram muitas coisas nesse meses que deixaram a minha vida meio corrida, mas estou de volta :)

Santuário de Atena, Grécia.

“Tenho que partir hoje mesmo”.

Passos apressados pelas escadarias para a Sala do Mestre.

“Atena, por favor, me dê forças para suportar...”

– Mestre! Mestre! – chamou a voz conhecida e ofegante de um garoto ao entrar nos aposentos do Grande Mestre, já notando que o trono estava vazio, o que não era de costume naquele horário.

Silêncio. O menino loiro de cabelos curtos, que trajava vestes de treinamento e uma fita vermelha atada à cabeça, franziu a testa sem entender o porquê de ter sido aparentemente ignorado, afinal, não era normal que isso acontecesse. Sabia que o Mestre estava por ali, sentiu seu cosmo. Deu um longo suspiro, recompondo-se após subir a escadaria das Doze Casas correndo o máximo que podia, e caminhou até uma entrada que dava para um longo corredor.

Fazia alguns dias que ele havia notado uns comportamentos anormais do Mestre. Ele andava bem ausente e preocupado, mantendo-se trancafiado no Planetário ou envolto em livros e pergaminhos em sua sala, além de estar um tanto impaciente com ele ou com os outros. Definitivamente, não parecia o Mestre Shion.

– Mestre?! – chamou ao caminhar pelo corredor – O senhor está ai?!

O garoto ouviu um “tisc!” conhecido vindo de uma das portas, sorriu e correu até lá, entrando pela porta que estava entreaberta. Era o quarto de dormir de Shion, onde havia uma grande cama de casal no meio do aposento forrada com uma colcha e almofadas muito bonitas que mesclavam as cores azul e dourada, um criado mudo, que continha um pequeno castiçal, cujas velas estavam apagadas e bem gastas, um enorme guarda-roupa de madeira maciça ao lado da porta, uma cômoda e um espelho do lado oposto, e algumas prateleiras com livros pequenos na parede lateral em frente à cama.

Enfim, encontrou o Mestre que, desta vez, chegara ao ápice da “estranhice” para o menino: vestia calça social e sapatos pretos, e pegava uma camisa do cabide. Não que isso fosse anormal, mas era segunda-feira!

“Hoje não é dia de sair...” pensou o garoto, tão acostumado à rotina que lhe havia sido imposta desde que se conhecia por gente. Se bem que esse último sábado também não tinha sido “dia de sair” como costumava ser.

“O Mestre ficou maluco?”. Pensou, franziu a testa e inclinou a cabeça para o lado, confuso.

Sentiu-se ainda mais ignorado. O Mestre, que sempre tratara a ele e a seus amigos tão bem, nem aparentava notar sua presença. Parecia estar por demais concentrado em seus novos afazeres bizarros.

Shion abriu uma das portas superiores do guarda-roupa, puxou uma pequena mala e repousou-a sobre a cama. Agora, o garoto estava realmente impressionado a ponto de se assustar. Deu uns passos na direção de Shion.

– M-Mestre... – chamou em tom baixo.

O Grande Mestre finalmente parou o que fazia e encarou o menino, que se ajoelhou em respeito a ele assim que obteve sua atenção, sem deixar de lhe retribuir o olhar.

– Bom dia, Aiolos. – cumprimentou Shion, franzindo a testa e lançando ao menino um olhar bastante repreensivo – Não devia estar cumprindo seu horário de treinamento? É este o exemplo que um Cavaleiro de Ouro deve dar aos seus jovens companheiros e aos aspirantes a Cavaleiro?

O jovem Cavaleiro de Ouro de Sagitário corou e desviou o olhar, envergonhado por sua grave falta para com Atena e Lhe pediu perdão em pensamento. Mas não podia mais conter sua preocupação e curiosidade em relação ao comportamento estranho de Shion desses últimos dias.

– Perdão, Mestre. – desculpou-se o menino de sete anos – Mas é que eu queria falar com o senhor...

Shion desviou o olhar e voltou-se para o guarda-roupa, retirando algumas peças de cabides, dobrando-as e colocando-as na mala.

– Tudo bem. – disse ele, em tom ríspido – Seja breve, criança. Tenho muito que fazer... E você também. Onde estão os pequenos?

O garoto suspirou, já imaginando que essa pergunta seria feita.

– Shura estava comigo hoje, mas o deixei com Saga antes de vir até o senhor. – respondeu o menino, já imaginando a próxima questão.

– E Afrodite e Máscara da Morte? – perguntou o Mestre, enquanto dobrava um sobretudo preto e enfiava na mala.

Acertou a pergunta. “Maldição...” praguejou o menino “Lá vou eu...” pode pressentir a bronca que viria em seguida à sua resposta.

– Também estão com ele. – respondeu Aiolos.

O Mestre suspirou, parecendo muito insatisfeito. Aiolos cruzou os braços, como se tentasse se defender instintivamente da cosmo-energia pesada que tornara a emanar de Shion.

– Aiolos, estou muito decepcionado com sua conduta. – disse o Mestre duramente, voltando a encarar o garoto – Como pode sobrecarregar um companheiro com um dever que era seu, e muito possivelmente impedir Saga de cumprir devidamente sua missão de iniciar os pequenos à rotina de treinamento, por algo de importância menor?!

– Desculpe... – disse o jovem Aiolos, desviando o olhar para baixo e ficando ainda mais corado de vergonha. Apertou mais os braços contra o tórax.

– Não há desculpas nem perdão para um Cavaleiro de Ouro que coloca algo à frente de seu dever para com Atena. – disse o Mestre em tom baixo e ríspido – Que decepcionante, Aiolos.

O coração do menino batia acelerado ao sentir o impacto imenso daquelas palavras em sua consciência. Logo ele, que tentava fazer tudo da maneira correta, seguindo todo o código de honra e conduta dos Cavaleiros de Atena que lhe foi ensinado desde cedo, que adorava tanto a Deusa e fazia o impossível, se necessário, para orgulha-La. Entristeceu-se profundamente e seus olhos se encheram de lágrimas. Enxugou-as rapidamente com a mão, repreendendo-se mentalmente por ser fraco. Pôs-se de pé e tentou encarar o Mestre sem demonstrar qualquer fraqueza.

– O senhor vai partir? – perguntou, tentando manter a voz firme.

– Vou. – respondeu o Mestre secamente, voltando a arrumar as roupas na mala.

Aiolos não se recordava da última vez que Shion havia deixado o Santuário... Devia ser muito pequeno para ter compreensão de algo, se importar ou preocupar com isso. O garoto agora sentia-se ainda mais confuso e inseguro... Como seria ficar sem o Mestre no Santuário?!

– E quando o senhor volta? — perguntou, sem conseguir mais encarar o Mestre.

– Volto antes do fim desse mês, Aiolos. – respondeu Shion, impaciente. Pegou umas cuecas em uma gaveta da cômoda e pôs na mala.

Nossa... Mas antes do fim do mês podia demorar muito. Era início de fevereiro. O menino ficou desnorteado e comentou, sem pensar:

– E o Santuário vai ficar esse tempo todo sem o senh...

– Vocês, Cavaleiros de Ouro, estão aqui para protegê-lo, não?! – ralhou Shion.

– S-Sim, Mestre, mas eu...

– O que?!

– E-Eu..

– Não é capaz de proteger o solo sagrado de Atena? Certamente, visto que não está treinando e passa suas missões para o Saga! — Shion estava muito alterado, definitivamente.

Sabia que não devia continuar a importuná-lo com perguntas, já que estava tão impaciente e estranho, mas resolveu não se conter. Afinal, o menino já havia ouvido tudo que não queria e se sentia uma negação como Cavaleiro de Ouro ou pior: quase um traidor da Deusa. Engoliu seco e perguntou, temendo mais uma resposta ferina.

– M-Mestre... – disse timidamente – Por que... – Shion o encarou com a mesma expressão dura. O menino olhou para baixo e não pode mais conter uma lágrima, que pingou no chão de pedra – P-Por que o s-senhor – disse com voz de choro – está t-tão bravo?

E chorou de soluçar, sem mais se conter.

Shion suspirou e se sentou na cama, ao lado da mala já arrumada. Aiolos colocou as mãos no rosto e tremeu, temendo pela reação do Mestre. Agora sim, sentia-se um fracassado como Cavaleiro de Ouro... Um fraco.

“Por Atena... O que estou fazendo?” pensou Shion, olhando para o menino com os olhos já mareados. Podia ter uma força sobre-humana imensa, alcançar a velocidade da luz e trajar a Armadura de Sagitário, mas era só uma criança... Uma criança com responsabilidades demais... Um menino de sete anos que o amava e admirava tanto. O vira nascer e o criara quase que como seu filho... Com todos eles foi e será assim... Até que estejam prontos...

Uma lágrima correu pelo rosto cansado do Mestre. “Tornei-me um monstro...” pensou. Nada justificava trata-lo assim... “Oh, minha Deusa, perdão... Ele não tem culpa. Nenhum deles...” Seus problemas, preocupações, escolhas ou destino... Nada justificava!

Inclinou-se para frente e pegou carinhosamente Aiolos no colo e beijou a sua cabeça. O menino chorou mais, aliviado, e abraçou seu querido Mestre, amassando sua camisa recém passada e molhando-a com lágrimas.

– Shhh... Desculpe este velho ranzinza. – disse Shion, repousando o queixo sobre a cabeça do menino e lhe fazendo cafuné – Coisas demais para pensar, pequeno. Perdão... Devo estar ficando caduco.

– Não! – gritou Aiolos com voz de choro – O senhor não é velho ranzinza caduco! – e o abraçou mais forte – O senhor é o nosso Mestre!

– É! – concordou uma voz conhecida.

Os dois olharam para a porta. Lá estava Saga, que segurava em cada um dos braços Afrodite e Mascara da Morte e carregava Shura nos ombros. O futuro Cavaleiro de Capricórnio bagunçava e puxava seus cabelos compridos e loiros, e os dois menores mexiam em seu rosto e puxavam sua camisa. O jovem Cavaleiro de Gêmeos sorria ao ver que o Mestre voltara ao normal, apesar da bagunça dos mais novos.

O antigo Cavaleiro de Áries sorriu para os quatro... Mais uma lágrima rolou por seu rosto. Estava tão cansado e, não podia negar, deprimido... Cansado mental e fisicamente de todos os seus deveres e assuntos a tratar em relação ao Santuário. Porém, seu estado depressivo só se tendia a aumentar naquele ano de 1966. Mas...

Ao ver todos aqueles olhos tão brilhantes, inocentes, cheios de vida e esperança... Tudo se tornava mais leve. Mais algumas lágrimas caíram de seus olhos.

– Meste tá choando... — Shura parara de bagunçar os cabelos de Saga e lhe estendia a mãozinha – Meste dodói.

Afrodite o olhava com a boquinha aberta, parecendo tentar entender que sentimento era aquele do Mestre, já que nunca o vira triste, muito menos chorando. Mascara da Morte mordia a mãozinha e fazia o mesmo.

Shion retribuiu o gesto de Shura, pedindo para que chagassem mais perto. Saga se aproximou com os bebês e lhe deu um beijo na testa. Os três pequenos estenderam a cabeça e também lhe beijaram, imitando o mais velho. Na verdade, ele precisava muito daquele momento e daquele carinho das crianças. O cosmo delas era tão leve e puro, e parecia curá-lo. O Mestre não pode conter mais lágrimas de alívio.

Shura olhou indignado para Saga:

– Nã passô. – concluiu o pequeno, balançando a cabeça negativamente.

Shion riu com os olhos mareados.

– Então, me dá mais um. – disse, pegando Shura nos braços.

O bebê lhe deu mais um beijo no rosto.

– Passô?

– Passou. – sorriu Shion, enxugando seu rosto com a camisa já arruinada que vestia.

– Bagunçaaaaaa! – gritou Aiolos e pulou em cima do Mestre.

Saga fez o mesmo e soltou os pequenos em cima da cama, que também se uniram a ele e Aiolos para “atacar” Shion, que revidou com cócegas.

Foram muitos minutos de risadas e momentos felizes, leves... “Atena, minha Deusa, muito obrigado.” Eles lhe devolveram a força e a coragem que precisava para enfrentar seu destino e escolhas que o poriam à prova pela sexta vez muito em breve.

Notas finais
Gostaram? Feliz da vida aqui por ter voltado! Que Atena esteja com todos! :**